Os dias que se seguiram foram, no mínimo, tensos. Não exatamente para Sadie, para quem a única alteração havia sido que a escola estava mais cheia e que Demi Chienbeau passara a andar constantemente com ela e seus amigos... Mas para algumas pessoas, a coisa estava bem ruim.
Tudo havia começado quando os alunos estrangeiros chegaram, e ao mesmo tempo em que Demi se juntara à turma de Sadie, Rayvenne fez amizade com dois garotos novos. O de Durmstrang era um moreno simpático, de cabelos lisos e sorriso charmoso, que parecia ser o mais próximo da loirinha. O de Beauxbatons, colega de Demi, era alto e corpulento, e parecia estar sempre distraído. O que aconteceu foi que os gêmeos se sentiram meio traídos com essa nova amizade, já que Rayvenne faltara a sabe-se lá que compromisso com os dois, e o ciúme falou mais alto.
A partir daí, o que aconteceu foi a mais engraçada batalha que Sadie já vira. Cada vez era um que enfeitiçava o outro – ora Rayvenne, ora os gêmeos – e os efeitos eram hilários.
Havia, porém, uma coisa que estava preocupando Sadie, Kia e quem mais fosse amigo de Rayvenne e dos gêmeos. Por mais divertidos que fossem os efeitos diretos da briga – os dois lados eram ótimos em azarações – havia outra parte dessa história que os alunos mais distantes, que estavam apreciando a batalha, não viam. Tanto os gêmeos quanto a loirinha estavam sendo atingidos por isso num nível bem mais profundo; por mais que quisessem fingir que não sentiam falta um do outro, era visível que isso os estava afetando demais. Principalmente Rayvenne – ou talvez fosse tanto quanto, mas como Sadie convivia muito menos com os Weasleys desde a briga com Hannah, notava mais os efeitos na menina.
O fato é que a loirinha não era mais a mesma, nem de longe. Passava muito mais tempo quieta do que antes; freqüentemente, ficava com o olhar parado, lembrando um pouco uma boneca que Sadie tivera na infância e da qual nunca gostara muito – justamente porque, apesar de ser linda, seus olhinhos plásticos pareciam estar permanentemente tristes.
O que mais incomodava Sadie nessa coisa toda era que Rayvenne conseguia ser a criatura mais fechada e teimosa que existia. Sempre que Charlie, Kia, Olivia ou até Hannah (antes da briga fatídica) tinham algum problema, vinham desabafar e pedir conselhos a Sadie, que ajudava com prazer. Era ótima em fazer as pessoas se sentirem melhor e se orgulhava disso. Agora, com Rayvenne, quanto mais ela tentava ajudar e chegar perto, mais a pequena se fechava.
Por algum motivo, Sadie não conseguia deixar de se incomodar com isso.
— Bonjour, Sadie... — Brincou uma vozinha animada ao lado da garota, na sala comunal da Corvinal. Ela, Demi e Kia estavam em frente à lareira, batendo papo, já havia algum tempo. — Ventou de novo?
— É brisar, não ventar, Demi! — Kia corrigiu, rindo. Demi falava inglês muito bem, mas as gírias ainda não eram seu forte.
— Tá, tanto faz. E então, pessoas... Vocês já têm par pro baile de inverno?
Sadie e Kia se entreolharam. Kia ergueu uma sobrancelha, pensativa, enquanto Sadie franziu o cenho.
— Ah, fala sério! Vocês não sabiam que ia ter o baile?
— Baile, sim... Mas acho que o par nem passou pela minha cabeça. — Admitiu Kia. Sadie concordou com a cabeça, torcendo o cabelo com os dedos.
— Nossa, é mesmo. Você vai com quem, Demi?
— Nem sei... Acho que vai ser até fácil achar um par de Beauxbatons. Quer dizer, a maioria dos garotos já recebeu vários nãos porque as meninas estão na esperança de que o Christian Chathomme convide elas. — A pequena respondeu, com uma risadinha.
— Eu sei lá. — Anunciou a mestiça. — E você, Sadie? Vai com o Garoto Misterioso?
E Sadie quieta. Será que ela iria com o garoto misterioso? Ele morria de medo de ser visto com ela. Serem vistos em público, então, no meio do baile, era algo que estava fora de cogitação. Por ela, não tinha problema; sabia que seus amigos entenderiam... Mas Draco? Provavelmente ele ia rir dela se ela desse a idéia.
Por outro lado, ficar sem ir ao baile por não ter par também estava fora de questão. Sadie adorava festas e uma paranóia de Draco não ia impedi-la de ir, com par ou sem. Aliás, com Draco ou com outro, porque ir sem par seria meio ruim... Mas quem? Se ela fosse esperar por um convite de um colega aleatório, podia esperar sentada. Sadie tinha uma fama péssima em Hogwarts; por estar sempre empolgada e fazer comentários aleatórios a maior parte do tempo, era conhecida como alguém meio retardada. Além disso, não era exatamente feia, mas passava longe de estar entre aquelas garotas que eram convidadas por vários meninos, que não estavam nem aí se elas falassem besteira ou não, contanto que usassem um vestido curto.
