Sadie não estava gostando nada da situação, mas tinha que ir em frente. Se ela não distraísse a Brigada Inquisitorial, a saída dos gêmeos seria muito mais complicada, talvez até não pudesse acontecer. Então era hora de ela simplesmente engolir o que quer que estivesse sentindo – ela própria não tinha muita certeza – e fazer o que devia ser feito.
Não significa que fosse exatamente fácil fazê-lo, mas ela tinha um plano.
Por isso mesmo Sadie juntou a coragem que tinha, respirou fundo e foi até a sala comunal da Sonserina, logo depois de avisar Charlie aonde iria – o menino avisaria os gêmeos. Na dúvida, informou Kia também; sabia que Charlie fazia as coisas num ritmo tão lento que não podia deixar só nas mãos dele. Enfim, entrou na sala comunal.
Lá estavam Draco e os amigos, batendo papo tranquilamente. Ela não gostava de chegar perto dele; o garoto ainda era bonito demais e arrogante demais para seu gosto... E a memória não dava um tempo. Fora que a nova Marca no braço dele não era algo a se desprezar.
— Malfoy. — Ela manteve o tom mais inexpressivo que pôde, olhando nos olhos dele com o que ela esperava que fosse neutralidade. Malfoy retribuiu o olhar com desprezo e uma sacudida do cabelo para tirá-lo dos olhos.
— Fala logo que eu já tô de saída, Cottonwealth.
— Podemos falar em particular? — Mantém o tom educado. Ele pode ser um idiota, mas pelo menos não vai ter o que falar contra você, pensou a loira, com as mãos nos bolsos e os punhos bem fechados.
— Não.
E virou as costas, já levantando para sair. Sadie engoliu a raiva e foi até ele, cutucando-o no ombro e dizendo com firmeza, mas em voz baixa:
— Então a gente vai falar aqui mesmo. O que raios você fez com a minha Brownie, hein, Malfoy?
O menino suspirou e revirou os olhos.
— Já falei. Achei que você tinha botado um feitiço nela pra ela me atacar, então fiz uma reversão e parece que reverti mais do que devia.
Dizendo isso, Draco se virou de novo; Sadie já estava perdendo a paciência. Esticou uma mão e puxou fortemente o ombro do menino, ao que ele fez meia-volta e agarrou o pulso da loira com o dobro da força que ela estava usando.
— Me larga. — Isso foi ele quem disse, entre os dentes. Sadie engoliu em seco e tirou a mão do ombro de Draco como se ele estivesse pegando fogo. Os olhos dele estavam diferentes de qualquer outro momento em que ela os tivesse visto – nenhum traço do antigo Draco que a conheceu aos doze anos e tinha olhinhos azuis e divertidos. Não, esse era um garoto diferente, o mais novo Comensal na equipe de Voldemort.
Aquele que tinha um crânio tatuado no mesmo braço que estava quase cortando a circulação do pulso de Sadie.
— Já larguei. — Ela desafinou no fim da palavra. — Agora você.
— E se eu não quiser?
Só de pirraça, ele apertou mais forte, e realmente começou a doer.
— Draco, eu só quero saber como consertar a Brownie. Não tô encontrando o feitiço que eu tinha feito nela. Se você não souber — ela desafinou novamente quando o menino torceu de leve seu braço — não tem problema, só falar. Eu só queria consertar minha cobrinha.
Então, inesperadamente, Draco sorriu. Não o sorriso de antes, de covinhas, mas um esquisito; os olhos estavam estreitos.
— Você é tão inocente que enjoa, Cottonwealth. — Disse, numa voz mansa, o tom ao mesmo tempo divertido e perigoso. — Acha mesmo que eu ia acreditar nessa cara de pôquer que você acha que consegue manter tão bem? É patético. Patético. Sabe o que mais é patético?
Mais uma torcida, pouca coisa mais intensa que a anterior, só o suficiente para doer um bocado. Realmente, a cara de pôquer estava começando a se desfazer, mas ela ainda tentou continuar impassível.
— Você é exatamente tão fraca quanto eu pensava. Poderia simplesmente ter ficado com aquela maldita gravata pra você, no dia em que eu te devolvi... Mas não, você não conseguia usar algo tão cheio de memórias. — Ele continuou num tom enjoado. — Teve que dar a gravata pro Phillip Aisledoor. Exatamente como eu imaginei que daria. E foi pela tal gravata enfeitiçada que eu descobri da sua organização secreta... Só porque você foi sensivelzinha demais pra não se desfazer de uma porcaria de uma tira de tecido que por acaso fui eu quem tirou do seu pescoço a última vez. É tudo culpa sua, Cottonwealth, a gente ter descoberto. E eu já estava contando com isso. Isso é o quão fraca você é.
