A/N: Sim, voltamos à ativa! As coisas finalmente se acalmaram e agora dá até pra postar um capitulinho ou outro, quando a autora não estiver estudando loucamente, claro. Enjoy!
Já fazia aproximadamente duas semanas que Sadie e Draco terminaram – na verdade, Artemis terminou a relação pelos dois. Normalmente ela estaria bem melhor agora, mas parecia que a raiva não diminuía. Ficava ótima durante as aulas; ria com Faith Royalmaid e Charlie, arregalava os olhos para os desenhos de Rayvenne, conversava longamente com Karin Chen e Olivia, às vezes até prestava atenção à aula. Mas pela primeira vez na vida, assim que ficava sozinha ou com a cabeça parada, a história toda voltava para ela.
Normalmente, Sadie gostava de ficar sozinha. Pensava em qualquer outra coisa e se distraía consigo mesma. Dessa vez, não era bem assim que estava acontecendo. E toda vez que ela o via, sentia uma raiva estranha; algo que ia parar na garganta e apertava forte, depois se traduzia como uma palpitação desconfortável no estômago.
Era por isso que, naquela noite, a loira resolvera ir visitar as serpentes. Nada como os animais de estimação para acalmá-la. E ela precisava mesmo se acalmar, tendo acabado de voltar do corujal – onde fora mandar uma carta a Demi e encontrara Draco colocando um último PS em sua carta para Artemis.
Depois disso, só o que ela quis fazer foi enviar sua coruja o mais rápido que pôde e caminhar desajeitadamente até a cabana de Hagrid. Depois de algumas batidas frenéticas na porta, presumiu que o guarda-caça não estava lá – só o que lhe restou foi sentar nos degraus e encostar as costas na porta.
Ela suspirou. Achava que já digerira a história inteira, mas seu orgulho não a deixava esquecer de jeito algum. Como todas as vezes em que estivera sozinha desde a volta a Hogwarts, a coisa toda começava novamente a remexer em sua mente. A cena. Artemis, com aquela cara de prepotência e aquele jeito de quem sabe que é muito melhor do que ela para Draco. Claro que ela era! Milhares de vezes mais bonita, obviamente mais rica, vinha da mesma família – e mesmo a parte de eles serem parentes não era nojenta, porque não eram parentes de verdade; Artemis fora adotada pela tia de Draco quando bebê. Até a própria Sadie tinha que admitir que eles formavam um casal muito melhor do que ela e Draco, para começo de conversa.
Ela só preferia ter ficado sabendo disso em um momento mais apropriado do que na frente de todos os colegas em King's Cross. Não que alguém tivesse reparado, mas era humilhante. E foi Artemis quem terminou por ele! E o tonto nem teve a coragem de olhar para ela enquanto isso acontecia. Nem de falar sequer um "pois é".
E agora ela era a boba sentada em frente à cabana de Hagrid – sem ninguém em casa – com as costas apoiadas na porta, e ainda por cima chorando. Sem que ela percebesse, tinha começado a chorar, e a cena ficava mais patética. Enquanto Draco certamente estava na sala comunal da Sonserina, pensando na resposta da prima à carta que acabara de enviar... Ela lá, sozinha, com um caminho de rímel escorrendo pelo rosto.
Algo liso roçou no tornozelo de Sadie, que tomou um susto, mas logo sorriu de leve ao ver sua linda cornsnake albina destacando-se no meio da grama e vindo juntar-se a ela. Os olhinhos vermelhos da serpente a encaravam com alguma preocupação quando ela colocou-a em seu colo.
— Viu? Você é uma serpente em que dá pra confiar, Muffin.
Sadie enxugou impacientemente mais uma leva de lágrimas, enquanto a cobrinha se enroscava em seu braço. Provavelmente, Brownie estava lá perto também, mas a serpente não tinha a mínima paciência para tristeza alheia (fosse humana ou réptil). Já Muffin prestava bastante atenção em tudo o que acontecia à sua volta, e gostava de ficar perto da dona quando essa estava triste. O que era ótimo – principalmente porque Sadie tinha o estranho hábito de conversar com o pequeno réptil sempre que estava transtornada.
