As semanas seguintes pareceram voar diante dos olhos de Sadie. Parte disso era por causa da proximidade do Natal, época que sempre a deixara muito animada. Outra parte era porque a menina passava a maioria de suas horas estudando, já que os professores pareciam ter um desejo meio sádico de aumentar (no caso de alguns, quase dobrar) a quantidade de lição de casa naquelas semanas. Mais uma parte era porque todo o tempo que passava com Hannah agora era preenchido por alguma briguinha idiota.

Havia, claro, um último motivo – que Sadie achava que era o principal – para ela nem ter visto o tempo passar. E esse motivo era que todas as noites, quando já havia acabado de estudar, ela fazia uma visita à Sala Precisa.

Nessas visitas, o estresse das brigas diárias e do estudo exaustivo simplesmente desaparecia. E isso não tinha nada a ver com a sala em si, mas com um certo garoto de sorriso charmoso e olhar envolvente...

Aliás, era exatamente por causa do tal garoto que ela e Hannah andavam brigando com tanta freqüência – isso e o fato de ambas serem mais teimosas do que uma porta, claro. Hannah, assim como os gêmeos e Rayvenne, via Draco como "o inimigo"... Só que, ao contrário dos amigos, ela fazia questão de comentar isso em cada oportunidade que conseguisse. De um modo extremamente depreciativo. Nessas ocasiões, o lado protetor de Sadie acordava de mau humor e já pulava com as quatro patas – figurativamente falando – para cima da colega.

Depois, elas sempre faziam as pazes. Mas Hannah guardava todas as briguinhas anteriores para jogar na cara assim que a oportunidade se fizesse presente... Resumindo: era um caos. Todo dia uma briga nova.

As brigas afetavam toda a dinâmica do trio – a conversa diária acabava sempre na mesma cena; Sadie e Hannah uma não deixando a outra terminar a frase, Rayvenne olhando de uma para outra com um misto de impaciência e tédio – o que fazia a loira corvinal preferir a companhia de Charlie e Kia à das outras duas. Nas aulas que a Sonserina e a Corvinal tinham juntas (Transfiguração, História da Magia e Trato das Criaturas Mágicas), os quatro se divertiam muito sem a colega de cabelos coloridos, mas conviver com Hannah estava ficando praticamente impossível, o que também diminuía a convivência com Rayvenne de certa forma.

E – por algum motivo obscuro – a pequena loira, apesar de ainda ser muito próxima de Sadie, passara a olhá-la de vez em quando com um certo desprezo, como se ela fosse levemente retardada. Claro que isso acontecia só às vezes, e podia ser apenas impressão de Sadie, mas ela duvidava.

Enfim, era uma dinâmica complicada que ninguém entendia direito.

Foi mais ou menos por isso que ela ficou bastante aliviada quando, faltando pouco tempo para o Natal, basicamente todos os seus amigos foram para casa – deles próprios ou dos amigos; Rayvenne e Hannah iam passar o feriado na casa dos Weasley, que até convidaram a loira, mas ela recusou. Kia fora para casa, passar o Natal com os pais e a irmãzinha, e Charlie aproveitara a oportunidade para fazer uma viagem com o pai.

Aliás, a grande maioria dos alunos de Hogwarts havia resolvido ir para casa.


Na manhã do dia 24, Sadie acordou com a cabeça a mil, uma raridade para a menina que normalmente não funcionava direito até pelo menos meia hora depois de levantar.

Era dia 24 de dezembro, e ela só percebera naquela hora que faltava fazer um monte de coisas ainda. Tipo COMPRAR OS PRESENTES, que tal? Ah, raios! Não acredito que eu esqueci!

Sadie vestiu qualquer coisa e já se apressou para fora dos portões, em direção a Hogsmeade. Não sabia ainda o que dar para Draco nem se devia comprar alguma coisa para Hannah – estavam passando por uma fase ruim, mas ainda eram amigas, certo? Certo? – mas já tinha uma lista mental.

— OK. — A loira começou a falar sozinha, assim que chegou a Hogsmeade. — Pra mamãe, vestes novas, que ela bem que tá precisando. Mas esse é o mais fácil, porque o que servir em mim serve nela... Hmm. Vou levar alguma coisa pra Kia, pra Ray e pro Charlie também... Ah, pra Ray, qualquer coisa da Zonko's tá bom. Pra Kia, um livro. Pro Charlie... Vou de Zonko's também. E se sobrar grana, ainda levo alguma coisa pra Brownie e pra Muffin!

