O quinto ano estava acabando mais rápido do que Sadie imaginara. Com o estresse dos NOMs, a maioria das tardes dela foram passadas na sala comunal da Corvinal – enfiada nos livros ou testando feitiços com Charlie e Kia – ou na da Sonserina, fazendo Rayvenne ensinar-lhe História da Magia de um jeito que ela entendesse. Draco parecia não ligar muito, mesmo quando também estava na sala comunal; normalmente, ele se retirava para o dormitório assim que via as duas loiras chegando.
Esse comportamento do garoto era estranho, mas não inédito. Já fazia um tempinho que Draco estava mais introspectivo, não querendo muita conversa; a Sadie só cabia respeitar o momento. Perguntara diversas vezes o que estava errado; todas essas vezes ele agira igualzinho a Rayvenne em sua fase ruim, o que levou Sadie a acabar desistindo. Só o que ela fazia era se aproximar um pouco mais quando ele parecia triste, se afastar quando o garoto não queria papo... Não ajudava, mas não atrapalhava. Simples assim.
Quando não estava estudando, Sadie se descobriu passando cada vez mais tempo no galinheiro, com os novos colegas que Olivia lhe apresentara. Já fez amizade logo de cara com alguns, e descobriu que outros de seus amigos – Charlie e Kia, na verdade – já passavam boa parte de seu tempo livre lá havia alguns anos. O galinheiro parecia uma grande família; a garota se sentia muito confortável naquele lugar, mesmo sem entender direito por quê.
Fora que havia duas pessoas que Sadie já conhecia, mas se aproximara muito deles no galinheiro e acabaram virando amigos próximos. Um garoto muito alto, de olhos verdes e nariz comprido, chamou sua atenção logo de cara por ter sido o par de Olivia no baile de inverno. Era um sujeito inteligente que a fazia rir muito; seu nome era Gary Gardner. A outra era uma menina morena que sempre usava uma flor no cabelo; chamava-se Gwendolyn Bradshaw e era uma das garotas mais divertidas que Sadie já conhecera.
Com tanta coisa acontecendo, Sadie ficou muito surpresa ao perceber que já era o último dia letivo. Na verdade, ela só notou porque a escola estava uma bagunça completa; todos os alunos estrangeiros se despedindo dos ingleses e se abraçando entusiasmados.
— É mesmo! — Sadie deu um tapa na própria testa quando ela, Kia e Charlie desceram para os portões do castelo, onde a massa de alunos se aglomerava. — Sabem que só agora eu percebi que é hoje que eles vão embora?
Os três riram.
— Boa, Cottonwealth. Tá ficando mais lerda que o Charlie! — Brincou Kia. Charlie preferiu ignorá-la e chegaram os três ao bando de alunos, onde Demi conversava animada com duas francesinhas.
— Mon Dieu! Pensei que vocês iam me deixar ir embora sem dizer nada! — A pequena riu. Sadie já se adiantou e deu um abraço forte em Demi, que retribuiu de bom grado.
Enquanto a cena se repetia com a mestiça e Charlie, a francesinha dizia, com um sorriso:
— Vou sentir saudade de vocês, mes amours. Mas não pensem que se livraram de mim, não! A gente ainda vai se ver, sûrement. E eu vou escrever bastante. Quem não responder apanha!
— Surrequem? — Kia levantou a sobrancelha.
— Quer dizer "com certeza", chérie.
Não deu mais para falarem muita coisa. Uma das francesas puxou a mão de Demi, que acenou para os amigos e se misturou ao bando de garotas vestidas de azul que se amontoavam para entrar na carruagem.
Antes que ela e Kia pudessem voltar a seu dormitório para terminar de arrumar as malas, Sadie olhou para um canto e começou a rir da cena que viu.
— Kia... Aquele é o Fred beijando a Ray?
Depois de uma viagem de trem um pouco turbulenta, Sadie chegou a King's Cross de ótimo humor. Conduzia o carrinho com a mala e procurava pela mãe, que parecia não ter chegado ainda.
