Sexta-feira, véspera do dia de ir a Hogsmeade.

Já eram umas nove da noite quando Sadie, sentada na sala comunal com o livro de Astronomia no colo, resolveu que podia não ter estudado o suficiente, mas não ia ficar olhando para aquela teoria nem mais um segundo. Fechou o livro com um barulho que fez algumas cabeças se voltarem para ela, e não se passaram dois segundos até que a porta se abrisse. Duas garotas entraram – uma cujo cabelo agora era de um tom enjoativo de verde-amarelado, e outra mestiça, usando a costumeira maria-chiquinha.

Ô, saco! Pensou a loira, indo guardar o livro no dormitório e suspirando alto quando Kia e Hannah foram também. As duas sentaram-se na cama de Kia, que abriu uma gaveta do criado-mudo para mostrar alguma coisa à colega.

— Ô Hannah. — Sadie chamou, sentada em sua própria cama, enquanto guardava o livro. — A Olivia tá na sala comunal, por acaso?

— Quando a gente saiu, ela estava chegando.

Sadie assentiu e saiu do dormitório.

Quando estava chegando à sala comunal da Grifinória, uma figura saltitante de cabelos cacheados atropelou-a para fora do quarto da Mulher Gorda e puxou-a pelo pulso. Demorou alguns segundos para Sadie perceber que era Olivia.

— Liv! O que raios tá acontecendo?

Enquanto isso, a loira corria atrás da pequena amiga, que saía apressada pelos corredores de Hogwarts em direção à torre de Astronomia. Não dava para entender o porquê da pressa, mas dava para ver que não era nada ruim – Olivia tinha um grande sorriso no rosto.

— Eu recebi uma carta ontem... Falava pra estar na torre de Astronomia hoje às nove e meia! — Explicava a morena enquanto se aproximavam da torre.

— Carta de quem, criança?

— Você vai ver! Ela pediu pra trazer você também; foi bom que você apareceu, senão eu ia ter que te buscar na sala comunal!

Chegaram à torre e nada. Olivia fez um biquinho de decepção e sentou-se com a amiga no chão. Ainda confusa, a loira encarou-a e pediu explicações, mas só recebeu como resposta umas risadinhas.

As duas ficaram encarando o céu estrelado por um tempo, até que, ao longe, uma figura azul-clara voava em direção à torre em alta velocidade.

Bonsoir, mes petites!

A vassoura da francesa Demi Chienbeau acabara de pousar, e em poucos instantes a menininha de uniforme azul estava sendo quase enforcada pelas duas amigas inglesas.

Demi riu.

Sacre bleu! Do jeito que vocês estão, parece que eu fiquei fora por um século... E aí, meninas? A última coisa que eu soube foi que colocaram minha carta pendurada e gigante na festa do Halloween...

Naquela noite, Demi, Olivia e Sadie passaram um bom tempo na sala comunal da Grifinória, até cansarem de tanto falar. A francesinha ficou sabendo de todas as histórias, desde a AD até o acidente de Sadie com a cobra – que ela não havia contado em nenhuma de suas cartas – e contou às amigas várias notícias de Beauxbatons.

— ... De qualquer forma, eu realmente preciso passar em Hogsmeade amanhã pra comprar umas coisas que só dá pra encontrar aqui. Vocês fazem idéia do quanto eu rodei por Alençon tentando achar as coisas da Zonko's? E eu ando precisando meio urgentemente.

— Por que você precisaria urgentemente de logros e brincadeiras?

— Sabe o Chathomme e os amigos dele? Mon Dieu, eles ficaram chatos. Não param de encher o nosso saco na aula um minuto. Acho que uma ou duas Varinhas Explosivas poderiam pelo menos calar a boca deles um pouco...

As três riram.

— Pequena Demi Chienbeau, agora em versão vingativa!

— Isso mesmo, Liv. Nossa! — a loirinha olhou para o relógio. — Se a gente tem algum plano de ir cedo amanhã, acho que era melhor dormir, né?

E realmente precisavam; já passava das duas da manhã. Demi deitou-se no sofá e puxou o casaco azul sobre os ombros; Olivia se despediu e subiu para o dormitório, e Sadie se encaminhou para o dormitório da Corvinal. Já estava bem cansada e conseguia quase ouvir a cama a chamando...

Quando despencou, seu último pensamento foi que aquele fim de semana ia ser muito bom.


Londres.

Uma mão cuidadosamente manicurada escrevia com muita pressa, a letra grande e quase ilegível. Tinha pouco tempo, ela sabia disso.

Mon cher,

S'il vous plaît soyez prudent. Il n'aura pas fallu longtemps avant qu'elle ne survienne. Soyez prêt, apprennent à se battre et ne pas entrer dans toute sorte d'ennuis inutiles. Si ce que vous dites est vrai, il ne sera pas facile de les vaincre. Ils ont appris avec Potter et ils sont prêts. Ne pas mourir jusqu'à ce que nous nous reverrons; tu me manques trop, mon petit.

Votre cousine préférée

Conversava em francês com o primo desde que eram bem pequenos. Era um costume antigo dos dois, e mesmo em tempos difíceis, não o esqueciam. Agora, tinha um motivo a mais para não o esquecerem: as cartas de e para Hogwarts estavam sendo inspecionadas, muitas delas por Argus Filch – que batia o olho em uma língua estrangeira e ficava com preguiça de ler.

