— Bom dia, priminho.
Quando Draco chegou à mesa do café, a única pessoa no recinto era Artemis. Nada muito incomum na residência dos Malfoy; para ele, acordar sozinho era a regra, não a exceção.
Ele se sentou e não disse nada, só sorriu de canto para a prima. Dormira pesadamente, mas, no curto período em que tivera algum sonho, esses sonhos tinham muito a ver com o beijo roubado da noite anterior.
— Não vai me responder, não?
— Art... O que, raios, aconteceu ontem à noite?
Artemis lançou-lhe um olhar de falsa inocência, brincando com a alça da camisola, como quem não quer nada.
— Oras. Você ganhou a Marca, chegou todo tonto, eu te levei pro seu quarto e a gente conversou um pouquinho antes de você dormir...
Ela deixou a frase flutuando no ar, sem um fim definido, enquanto bebia um gole do suco de abóbora. Draco continuou encarando a garota.
Ele próprio não tinha muita certeza do que acontecera na noite anterior. De onde raios ela teve a idéia de beijá-lo? Claro que ele gostou. Já tinha até pensado nisso uma vez ou duas (ou várias), mas não deixava de ser inusitado... Artemis era quase sua prima; a tia de Draco a adotara quando a garota não tinha mais de dois anos. E eles cresceram juntos! Todo ano, nas férias, até Artemis completar doze anos, brincavam o verão inteiro. Depois se afastaram bastante, mas não é como se... Ele não sabia explicar direito.
Também se sentia um pouco culpado com relação a Sadie, mas isso ocupava uma parte muito pequena de sua mente. De qualquer forma, se Artemis realmente quisesse alguma coisa, ele com certeza não ia dizer não. Uma garota daquelas não se recusa.
— Art. Você sabe o que eu quero dizer.
— Ah, é. Eu te beijei. — Ela adicionou, distraidamente. — Qual foi a parte que você não entendeu?
Quando Artemis voltou a olhar para o garoto, deu para perceber que ela estava achando a situação divertidíssima, principalmente a cara dele de quem não estava entendendo nada.
Ele tentou dizer alguma coisa, mas nem conseguiu.
— Que foi? Você não gostou?
Normalmente era Draco quem fazia isso de deixar a pessoa sem resposta. Fazia muito bem, aliás – ainda mais com Sadie, que se deixava levar constantemente pelas brincadeirinhas que ele fazia. Era divertido deixá-la sem reação, não por mal, mas só para ver a expressão da garota... Já com Artemis, quem estava no controle era sempre ela.
Ainda agora, enquanto ela mantinha os olhos azuis fixos em Draco, com um sorrisinho no canto da boca, dava claramente para ver quem estava brincando com quem.
— Não é isso! É que me pegou de surpresa.
Ele sabia que estava reagindo exatamente do jeito que ela queria. Igualzinho a quando eles eram crianças; Artemis era sempre a mãe, a policial, a professora, nas brincadeiras dos dois. Era sempre ela no comando, não porque ela estipulava assim, mas porque acontecia naturalmente.
Ou porque ia moldando a história do jeito que queria, de um modo tão sorrateiro que Draco só percebia bem mais tarde.
— Então você não quer nada comigo? Porque eu fiquei confusa agora, Draco. Você tem quinze anos, nenhum tipo de retardamento mental, e uma – digamos assim – namoradinha na escola. Obviamente você sabe o que é um beijo. Então por que a dúvida? Eu te beijei, pronto, foi isso.
— Mas por quê? — Draco se sentia como se tivesse cinco anos, e detestava isso, mas já sabia muito bem o efeito que a menina tinha nele. Ela só continuou brincando, distraída, com a alça da camisola.
— Porque deu vontade, ué!
Ao mesmo tempo em que dizia isso, Artemis levantou e foi se encaminhando para o quarto de hóspedes. A visão das longas pernas da garota – que a camisolinha só escondia o mínimo necessário – foi só o argumento que faltava para que Draco a seguisse, teimosamente.