Assim que ele disse isso, irrompeu no corredor uma algazarra. Vozes do que pareciam dezenas de alunos riam, exclamavam e algumas até emitiam gritinhos... Draco soltou o pulso da loira, para seu alívio, mas ela ainda se manteve imóvel enquanto ele saiu para ver o que havia acontecido, com a Brigada Inquisitorial em seu encalço.
Pelo lado bom, tinha conseguido distraí-lo tempo suficiente para que os gêmeos completassem seu plano; agora era só eles voarem para longe de Hogwarts.
Pelo lado ruim, acabara de perceber que tudo o que Draco disse era verdade. Era realmente culpa dela a organização não existir mais. Era culpa dela eles terem sido descobertos. Tudo porque não teve coragem de usar a porcaria da gravata porque tinha memórias... E agora olha aí.
Sadie já era uma meio que intrusa no grupo, para começo de conversa; sendo a única (a não ser por Olivia) que não participava da AD, e tendo começado a falar com todos eles muito do nada – ironicamente, por intermédio de Hannah. Mal entrara, já estava causando todo esse estrago. E não tinha como reverter.
Ainda demorou um pouco para Sadie sair da sala comunal e seguir o fluxo de alunos curiosos em direção a uma parte do castelo em que vários estudantes se amontoavam em volta de Umbridge, Fred e George. Os gêmeos, de cabeça baixa, podiam parecer arrependidos para quem não os conhecesse direito, mas Sadie sabia que eles estavam só tentando segurar o riso.
A loira se misturou à multidão que assistia à cena e rapidamente encontrou Rayvenne; era a única criatura minúscula com cabelos loiros passando da cintura. Ao lado dela, Kia e Satine comentavam alguma coisa e riam; Rayvenne estava calada, encarando os gêmeos fixamente com o mesmo olhar parado e triste que tinha constantemente no quinto ano.
— Isso era parte do plano, né? — Sadie perguntou à amiga, que fez que sim com a cabeça. Umbridge estava chegando ao fim de seu discurso, Filch se aproximando com a chibata em mãos e uma cara de antecipação que dava medo.
— Sabe, George... Eu sempre achei que nosso futuro ia além do acadêmico.
— Estava pensando a mesma coisa, Fred. Accio vassouras!
E antes que acontecesse qualquer outra coisa, as vassouras e Fredinho vieram voando direto para os Weasley, que logo sumiram no ar em meio a gritos de comemoração e fogos de artifício.
Sadie não pôde deixar de se sentir extremamente orgulhosa dos amigos. Aliás, não só ela, mas o sentimento geral entre os alunos era esse; todo mundo comemorando a libertação dos gêmeos preferidos de quase toda Hogwarts.
Quando ela olhou para o lado, viu que Rayvenne também estava sorrindo, mas com a expressão mais triste que Sadie já vira. A loira mais alta colocou um braço em volta dos ombros da amiga, que disse, baixinho:
— Eu tô bem...
— Tá com a sua cara de quinto ano. — Sadie respondeu.
— Eu vou ficar bem.
— Quer ficar lá na sala comunal comigo um pouco? Eu já vou matar a próxima aula de qualquer jeito...
Rayvenne deu de ombros e as duas amigas subiram para a sala comunal da Corvinal, onde ficaram se revezando entre bater papo e ficar longos períodos em silêncio, cada uma pensando em seu próprio drama. Rayvenne aproveitou para contar à amiga toda a história dela com Fred; tinha passado um bom tempo sem querer falar no assunto e nesse meio-tempo só Kia e Satine souberam da coisa toda.
Sadie resolveu não comentar nada do que Malfoy tinha dito. Normalmente despejava todas as histórias em cima da amiga, mas dessa vez nada de bom viria disso; não devia ser só Draco quem já tinha percebido que ela só estava trazendo prejuízo para o pessoal do Galinheiro e da AD. Naquela hora, ela não estava muito a fim de saber quem compartilhava essa opinião.
De duas coisas, porém, ela tinha certeza.
A primeira era que Draco estava certo; era recomendável que ela se afastasse um pouco do Galinheiro por enquanto – pelo menos até que as coisas se acalmassem. Bem que Hannah, Kia e Gary iam gostar bastante disso.
A segunda era que não conseguiria fazer isso, por mais remorso que sentisse. Naquele pouco tempo de convivência, o Galinheiro se tornara sua casa – uma casa que acolhia todo mundo, até a loira esquisita e meio egocêntrica que criava cobras e não sabia ficar de boca fechada nem guardar as coisas que lhe devolviam.
E enquanto a casa ainda a acolhesse – e a agüentasse – ela não iria embora.
A/N: Esse capítulo não é um dos que eu mais gostei, mas estava com vontade de escrever... Acabei resgatando um monte de coisa e o texto ficou meio confessional e esquisito. Bom, gostando ou não, comentem! E desejem sorte na FUVEST pra mim e pros outros personagens de SDH e SBB :)
