— Cottonwealth, eu realmente não acredito nisso. — Sentenciou Rayvenne, na aula de Transfiguração que a Sonserina e a Corvinal tinham juntas. Estava sentada ao lado da amiga, bem na frente da classe.
— No quê? — Sadie se fez de boba enquanto brincava distraidamente com a pequena aranha que serviria de cobaia naquela aula. O animal estava dentro de um pote, mas Rayvenne mantinha os olhos azuis nele o tempo todo como se fosse fugir e atacá-la – algo que Sadie achava engraçado, já que ela própria colecionava pequenos vertebrados sempre que podia, para alimentar suas cobras com algo além de ratinhos congelados.
Rayvenne baixou a voz.
— Que existem Feijõezinhos de Todos os Sabores com gosto de dragão. Acorda, anta. Você e o Malfoy?
As duas riram um pouco; Sadie ficou vermelha e escondeu o rosto com o cabelo. Não deu para comentar muito mais, já que a professora Minerva as encarava de forma severa, esperando para começar a aula.
— Agora que as duas aqui acabaram de discutir as escolhas da Srta. Cottonwealth em matéria de rapazes, podemos voltar ao feitiço? Muito bem. Hoje vocês vão mudar as cores da aranha à sua frente, bem como suas proporções. Atenção...
A professora abriu o pote que estava em sua mesa, o que fez alguns alunos se encolherem ligeiramente nas carteiras. O animal subiu, obediente, na mão da professora, que apontou a varinha para ele e fez um movimento circular com o pulso antes de enunciar:
— Grammostola!
Imediatamente, o pequeno aracnídeo negro adquiriu uma cor azul elétrica. A professora continuou, com mais um movimento complicado de mão:
— Avicularia beine!
As perninhas da aranha cresceram até o dobro de seu tamanho, tornando-a de repente muito mais ameaçadora. Para o alívio de muitos, a professora depositou o animal no pote novamente e tampou-o, mandando que continuassem em seguida.
— Eu é que não coloco essa... Essa coisa na mão.
— Não é coisa, Ray. É um animalzinho inofensivo, se você souber lidar. Vem com a tia, vem, nenê!
Essa última frase de Sadie foi para a aranhinha marrom que se agitava no pote à frente das duas. A loira mais alta abriu a tampa e acolheu o animal na palma de sua mão.
— Vai, Goldenwing.
Rayvenne estava olhando para o bicho com uma expressão entre o medo e o nojo, algo que a outra diagnosticou como frescura. Se fosse uma aranha adulta, tudo bem, qualquer pessoa sã teria medo. Mas aquela coisinha pequena?
À maior distância que conseguiu, a pequena agitou o pulso tentando imitar o que a professora fizera e exclamou:
— Grammostola! E vê se pelo menos fica de uma cor bonitinha.
Sadie teve um ataque de riso quando viu o pequeno aracnídeo se tornar rosa-choque. Rayvenne também riu, mas sem tirar os olhos da mão da amiga.
— Acho que ela não gosta de você, Ray... — Comentou a outra enquanto colocava a aranha em cima da tampinha do pote, já sabendo que sua amiga não a seguraria na mão nem morta. Tentando um movimento parecido com o da professora, agitou a varinha e enunciou:
— Avicularia B... AI!
Um aviãozinho de papel enfeitiçado atingiu Sadie na bochecha. Ela esticou a mão para pegá-lo – o que não era difícil, já que o objeto continuava cutucando seu rosto – e abriu, esquecendo a aula um momento.
Dá pra você deixar de ser teimosa e me encontrar na Sala Precisa depois da aula? A gente vai conversar, quer você queira, quer não.
- Você sabe quem é, nem vem se fazer de besta...
Ela só ficou olhando para o bilhete por um bom tempo... Até que um gritinho agudo ao seu lado a despertou de seus devaneios.
— Tira. Essa. Coisa. Peluda. Daqui. Agora.
A aranha rosa-choque, agora do tamanho da mão de Sadie, estava empoleirada no ombro de uma Rayvenne completamente imóvel.
Quando a classe foi dispensada, Rayvenne saiu ao lado de Sadie reclamando baixinho, e ainda estava xingando quando Kia e Charlie se juntaram à dupla. Sadie, por sua vez, estava de certa forma aliviada com isso; o susto com a aranha fora tão grande que a loirinha ao seu lado nem reparara no bilhete. Daquele jeito, não precisaria dar explicações a nenhum dos três.
Decidira não encontrar Draco coisíssima nenhuma; ainda estava brava com ele e realmente não queria vê-lo...
Mas quando você e seus amigos se misturam à multidão e algo forte te agarra pelo pulso (e você tem duas opções: perder a mão ou ir com quem te agarrou), você vai junto a não ser que tenha um desejo masoquista.
Ela demorou um pouco para ver que era Crabbe, comparsa enorme de Draco, quem a arrastava pelo corredor.
— O Malfoy falou pra vocês se encontrarem na Sala Precisa, Cottonwealth.