Seus amigos? Fred era de Rayvenne, dava para ver na cara dos dois – e mesmo se ele fosse convidar outra menina para fazer ciúmes, seria alguém muito linda, não ela. George ia com Hannah. Lino provavelmente já tinha alguém do time de Quadribol em mente. Charlie...
Charlie!
— Sadie, dá pra responder quando a gente fala com você? Tá parecendo a Ray. Você vai com o seu namoradinho secreto ou não?
— Sei lá, Kia... A coisa é meio complicada.
— Com você, tudo é complicado. — Resmungou a outra. Sadie teve que concordar com isso. — Bom, mas e a roupa? Eu tava pensando na gente ir comprar em Hogsmeade esse fim de semana... Minha mãe me mandou um vestido que nem minha bisavó usaria.
— Realmente lamentável. — A voz desdenhosa do professor Snape ecoava pela classe, enquanto ele circulava entre as mesas olhando cada um dos caldeirões fumegantes. — É o quinto ano de vocês, e nenhum Tônico Ilusório decente até agora? É realmente, realmente lamentável.
Snape se aproximou do caldeirão de Rayvenne e sorriu com desprezo.
— Goldenwing, você acha mesmo que essa é a cor normal da poção?
Sadie lançou um olhar surpreso para o caldeirão ao seu lado, onde o líquido era espesso e roxo berrante; depois virou os olhos para sua própria poção. Era rala, de um lilás lamacento. A pequena loira deu de ombros, com o olhar baixo, enquanto o professor se aproximava da mais alta.
— Não confundiria ninguém por mais de dois minutos, mas pelo menos não mataria a pessoa, como a da sua colega aqui. — Snape olhou para o caldeirão da menina com uma expressão desinteressada e passou para o de Kia, atrás da dupla. Rayvenne só estava encarando seu caldeirão com cara de paisagem.
Sadie virou-se para a amiga, esquecendo-se por um momento de picar a raiz de mandrágora.
— Desde quando eu vou melhor em Poções do que você?
A pequena deu de ombros novamente e evitou o olhar da outra.
— OK, Ray, você tá realmente me assustando. O que aconteceu? — Era mais ou menos a milésima vez que Sadie perguntava isso, mas sabia que não receberia resposta. Não deu outra. A loira mais alta colocou uma mão sobre o pulso de Rayvenne e disse, num tom parecido com o que usava com Elanor:
— Bom... Você já sabe disso, mas se quiser ajuda, eu tô aqui.
Nada. O olhar da menina voltara a parecer o da antiga bonequinha de Sadie, mas ela continuava teimosamente encarando o caldeirão.
Sadie suspirou e voltou a trabalhar. Detestava ver a amiga daquele jeito e estava preocupada, principalmente porque o quadro vinha se agravando havia algum tempo, mas não havia nada que ela pudesse fazer.
Até porque tinha outra conversa que ela planejava ter naquela tarde, que provavelmente seria um pouco mais bilateral.
Saindo da classe, Sadie demorou um pouco para emparelhar com um garoto, no meio da manada de alunos que se atropelavam pelo corredor a caminho do Salão Principal.
— Ei, você. Espera aí. — Ela chamou, fazendo um menino ligeiramente surpreso virar para trás e encará-la. Ambos sorriram.
— Fala!
Sadie sabia que ele não tomaria a iniciativa de jeito nenhum – provavelmente não tinha nem passado pela cabeça do garoto a idéia de que haveria um baile dali a algumas semanas. Ele era assim, meio esquecido. Mesmo se não fosse, a loira não devia ser sua primeira opção.
Paciência; ele também não era a primeira escolha dela. Mas era um dos melhores amigos, com quem ela se sentia perfeitamente confortável e que seria gentil o bastante para não rir do jeito desastrado dela na valsa.
— Charlie, eu tenho uma coisa pra falar com você. — Começou, emparelhando com o menino e evitando os olhos dele, mais porque não queria tropeçar do que por vergonha. — É meio que uma proposta e meio que um pedido, saca?
Um pouco mais atrás, Gregory Goyle ouvia a conversa com uma expressão curiosa.
A/N: Quem disse que não ia dar tempo de postar durante o ano letivo? Ah, fui eu, né... Bom, deu tempo de postar esse capítulo porque eu já estudei tudo de manhã, então fiquem felizes. Boa parte dessas situações aí foram inspiradas em fatos reais... Meio adaptados, claro, mas reais. Enfim. As A/N's vão ficando cada vez mais aleatórias; já repararam? Melhor parar! Boa semana pra vocês, e deixem reviews pra alegrar uma estudante aplicada ;)