— Homem é uma porcaria, Muff.
A cobra não entendia linguagem humana, mas talvez soubesse da história. Fredinho estivera presente quando ela contara a Rayvenne, e o dragão era muito amigo de Muffin desde o ano anterior. Poderia muito bem ter comentado com a serpente.
Ainda ficaram um tempinho lá, Sadie se aquietando aos poucos e Muffin fielmente enredada em seu braço. À medida que ia se acalmando, Sadie percebia a presença da naja negra se aproximando cada vez mais dela, até que Brownie finalmente deu as caras.
— Brownie! Mamãe estava com saudades, linda. — E estendeu uma mão para acariciar a serpente, que mostrou a língua e rapidamente foi se aninhar no colo da dona.
De repente, Muffin se soltou do braço de Sadie e deslizou para algum lugar um pouco mais longe da cabana, enquanto Brownie apenas escorregou e se perdeu no meio da grama. Sadie levantou assustada.
— Muffin, que foi?
Bastou seguir a cobrinha com o olhar e ela percebeu exatamente o que estava errado. Muffin. Um par de sapatos muito bem engraxados. Vestes da Sonserina. E aquele rosto esnobe que era exatamente o motivo de ela ter as bochechas manchadas de rímel naquele exato momento.
A loira cruzou os braços e respirou fundo.
— Boa noite.
O olhar de Draco alternava entre Sadie e a serpente albina que o encarava fixamente, parada entre os dois. Ele tinha uma mão no bolso e a outra segurava a varinha com firmeza, apontando-a para Muffin defensivamente.
— Você esqueceu isso comigo antes das férias. Só lembrei quando fui procurar umas coisas na minha mala hoje de manhã e encontrei isso aqui no fundo.
E puxou do bolso uma gravata azul e prateada da Corvinal, que Sadie esquecera com ele no dia anterior à volta para casa. Ela lembrou-se exatamente do dia em que esqueceu a gravata na sala comunal da Sonserina, e do que estavam fazendo... Seu coração afundou de leve.
— Podia ter mandado a Ray entregar. — Respondeu a loira, amarga. Draco chegou um pouco mais perto.
— Podia. Mas eu queria falar direito com você.
Por que esses olhos dele tinham que ser tão lindos, caramba?
— Joga aí a gravata. — Era mais uma lembrança de Draco que provavelmente ia parar no pescoço de Olivia, que já ganhara o colar das duas cobras no começo do ano letivo – colar que quebrou na semana seguinte, simbolicamente.
Só que, quando Draco foi jogar a peça, Muffin entendeu isso como um ato de agressão, e quando Sadie pegou a gravata no ar, a serpente já estava prestes a mordê-lo.
A partir daí, várias coisas aconteceram ao mesmo tempo.
Muffin mordeu o tornozelo de Draco – não que isso fosse muito preocupante, já que a cobrinha não era venenosa. Mas doeu, e o menino acabou chutando-a vigorosamente. Nisso, antes que Draco pudesse fazer qualquer coisa além de xingar alto, quem veio deslizando sorrateiramente desde atrás da cabana de Hagrid até o menino foi Brownie – mas essa ele viu a tempo. E um feitiço estranho saiu da varinha que ele empunhava e atingiu em cheio a naja negra.
Brownie caiu imóvel na grama, a alguns passos de Draco, e Muffin já havia desaparecido. A menina sentiu o coração despencar enquanto corria para acudir o animal, que estava lá, estendido e inerte.
— Que... Você... O que raios você fez com ela? — A voz de Sadie tremia de raiva e preocupação. — Brownie, abre os olhinhos pra mamãe, abre...
Sadie se ajoelhou ao lado da naja.
— Eu achei que você tinha mandado ela me morder! Só o que eu fiz foi tirar o feitiço!
A garota segurou a cobra cuidadosamente nas duas mãos, suspirando aliviada quando os olhos do animal se abriram. Mas só brevemente. Quando ela olhou para Draco, o menino não parecia nem um pouco preocupado.
— Eu não fiz feitiço nenhum, Malfoy; como é que...
