O resto do feriado de Natal passou sem muitas novidades. Sadie e Draco passavam boa parte dos dias na Sala Precisa, ou escondidos na floresta; quando eles não estavam juntos, Sadie ocupava seu tempo com Olivia Cloverfield, geralmente discutindo livros. As serpentes também eram visitadas quase diariamente.

Não demorou muito para o feriado acabar e os alunos voltarem a Hogwarts. As aulas recomeçaram já num ritmo frenético, o que se certa forma assustava Sadie; o esforço para se manter a par de tudo às vezes a deixava tonta. Foi por isso que ela acabou se acostumando a ficar cada vez mais tempo na sala comunal, debruçada em cima de um livro ou praticando feitiços. Seu tempo com Draco diminuiu consideravelmente, algo de que ela não gostava nem um pouco, mas não havia outro jeito.

Sadie viu que não era só ela que tinha dificuldade em acompanhar o ritmo das aulas naquele semestre. Kia também estava surtando quase tanto quanto ela, e até Olivia – que, como Sadie percebera, era a melhor de seu ano sem esforço nenhum – estava estudando um pouco mais. Pelo menos era divertido ficar horas na sala comunal praticando feitiços com (ou em) Kia e Charlie.

Hannah, porém, era um caso perdido. Sadie esperava sinceramente que as férias tivessem um bom efeito para as duas e que a amizade voltasse ao normal, mas o que aconteceu foi que elas mal conseguiam se falar. Na verdade, só se viam quando não podiam mesmo evitar, e nessas ocasiões elas até conversavam e se davam bem – tudo pelo bem do grupo, para que nenhuma das duas tivesse que parar de conviver com Rayvenne e com os gêmeos – mas qualquer contato fora isso era marcado apenas por um olhar meio tóxico.

Isso entristecia Sadie. Era teimosa e odiava mudanças, principalmente se tais mudanças incluíssem uma amizade que estava basicamente indo pelo ralo. No fundo, ainda gostava muito de Hannah, e o fato de a colega agora parecer detestá-la era frustrante.

O segundo semestre passou rápido demais, entre provas e brigas, para que Sadie notasse muita coisa. Um daqueles dias na sala da Corvinal, porém, conseguiu tirar qualquer outra preocupação de sua cabeça...


Flashback

— Sadie, Charlie, dá pra prestarem atenção? — A voz impaciente de Kia chamou a atenção da dupla, que já saíra do assunto estudado havia muito tempo. Estavam muito empolgados naquele dia, talvez porque metade das provas – incluindo quase todas as difíceis – já havia passado.

Sadie e Charlie se viraram para a amiga, rindo. Kia deu uma risadinha também, mas logo se recompôs.

— Eu quero praticar logo esses feitiços. Acho que vão ser bem úteis...

— Pra Hannah, só se for. Essa já zoa o próprio cabelo basicamente todo dia. — A loira respondeu, amarga. Os feitiços que iam praticar tinham efeito no cabelo da pessoa, e a antiga amiga aparecia cada vez com o cabelo de um jeito.

Kia a encarou com mais impaciência ainda, enquanto Charlie sorriu.

— E já que você tá tão sorridente... — Sadie piscou para o amigo. Ele fechou os olhos e esperou que o feitiço o atingisse.

Os três ficaram um tempão usando um ao outro de cobaia. Quando já haviam pego prática e cansado de brincar, Sadie tinha os cabelos pretos e encaracolados, Kia não parava de olhar no espelho a juba vermelho-sangue e lisíssima, enquanto Charlie... Bom, os cabelos de Charlie estavam amarelo-canário e muito lisos, além de parecerem muito mais compridos – já que naturalmente não passavam de molinhas extremamente enroladas.

O resultado era hilariante.

— Charles Dugford. Você ficou um gato. — Observou Kia. Sadie não conseguia parar de rir.

— Ai, você acha, amiga?

Primeiro elas acharam que ele estava brincando, então deram risada junto. Charlie, porém, não riu.