— E por acaso ele precisava mandar o gorila de guarda dizer isso? — Irritada, a menina tentava inutilmente se desvencilhar da mão gorda de Crabbe. Não teve opção senão acompanhá-lo em meio ao mar de alunos até a tal sala, onde o garoto abriu a porta e finalmente a largou.
Era uma salinha que mais parecia a sala comunal da Corvinal, só que um pouco menor. Lá dentro, um menino de cabelos muito claros e olhar hipnotizante a aguardava com um sorrisinho presunçoso.
Parada na porta, Sadie cruzou teimosamente os braços, tentando impedir que seu coração pulasse com muita força. O que ele fez, sem dúvida – e ela odiava isso. Mas ficou lá, encostada na porta, que agora estava trancada.
— Eu falei que a gente ia conversar, você querendo ou não.
A loira não respondeu. Draco se aproximou dela; seu olhar era gentil, apesar das palavras. Ela tentou se manter o mais rígida que podia.
— Que foi, Cottonwealth? O gato comeu sua língua? — Ele sorriu.
— Você disse que ia falar. Então fala. E é melhor você ter um ótimo motivo pra mandar o seu gorila de guarda me arrastar até aqui.
O menino se demorou um pouco analisando a expressão de Sadie, ainda com uma risadinha nos lábios. Ela tentou não demonstrar que seu coração estava acelerado quase a ponto de doer.
Ele suspirou e disse, numa voz mansa:
— Eu vou ser bem sincero com você, Sadie. Nunca menti pra você e nem tenho motivos pra isso; só minto para quem eu quero impressionar.
Algo no peito de Sadie deu uma ligeira despencada, mas ela ficou quieta, de braços cruzados. Ele se aproximou um pouco mais antes de continuar:
— Não, não é assim! É que eu nunca tive a intenção de te impressionar. Você apareceu do nada na minha sala comunal e... E isso não vem ao caso. Olha, tem uma coisa que eu já te expliquei e vou explicar de novo. Eu não posso ser visto com você, Sadie.
— Não pode ou não quer? — A loira rebateu.
— Os dois. Devo admitir que eu não quero problemas desnecessários... E ser visto com uma corvinal meio-sangue que anda com a pior ralé de Hogwarts se encaixa na categoria.
Novamente, o coração da garota despencou, mas dessa vez a raiva começava a crescer junto ao desapontamento. Seu tom era amargo quando ela retrucou:
— Então dá pra me deixar ir embora?
— Não. — Ele chegou mais perto; estavam a um palmo de distância agora. — Eu ainda não terminei. Isso é o que todo mundo ia pensar, Sadie, e é o que eu penso também; não posso dizer que gosto dos seus amigos, nem que não tenho algum preconceito contra meio-sangue. Porque tenho. Fui criado assim e concordo.
— Escuta, dá pra parar de me detonar? Eu já entendi! Tchau!
Dizendo isso, Sadie tentou sair de perto. Antes que ela percebesse, Draco já tinha agarrado seus dois pulsos e agora a segurava contra a parede, seus rostos muito próximos. A menina sentiu-se sem ar.
— Vê se espera eu terminar. Eu não vou me expor tão cedo, e se isso significa que a gente vai ter que ficar se escondendo por aí, eu topo. Porque apesar de tudo isso, Cottonwealth, eu ainda acho que você vale a pena.
Os corpos dos dois estavam quase grudados; o calor era intenso. Dois pares de olhos – um verde-azulado, o outro cinza claro – estavam fixos apenas um no outro. Emoções muito contraditórias se misturavam na cabeça da loira, e se Draco não a estivesse segurando contra a parede, provavelmente ela teria perdido o equilíbrio.
— Não vai pedir desculpas pelo que aconteceu no sábado?
A pergunta saiu antes que Sadie pudesse contê-la. Achando que isso estragara o clima do momento, ela mordeu o lábio e fez menção de recuar, mas a expressão de Draco não se alterou a não ser por um sorrisinho maroto.
— Tenho um argumento melhor.
Dizendo isso, ele colou seus lábios aos dela, com uma gentileza incompatível com o forte aperto que tinha em seus pulsos. A menina hesitou um pouco, mas antes que percebesse, sua postura rígida já havia derretido em contato com Draco, os pulsos libertos de suas mãos e os dedos agora entrelaçados com os do garoto, o coração batendo enlouquecido. Aquilo, sim, estava certo em todos os sentidos. A cena se prolongou até que Sadie sentisse as pernas meio trêmulas, só não perdendo o equilíbrio porque o garoto a segurava muito próximo a seu corpo.
A menina saiu da sala – alguns instantes antes dele; haviam concordado em não sair juntos – sentindo-se estranhamente aérea.
A/N: E aí, o que acharam? Eu própria amei esse capítulo, apesar de a minha habilidade em escrever beijos ter diminuído bastante desde que eu escrevi o Lado Negro, sabe Deus por quê. Ah! E pra quem estava curioso, Grammostola e Avicularia são gêneros de aranha, e beine é "perna" em alemão... Bom, momento nerd passou. Por favor, REVIEWS!