A escola estava sendo controlada pelo lado deles – o lado dos Comensais da Morte, de Dolores Umbridge, de Lord Voldemort. Mesmo assim, havia revelações que não estavam prontas para serem feitas até o momento apropriado.

— Artemis! Sai daí e vem me ajudar com esse feitiço!

Ela enfiou a carta em um envelope e entregou-a à coruja que já estava pronta para sair, empoleirada em sua janela. A tia de Artemis entrou no quarto enquanto o animal ainda não havia desaparecido no horizonte.


Sadie encontrou Rayvenne, Demi, Olivia e os gêmeos Weasley na porta da escola, logo após o café da manhã. Era lá que haviam combinado de se encontrarem para irem juntos a Hogsmeade; quando Sadie chegou, o único que faltava era Charlie. Grande novidade.

Foi conversar com Olivia, Demi e George enquanto esperava; Fred e Rayvenne estavam ocupados de outro modo.

— Sadie! Adivinha o que a gente vai fazer hoje? — Olivia estava visivelmente empolgada. Sadie não pode deixar de notar que ela estava usando uma roupa azul que combinava com o uniforme da francesa.

— Hmm... Comprar alguma coisa na Zonko's pra encher o saco dos colegas da Demi, depois tomar uma cerveja amanteigada?

— Não! Tomar uma cerveja amanteigada depois de ir para o Beco Diagonal pela rede de Flu e comprar vários artigos pra encher o saco dos colegas da Demi... Na loja dos gêmeos!

Ao lado da morena, George sorria orgulhosamente. Sadie não teve dúvidas e pulou para dar-lhe um grande abraço, que ele retribuiu meio rindo, meio surpreso, e brincou:

— OK, o que você vai fazer comigo quando vir a loja?

— Pro seu bem, é melhor que nem encoste. — Uma voz grossa reclamou. Sadie ainda estava abraçando George quando viu Hannah se aproximar deles, dessa vez com sua moita de cabelos roxos presa em um rabo-de-cavalo. A loira revirou os olhos e demorou um pouquinho mais para soltar o amigo, só de birra. Hannah grudou-se nele imediatamente.

— A loja já tá pronta, George? — Perguntou Sadie, mas antes que o ruivo respondesse, Demi interveio com um sorriso:

— Quase. Não abriu ainda, mas como eu vou embora hoje à noite, ele e o Fred não iam perder a chance de vender logros e brincadeiras em uma quantidade massiva para moi...

— Ouvi meu nome em vão? — A voz de Fred soou do canto onde ele estava com Rayvenne. Sadie só riu.

— Volta para o que estava fazendo, Weasley...

E ele voltou.

Foi logo depois disso que Charlie chegou, e os oito caminharam juntos para Hogsmeade.


Mi casa, su casa! Ou o que quer que digam na França.Enunciou Fred, com uma mesura exagerada, indicando com a mão a porta de uma loja que realmente não podia pertencer a ninguém mais. Nas janelas havia mais coisas brilhantes, pulantes e explosivas do que a casa de bonecas que Haley enfeitiçara só para si, e isso era bastante. Antes que entrassem, George completou:

— Não está perfeito ainda, OK? Tudo que a gente colocou na prateleira é seguro, mas se entrarem na área restrita, é por sua conta e risco...

E agitou a varinha, abrindo as portas.

Você, leitor, certamente já foi criança. Imagine que, naquela época, seus pais o levaram a uma loja de brinquedos antes que ela abrisse, para que só você e os seus amigos pudessem dar uma olhada em tudo.

Não importa que as "crianças" dessa história tivessem dezesseis anos ou mais; quando eles entraram na loja, foi exatamente a mesma coisa, inclusive no mesmo volume.

Sadie correu para a prateleira de penas com correção ortográfica e outros produtos para escola, incluindo o Kit de Matar Aulas com os já conhecidos doces que deixavam o aluno doente pelo tempo exato de sair de uma aula particularmente chata.

Demi encheu as mãos na seção de explosivos – havia tudo, desde varinhas que estouravam na cara do usuário até penas que soltavam centelhas verdes que cheiravam estranhamente a açúcar queimado.

Charlie e Rayvenne não paravam de jogar o jogo da forca reutilizável, em que um bonequinho de madeira subia vários degraus até se enforcar de verdade; umas duas vezes erraram de propósito, só para ver o boneco se matar.

Hannah não saía da área dos cosméticos, analisando aqueles que continham os feitiços para mudar a cor do cabelo. Também ficou interessada em alguns bichos de pelúcia com personalidade, mas logo voltou à linha Wonderwitch.

Quando saíram, os bolsos dos gêmeos haviam engrossado um bom tanto e cada um tinha uma sacola nas mãos – Demi, inclusive, tinha várias. Usaram a Rede de Flu para chegar à lareira de uma pequena loja de roupas em Hogsmeade, e de lá caminharam até Hogwarts tranquilamente.

Sim, tudo estava muito tranqüilo.

Até agora.


A/N: Sente a música de fundo dramática no fim, hein! Uma vibe meio "Law and Order" pra terminar o capítulo. Já tenho várias idéias para o próximo, graças à minha amiga Vivis... Se vocês deixarem reviews, eu escrevo mais rápido, que tal?

AH! Quanto à carta da Artemis, não, não será traduzida ainda... Metade porque eu não tô a fim, e metade porque eu sei que vocês têm preguiça de botar no Google tradutor, e assim aumenta o suspense :)