O salão estava cheio de casais bem-vestidos, que rodopiavam em harmonia no ritmo da música. Em um canto, Charlie e Demi. No outro, Kia e um garoto desconhecido. Rayvenne e Fred. George e Hannah. Lino e Olivia. Casal após casal girava por aí acompanhando uma melodia lenta.

— Sadie!

Ela olhou de um lado para o outro, vestida com o uniforme da escola e vagando sozinha pelo salão em busca da saída, mas ninguém estava olhando para ela. Devia ser impressão sua. Sadie precisava sair de lá urgentemente.

— Ei, Cottonwealth!

Quando ela deu por si, estava na Floresta Proibida. Uma voz distante narrava uma história que ela não conseguia entender. Mas não estava sozinha; logo à sua frente, Draco Malfoy a encarava com o olhar parado. Não dizia nada e não parecia ter sido quem a chamou. Só olhava para ela sem emoção alguma.

A mão gelada do garoto pousou em seu braço, primeiro de leve, depois apertando um pouco forte demais...

— Sadie Cottonwealth, acorda!

A loira ergueu a cabeça, assustada. Havia cochilado com o rosto apoiado nos braços, na aula de História da Magia – e agora, com certeza, estava com a cara vermelha e os cílios grudados.

A mão gelada que ela sentira era de Rayvenne, que estava sentada ao seu lado e erguia uma sobrancelha para a garota.

— Hmmm... Bom dia! — Miou Sadie, rindo da expressão da amiga. O professor Binns parecia não ter nem percebido que ela caíra no sono, então não tinha problema... A matéria ela recuperaria no livro. Algo que já vinha fazendo, porque estar na aula e não estar era basicamente a mesma coisa quando se tratava do professor-fantasma.

Rayvenne estava rabiscando furiosamente em seu pergaminho. Esticando os olhos para inspecionar, Sadie viu que era um desenho.

— Uau. Se superou, Goldenwing.

— Eu, pelo menos, fico desenhando pra não dormir... — Retorquiu a loirinha, sem tirar os olhos da figura.

— Como se eu tivesse essa habilidade.

— Aliás, por que esse sono todo? Ficou batendo papo com o Malfoy até muito tarde?

Sadie só ficou olhando para o desenho na mesa da amiga, cuja mão não parava. Muito mais interessante observar o desenho do que discutir aquele assunto...

Rayvenne também não forçou. Apenas adicionou, com voz de desinteresse:

— OK, não precisa falar. Mas parece que ele tá furioso com você.

Isso foi o suficiente para que Sadie perdesse qualquer esperança de prestar atenção na aula. Largou a pena, enrolou uma mecha de cabelo entre dois dedos e murmurou:

— Por que raios ele tá bravo comigo?

Rayvenne suspirou, sem parar de desenhar um segundo.

— Porque você deu um bolo nele anteontem. E não voltou a conversar com o sujeito até agora. E ele soube do Charlie. O que, se você quer saber minha opinião, foi uma besteira enorme da sua parte.

Para alguém que continuava com aquela carinha de tristeza o tempo todo, Rayvenne reparava bastante. Sadie se irritou.

— Besteira por quê? Ray, eu vou pro baile de um jeito ou de outro, e a gente sabe muito bem que metade do povo de Hogwarts me acha uma retardada completa. Os meus amigos todos já tinham par, menos o Charlie, que acontece que ia levar a Demi, mas até agora não agiu. E o Draco ia simplesmente rir da minha cara se eu realmente falasse da gente aparecer juntos em público, saca?

— Quem disse? Você perguntou pra ele?

— Oras, não precisava perguntar... Sujeito morre de medo de chegar perto de mim quando os amiguinhos estão por aí!

O sinal bateu, e as garotas saíram discutindo esse mesmo assunto por um bom tempo. Quando era hora de se separarem – Sadie tinha aula de Feitiços; Rayvenne, de Trato das Criaturas Mágicas – a loira corvinal estava muito irritada. Sabia, porém, que precisava falar com Draco o mais rápido possível.


Naquela noite, Sadie se despediu dos amigos corvinais logo após o almoço. Tinha um quilômetro de lição de História da Magia para fazer (estava começando a achar que o professor realmente tinha visto seu cochilo, e pedido a redação só para se vingar) mas realmente não se importava. Um encontrinho na sala comunal da Sonserina era um pouco mais urgente...

