Sadie estava esticada na rede com Haley, em uma das raras vezes que conversavam sem ela acabar querendo enforcar a prima. Já era noite, mas estava tão quente que a varanda era o melhor lugar da casa de verão, apesar dos pernilongos.

— Sadie! — A voz rouquinha de Ben soou de dentro da casa. — Carta!

— Deixa aqui, amor. — Ela respondeu, assim que o garoto chegou à porta agitando um envelope verde. Estava brincando tranquilamente com Elanor lá dentro, outra cena rara na residência dos Cottonwealth.

Ben largou o envelope na rede. Sadie ia pegá-lo, mas a mão de Haley foi mais rápida, arrancando a carta do alcance da prima.

— Haley. Dá isso aqui.

— Eu não! — Dedinhos remexendo no lacre. — Ó, eu leio pra você.

— Você demora um século pra ler! E isso é coisa minha!

— Ô MÃE! A SADIE ME CHAMOU DE BURRA! — Dedinhos abrindo o lacre. Mãos da mais velha tentando recuperar a carta, sem sucesso. — Uiiii, é do Draco! O que será que ele escreveu, hein...

Haley pulou para fora da rede, aproveitando para dar uma cotovelada forte um pouco abaixo dos ombros da prima, que prendeu a respiração. Por acaso, um cotovelinho de nove anos é bem forte, e ela já estava dolorida de tanto ser feita de trampolim e bonequinho de apertar.

Sadie, tudo bom? — Ela acentuava cada sílaba. Sadie pulou da rede também e enfiou uma mão no bolso dos shorts minúsculos da garotinha, pegando rapidamente a varinha rosa-choque.

Accio carta!

O envelope voou, obediente, para as mãos da mais velha, que correu para o quarto. De vez em quando, ela se sentia com nove anos de novo... Era o jeito. Com Haley por perto, ninguém podia ter uma conversa pessoal, nem ler uma carta, nem nada; invasão de privacidade era a especialidade da pequena.

Mal começou a ler a carta, Sadie já escutou os berros de Haley do outro lado da porta, mas não deu atenção. No pergaminho, a caligrafia meticulosa de Draco era muito mais interessante do que os dramas constantes da prima.

Sadie, tudo bom?

Sobre a gente se encontrar amanhã, agora sou eu que não posso. Minha prima veio passar a semana em casa, e eu tenho um compromisso importante amanhã à noite. Antes que você pergunte, sim, tem a ver com eu estar meio estranho no fim das aulas, e não, eu realmente não vou te contar.

Bom... Fica para outra hora, OK?

Draco

Sadie fechou o envelope e suspirou. Ainda não tinha encontrado Draco naquelas férias, e já estavam passando da metade do verão... Estava com saudades. E precisava muito de um motivo para sair de casa sem a família.

A mãe de Haley bateu freneticamente na porta, como que para exemplificar essa necessidade de fugir de todos eles.


Draco estava esticado na biblioteca; ele em uma poltrona, Artemis logo ao lado. Dessa vez, ele não estava lendo nada. Por mais que ele e a garota conversassem, parecia não faltar assunto.

Artemis ainda estava recuperando o fôlego do mais recente ataque de riso. Nenhum dos dois era de ficar rindo muito, mas quando estavam juntos, se soltavam. Ainda mais com a garrafa de Sangue de Dragão – uma bebida forte que a menina trouxera dos Estados Unidos – que já passara da metade.

— E aí, Draco... Com medo de amanhã?

O menino evitou o olhar azul da prima. Claro que ele estava com medo. Dali a pouco menos de 24 horas, ele estaria recebendo sua Marca Negra, selando definitivamente o compromisso com Lord Voldemort; não haveria mais como recuar. Ele não tinha certeza se queria ou não – na verdade, nunca se questionara. Era o que a família queria para ele desde bebê e pronto.

Mas dava arrepios, principalmente porque o pai já o estava preparando para isso desde o último mês de aulas. Desde que recebeu uma carta do pai, dizendo que daquelas férias ele "não escapava", não conseguia deixar de pensar no assunto um dia sequer. Ia acontecer, ele querendo ou não.

— Ei. — A mão de Artemis pousou no braço dele.

— Não é medo, Art.