Não era novidade. A sra. Cottonwealth tinha muitas qualidades, mas pontualidade com certeza não era uma delas. Sadie ia reclamar baixinho, mas nem teve tempo para isso...
Em um instante, estava pensando no atraso da mãe.
No outro, alguma coisa a estava empurrando e berrando em sua orelha, e ela se segurou no carrinho... Que acabou tombando... E o malão se abriu... E Sadie foi parar no chão...
Claro. A sra. Cottonwealth tivera a brilhante idéia de trazer Haley consigo para buscar a prima em King's Cross.
Aliás – como ela constatou pela mãozinha que dava um tapa em seu traseiro enquanto ela tentava levantar, e por uma terceira voz que só ria – a mãe fora bem legal e já trouxera as três crianças de uma vez.
— Oi pra você também, Hay... — A garota resmungou, finalmente conseguindo se livrar do aperto da priminha e levantar. Haley estava linda, os cabelos loiros se destacando no bronzeado que ganhava facilmente todo verão, o corpinho um pouco mais definido... Mas a mesma cara marota de sempre. Sadie deu um beijo na prima e pediu que ela a ajudasse a recolher o malão, enquanto ia cumprimentar a mãe e os gêmeos.
Um beijo na mãe, um abraço esmagante em cada um dos pequenos – que também haviam mudado; Benjamin estava bem mais alto e Elanor perdera um pouco a carinha de bebê – e logo estavam a caminho da casa de verão.
Cinco minutos de férias, e ela já estava meio atordoada.
Os dias que se seguiram foram um caos completo; nada muito diferente do que já acontecia na vida de Sadie todas as férias desde o nascimento de Haley. Os dias eram passados na piscina da casa, o lugar onde aprendera a nadar e passara grande parte de seus dezesseis verões... Só que, desde que Haley nascera, havia muito mais chutes e pontapés envolvidos. Ainda mais agora que os gêmeos também já eram grandinhos; Sadie já estava até acostumada a virar trampolim.
No fim da tarde, ela tirava os três da piscina e dava banho nos três de uma vez. Isso era até divertido – principalmente porque Elanor era a última a sair do chuveiro, junto com Sadie, que vestia a priminha como se estivesse voltando a brincar de boneca.
A noite era a parte mais caótica. Sadie se acomodava com um livro no colo, as crianças brincavam entre si, Haley e Ben gritavam um com o outro como se fosse o fim do mundo, as tias de Sadie tagarelavam sem parar, sua mãe levava trabalho para a casa de verão e estressava se alguém se aproximasse...
No fundo, ela gostava.
Era uma noite quente, no meio do verão. Draco Malfoy estava esticado em uma poltrona, os pés acomodados à sua frente, os olhos fixos em um grande livro; exatamente do jeito que ele gostava.
As férias de verão eram uma época calma para Draco. Ele e os pais não se falavam muito, mesmo nas raras ocasiões em que estavam os três em casa. Preferia se acomodar na grande biblioteca da casa, devorando livro após livro... Exatamente o que ele estava fazendo naquela hora, tão concentrado na leitura que não ouviu os saltos que reverberavam no assoalho em direção a onde ele estava. Só quando uma mão gelada pousou em seu ombro, sobressaltando-o, ele notou que não estava sozinho.
— Olá, priminho. — Uma voz muito conhecida, com sotaque americano, soou no ouvido de Draco, que sorriu ao se voltar para trás. Artemis Malfoy, dezoito anos, prima de criação; a preferida do menino. Pena que ela morava em Manhattan.
Draco levantou-se e deu um abraço na prima. Não pode deixar de reparar que a cada vez que se viam – ela ficava em sua casa alguns dias por ano, quando dava; diferente da infância, quando brincavam juntos o verão inteiro – a adolescência aperfeiçoava ainda mais os traços da menina, que já não precisava ser muito aperfeiçoada. Artemis tinha cabelos longos e escuros; seus olhos eram absurdamente azuis, e o corpo, mais impecável a cada ano em que eles se viam.
Algo que ele percebeu muito claramente ao abraçá-la.
