Seis e meia da tarde.
Uma garotinha rechonchuda, de dez anos, caminhava rua acima até o ônibus escolar. Com uma mão, apertava muito fortemente os cadernos contra o peito, apreensiva. Com a outra, torcia uma das trancinhas loiras em volta dela mesma, até o couro cabeludo doer, depois torcia no sentido contrário; ritual que tinha dois significados para a pequena Sadie. Às vezes, brincava com o cabelo (seu ou das amigas) só para acabar com o tédio. Outras, fazia isso com mais força, para tentar se acalmar.
Dessa vez, era a segunda opção. Sadie soltou um longo suspiro quando colocou um pezinho trêmulo no degrau que a levaria ao inferno que era a volta para casa, dia após dia, depois de seis aulas no colégio Charles Darwin.
De cima de uma altura incomum para os dez anos, os olhos verdes da garota varreram o veículo, ainda esperançosos. Só por um segundo. Até encontrar um par de olhos mais escuros que os dela, olhos que ela conhecia bem demais.
— Oi, rolha-de-poço... — Mal ela se sentara, e já começavam as brincadeirinhas. Neil Owen, nove anos, o tormento constante da estranha Sadie Cottonwealth, que passava o intervalo no pátio com um livro sobre as pernas e um doce na mão.
— Que foi, não vai responder? Que mal educada. — Ele continuou enquanto a menina se acomodava no banco da frente e colocava o cinto. Podia imaginar o sorrisinho presunçoso no rosto de Neil, a alegria que ele sentia ao provocá-la, ao vê-la agüentar calada, submissa. Se respondesse, seria pior.
Sadie sentiu algo áspero contra seu pescoço e suspirou. Um dos passatempos preferidos do garoto era puxar o cinto de segurança, raspando o pescoço e espremendo o peito da loirinha, que só resistia tentando segurar o cinto e puxá-lo na direção contrária. Sem uma palavra.
O ônibus estava cheio naquele dia. As outras crianças eram quietas e assistiam à cena rotineira com uma expressão divertida; alguns até riam dela. Riam dos xingamentos que Neil proferia, riam quando ela respirava fundo e simplesmente fechava os olhos, mais uma vez lamentando não ter trazido sua varinha para a escola trouxa.
No fundo, ela sabia que, mesmo se trouxesse, não a usaria. Sua mãe – que não fazia idéia do que ela passava toda tarde, por uma hora, no caminho de casa; se soubesse, brigaria com Sadie e diria que a culpa era dela – até lhe ensinara alguns feitiços de autodefesa para usar em caso de emergência. Mas ela não tinha coragem. Não conseguia machucar um colega, mesmo se ele merecesse.
— Bicho feio! Não vai mesmo falar comigo hoje? O gato comeu sua língua ou você é burra demais pra pensar no que falar? — A garota tinha certeza de que não era burra; o xingamento não a abalava. Mas as referências constantes à sua aparência – que já perdera a graça infantil, deixando um rostinho sem-graça e um corpo ainda sem forma – faziam seu coração afundar.
Sadie fechou os olhos. Imaginou a naja bebê, que ainda não tinha nome, e imaginou que a trazia na mochila. Pensou no corpinho pequeno e gracioso do animal se erguendo para Neil, em um aviso que ele ignoraria. Enquanto cada palavra do garoto a perfurava – "bicho feio", "rolha de poço", "espantalho", "jumento", "coisa-ruim" – ela imaginava que a serpentezinha se aproximava mais dele, ainda erguida, ainda em alerta.
Mais um xingamento, e na imaginação de Sadie a cobra se lançava para a frente, num movimento tão rápido que Neil não conseguiria se afastar, e fincava as presas em seu pescoço.
— Ai! Sua bruxa! Coisa-ruim! Demônio!
Quando Sadie abriu os olhos, Neil tinha uma das mãos apertada contra o próprio pescoço. Por um momento, a loirinha se assustou, achando que realmente trouxera a naja na mochila. Mas Neil havia simplesmente dado um mau jeito no pescoço quando se virou pela décima vez para tentar arrebentar o elástico que prendia as tranças da menina.
