A/N: Muitos capítulos seguidos, né? É que estudar me deixa morrendo de vontade de escrever, o que fica ótimo pra quem acompanha a fic e péssimo pra minha concentração xD OK, sem mais delongas, capítulo!


Já fazia vários dias que Sadie estava naquele porãozinho empoeirado nos confins da Mansão Malfoy. Tudo bem que as contas dela eram qualquer coisa menos exatas; estava tentando medir o tempo pelo número de vezes que o elfo doméstico viera ao porão trazer uma garrafinha de uma poção esquisita, que mandava Sadie tomar.

Primeiro ela só ficou olhando para a garrafa, desconfiada. Não achava que o intuito da poção fosse matá-la – era meio inútil seqüestrar a garota para matá-la envenenada, afinal de contas. Mas podia ter literalmente qualquer coisa naquele vidrinho. Foi o elfo quem acendeu as luzes – quatro tochas, uma em cada canto do lugar – e desfez o encantamento que atava as mãos da menina, grunhindo:

— Deixa de ser fresca. É poção nutritiva. Mestre Lucius não quer gastar boa comida com sangue-ruim, mas você não é útil pra ele se morrer de fome.

Sadie não tinha muita escolha. Deu um gole do frasquinho e constatou que realmente tinha gosto de glicose, e estava mesmo com o estômago roncando, então mandou ver. Podia ser imprudente da parte dela, mas de qualquer forma era melhor não causar confusão enquanto estava à mercê dos Malfoy.

Glicose coisa nenhuma, ela constatou na primeira vez em que bebeu, já que dois minutos depois a poção a fez capotar pelo que ela concluiu que foram pelo menos quatro horas. De certo modo, era até melhor assim; quanto mais dormia, menos via o tempo passar...

O estado da menina era um caso à parte. O pijama estava poeirento, o cabelo, oleoso e embaraçado, e ela estava suando um bocado naquele porão quente. Ficava ainda mais quente com as tochas acesas, mas a alternativa era ficar lá no completo escuro sem enxergar as criaturinhas que rastejavam por aí, então ela aceitava de bom grado o calor extra.

E tinha criaturas. Ainda bem que, graças a Brownie e Muffin, Sadie perdera o medo de ratos (já que tinha que dá-los às cobras para elas comerem), então nem ligava para a pequena família de roedores que dividia o local com ela. O problema eram as aranhinhas que se refugiavam na parede e surgiam do nada. Sadie gostava muito de aranhas – quando sabia muito bem de que espécie elas eram, onde elas estavam e o quanto estaria ferrada se levasse uma mordida... Sobre as inquilinas do porão, não sabia nenhuma dessas três coisas, então morria de medo. Eram umas quatro ou cinco aranhas pretas de pernas curtas, mais ou menos do diâmetro de uma moeda de um galeão, e a mãe era bem maior – tinha quase o tamanho de um pires. Sadie resolveu que dormiria bem longe da parede que elas habitavam; preferia acordar ao lado de um ratinho do que com um aracnídeo andando pelo rosto.

Pensou por um instante em levar uma delas para Hogwarts, escondida, e dar de presente para Gary Gardner, mas foi uma cogitação momentânea só para se distrair um pouco.

No tempo que passou acordada, Sadie pensava basicamente em três coisas. A primeira era um jeito de fugir – não conseguia encontrar nenhum, por mais que cogitasse. A segunda era o que aconteceria com ela. Os Malfoy não podiam deixá-la em sua casa para sempre... Quando finalmente a soltassem, ela duvidava muito que fossem fazer isso sem mais nem menos. E o "mais" e o "menos" não seriam muito agradáveis.

A terceira eram os amigos em Hogwarts. Será que estavam pensando em algum jeito de recuperá-la? Será que Draco, Crabbe e Goyle estavam pensando em levar mais alguém? Será que já não tinham levado, mas para um lugar diferente? Se ela era a "isca", como Draco dissera, então era melhor que os amigos nem tentassem ir atrás dela. Mas alguém acabaria indo.

E aí as coisas iam ficar complicadas.


Chéri,

J'ai pensé ... Tu ne peux pas rentrer à la maison ce week-end? Parlez-en à Umbridge, je suis sûr qu'elle va dire oui. J'ai quelques idées sur ce que nous pouvons faire avec cette chose vous a amené à la maison.

J'ai parlé à votre père et qu'il est d'accord. Il veut juste vous faire les honneurs, mon amour.

Art

(Querido,

Andei pensando... Você não pode voltar para casa esse fim de semana? Fale com a Umbridge, tenho certeza que ela dirá sim. Tenho algumas idéias sobre o que podemos fazer com aquela coisa que você trouxe para casa.

Falei com seu pai e ele concorda. Só quer que você faça as honras, meu amor.