A bebida confundia um pouco a lógica do garoto, mas não o suficiente para que ele admitisse que estava com medo. Morrendo de medo, aliás. Mais um gole da garrafa gelada, direto no bico, e o medo mais uma vez diminuiu um pouco.

— Se não é medo, é o quê? Incerteza?

— Não! — Ele se apressou em responder. — Não, eu quero isso. Sério. É só uma apreensão porque eu sei que vai doer.

— Dói só nos primeiros dias. Olha a minha.

Artemis mostrou o braço ao primo. A cicatriz, antes negra, agora estava quase se fundindo com a pele da garota, deixando apenas um leve tracejado vermelho que parecia feito à caneta.

Isso pareceu reconfortá-lo um pouco. Depois de uns poucos instantes de silêncio pensativo, a conversa tomou um rumo completamente diferente, e logo estavam rindo como dois retardados mais uma vez.

Ele sabia que, na noite seguinte, estaria muito longe daquele humor leve e induzido pelo álcool. Por enquanto, preferia aproveitar o momento – a noite quente, a bebida gelada, a garota linda ao seu lado, de pernas cruzadas e vestido curto...

Não ia durar muito.


Eram onze e meia quando Draco e Lucius chegaram ao lugar combinado para a iniciação do garoto. Pela tradição, era um cemitério. Também pela tradição, tinha que ser à noite. Pela tradição, dava arrepios.

Na verdade, para Draco, tinha um único motivo por ele estar passando por aquilo. Não sabia nem se importava se queria ou não um futuro de Comensal da Morte; isso era secundário. A verdadeira razão era a que ele estava vendo naquele momento, quando chegou ao centro do cemitério, com o pai ao lado, e os dois trocaram um olhar.

Era muito raro – muito raro mesmo – mas naquele momento, Lucius parecia realmente orgulhoso do filho.

— Lucius!

A voz que soou, muito perto da dupla, era inconfundível. O próprio Lord Voldemort, sibilando o nome do pai do garoto que logo se juntaria a eles, num compromisso eterno selado por uma tatuagem.

Draco se endireitou e encarou o rosto reptiliano do mestre.

— Então o mais novo Malfoy vai seguir a tradição familiar logo cedo. Eu não esperava nada menos de você, Lucius.

Voldemort se aproximou do garoto, que podia sentir uma forte aura de poder emanando do mestre. Naquele momento, Draco sorriu de canto. Era aquilo que ele queria; aquele era o líder que ele queria seguir. E daí que ia doer um pouquinho?

— Pronto, Draco?

O menino assentiu, confiante. Dedos muito finos e longos emergiram das vestes de Voldemort, segurando uma varinha também longa. Ordenou:

— Tira a camisa.

Ele obedeceu sem pestanejar, entregando a blusa ao pai, que sentava sobre um dos túmulos parecendo mais orgulhoso do que Draco jamais o vira. A mão gelada de Voldemort se fechou em volta do braço de Draco, um pouquinho acima do cotovelo, e a ponta da varinha tocou de leve sua pele.

— Draco Malfoy. Você promete seguir o Lorde das Trevas?

— Sim. — O menino assentiu, ainda sorrindo confiante.

A ponta da varinha fez um traço forte no braço do garoto, que se esforçou para não gritar. Parecia estar queimando sua pele, como se ele estivesse sendo marcado a ferro. Ele mordeu o lábio inferior com força.

— Promete se dedicar somente a mim, independente das circunstâncias?

— Sim. — Ele ofegou.

Mais um traço, e dessa vez ele realmente teve que reprimir um grito. Que mágica era aquela? A pele parecia estar em chamas; de olhos fechados, ele sentia as labaredas consumindo seu tecido camada após camada, o calor insuportável, dolorido... Não se atrevia a olhar.

— Promete renunciar a qualquer outro líder, antagonista ou não, e obedecer às minhas ordens sem questionamento?

— S... Sim.

A hesitação não era incerteza, era dor. Ele estava até surpreso por continuar em pé. A cada traço da varinha incandescente, sua pele parecia se deteriorar mais, ardendo, queimando, parecendo atingir cada nervo. Draco já imaginou o braço carbonizado, enegrecido. Não tinha nenhum pensamento muito coerente naquela hora; só queria que parasse.

Por favor.

Não parava. Um crânio com uma serpente saindo da boca não pode ter tantos traços assim. A varinha em brasa percorria sem piedade cada terminação nervosa do braço do garoto, de novo e de novo...