Ela havia fechado a porta do quarto. Como a garota acabara de entrar, ele não pensou duas vezes antes de abrir a porta e encontrá-la – sorrindo triunfante, sentada na cama, como quem sabia que ele viria.
— Você sabe que eu tenho namorada, não sabe? — Ele perguntou, mais retoricamente do que qualquer coisa. Artemis fez um gesto displicente com a mão.
— Ah, Draco, dá um tempo! Namoradinha de escola. De andar por aí de mãozinhas dadas; e nem isso vocês fazem porque você mesmo tem vergonha dela. Não é?
Ele não podia nem dizer que não. A expressão da menina era mais gentil agora, enquanto ele sentava na cama ao lado dela e ela estendia uma mão para a sua.
— Nem te culpo. Quer dizer... Essa Sandy pode ser legal, mas não é o seu, o nosso tipo de pessoa, Draco. Meio-sangue! E esse sobrenome, Cottoncandy ou sei lá o quê...
— Cottonwealth. Sadie Cottonwealth. — Draco riu da expressão de descaso da prima.
— Tanto faz. Nunca ouvi falar da família. Draco, Draco, você já passou da idade desses namoricos de escola... Você cresceu! Já tem até a Marca!
Imitando o gesto de Draco, no começo da semana, ela contornou gentilmente a tatuagem do garoto com os dedos. Não doeu, bem como ela previra antes de ele ganhar a Marca, mas um arrepio muito diferente percorreu a espinha do menino.
— Não pode ficar manchando a reputação da família com alguém tão... Ordinária. Não digo que ela não seja legal. Mas você tem que pensar na linhagem, na reputação.
Draco estava muito mais consciente do que estava acontecendo do que das palavras da prima. Estava consciente de que Artemis estava mais perto dele agora, inclinada de leve para frente, para fazer contato ocular – já que ela estava de joelhos na cama, e ele, sentado – e dava para ver talvez um pouco mais do que deveria sob a barra da camisola. Estava consciente do olhar azul penetrante dela, pressionando-o para uma decisão bem óbvia. Estava bem consciente do clima de tensão no ar, do rosto da menina muito próximo ao seu, do quase imperceptível cheiro de sabonete que emanava da pele dela.
De repente, antes que ele pudesse perceber, Artemis se afastou e sentou para trás como se tivesse levado um choque, deixando-o meio atordoado. A porta do quarto se abrira e uma figurinha franzina, com grandes orelhas, espiava para dentro do aposento.
— Coruja para o senhor... — O elfo murmurou, em uma voz tímida.
— Deixa na mesinha de cabeceira.
O momento tinha passado completamente; Artemis apenas sorria, agora parecendo inocente. Draco constatou que era melhor mesmo que ele não precisasse levantar para ir buscar a carta.
O tempo passou vagarosamente, mas enfim chegou o dia da volta às aulas. Acompanhada de Haley e da mãe, Sadie chegou alegremente a King's Cross. Até que enfim! As férias tinham sido as mais longas até então, algo que tinha muito a ver com a ausência dos amigos e mais ainda com a mais nova mania de Haley – de ficar apertando o que não devia todas as vezes que ela dava banho nos priminhos.
— Uau, Sadie. Deve ser legal Hogwarts. — Foi o comentário da pequena quando as três atravessaram a barreira entre as plataformas.
— Você não imagina o quanto, linda...
Sadie respirou fundo. O Expresso Hogwarts aguardava, vermelho e imponente; o barulho alto das centenas de alunos empolgados parecia música. Por mais que gostasse de casa, ela muitas vezes sentia que Hogwarts era seu verdadeiro lar – os amigos, as serpentes, ninguém se pendurando em sua perna pedindo mais uma historinha... E alguém que também parecia estar com saudade, pelo que dissera na última carta.