Art)

Draco leu a carta, no corujal mesmo, e sorriu. Sabia mais ou menos do que a prima estava falando, e não podia concordar mais. Também achou bom o pai ter deixado que ele cuidasse do assunto; fazia um bom tempo que estava a fim.

Mas talvez devesse esperar um pouco. Só talvez.

É claro que ele podia voltar para casa; tinha Umbridge na palma da mão.

O sorriso do garoto se alargou ao imaginar a situação. Enviou um "me espere amanhã" em resposta e foi para a próxima aula quase saltitando.


Sadie acordou de sua soneca induzida pela poção com um guincho agudo ao lado de sua orelha. Abriu os olhos e deu de cara com o ratinho maior, olhando para ela com interesse.

Com alguma dificuldade, ela se ergueu e conseguiu sentar. A hora de beber a poção era o único momento do dia em que Sadie tinha as mãos desatadas, o que significa que ela dormia e acordava com os pulsos juntos... Não era a situação mais confortável do mundo.

Ouviu passos vindos da escada e tomou um susto. Susto muito merecido, já que a pessoa que descia era uma moça muito bonita, de cabelos escuros, olhos azuis e corpo perfeito.

Artemis!

A prima – namorada? – de Draco desceu as escadas olhando fixamente para Sadie com a maior expressão de desprezo e nojo que ela já vira. Provavelmente era justificável; ela estava mesmo parecendo... Bom, parecendo que não tomava banho havia alguns dias.

— Não vai dar bom-dia, Cottonwealth? — Ela sorriu, presunçosa.

— Seu priminho não me deixa falar. Não achei que você fosse diferente.

Artemis se aproximou de Sadie e olhou para ela com cara de quem estava achando muita graça na situação.

— Bom, eu vou deixar por enquanto. Vim contar as boas novas.

Ela só ficou olhando para a moça, que agachou para fazer contato ocular. Artemis sorria um belo sorriso de dentes muito brancos.

— Sabe, Cottonwealth, você pode ter certeza de duas coisas. — Começou Artemis, estudando cuidadosamente a reação da loira. — A primeira é que já tem data marcada pra sair daqui. Mais ou menos como um peru de Natal, se for pensar bem.

Sadie ergueu uma sobrancelha. Se era uma metáfora, ela não estava entendendo.

— É loira mesmo... Deixa eu desenhar para você entender. Um peru de Natal tem dia marcado para sair de... Bem, de onde quer que fiquem os perus vivos. E ele tem data marcada para sair porque também tem data marcada para morrer. O que, aliás, é a segunda coisa que eu ia te contar.

Ah.

Ah.

Então era assim.

Ela ia morrer. Como? Provavelmente um Avada Kedavra bem mandado. Quando? Pela cara de satisfação de Artemis, em muito pouco tempo. Com certeza ela morreria na frente dos amigos quando eles viessem resgatá-la, já que o único motivo de ela estar trancafiada lá era servir de isca.

Então era assim que acabavam as coisas. Não numa grande batalha épica ou com uma bela mordida de naja negra, mas sendo refém da família do seu ex. Não com presas enfiadas na carne, mas com uma varinha apontada para sua cabeça.

Artemis parecia felicíssima em ver todos aqueles pensamentos quase estampados na testa de Sadie, de tão óbvio que era seu transtorno. Parecia que um alçapão fora aberto logo abaixo da garota, e ela estava despencando. Ia morrer mesmo. Igual aos livros de crime que ela vivia lendo.

— Quando? — Perguntou, com a voz falha.

— Não interessa. Mas não demora muito, pode ficar sossegada. E aliás...

A morena enfiou a mão no bolso dos jeans perfeitamente ajustados e sacou uma varinha, que apontou para Sadie enquanto murmurava um feitiço.

De repente, Sadie sentiu algo meio diferente. O pijama estava limpo; os cabelos, nada oleosos, e ela não estava mais suada. Olhou para Artemis com uma expressão confusa.

— Só porque o seu sangue é sujo e nojento, não significa que você também tenha que estar suja e nojenta quando morrer. Vai ser bem mais agradável segurar o seu cadáver e exibir ele para os seus amiguinhos se ele estiver no mínimo limpo.

A loira engoliu em seco. Terminando de falar, Artemis sorriu de modo simpático e virou-se para subira a escada. A porta se fechou com um estrondo atrás dela.

Sadie não conseguia se mexer, mas não era só por causa do feitiço que a mantinha amarrada. Não sabia nem o que pensar. Então estava muito próximo mesmo o último momento. Ela estava chocada demais até para chorar.

Sabe aquele momento em que você percebe que tudo vai dar errado, da pior maneira possível, e você não tem a mínima possibilidade de se livrar?


A/N: É, camaradas... As coisas estão ficando bem feias para o lado da Sadie. Agora eu tenho que esperar pelo próximo capítulo da Rayvenne, então tenham paciência conosco, OK? E deixem reviews!