A Sadie adolescente se lembrou com perfeição daquele dia enquanto mantinha os olhos no atendente da loja, paralisada pelo feitiço. Agora, não teria remorso nenhum em sacar a varinha – se ela tivesse trazido a porcaria da varinha – e enfeitiçá-lo; não se sentiria culpada se Brownie pulasse na garganta do homem, se a naja estivesse por perto.
Parecia que aquela cena estava se repetindo, só que elevada à décima potência. O agressor era outro. O tipo de agressão também. Mas a alegria do sujeito em vê-la submissa, incapaz de reagir, era a mesma.
O vendedor – em cujas vestes ela agora via um crachá, onde se lia Kevin – se aproximou lentamente dela, apreciando a visão de uma gota de suor frio que escorreu por seu rosto. Um ruído vindo da entrada sobressaltou os dois.
Kevin arrastou a menina até um dos provadores, o mesmo de onde ela saíra, e jogou-a lá desajeitadamente. Ela percebeu que a passagem de Hogwarts até lá não era de ida e volta, e não teve escolha senão ouvir através da cortina negra o que se passava na loja.
Uma voz familiar fez seu coração acelerar ainda mais.
— E aí, McBone... Ficou pronta a encomenda? — Era Draco. Era Draco Malfoy, a apenas alguns passos dela, e que não a veria. Porque ela estava lá jogada, imóvel e inútil, no provador de uma lojinha onde ninguém sabia que ela se metera. Ela ouviu os passos do menino se aproximarem do provador onde ela estava, mas parece que seu destino não era aquele. Ouviu o farfalhar dos papéis na gaveta do balcão, mais passos, e Draco murmurou um agradecimento ao vendedor. Ouviu, desolada, os passos dele se afastando, e logo a porta bateu.
A cortina foi afastada e Kevin a puxou para fora da cabine apertada.
— Muito bem. — Ele disse, ainda sem entonação, apertando-a contra a parede estreita que havia entre um provador e o outro. — Agora pode me dizer o que uma garotinha de Hogwarts como você — Kevin olhou longamente para o brasão da Corvinal, bordado na camisa de Sadie — faz por aqui?
Sadie não responderia nem se pudesse. O que não podia. Seus olhos já estavam marejados, mas ela tentava conter as lágrimas, mesmo quando as mãos do vendedor alcançaram seu rosto. Uma se manteve lá, outra se alojou no cabelo da garota, puxando-o com força para trás.
Ela se sentia tonta, um enjôo forte começando a se apoderar da menina quando ela percebeu o que provavelmente aconteceria.
Kevin apontou novamente a varinha para a menina e ela se sentiu amolecer, como se fosse desossada; um contraste estranho com a rigidez que havia se apoderado dela até segundos antes. Antes que pudesse perceber que sua boca estava livre para gritar, porém, já foi interrompida por um terceiro feitiço... Sua voz já não existia.
— Pegou, Draco? — Pansy Parkinson perguntou enquanto eles caminhavam para o Três Vassouras, batendo muito obviamente os cílios na direção do amigo. Draco não olhou para ela quando respondeu, fuçando o interior da pequena caixinha azul que recebra:
— O que você acha?
Draco bufou ao acabar de inspecionar sua encomenda. Kevin McBone era três anos mais velho que ele, mas parecia ter uns dez a menos, de tão lesado que era. Faltava uma peça. Sempre faltava uma peça.
Ele voltou à loja, sem nem se importar se Pansy o acompanhava; foi uma boa caminhada até a porta de madeira pesada... Girou a maçaneta uma, duas vezes, e nada.
Impaciente, sacou a varinha e enunciou:
— Alohomorra!
A porta se abriu, obediente, sem fazer barulho.
A cena que se seguiu fez com que Draco prendesse a respiração.
O nariz de Kevin atingiu fortemente o pescoço exposto de Sadie, onde seu rosto estivera enfiado, e ela demorou um pouco para entender o que estava acontecendo.
Kevin havia sido atingido na cabeça. Enquanto Sadie se sentia escorregar para o chão, sem apoio que a pressionasse à parede nem controle sobre os próprios músculos, percebeu que o rapaz agora estava paralisado, o corpo inteiro rígido, como ela própria estivera até minutos atrás.
Ao ver Draco se aproximando, ela suspirou aliviada. O menino a encarou preocupado, apontou a varinha para ela e enunciou:
— Finite Incantate!