Com a lista na cabeça, ela não demorou muito para encontrar o que procurava. Foi na Zonko's que a menina demorou mais, mas acabou saindo de lá satisfeita: para Rayvenne, comprara um gato de pelúcia que tinha um compartimento secreto para guardar alguma coisa – e o gato parecia um bichinho comum, mas mordia o nariz de qualquer pessoa (além do dono) que tentasse abrir o compartimento; para Charlie, um reluzente Lembrol, já que o garoto era mesmo incrivelmente esquecido na maioria das vezes.

Sadie saiu da Madame Malkin com vestes novas para a mãe e para Kia (o casaco rosa florido que ela vira na loja era simplesmente a cara da mestiça), depois passou na Dedosdemel e levou dois saquinhos de Feijões de Todos os Sabores edição especial – só com sabores de ratos e insetos – para as serpentes. Satisfeita, voltou para Hogwarts e correu para o corujal, onde já enviou o presente da mãe e dos três amigos.

Aquela tarde foi ocupada principalmente por uma visita à cabana de Hagrid, onde a loira passou um bom tempo com Brownie e Muffin. Pela rapidez com que engoliram boa parte dos Feijõezinhos que ela trouxera, Sadie presumiu que havia feito a escolha certa de presente.

— Saudade das crianças, Sadie? Fazia tempo que você não aparecia. — Hagrid comentou, quando ambas as cobras já haviam comido; Brownie repousava no colo da dona, tão enroscada em si mesma que parecia que tinha dado um nó, e Muffin estava enrolada em seu pescoço. A menina fez uma careta pensativa.

— É, fazia tempo mesmo. Os professores andavam mandando tanta lição que pelo amor de Deus, né!

O gigante riu e deu uma piscadela.

— E um certo menino da Sonserina não teria nada a ver com isso, teria? — Ele disse num tom brincalhão, o que fez Sadie sentir as bochechas esquentarem e uma risada meio nervosa escapar de sua boca.

— Como foi que você...?

— Ora, Sadie, eu já tive catorze anos! E a cara que vocês faziam um para o outro na minha aula era inconfundível. Apesar que eu achei até engraçado; um só olhava quando o outro não estava olhando.

Os dois riram, o movimento fazendo a serpente negra acordar e deslizar para longe de Sadie e perto da lareira. A loira olhou no relógio e se surpreendeu; já eram quatro e meia!

— Vão passar o Natal juntos? — Hagrid perguntou. Sadie assentiu com a cabeça, animada. — Que bom. Acho que é por isso que eu não o vi na mesa do café-da-manhã hoje... Deve ter ido atrás de um presente.

À menção dessa última palavra, os olhos verdes da garota se arregalaram e ela levou uma mão à boca.

— Ca...cilda. Hagrid, ainda tem alguma loja aberta em Hogsmeade?

— No dia 24 de dezembro, Sadie? Fecham todas às 4 em ponto.

— Ah, inferno.

A menina afundou um pouco mais no sofá, nem se preocupando com o fato de a cornsnake estar espremida entre seu pescoço e o encosto. Muffin pareceu não se importar, o que foi bom, porque Sadie começara a brincar com a cauda do animal só para ter o que fazer com as mãos.


Já era bem tarde quando a loira, já arrumada e de cabelos lisos, se encaminhou para a Sala Precisa. Não havia encontrado Draco em lugar nenhum naquela tarde, depois de sair da cabana do guarda-caça; acabara passando um tempão conversando com uma garota baixinha da Grifinória, chamada Olivia Cloverfield. Era uma menina simpática, de cabelos muito cacheados e uma inteligência que – diziam – ultrapassava até a da tão-falada Hermione Granger.

Sadie entrou na sala cautelosamente. Dessa vez, havia azevinho por toda parte. Porém, antes que ela pudesse notar muito mais, uma voz masculina a surpreendeu.

— Até que enfim ela resolve aparecer...