— Que saudade, amor. — Artemis comentou quando se afastaram. — Como vai a vida?
— Boa o bastante...
— Ainda não fugiu de Hogwarts? — Ela se sentou ao lado dele, na poltrona que era planejada só para um, de modo que estava metade sentada em seu colo e metade não. Algo de que ele não se queixaria nem um pouco.
— Você pode falar mal, mas eu adoro aquela escola, Art.
— Tanto faz. Aliás, deixa eu te mostrar uma coisa.
Artemis estava usando um bolero, que retirou. O tecido lilás revelou uma cicatriz feia, ainda escura, parecendo muito fresca... Apesar da aparência ruim, Draco sorriu ao perceber o que era. Reconheceria aquele formato em qualquer lugar.
— Ganhei ontem mesmo. Não é linda?
Esteticamente, não era. Mas bastava reconhecer o formato perfeito de crânio, a serpente que se ondulava para além das mandíbulas, e era fácil perceber que o significado da tatuagem ia muito além do estético. Era uma marca da elite, dos que haviam tido a honra de se juntar a Lord Voldemort.
Os lábios cheios de Artemis se partiram num largo sorriso.
— Parabéns, priminha. — Draco a congratulou, uma mão em seu ombro.
— Já é hora de você ganhar a sua, não? Meu pai achou que eu ainda era muito nova com quinze anos, mas acho que o seu já quer esse bracinho tatuado desde que você nasceu.
Draco desceu um pouco a mão e traçou com o dedo o contorno da tatuagem, muito delicadamente, com cuidado para não machucar a prima. Mesmo assim, ela franziu um pouco o rosto.
— Doeu? — Ele perguntou.
— Valeu a pena. Você vai ver.
Os primos continuaram conversando, muito entusiasmados, por mais tempo do que pensavam. Quando se deram conta, o dia já estava quase amanhecendo.
With an urgent, careful stare
And some panic in those eyes
Sentada na cama da tia, Sadie terminava de cantar uma de suas músicas favoritas, em voz bem baixa. Elanor já adormecera em seu colo havia tempo, mas ela gostava de cantar para que a pequena dormisse.
If I see you lying there
Hoping this was the last time
Enquanto terminava as últimas linhas da canção, Sadie levantou devagar e colocou gentilmente a priminha na cama. A música trazia um rosto muito específico à sua mente, um em que ela pensava com muita freqüência.
If you hear a distant sound
And some footsteps by your side
Talvez as férias fossem fazer bem a Draco e ao que quer que estivesse afligindo o garoto nas últimas semanas. Ela esperava sinceramente que isso fosse verdade. Já que ela própria não podia ajudá-lo, só podia esperar que o tempo fizesse seu trabalho.
When the world comes crashing down
I will find you if you hide
Ao soltar a mãozinha da garota adormecida e se encaminhar para seu próprio quarto, o pensamento de Sadie estava muito longe dali.
Será que ele também estava pensando nela?
No dia seguinte, à mesa do café da manhã, Artemis e os tios estavam conversando enquanto Draco não acordava. A noite anterior fora mesmo meio cansativa para o garoto; nenhum dos primos dormira quase nada.
— E quanto ao nosso plano, querida... Algum sucesso? — Foi a pergunta que Narcissa Malfoy fez à sobrinha, olhando para ela com cara de cumplicidade. Lucius também a encarou com uma certa expectativa.
Naquele instante, ouviram-se passos no corredor, evidentemente de Draco. Artemis afrouxou a amarra do roupão e deixou que ele deslizasse de leve por seus ombros, exibindo boa parte da camisolinha azul.
— No máximo uma semana, e o sucesso vai ser completo, tia. — Ela respondeu, com um olhar de inocência fingida na direção do garoto.
Estava sendo mais fácil do que ela imaginara.
A/N: Pôxa, eu gostei desse capítulo! Nem esperava gostar muito, já que era pra ser um "enchedor de lingüiça", mas gostei bastante. E eu também acho que é chato ficar enfiando personagens originais o tempo todo, mas realmente precisava da Artemis... Por favor, reviews!
