— Conta direito essa história, Cottonwealth. — Exigiu Kia, no dia seguinte; sua voz era abafada pela parede entre as duas. Ela, Sadie e Demi estavam na butique da Madame Malkin, experimentando as roupas do baile.

— Não tem muito o que contar. Eu perguntei se o Charlie tinha par pro baile, ele disse que não, mas que já tinha alguém em mente. Que tal esse?

Sadie se referia ao vestido que havia acabado de colocar, que era verde, na altura dos joelhos. A parte de cima era inteira de lantejoulas. Saindo de seu provador com um belo vestido preto de alças finas, Kia encarou a amiga com um olhar de aprovação.

— O vestido ficou ótimo. Mas e o namorado, Sadie?

— É complicado, xuxu, já disse... Ele morre de medo da gente ser vistos juntos. Aí, sei lá, o baile é uma coisa pública, e... Ih, Kia, esse não. Marca demais atrás.

Demi saiu do provador naquele instante com um traje muito parecido com o de Sadie, só que longo, e de um tom mais claro. Caía muito bem no corpinho pequeno da garota.

— Que gracinha, Demi! — Elogiou a loira mais alta, contente por mudar de assunto. — Acho que você devia levar esse mesmo...

Merci! E quanto ao garoto, por que ele não quer ser visto com você?

Kia havia voltado a seu provador; a pequena loirinha fez um gesto indicando que também voltaria. Entrando no seu para provar o último vestido que havia separado, Sadie deu um longo suspiro.

— É que a reputação dele é um assunto um tanto... Delicado, sabe? E a minha reputação não ajuda muito. Aliás, não ajuda em nada. E...

— Mas por que raios você sai com um cara que tem vergonha de você?

A voz de Kia veio da parede ao lado da loira, que já ia ficando irritada. Claro que ela mesma já havia pensado nisso várias vezes, mas ouvir a amiga falar essas mesmas palavras – provando, assim, que não era só paranóia dela – era bem chato.

— Não é bem assim! É que... Sei lá, ele...

— Não quer ser visto com você pra não estragar a reputação. — A vozinha de Demi completou, já fora dos provadores. Enquanto Sadie terminava de amarrar o vestido atrás do pescoço, seu coração começava a bater mais rápido. — Sei lá, Sadie, eu não te conheço assim tão bem, mas acho que você tá sendo meio bobinha de aceitar isso.

Por mais que tentasse negar, Sadie sabia que elas tinham pelo menos um fundo de razão.

Quando as três chegaram a Hogwarts naquela tarde, cada uma com sua sacola em mãos, foram direto à sala comunal da Corvinal. Sadie surpreendeu-se ligeiramente ao encontrar Rayvenne lá, cantando alguma música com Charlie.

— Foram comprar a roupa? — Perguntou o menino, interrompendo a cantoria. Rayvenne, com o rosto apoiado no ombro dele, só deu um meio-sorrisinho para as amigas.

— É... — Murmurou a loira, já subindo direto para guardar a sacola em seu dormitório. Antes de chegar, ouviu a voz de Rayvenne:

— Ô, Sadie, um certo colega meu falou pra você encontrar ele na Floresta...

— Pois vai ficar esperando. Hoje eu não tô a fim de falar com ele.

E subiu, já sabendo onde seria sua próxima parada. A cabana de Hagrid.


Quando Sadie chegou à pequena cabana, achou estranha a ausência das serpentes. Tanto que até perguntou ao guarda-caças onde elas estavam, e recebeu uma resposta um tanto surpreendente:

— Elas já têm um visitante...

Sadie ergueu uma sobrancelha. Quem podia ser o visitante? Que ela soubesse, somente ela, Rayvenne e Hannah sabiam sobre os animaizinhos. Rayvenne morria de medo das serpentes, e Hannah não se aproximaria nem que...

Hagrid a conduziu até um canto da cabana, onde Sadie viu algo que ela achava que nunca veria.


Três garotos estavam sentados na sala comunal sonserina, cada um entretido com uma coisa. O loiro tinha os olhos fixos em um livro, o maior brincava de levitar os objetos com a varinha, e o terceiro só olhava para o nada.

— Você parece mais abobado do que o normal, Goyle. — Sentenciou Draco Malfoy, sem desviar o olhar do livro.

— Tem uma coisa que você devia saber... — O menino replicou, num tom sério. Draco já sabia que provavelmente não era nada relevante, só mais um produto da mente de um garoto que tinha mais largura do que altura. Simplesmente marcou a página com um dedo e disse:

— Continua.

— É que eu entreouvi uma conversa ontem... Da Cottonwealth com o Dugford... E não deu pra entender bem, mas parece que ela convidou ele para o baile de inverno.

Isso foi o suficiente para que Draco fechasse o livro e voltasse o olhar para o amigo, entre surpreso e incomodado. Seus olhos se estreitaram de leve quando ele perguntou:

Como assim?

— É, assim mesmo... Mas parece que ele nem aceitou. Falou que vai convidar uma tal de Chienbeau. E ele até perguntou sobre um tal namorado dela, que eu acho que era você, mas ela disse "longa história" e... Vocês terminaram?

— Não que eu saiba...

Goyle ficou quieto depois dessa resposta; Draco esqueceu o livro e ficou, como o amigo, encarando a lareira. Ao contrário de Goyle, porém, seu olhar era de raiva.


Fredinho? — Uma Sadie pasma encarava o pequeno dragão negro na cama do guarda-caças, encorujado entre uma cobra e outra. — Achei que você tinha medo delas!

Fredinho ergueu a cabeça escamosa e disse:

— A gente acabou fazendo amizade...

Sadie se adiantou e sentou perto deles, esticando uma mão para acariciar a naja negra, que se enroscou em seu braço, como de costume. Muffin, porém, não fez menção de se aproximar; só sibilou alguma coisa para o dragãozinho.

— Ué! Você fala língua de cobra, Fredinho?

— Nós répteis nos comunicamos mais ou menos na mesma linguagem. — E voltou a falar numa língua estranha que a dona das serpentes não entendia. A cornsnake tinha olhinhos vermelhos muito expressivos, que naquele momento mostravam uma expressão quase... Maternal?

Sadie riu ao perceber o que estava acontecendo. A mão que não estava ocupada com Brownie ela estendeu para acariciar a cabecinha do dragão.

— Passando por um tempo difícil, escamoso?

Fredinho desviou-se, evitando o toque da menina.

— Humanos são complicados...

— Nem fale. — A loira suspirou, pensativa. Os répteis trocaram um olhar cúmplice e Fredinho voltou a bater papo com Muffin, que parecia muito interessada na história; Brownie, por outro lado, parecia feliz de ter saído da conversa.

Realmente, humanos eram complicados.

— Algo errado, Sadie? — Perguntou Hagrid, encarando a menina. Brownie agora havia saído de seu braço e se enroscado em seu colo, como um bichinho de pelúcia negro e escamoso, enquanto os outros dois animaizinhos estavam entretidos na conversa.

— Nada não...

Não deu tempo de ela falar muito mais. Uma batida frenética fez com que Hagrid tivesse que correr para atender a porta, onde um Fred ligeiramente ofegante apareceu com um pergaminho na mão.

Ele parecia irritado; suas bochechas estavam vermelhas.

— Ah, olha onde ele foi se meter... No meio das cobras! Tal mãe, tal filho...

Sadie não gostou disso, mas ficou quieta. O olhar de Fred parecia ao mesmo tempo preocupado e irritado, algo que ela também não entendia.

— Faz tempo que eu ando notando algo estranho nele. E hoje eu chego no quarto, e cadê o dragão? Nada. Fui procurar a Rayvenne, e ela também não tinha visto o dito-cujo. Aí eu abro o meu mapa e vejo que ele tá na cabana do Hagrid, e já penso, ferrou, o bicho se machucou e eu nem sei como. Chego aqui e ele batendo papo com duas cobras?

O ruivo parecia sem fôlego quando chegou perto de Fredinho e levantou o pequeno dragão em seu colo, mas não o tirou da cabana imediatamente. Sadie levantou, se aproximou do garoto e colocou as duas mãos nos ombros dele, fazendo com que sentasse na ponta da cama.

— Fred. Calma. A Brownie e a Muffin são inofensivas, e o Fredinho tá bem. Respira um pouco, fazendo o favor?

Fred arqueou uma sobrancelha e riu um pouco.

Brownie e Muffin. Essas são as suas cobras?

A menina só fez que sim com a cabeça, satisfeita em perceber que Fred estava se acalmando.

— E posso saber o que o Fredinho estava fazendo com elas?

— Vem cá, xuxu. Fredinho, pode continuar o papo com a Muffin. — E a loira arrastou o amigo pela mão até um canto um pouco mais afastado, onde esperava que o dragão não fosse ouvi-los.

— Sadie...

— Olha, Fred, vou ser honesta: essa briguinha que você e a Ray estão tendo é meio ridícula. Aliás, bem ridícula. E tá sendo difícil pra vocês dois, cabeças-duras, e pro Fredinho também... Eu, se fosse você, ficaria feliz que ele arrumou amigos.

Fred encarou a amiga com um olhar ilegível. Depois deu um sorriso muito Weasley, virou-se e foi em direção à cama onde estava o dragão.

— Foi mal, escamoso... É que deu medo de que tivesse te acontecido alguma coisa.

E saiu.

Sadie podia jurar que ouviu um complemento para essa frase, um que Fred disse bem baixinho, mais para si mesmo do que para Fredinho. Se ela não estava enganada, o que o garoto disse foi algo como "não queria perder você também."


A/N: Gostaram desse? Eu achei o fim meio aleatório, mas gostei. Bom... Tive doze aulas hoje – ou seja, 11 horas e meia seguidas na escola – e tô realmente, realmente moída, então nem vou falar mais nada... Por favor, reviews! E até semana que vem :)