Não demorou muito para que ela encontrasse vários dos amigos. Rayvenne estava entretida numa conversa com dois garotos magros e altos; só acenou para a amiga sem muita convicção. Hannah não retribuiu seu sorriso, mas também não fingiu que não a vira, o que já era um avanço de qualquer forma. Kia deu-lhe um abraço histérico, como era do feitio da garota; Charlie cumprimentou-a com um beijinho; Olivia sorriu alegremente quando a viu...
Definitivamente, ela estava a caminho de casa.
Um pouco mais perto do trem, Draco estava conversando muito animado com uma garota linda, de cabelos castanhos e o corpo que Sadie pedira a Deus, mas Ele não ouvia. Deve ser a tal prima, ela pensou, resignada, enquanto se aproximava dos dois.
Quando a viu, Draco pareceu meio sem graça. A morena, por outro lado, se virou para vê-la e riu.
Não era exatamente uma risada simpática.
— Oi, Draco! — Ela foi cumprimentar o menino com um beijo nos lábios, mas ele virou decididamente o rosto. — Essa é a prima que você me falou?
Ele só assentiu com a cabeça, ainda mudo. A garota que o acompanhava estendeu uma mão fina, ainda sorrindo, olhando-a de cima a baixo com cara de quem sabia muito bem que era superior:
— Artemis. Não exatamente prima.
— Sadie. Exatamente namorada. — A loirinha apertou com convicção a mão de Artemis, já na defensiva, enquanto Draco encarava firmemente o chão. A morena não parecia boa coisa. Talvez fosse só uma certa inveja por parte de Sadie, mas ela duvidava.
— Eu não diria isso com tanta certeza, se fosse você.
Artemis sorria, presunçosa. Sadie já começou a se irritar; olhando para Draco, só o que viu foi que ele parecia achar o piso muito mais interessante do que o resto da conversa... Seu coração já estava acelerando. O que raios ela não tinha entendido?
Sadie teve que respirar muito fundo para manter o tom neutro quando replicou, encarando Artemis com uma expressão desconfiada:
— Agora explica...
— Você não falou nada pra ela, Draco?
OK, tem algo péssimo acontecendo aqui. Isso é o óbvio. Será que eles dois...? Deve ser. Claro, sua anta. Como você não previu isso? Você longe, ele sozinho em casa com a prima gostosa... É. Meio estúpido você não ter desconfiado assim que viu os dois.
A garganta da menina estava meio apertada, mas ela respirou fundo outra vez e estalou os dedos para que Draco retribuísse seu olhar. Ele não mostrava expressão nenhuma.
— Explica, Draco.
O menino estava vermelho, algo que claramente indicava que boa coisa não estava para vir. Ele lançou um olhar significativo para a prima, que deu de ombros; depois manteve os olhos fixos em algum ponto além de Sadie quando começou:
— Sadie, eu... Quer dizer... Ah, dane-se. A Artemis foi passar uns dias lá em casa, e acontece que não foram só uns dias; ela arrumou um emprego em Londres e vai ficar por lá. O negócio é que a gente... Bem, eu... Acho que devia ter falado com você antes, mas...
Ele vai ter que falar. Que é isso, Sadie? Você não vai chorar na frente dele, ah, não vai. Qual é, menina? Algum amor próprio você tem que ter! Respira fundo. De novo. Espera ele terminar a frase.
Nem precisou esperar. Artemis já tinha entrelaçado os dedos com os do garoto e abria um sorriso largo para a loirinha.
— OK então. — Foi só o que ela conseguiu dizer. Depois, ainda colocou uma mão no ombro de Artemis e disse, em tom sarcástico:
— Boa sorte, colega...
E entrou no trem antes que eles percebessem sua voz falhar no fim da frase.
A/N: Esse capítulo foi mais uma ponte do que qualquer coisa, fato. Não gostei muito, mas vá lá; um capítulo novo pra todo mundo ficar felizinho (ou querer me bater por causa da Artemis, err) antes de voltar a estudar. Reviews!