Mas não deu tempo de falar mais nada, porque naquele momento Sadie sentiu algo pontudo fincar-se dolorosamente em seu braço.
Doeu. Doeu muito. Nem quando ela tomou a anestesia para consertar os dois pés – um velho problema que vinha desde a pré-adolescência – alguma injeção já lhe causara tanta dor. A pequena Brownie sabia se defender, sem dúvida. Esse foi basicamente o último pensamento coerente de Sadie, antes que a dor fosse demais... E em alguns segundos a sua visão começou a ficar embaçada, tempo suficiente apenas para ver um borrão em forma de naja negra deslizar para longe. Depois disso, ela estava tão tonta que nem enxergava direito.
A última coisa que Sadie percebeu foi que Draco levantou rapidamente e saiu correndo para longe dela, deixando-a caída na grama, tomada pela vertigem.
Tudo escureceu.
Quando Sadie acordou, as coisas demoraram para entrar em foco e fazer sentido. Estava deitada em algo bem mais macio que a grama, coberta por um lençol... Ala hospitalar? Parecia que sim. O corpo todo estava dolorido, mas nem perto do que ela sentira no momento em que Brownie a mordeu. Ao longe, uma voz familiar falava algo que ela não entendia.
Quando sua visão entrou em foco, ela conseguiu notar que era Olivia conversando muito séria com madame Pomfrey.
—... E quando você acha que ela vai acordar? — Perguntava a menina, os cachinhos pulando em volta do rosto enquanto as duas caminhavam em direção à cama de Sadie.
— Ah, não demora muito. A poção que ela está tomando é bem potente, srta. Cloverfield. Além do mais, já faz três dias que ela não abre o olho.
Caramba, três dias? Bastante tempo. Mas pelo que Sadie havia estudado sobre o assunto logo que encontrou Brownie, ela tinha muita sorte de estar viva – uma picada bem dada de uma naja era capaz de matar um adulto em, no máximo, 45 minutos. E sendo que ela estava sozinha no mato...
— Sadie! — O gritinho animado de Olivia interrompeu seus pensamentos, e ela sorriu quando a amiga se adiantou e a abraçou, com muito cuidado. O que foi bom, porque tudo doía. — Como você tá?
— Eu tô... Eita! — A voz da loira saiu rouca e esquisita, raspando na garganta como se ela tivesse passado a noite anterior inteira berrando. As duas riram de leve. — Eu tô bem, acho. Tô viva.
Enquanto isso, madame Pomfrey pegava da mesa um frasco de aparência maligna e despejava generosamente seu conteúdo arroxeado em um copinho, resmungando alto.
— Uma naja na Floresta... Um absurdo! Eu nem sabia que elas viviam por aqui. Srta. Cottonwealth, sente alguma dor?
— Sinto, mas nada muito forte. Parece que eu passei o dia levantando peso, mas em vez de ser com os braços, foi com o corpo todo...
Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, a enfermeira já estava lhe entregando o copinho de poção, que ela tomou de um gole só. Ruim, mas definitivamente não era a pior poção que ela já bebera.
— Liv, como eu vim parar aqui? — Sadie perguntou, ao mesmo tempo em que madame Pomfrey murmurava um "já volto" e saía de perto da dupla. Olivia chegou perto da amiga e disse, baixinho:
— Quando o Draco atacou a Brownie, a outra cobra foi correndo – bom, rastejando – procurar o Fredinho, que por sorte estava dando uma volta pela Floresta. Aí o Fredinho foi falar com o Fred e a Ray, que te trouxeram pra cá... E, aliás, relaxa. Ninguém mais sabe sobre as cobras nem sobre o Fredinho.
Sadie assentiu, bastante aliviada. A partir daí, a conversa tomou outro rumo, e as duas ficaram um bom tempo batendo papo até madame Pomfrey voltar.
A/N: E aí, o que acharam? Eu poderia ter deixado um cliffhanger lá em cima, mas aí o capítulo ia ficar curtinho demais e não ia ter graça. Deixem reviews para uma autora que vai passar o resto da tarde estudando Geografia ;D
