Sadie não conseguia nem processar o pensamento direito.

Em vez disso, tentou não focar a mente nela mesma e pensar em qualquer coisa – qualquer coisa – para pelo menos se acalmar. Sentia vontade de chorar, mas ao mesmo tempo... Não havia como descrever direito; Sadie estava completamente travada. A mente a mil, o corpo imóvel.

Quando era criança e lia livros de terror, pensava muito em como seria morrer. Era uma possibilidade tão distante que era até engraçado imaginar. Lá pelos oito anos, pensava que morreria aos cinqüenta – uma idade que para uma garota de oito anos era longínqua; parecia que não chegaria nunca...

Mal sabia Sadie que acabaria morrendo aos dezesseis.

Havia tanta coisa que ela não tinha feito! Não pensou nem em nada muito grande; ainda teria uma vida inteira que não seria concluída, mas não era esse seu foco. Eram as pequenas coisas que passavam pela sua cabeça, coisas muito bobas e aleatórias, mas que faziam diferença. Ela achava.

Nunca mais ia brincar com Olivia de encontrar músicas para qualquer palavra que lessem na aula. Nunca mais ia ver Demi e aprender francês com ela. Qualquer esperança de conversar normalmente com Kia – ou chutar os traseiros de Hannah e Satine – também podia ser descartada, dessa vez definitivamente. Nunca tinha dito a Charlie o quão grata ela era por tudo que já acontecera com os dois. Ir à loja dos gêmeos Weasley de novo, então, nem pensar. Não iria ao show da banda que ela, Rayvenne, Brendan e Johnathan adoravam e sabiam todas as letras. Não veria Haley entrar em Hogwarts no verão seguinte e não iria a King's Cross para levar Benjamin e Elanor, três anos depois. E era a hora errada para lembrar que tinha perdido um livro de Karin Chen? Ou que não ajudaria Faith Royalmaid com a lição que ela pedira na semana anterior? Ou que ainda tinha um lápis amarelo que ficara de devolver a Gary Gardner em maio?

O ratinho mais gordo da família que morava no porão aproximou-se de Sadie, franzindo o nariz e arregalando os olhos. A loira conseguiu um pequeno sorriso.

— Você também já teve um humano idiota querendo te matar, né? — Falou. Você sabe que as coisas vão mal quando já começou a falar com os ratos do porão.

O bicho guinchou em resposta e Sadie completou o pensamento.

Você sabe que as coisas vão pior ainda quando você fala com os ratos do porão... E eles respondem!


Artemis levantou da poltrona e fechou o livro ao ouvir os passos de Draco entrando na biblioteca. Cumprimentaram-se em silêncio, com um beijo de fazer inveja a muito ator de novela.

Je t'ai manqué trôp... — Suspirou a moça, com os dois braços em volta do pescoço de Draco. Apesar de três anos mais novo, ele tinha a mesma altura da prima, desconsiderando os saltos baixos que ela estava usando naquela tarde.

— Também estava com saudades, Art. Escuta... E a situação?

— Tudo sob controle, só estava esperando você. Aliás, eu e o seu pai temos um debate corrente... Eu acho que a gente deveria levar ela já morta pro Departamento de Mistérios, mas ele prefere matar a menina só na frente dos coleguinhas. Sua mãe disse que tanto faz. Ou seja... Você vai desempatar.

Draco pensou um pouco, enquanto segurava a mão da prima e a conduzia para a poltrona, onde ela se acomodou em seu colo.

— Hmm... Seria mais seguro levar ela morta mesmo. — Ponderou o menino.

— Era o meu argumento também.

— Mas que vai ser bem legal ver a cara daquela gentinha quando a gente matar a garota... Pensa.

Artemis fez cara de quem não gostou nem um pouco da idéia. Não conhecia os colegas de Draco e queria eliminar Sadie o quanto antes; detestava a garota desde a primeira vez que Draco a mencionara.


Era mais um verão molhado em Londres. Artemis Malfoy, com seus quinze anos, chegou à casa dos tios sob uma chuva forte, mas alegre. Morria de saudades do primo, com quem já fazia dois anos que ela não passava o verão inteiro, tendo que contentar-se com uma única semana e uma festa de Natal por ano.