— Também, se não achava bonito, não precisava rir da minha cara, né? E você, Sadie, com esse pixaim? SUUUPER fora de moda, querida.

Mais risos. Sadie tinha começado a brincar com a cabeleira vermelha da amiga mestiça, fazendo tranças pequenininhas em todo o comprimento. Antes que ela percebesse, Charlie estava sentado ao seu lado e começara a trançar os cabelos de Kia também – embora não soubesse fazer direito.

As duas se entreolharam.

— Charlie... Você tá começando a me assustar. — A loira (agora morena) sentenciou. Kia, de olhos arregalados, só concordou com a amiga.

— É ela que tem cabelo cor de sangue, e eu que te assusto?

— Você... Você tá brincando, né? — Kia ergueu uma sobrancelha, enquanto Charlie cruzava os braços, com o mesmo olhar de confusão. Sadie começava a tentar adivinhar o que havia acontecido. Tinha que ser efeito colateral de um dos feitiços... Mas como se revertia?

— Claro que eu não tô brincando! Esse cabelão vermelho aí, parece a noiva do Chuckie, Deus-me-li-vre, OK? Gosto muito mais do meu loirinho discreto.

Ela e Kia só olharam uma para a outra. Acabaram perguntando ao mesmo tempo:

— E agora?

— Não sei. — Sadie segurava o próprio queixo, pensativa. — McGonagall?

— É a melhor aposta, acho. Vem, Charlie.

Cada uma puxou o menino por um braço; ele se viu obrigado a levantar, mas foi de má vontade. Enquanto Sadie o conduzia pela mão até o escritório da professora, com Kia ao lado, o trio atraía olhares curiosos. Charlie continuava resmungando.

— Não precisa "contar pra tia", né, gentê? Ai, que infantis...

Sadie e Kia não sabiam se riam ou se ficavam preocupadas com o amigo. Vai que o feitiço era irreversível? Ele ia ser motivo de piada. Principalmente dos sonserinos. E isso nenhuma das duas ia deixar acontecer.

Bateram na porta. Já era tarde, mas a professora estava lá; a porta abriu com um rangido fraco.

Minerva apareceu com cara de surpresa, mas parecia que não estava para brincadeira.

— O que aconteceu com vocês?

Sadie começou, agora apertando a mão do amigo. A professora sempre a intimidara bastante.

— Bom, professora, é que a gente estava praticando um feitiço novo... Sabe aquele de mudar o cabelo? Então. Aí acontece que...

— ... Não sei o que eu fiz, mas meu último feitiço fez o moleque desmunhecar. — Interveio Kia. Isso fez Sadie segurar uma risada e o menino dar um tapa no ombro da mestiça.

— Ai, sua grossa! Não fala assim!

Podia ser impressão de Sadie, mas parecia que a professora estava se segurando para não rir.

Fim do flashback


A professora desfez o feitiço rapidamente naquele dia, mas Sadie e Kia tinham motivos para encher o saco de Charlie pelo resto do semestre. E assim elas fizeram.

Sadie deixara de visitar a sala comunal da Grifinória – não passou lá nenhuma vez até as férias de verão – já que as coisas entre ela e Hannah estavam bem tensas. Não gostava de ficar tão distante de Rayvenne e dos gêmeos, que tinham se afastado bastante desde o começo das brigas, mas não tinha como evitar. Preferia ir assistir aos treinos de quadribol da Sonserina; com "assistir", ela queria dizer "levar a mais nova Witch Weekly e ficar um tempão batendo papo com Draco depois do treino".

O ano letivo acabou bem rápido. Depois de longas férias de verão na casa dos avós, cuidando dos priminhos pequenos que não via havia quase um ano inteiro, Sadie começou o quarto ano jurando que nunca mais contaria a história de Babbity Rabbity na sua vida.

Sadie tentou manter, no começo do quarto ano, o mesmo ritmo de estudos que adquirira antes das férias de verão. Até que conseguira; pelo menos, era o bastante para fazer Rayvenne surtar.

— Dá pra você parar de ser histérica? — Reclamava a loirinha muito freqüentemente. — Os NOMs são no ano que vem. São o Fred e o George que têm que prestar esse ano, OK?