A sensação de recuperar o controle sobre si mesma se espalhou por ela no mesmo segundo, um alívio indescritível; o coração ainda batia enlouquecido, mas agora era de ansiedade por sair de lá. Quando ela agarrou a mão que Draco lhe estendia e os dois saíram o mais rápido que puderam, o garoto ainda olhando com raiva para o atendente da loja, ela não se sentiu mal. Nem quando se afastaram bastante da loja, se misturando à massa de pessoas que crescia à medida que se aproximavam do centro de Hogsmeade.
Bastou eles pararem um minuto, porém, para as pernas de Sadie ficarem bambas.
— Meu Deus. — Draco comentou, olhando para a blusa da garota. Felizmente, não chegara a haver ação, mas uns quatro botões foram arrebentados. Sem dizer mais nada, ele colocou seu casaco sobre os ombros da menina, que parecia estar em choque.
— Sadie? Você tá bem?
Ela não falou nada ainda. Não quis nem testar se o feitiço da voz havia realmente passado. Só o que fez foi abraçar o menino, aninhando a cabeça em seu peito, tentando se acalmar... Não tinha vontade nenhuma de chorar, algo que ela até estranhou, mas o coração batia tão forte que chegava a doer, e a respiração era frenética.
Draco entendeu o recado e apertou-a contra si, também em silêncio. O contato era familiar e agradável, exatamente o que ela precisava para se recuperar do susto, algo de que Draco parecia estar ciente; tanto que ficaram lá, imóveis, até que Sadie se restabelecesse. O coração do garoto também estava muito acelerado.
Demorou ainda um tempinho para que ela se afastasse um pouco do menino e dissesse, olhando fundo nos olhos dele, já mais calma:
— Obrigada.
Draco soltou a garota, vendo que já estava bem melhor.
— Você realmente perdeu a cabeça, né?
Sadie só ergueu uma sobrancelha, esperando a continuação.
— Como é que você sai entrando na loja do McBone sozinha e sem varinha? Ele passou sei lá quanto tempo em Azkaban por pedofilia, criatura. É fato sabido em Hogsmeade. Por isso que quase ninguém de Hogwarts vai lá!
— Eu não sabia que era a loja dele! — Retrucou a garota. — Minha mãe me proibiu de vir pra Hogsmeade, e a Liv me mostrou uma passagem secreta que dá direto na tal loja! E aliás, como é que só eu fui atacada, sendo que o pessoal usa essa passagem o tempo todo?
Draco continuava olhando fixamente nos olhos de Sadie, sem desviar um segundo. Ela se encolheu um pouco no casaco que ele lhe emprestara.
— O McBone só aparece de vez em quando. Normalmente é a irmã dele que cuida da loja. Fora que normalmente a loja fica bem mais cheia aos sábados, mas acho que hoje o frio espantou todo mundo. E o que é que te deu na cabeça de sair por aí sem varinha, Cottonwealth?
Para isso, ela realmente não tinha argumentos. Fora que ainda estava meio aérea; o susto fizera sua cabeça funcionar com muito mais lentidão.
Depois disso, Draco propôs que voltassem a Hogwarts, uma sugestão que foi muito bem-vinda. Aquela foi a primeira vez em que ele andava com ela em público, um braço em volta da cintura da menina, sem se preocupar demais em serem notados.
A/N: Reconheço que esse capítulo foi meio atípico. É que hoje eu terminei O Cirurgião (livro da minha autora favorita, a Tess Gerritsen. Se você nunca leu nada dela, leia AGORA. Eu espero você ir comprar. Comprou? Ótimo) e estou inspirada pra escrever algo mais macabrozinho, bem no espírito do livro.
AH! Quase esqueci. Pra quem gosta dessa fic e de Soaring Black Bird, leiam também The Mightiest Beast (em inglês) e Thorny Scarlet Rose, que são a mesma história na perspectiva da Gwen Bradshaw e da Kia Rosepawn, respectivamente. Peguem as autoras (Noxerin e Otacraze92) nos meus favoritos, já que o site não me deixa favoritar as histórias...
EITA AUTHOR'S NOTE ENORME. Fui! Boa Páscoa, bons estudos, leiam os livros da Tess, e como sempre, REVIEWS!
