Capítulo 5 – A esperança dos que amam

Prisão Estadual de Gweedore, Irlanda do Sul.

A sala de visita aos presos era ampla, formando um quadrado perfeito. Em cada extremidade, um policial fortemente armado e com colete de proteção à prova de balas vigiava as conversas entre detentos e familiares, tendo ambos passados por uma rigorosa inspeção para verificação de armas de metal ou não, antes de adentrarem o recinto.

As paredes altas e fortes davam a sensação de uma estrada sem saída, devido a cor chumbo e sua estrutura sólida.

Duas portas em metal reforçado e nas laterais das paredes complementavam o ambiente rústico. Eram saídas para os policiais das extremidades em caso de uma rebelião. Toda a estrutura do lugar fora manualmente trabalhada, reforçada e remodelada tecnologicamente para manter os detentos presos. Sem sombra de dúvidas, pagariam à justiça o mal feito a inocentes.

No entanto, naquela mesma sala, em uma ensolarada manhã de sexta-feira, uma mulher olhava fixamente para o homem a sua frente disposta a arrancar de qualquer maneira informações verdadeiras que levasse a encontrar o seu filho querido.

Antes mesmo do horário de visitas, Enya conseguira autorização para uma hora de conversa com o homem que ajudou seu pai a sequestrar o seu rebento: o doutor Andrew Eliot Maison.

– E então, doutor Maison. Eu vim buscar a verdade sobre como posso encontrar o meu filho e não me venha com a mesma mentira contada há dez anos. – Estava séria e falava firme.

– Senhora, por favor! Tudo o que eu me lembro eu contei para o delegado quando fui capturado e...

– MENTIRA!... – Cortou-o com um grito feroz erguendo-se da cadeira para encará-lo.

– Por favor, senhora... Acalme-se! – Temia a ação dos policiais contra ele.

– DIGA ONDE ESTÁ MEU FILHO SEU COVARDE OU EU JURO QUE...

Parou de gritar quando o homem ergueu suas duas mãos algemadas em sinal de redenção, completando com uma fala sutil e compassada:

– Tudo bem! Eu conto. Mas, acalme-se! Sim? – Falou receoso.

Ela o olhou desconfiada, porém ouviria primeiro suas palavras antes de pensar em algo mais drástico. Voltou a sentar, dando-lhe atenção.

Andrew baixou a cabeça e respirou fundo criando coragem, afinal, quando capturado, tentou apenas uma vez contar a verdade para o delegado a frente do caso. O homem o repreendeu com violência, dizendo que não ia admitir ele sair impune do crime que cometera tentando alegar insanidade mental. Desde aquele dia calou para si a verdade e aceitou pagar por um crime que não cometeu.

– Tudo aconteceu um mês antes da senhora dar a luz, em sua última consulta mensal para fazer o pré-natal...

Flash Back on...

Era noite de sexta-feira e o Doutor Maison havia ficado até mais tarde em sua sala. Como médico-chefe do hospital em que trabalhava, assinava diariamente autorizações para liberação de pacientes recuperados ou infelizmente, os atestados de óbitos dos falecidos. Naquela noite, desempenhava ambas as funções antes de ir para casa e descansar.

Estava concentrado em sua papelada quando ouviu um barulho no fim do corredor. Levantou e abriu a porta para se certificar de era um dos seguranças do hospital fazendo a ronda.

– Olá! Tem alguém ai? – Perguntou cauteloso.

Silêncio!

Fechou a porta. Ao sentar o mesmo barulho se fez ouvir. Apagou a luz de sua sala e pegou um bisturi em tamanho grande, seguindo em pisadas leves pelo extenso corredor.

Cruzou-o entrando em uma das alas dos leitos para os enfermos. Ouviu novamente o barulho à frente, dessa vez, mais forte. Continuou caminhando.

De repente, um baque o assustou e ele se perguntava onde estava as outras pessoas do lugar e o porquê daquele silêncio sepulcral.

Suas indagações cessaram quando a sua frente, a porta do necrotério abriu com violência. Então, viu as três pessoas que morreram naquela noite, de pé, encarando-o com escárnio no olhar.

Gritou, expondo todo o seu medo e desalento diante de algo humanamente impossível. Tentou correr, mas seu corpo prostara-se no lugar. Temeu a morte como nunca havia temido em sua vida.

Os cadáveres de uma mulher jovem que morrera de câncer em fase terminal e um homem que quebrara o pescoço em um acidente de carro, foram em sua direção. Mas pararam quando a criança a frente deles ergueu a mão esquerda. Certamente ela os liderava. Chamava-se Brigit Jones e havia morrido de tuberculose. Tinha apenas dez anos de idade.