— Eu não tô estudando pros NOMs especificamente, Ray. — Respondia a mais alta. — É que se eu perder o ritmo, não volto mais.

Apesar dos protestos freqüentes, Sadie percebeu que a amiga baixinha também começara a estudar um pouco mais. Bastou os gêmeos tirarem notas razoáveis em seus exames sem estudar nada, porém, e Rayvenne logo voltou aos hábitos vagais de antes.

Se isso dava certo para ela, Sadie não ia questionar. Mais do que já questionava, pelo menos. No fundo, sentia até uma certa inveja; ela própria se matava e tirava notas pouca coisa mais altas do que a pequena loira – que não fazia basicamente nada.

O quarto ano, exceto por um Natal muito animado em Hogwarts com Rayvenne, Hannah e os Weasleys (Draco fora viajar com a família), foi longo e cansativo. De certa forma, foi um alívio quando o ano chegou ao fim... E esse fim foi muito atribulado.

Começou numa manhã nublada. Quando Sadie fora visitar as cobras na noite anterior, estava chovendo tão forte na hora de voltar que Hagrid insistira que ela dormisse no sofá; voltaria ao castelo quando amanhecesse.

No meio de um sonho esquisito, Sadie sentiu algo gelado se enroscar em seu braço.

Abriu os olhos sem entender nada.

— Brownie? Deixa a mamãe dormir, deixa...

Muffin também a estava cutucando. Enquanto Brownie se enroscava mais forte em seu braço, Muffin assustou-a, agarrando com a boca pulso da menina – mas apenas como um aviso, não forte o suficiente para que as presas realmente machucassem a dona.

Sadie levantou o mais rápido que pôde quando finalmente percebeu o que significava o comportamento das cobras. Era óbvio que estavam tentando comunicar alguma coisa. Harry Potter, o único ofidioglota que a menina conhecia, certamente não havia passado lá, mas... Será que era Fredinho, o dragão de estimação de Rayvenne, quem havia falado com elas?

Se Fredinho se dera ao trabalho de ir falar com Muffin e Brownie – ele morria de medo das duas serpentes – era porque algo ruim acontecera. Bem ruim. As cobras haviam soltado a dona e agora ambas se dirigiam à porta.

Sadie saiu da cabana apressada em meio aos roncos de Hagrid, ainda seguindo os répteis que se ondulavam a caminho do castelo. Era mais fácil seguir Muffin, já que Brownie era negra e se misturava à terra e às pedras no caminho, enquanto a cornsnake albina se destacava no fundo.

O coração da loirinha já estava acelerado. Quando chegou ao castelo, os gêmeos, Lino Jordan e Hannah estavam à sua espera; Fred, George e Lino seguravam suas vassouras.

Olhou em volta – as serpentes haviam sumido.

— Cottonwealth! Onde raios você estava? — Isso foi Hannah quem ralhou. Estavam as duas aflitas demais para discutir naquela hora.

— Já te conto. O que foi que aconteceu? Por quê...?

— Eu conto pra ela no caminho, vai, gente! Sobe aí! — Fred se manifestou. Hannah montou na vassoura de George atrás dele; Fred foi sozinho e Sadie grudou fortemente na cintura de Lino. Não gostava de voar e morria de medo de cair da vassoura.

— Bom, Sadie, vou te contar tudo de uma vez. Deu uma encrenca danada ontem à noite, o Ron saiu com a perna toda ferrada, e a Ray correu pra ver o que estava acontecendo, e... Acontece que ela foi mordida por um lobisomem.


A/N: Uh, cliffhanger, que tal? Tudo bem que não é exatamente um cliffhanger se você já leu Soaring Black Bird. Dane-se, eu quero dizer que é, tá? Aliás, esse capítulo só saiu at all por causa da autora de SBB, que me deu a idéia do Charlie. O próximo não vai demorar tanto; peguei o embalo e agora já tenho umas idéias bacaninhas... Claro que, com reviews, sai mais rápido!