Sua mandíbula estava travada. Ele sabia que não podia gritar. Não sabia ao certo se estava chorando, mas esperava que não – só o que ele sabia era que a garganta estava apertada.

Sua avó, quando ele era pequeno, lhe ensinara a rezar quando sentisse muita dor. Que irônico, pensou. Não conseguia mais lembrar das palavras que a avó lhe ensinara havia quase uma década – e mesmo que conseguisse, ele nunca acreditara muito nisso. Mesmo assim, se conseguisse pensar com a coerência suficiente naquela hora, rezaria.

Isso tem que parar em algum momento.

Depois do que pareceu uma eternidade, o fogo cessou tão abruptamente quanto tinha começado. Draco abriu os olhos, sem arriscar uma espiada sequer na direção da Marca Negra. Não conseguia focar a visão.

— Parabéns, Draco. — Isso foi seu pai quem disse. Estranhamente, Voldemort tinha desaparecido. — Vamos pra casa?

O menino só assentiu, segurando debilmente no braço do pai para que aparatassem até a mansão dos Malfoy. Não doía mais, mas a lembrança da dor ainda estava vivíssima na mente do menino.

Quando abriram a porta da casa, Artemis e Narcissa estavam conversando na sala, à espera dos dois.

— Draco! Como foi? — Exclamaram as duas, mais ou menos em uníssono. Draco estava tonto demais para fazer muito sentido; a experiência tinha realmente acabado com suas energias.

— Eu cuido dele, tia. — Artemis assegurou a mãe de Draco, que olhava para o filho, preocupada. A garota colocou um braço cuidadosamente em volta dos ombros do primo e guiou-o até seu quarto.

Draco estava entorpecido quando deitou na cama. Ficou apenas encarando o teto, sem reação; só fechou longamente os olhos quando sentiu os dedos de Artemis correndo por entre seu cabelo. Era bom, um toque amigável e reconfortante depois de uma experiência cruel.

Sua voz saiu rouca quando ele perguntou:

— Art... Pra você também foi tão...?

— Insuportável? Sim. Eu achei que fosse desmaiar.

Draco se sentiu um pouquinho melhor com isso. Artemis continuava acariciando os cabelos do primo, que ainda estava tonto.

— E você ficou... Desse jeito?

— Tonta? Na verdade, não. Fiquei meio mal, mas nem perto de como você ficou, amor. Acho que a reação de cada pessoa é diferente... Ainda mais porque você é mais novo.

— Só três anos.

— Ainda é uma diferença.

Ele suspirou e abriu os olhos para encarar a prima. Estava sentada ao seu lado, o olhar cuidadosamente fixo no dele. Alguma coisa nele a fez sorrir; a próxima coisa que ele soube foi que a mão da garota desceu vagarosamente de seu cabelo até o rosto, segurando-o com gentileza.

— Não tem com que se preocupar. — A voz da menina era mais baixa agora. Ela aproximou o rosto do dele e deu-lhe um beijinho na testa. — O pior já passou.

Ele pensou que ela se levantaria e iria embora, mas ficou na mesma posição por alguns instantes, o olhar fixo no dele, a expressão hesitante. Seu rosto se aproximou novamente do dele, um beijo na bochecha, um novo olhar, dessa vez mais profundo. Draco estava atordoado demais para registrar muita coisa. Então, antes que ele pudesse notar, os lábios da garota estavam pousados delicadamente sobre os seus – apenas por uma fração de segundo.

Artemis ergueu o rosto e voltou a encará-lo, também só por um instante; depois sorriu e levantou-se. Ainda na porta, ela falou, com voz macia:

— Boa noite, amor.

A porta bateu atrás da menina.

Draco não entendeu muito bem o que tinha acontecido, mas o que ele sabia era que não estava com cabeça para pensar nisso naquela hora. Os pensamentos já se misturavam num borrão disforme, puxando-o para a inconsciência.

Ele nem tentou resistir.


A/N: E aí, vocês gostaram? Eu adorei esse. Foi fortinho, pelo menos pro padrão dos meus capítulos, não? Bom, eu quero saber o que vocês acharam! Por favor, reviews!

AH! E só pra reafirmar, ELES NÃO SÃO PRIMOS BIOLÓGICOS, só de criação! Pelamordedeus. Traição, OK. Incesto? Não, obrigada :)