A menina sorriu e virou-se para encarar o dono da voz. Ela podia até estar enganada, mas parecia que o olhar dele estava mais... Diferente naquele dia. Aquele olhar que ele usava só para ela, de alguma forma, estava mais... Mais...

Ela não sabia explicar, mas algo naqueles olhos claros a capturou mais do que nunca.

— Você que sumiu o dia todo. — Sadie respondeu, indo ao encontro do menino e cumprimentando-o com um beijinho rápido nos lábios. Ele esticou uma mão para segurar a dela; a pele do garoto estava quente, um contato muito bem-vindo em uma noite tão fria.

Mesmo nos encontros diários na Sala Precisa, era raro Draco tomar a iniciativa de algum contato físico com a loirinha quando estavam só conversando; era ela, normalmente, quem ia se aproximando mais. Não que ele se afastasse nessas ocasiões, muito pelo contrário, mas não havia dúvidas de que sua atitude era muito mais fria do que a da menina.

Sadie não se importava tanto com isso, já que via que ele era assim com todo mundo. Ela própria estava sempre encostando nas pessoas e não via problema nisso; Draco era mais reservado em todos os aspectos...

Por isso é que foi meio surpreendente para a garota quando Draco apertou sua mão na dele e olhou fundo em seus olhos, com a mesma expressão sarcástica que usava sempre, mas algo... Aquele algo a mais ainda estava lá.

— Sumi por um bom motivo.

Com a mão livre, o garoto pegou no bolso uma caixinha verde e tirou dela uma corrente fina e prateada. Pendurada nela, um pingente muito peculiar: duas coisinhas compridas, uma negra e uma prateada, entrelaçadas. A parte prateada tinha dois minúsculos olhos vermelhos, e...

Sadie abriu um sorriso.

— Eu só falei delas uma vez ou duas! Como foi que você lembrou?

O menino riu, soltando a mão dela para que a garota conseguisse colocar a corrente no pescoço. Ainda estava impressionada. Ele lembrou até a cor dos olhinhos da Muffin! Como, raios, eu vou chegar pra ele agora e falar que...

Ela respirou fundo.

— Draco, desculpa... Eu só lembrei dos presentes hoje, e fui deixando o seu por último porque não fazia ideia do que te dar, e... Acontece que tinha tanta coisa pra comprar que eu... Eu acabei esquecendo.

O menino olhou para baixo por alguns instantes. Sadie mordeu o lábio, nervosa. Ele havia ido atrás de um pingente que tivesse até a mesma cor dos olhos das suas serpentes, e ela...? É claro que ele estava chateado com isso. Ela também ficaria, se a situação se invertesse.

Por fim, Draco ergueu o rosto e seus olhares se encontraram.

— Ei... Desculpa?

— Depende. — A boca fina do menino se curvou em um charmoso sorriso de lado, o que fez Sadie sorrir também, mas com remorso.

— Depende do quê?

Draco sentou-se abruptamente numa poltrona que lá havia, puxando a mão da garota consigo; ela meio sentou e meio caiu ao seu lado. Ainda estava olhando para o menino com uma expressão entre o arrependimento e a curiosidade.

— Se você compensar muito bem, eu desculpo.

— Mas como é que...? — Sadie ainda estava confusa; o remorso a fazia pensar com muito mais lentidão. O garoto bufou, impaciente.

— Cala a boca, Cottonwealth. E a propósito, feliz Natal.

Muito feliz, pensou Sadie, sorrindo enquanto Draco a fazia calar a boca de um jeito que ela adorava.

Quase não se ouviu mais as vozes dos dois naquele dia.


A/N: Eita, esse deu trabalho pra sair! Mas graças à nossa querida Olivia Cloverfield, saiu. Pra quem já leu SBB, eu sei que o presente da Sadie ficou muuuuito plágio. Mas eu perguntei pra Rayvenne se ela tinha alguma ideia, e pra variar ela não respondeu – até aí, não é novidade; ela só responde quando dá na telha – até que eu perdi a paciência e cismei que ia ser um colar e pronto.

AH! Só mais uma coisa. O próximo capítulo provavelmente vai ser o último por um bom tempo, ok? Eu não disse que acabou! Disse que eu entro em aulas daqui a nove dias e não vai dar tempo de escrever nada, porque eu vou pro TERCEIRO ANO. Eita, essa A/N tá maior do que a história! Reviews!