Draco também estava com saudades dela, tanto que foi ele próprio quem atendeu a porta quando ela tocou a campainha. Deram-se um longo abraço e já correram para o quarto do menino – arrastando junto a mala de Artemis – para pôr em dia as novidades que as cartas não contavam com a devida ênfase.

— E aí, o que me conta? Você disse que tinha uma notícia...

— Acho que você não vai gostar muito, Art. — Disse o menino, olhando fixamente para os próprios joelhos. Draco parecia meio envergonhado; Artemis o encarou, confusa.

— Tanto faz se eu vou gostar ou não. Conta logo.

— Eu estou... Digamos que namorando uma menina da escola.

Artemis começou a rir e tomou uma das mãos do primo, de certo modo aliviada. Já fazia tempo que Draco estava de olho nessa ou em outra menina, mas nunca ouvira o menino usar a palavra "namorar" antes, pelo menos não falando de si mesmo. Estava orgulhosa. Mas por que ela acharia ruim?

— Draco, isso é legal! Quem é ela? Uma das irmãs Greengrass? Sempre imaginei você com uma Greengrass.

— O nome dela é Sadie Cottonwealth.

O sorriso de Artemis diminuiu enquanto ela tentava se lembrar do sobrenome e não conseguia identificá-lo de modo algum.

— Sonserina?

— Corvinal.

Mais uma vez, Artemis se decepcionou. Não era tão ruim como seria se a garota pertencesse à Lufa-Lufa ou Grifinória, mas os Malfoy não se relacionavam com ninguém fora da Sonserina havia eras! E se o sobrenome da menina era desconhecido, e ela era uma corvinal...

— Draco. — Agora o tom da menina era sério, entre a preocupação e a reprovação. — Diz que essa menina é puro-sangue. Por favor.

Permaneceram um instante em silêncio, Draco ainda olhando para os joelhos e Artemis ficando cada vez mais irritada.

— Draco?

— Ela é meio-sangue, mas no caso da Sadie dá quase na mesma! O pai dela era trouxa, mas morreu quando ela ainda era bebê; o Cottonwealth é da família da mãe! Acho que ela nunca nem falou com a parte trouxa da família, Art!

— E antes de Hogwarts...? — A garota não fazia a mínima questão de conter seu desapontamento.

— Escola trouxa. Um tal de colégio Charles Darwin.

Artemis franziu o rosto, depois levantou-se de repente e arrastou consigo a mala, quase correndo em direção ao quarto de hóspedes.

Draco sabia que não deveria ir atrás dela. Provavelmente a menina estava esperando a raiva passar e desfazendo as malas – não gostava que os elfos domésticos mexessem em suas coisas pessoais – e o melhor a fazer era não atrapalhar. Mas passaram cinco, dez minutos, e nada.

O menino se dirigiu ao quarto de hóspedes e bateu na porta. Ainda teve que esperar um bocado até que Artemis abrisse a porta só o suficiente para colocar a cabeça para fora e perguntar muito secamente:

— Essa Sandy é bonita, pelo menos?

— Sadie. Ela é... Bem, é loira e tem olhos azuis, mas é gorda.

— E é legal?

— Isso ela é. Apesar de não andar com, sabe, o nosso tipo de gente.

— DRACO! Com quem anda a sirigaita?

— Olivia Cloverfield, Rayvenne Goldenwing, os gêmeos Weasley…

À menção desse último nome, Artemis bateu a porta com força.


— Ah, deixa eu matar ela hoje, vaaaai? S'il vous plaît?

Draco pensou um pouco, mas a prima logo baixou a cabeça para encostar a boca na dele e expôs um ótimo argumento.

— Juro, Art, se você não fosse tão persuasiva... — Ele riu, ainda tentando recuperar o fôlego.

— Então posso?

— Faz isso de novo, que aí você pode matar quem quiser.

— Às ordens...


A/N: Bom, crianças, desculpem a demora. E esse capítulo é honestamente um grande enchedor de lingüiça, mas o próximo será mais legal, juro! Deixem reviews e sejam pacientes, gafanhotinhos :)