"Essa noite é o começo do fim, a ressurreição em meio a morte e a conquista para aquele que nos rege. Em breve sua face será contemplada e haverá pesar para os que se opuserem a ele".

Os olhos da menina eram brancos como nuvens, enquanto dos outros zumbis, negros como a noite.

– Por favor, Deus! Meu Deus! Pai! Ajude-me senhor... – Sussurrava o homem de olhos fechados.

– O SEU DEUS NADA PODERÁ FAZER CONTRA ELE. O PODER DELE TRUNFARÁ! – Esbravejou a criança.

– E adivinhe só: o honesto e competente doutor Andrew Eliot Maison, ajudará em nosso plano para trazê-lo a este mundo. – Indagou debochda, sorrindo no final.

O homem abriu os olhos apavorado com o que ouviu e no mesmo instante sentiu uma fumaça negra e densa abandonar a criança, forçando passagem por sua boca e descer por sua garganta. Gritava e tentava fugir do estranho domínio. Sucumbiu, ficando a mercê do que estava por vir. Suas lembranças apagaram por algum tempo.

Flash back off...

Ela o observava atônita e boquiaberta decidindo se o julgava louco ou um completo mentiroso. Eliot a olhou com desânimo e comentou:

– Está vendo porque preferi me calar e engolir a culpa pelo que não fiz?

– Há dez anos, quando conseguiram me capturar, foi a mesma história que contei para o delegado à frente do caso do sequestro de seu filho. Ele chegou a me jurar de morte, julgando que eu estava zombando de sua patente.

– Você é um sujeito muito cínico! Um maníaco. Claro que ninguém acreditaria nessa sua história! – Cuspiu as palavras.

– Como eu gostaria de fazer a pessoa certa acreditar em mim... Como eu gostaria que a senhora me escutasse. – Falou contendo as lágrimas.

Enya sentia "dor" e solidão motivada pela falta do filho. Mas, não se tornou uma mulher amarga. Por isso, quando viu os olhos úmidos do homem a sua frente, deu-lhe o benefício da dúvida e disse de maneira calma e compassada:

– Caso fosse verdade isso que você me contou, foi um mês antes de eu dar a luz. E, inocentes não fogem e se escondem por doze anos da polícia.

– Senhora, Bhraonáin! Olhe só para quem a senhora é... Comparado a sua fama e reconhecimento, não sou ninguém. Acha mesmo que se eu não estivesse escondido em meio a traficantes colombianos, fingindo ser um deles, não teria sido pego a mais tempo? Mesmo no meio em que estava a senhora me encontrou, não foi?

Ela fez um meneio de cabeça concordando. Conhecera muitas pessoas mentirosas e vis em sua vida, seu pai entre elas. Sabia reconhecer um mentiroso pelo olhar e sua expressão facial. No entanto, o que via naquele homem era o desânimo e a derrota de quem aceitou o que lhe foi imposto.

– Olhe! Senhor Maison! Caso seu relato seja verdadeiro e eu não estou dizendo que é, devido a julgar isso impossível, o senhor não lembra de nada sobre a noite em que entregou meu bebê ao meu pai?

O preso pôs as duas mãos sobre a mesa falando exasperado:

Pequenos flashes daquela noite, pois o que estava em mim, apagou meus sentidos e me deixou preso em meu próprio cérebro. Devido a lutar para assumir o comando, lembro-me apenas de retirar um cordão preto com pingente de metal fosco de seu pescoço e colocá-lo no meu, antes de pegar o bebê e levá-lo para uma sala reservada onde o seu pai me aguardava.

– Cordão? Um em modelo simples com o desenho de um anjo em relevo?

– Sim. Esse mesmo.

– Aquela, doutor, era uma herança de família, passada de geração em geração. Meu avô antes de morrer deu-o para mim. Qual o seu interesse em roubar algo que não tinha valor material?

– Mas não fui eu senhora Bhraonáin! Foi o que me possuiu! Eu imploro! Acredite!

O homem viu no semblante dela um pequeno brilho de esperança. Ela talvez acreditasse em suas palavras. Talvez... Mas, isso bastava para alguém que antes se julgava esquecido pela verdade.

– Consegue lembrar de algo mais? Por mais irrelevante que pareça, tente!

Enya estava disposta a saber até onde daria essa conversa.

– Bem, quando a criança estava nos braços do avô, houve um pequeno diálogo entre nós dois.

– O senhor lembra o conteúdo dessa conversa?

– Quando ele saiu, ouvi apenas que em dez anos seria cobrado a ele o preço pelo sequestro do pequeno.

– O quê? Então o senhor chegou a ser pago? Mais como omitiu isso da polícia? Suas contas e depósitos não foram confiscados? – Exaltou-se novamente.

– É claro que não recebi dinheiro nenhum... