A/N: Demoramos, né? Desculpa! Dessa vez não foi nenhuma grande crise existencial, não; foi que a Ray está na faculdade e eu no cursinho, e a vida anda muito atarefada. Enjoy!
Era a primeira noite que Sadie passava em Hogwarts depois de voltar do confinamento na casa dos Malfoy. Sarah já havia dormido, e Lorraine Murphy – cujo nome Sadie descobrira havia pouco tempo, apesar de dividir o quarto com ela desde o primeiro ano – também caíra no sono. Kia estava virada para o outro lado, então não dava para saber. Já a loira, muito embora o colchão macio e a posição confortável estivessem fazendo maravilhas para sua recém-adquirida dor nas costas, não conseguia fechar os olhos.
Ela sabia que provavelmente não dormiria naquela noite; da última vez que dormira em Hogwarts, fora enfeitiçada e raptada pelo ex. O silêncio era meio irritante, mas a cama estava gostosa demais para que Sadie realmente quisesse escapar para a sala comunal... Então o que fez foi acender um lumos bem fraquinho, para não acordar as colegas de quarto, e puxar da mesinha de cabeceira o livro que estivera lendo antes de ser interrompida por Draco. Por uma dessas ironias da vida, era mais um livro de suspense que em circunstâncias normais já não a deixaria dormir; não que isso fosse um problema naquela noite específica.
Um capítulo e meio depois, Sadie ouviu Kia se virar em sua cama e percebeu que a colega estava com os olhos abertos.
— Te acordei? — Perguntou a loira.
— Nem... Também não consigo dormir.
A mais alta voltou ao seu livro, mas não lera nem uma página inteira até ouvir a voz da colega oriental, em tom pensativo:
— Sabe, eu vi eles levando você.
— Sério? Como é que...?
— Eu já estava meio dormindo, então achei que fosse um sonho. Você estava toda mole, acho que eles te enfeitiçaram pra não acordar, e... Bom, vieram o Malfoy e um dos amiguinhos dele, nunca sei quem é o Crabbe e quem é o Goyle. Não que faça muita diferença.
Sadie deu uma risadinha e esperou que Kia continuasse.
— Ele fez uma piadinha e eu quis rir, mas não conseguia. Na hora eu achei que isso fosse porque eu estava realmente sonhando, mas agora dá pra entender que eles me enfeitiçaram também. Capaz de terem feito o mesmo com a Sarah e a Lorraine, pra ninguém gritar nem nada, mas não sei.
Mais um momento calado se passou, e novamente foi a mestiça quem quebrou o silêncio, sem olhar para a colega.
— Te machucaram?
— No primeiro dia eu apanhei um pouco, mas só. De resto eu quase não vi eles. Mas fiquei amarrada o tempo todo.
Kia franziu o rosto.
— Poderia ter sido qualquer uma de nós.
— O Draco me levou porque queria se vingar, e porque aconteceu toda aquela coisa com a AD mais ou menos por culpa minha, Kia. Não podia ter sido ninguém mais.
— Não é isso, é que se você não estava segura por aqui, quer dizer que nenhuma de nós está.
— Por isso o livro, colega. Nem rola dormir hoje.
— Então volta pra ele, colega. — Kia sorriu. — Boa noite.
— Boa noite. — Sadie sorriu de volta.
Quando a loira voltou ao livro, percebeu o que havia acontecido e ergueu uma sobrancelha. Aquela era a primeira vez que tinha uma conversa civilizada com Kia desde... Bem, desde uma grande briga havia vários meses.
Era realmente surpreendente o que alguns dias de cárcere podiam fazer com as pessoas que conviviam com quem fora seqüestrada.
Fosse só por isso ou não, era bacana não haver aquela tensão entre as duas por alguns instantes.
No dia seguinte, Sadie fez questão de voltar à rotina como se nada tivesse acontecido. Pediu aos amigos que lhe passassem as matérias que perdera nos últimos dias; não estava tão preocupada com História da Magia, já que Rayvenne a ajudaria com qualquer problema, mas parecia que os outros professores tinham se empolgado. Pelo menos a matéria de Poções era divertida, e ela estava finalmente pegando o jeito de Runas Antigas.
Era bom estar de volta, desfazer-se do pijama acabado, colocar o uniforme limpinho, prender o cabelo em duas tranças – agora que, meses depois de um corte desastroso, ele finalmente estava comprido o suficiente – e ir para a aula com os amigos. Aliás, o tempo presa no porão dos Malfoy estava servindo de motivação para que ela ficasse mais atenta à aula, o que era até engraçado.
A primeira coisa que fez, assim que acabaram as aulas daquele dia, foi correr até a cabana de Hagrid. O que não foi exatamente fácil, já que a vigilância do castelo estava se tornando quase insuportável, mas ela e o guarda-caça já tinham uma história combinada – "como a Sadie se interessa tanto por zoologia mágica, deixo ela vir me ajudar a preparar os animaizinhos da próxima aula de vez em quando". Convincente ou não, funcionava, e às vezes nem era de todo mentira; ela gostava de ajudar a cuidar dos bichos e de vez em quando até dava uma mão para Hagrid.
Bateu na porta e o meio-gigante a recebeu com um abraço esmagador.
— Sadie, você voltou!
Ela riu, suspirando de alívio quando o professor a soltou e deu para respirar.
— Pelo jeito, você ficou sabendo da minha "aventura" na mansão Malfoy...
— Se fiquei sabendo? Eu que avisei a Rayvenne que você não estava vindo!
Entraram na cabana e Sadie foi direto ao encontro das duas serpentes. Muffin foi rapidamente até ela, sibilando alguma coisa e subindo por seu braço quando ela o estendeu.
— Saudades de você, linda! — A loira sorriu, acariciando a cabeça de sua cornsnake. Que, como ela percebeu, havia ficado um pouco mais gordinha. Hagrid parecia ter notado a mesma coisa, porque explicou com uma risada:
— Sabe aquela aula do primeiro ano em que os alunos precisam transfigurar ratinhos em abajures? McGonnagal deu os ratinhos pra mim depois de as aulas acabarem. Parece que a Muffin encontrou a caixa antes de eu encontrar a Muffin.
A loira sorriu para sua cobrinha rechonchuda e foi com ela até o vivário de Brownie, que, de tanto conviver com ela desde que perdera a memória, já estava começando a gostar dela de novo, embora nem perto do que era antes. Afinal de contas, haviam ficado juntas desde que Brownie era recém-saída do ovo; agora já era uma serpente adulta.
— Oi, Brownie... Sentiu saudades da mamãe?
A cobra olhou para a dona sem muito interesse, depois voltou a encarar um galho em seu vivário, que parecia mais divertido.
— ALIÁS, Sadie! — Hagrid exclamou, acidentalmente derrubando água do copo que tinha pego para si e do que servira para a garota, que se assustou com a empolgação. — Fale com a Gwendolyn Bradshaw qualquer hora. Soube que ela também fez um feitiço na aranha de estimação dela para não levar mordidas. Quem sabe ela não te ajuda?
A loira nem quis se segurar; pulou com cobra e tudo para abraçar o guarda-caça.
Aquele dia só ia melhorando.
— Nossa, Sadie, faz uns dois anos que eu fiz esse treco. — Comentou Gwendolyn, com ar de diversão, quando Sadie perguntou a ela sobre o feitiço. Estavam com Rayvenne, Faith, Kia e Lorraine na sala comunal da Corvinal, logo após mais uma aula de História da Magia com a pequena loira – que atrasou um pouco a matéria por causa do atraso da amiga corvinal, mas no fim todo mundo acabara aproveitando a revisão.
— Faz uma forcinha pra lembrar, vai. A Brownie não vai mais lembrar de mim como mãe dela, mas pelo menos com esse encantamento vai deixar de querer me morder e ficar mais calminha.
— Sempre bom não levar outra dentada de naja.
— A não ser que estejamos falando naquele filho-da-mãe do Malfoy, que podia muito bem passar um tempinho a sós com a Brownie...
Risadas. Gwen mergulhou a mão na mochila e tirou de lá um caderno cuja capa já estava meio gasta, com as pontas amareladas.
— Bom, Sadie, se eu fiz o feitiço, ele tá por aqui. Junto com anotações de Runas Antigas, uma receita de crostoli da minha avó, letras de música, histórias inacabadas e bilhetes da May, mas que tá aqui, tá aqui.
Sadie e Lorraine se juntaram em volta do caderno com curiosidade. Realmente, qualquer coisa aleatória que passasse pela cabeça de Gwen – incluindo partidas de forca com May no meio da aula e desabafos em italiano – estava naquelas páginas. Até que, quase metade do caderno depois, Lorraine apontou para uma dúzia de palavrinhas escritas no topo de uma página que de outro modo estava vazia.
— AHÁ! — Exclamou a loira, empolgada. — Acho que encontrei! Olha, soa familiar...
Ela leu.
"Provecta chordata". Repetir apontando a varinha para si, depois para o animal, até que uma trilha de pequenas centelhas conecte a ponta da sua varinha ao animal, e segure assim por sete segundos.
— Ah, sim, quando eu fui fazer esse feitiço no Mr. Nancy, foi uma luta pra manter ele parado por quinze segundos... Mas acho que vai funcionar.
Até que enfim ia dar para segurar Brownie na mão sem perigo de morrer envenenada...
A/N: Estou em uma relação de amor e ódio com esse capítulo, mas comecei ele já faz uns meses e só acabei hoje, por causa daquelas coisas que já falei na a/n de cima. Se alguém ainda lê, desculpe pela demora! E deixe reviews! :D