Quando ela chegou à sala, viu que estava quase vazia – acabara de comer relativamente cedo; a maioria dos alunos não havia voltado ainda. Apesar de os poucos gatos-pingados na sala lhe lançarem um olhar entre a curiosidade e o desprezo, ela simplesmente se sentou num canto afastado do grupo e esperou.

Não demorou muito para que um trio aparecesse na porta. Havia dois garotos igualmente morenos e igualmente grandes, e um bem menor e mais bonito, andando um pouco à frente dos dois. Sadie já se adiantou quando o viu.

— Draco!

O garoto virou-se para ela, parecendo surpreso em vê-la em sua sala comunal sem a companhia de Rayvenne. No segundo seguinte, porém, sua expressão já era outra.

Sadie engoliu em seco.

— O que você tá fazendo aqui, Cottonwealth?

— Vim conversar...

Ele chegou mais perto, com cara de quem não estava gostando nem um pouco da visita. Sadie achou que tinha visto uma ponta de decepção no olhar acinzentado do garoto – mas podia ser só impressão sua... Não podia?

Os sonserinos continuavam olhando para os dois. Draco segurou o pulso da menina de um jeito bem diferente do que fazia sempre – não era um contato carinhoso, nem de longe – e a conduziu para um canto um pouco mais escondido.

— Então... Soube que você ficou bravo comigo.

Draco não olhou nos olhos da menina. Seus joelhos pareciam ser muito mais interessantes quando ele respondeu:

— Meio difícil não ficar.

Um silêncio tenso cresceu entre os dois pelo que pareceram horas. Finalmente, Sadie respirou fundo e falou, nervosa:

— Desculpa eu ter te evitado.

— Não é com isso que eu fiquei bravo, besta. Por que o Dugford?

Ela sabia que o assunto ia chegar nisso. Tinha se preparado mentalmente para essa conversa. Pena que não conseguia lembrar nenhuma das respostas que planejava; o resultado foi a maior cara de "dãã" que alguém já conseguiu fazer.

Depois de abrir a boca duas vezes e desistir da frase quando começou, ela também encarou os próprios joelhos e disse mais para eles do que para Draco:

— Porque eu não ia perder a chance de ir pro baile só porque o meu namorado tem vergonha de mim!

O garoto reagiu, deixando de olhar para as próprias pernas e se virando para Sadie. Já estava nervoso.

— Primeiro, não é vergonha e você sabe. Seg...

— É vergonha sim! Você mesmo disse! "Uma corvinal meio-sangue que anda com a pior ralé de Hogwarts"... Como se os seus amigos fossem lá grande coisa; pelo menos os meus...

Antes de terminar a frase, Sadie sentiu a mão do garoto agarrar seu pulso com força. O susto foi suficiente para que ela parasse de falar e ficasse só encarando, surpresa, o rosto bonito de Draco.

Não é vergonha de você. É do que os meus amigos vão pensar, porque eles são ainda mais preconceituosos do que eu. E sim, eu acho ruim você ser meio-sangue. Sim, eu acho ruim você ser da Corvinal, apesar de que se fosse da Grifinória ou da Lufa-Lufa seria bem pior. Sim, eu detesto os seus amigos, talvez com exceção da Goldenwing. Mas se eu tivesse vergonha de você, Cottonwealth, a gente não estaria juntos.

Ela sentiu o rosto esquentar. A mão de Draco ainda estava em seu pulso, mas o aperto havia afrouxado um pouco.

— Em segundo lugar, Sadie, quem disse que eu não iria com você? Você por acaso perguntou? Não, você já saiu correndo pra pedir pro Dugford.

Havia um tom de acusação bem forte nas palavras do menino. Sadie se sentiu mal; sabia que merecia a bronca.

— Porque eu achei que você não ia nem... Quer dizer, o baile é uma coisa meio pública, e sei lá... Achei que...

Ele ficou olhando para a menina, esperando que ela terminasse. Por fim, ela desistiu.

— Desculpa.

Sadie ficou surpresa ao ver que Draco simplesmente levantou, sem uma palavra sequer para a loirinha. Só quando ela levantou também foi que ele disse:

— Por enquanto, não. E aliás, eu ia te convidar ainda essa semana.

E saiu em direção ao dormitório, deixando uma Sadie perplexa na sala comunal.


A/N: E aí, povão, como foi o carnaval? O meu foi ótimo. E amanhã tem ONZE aulas (socorro morri), então vou só postar esse capítulo – meio curtinho, é – e dormir... Boa noite, e deixem reviews para uma autora cansada!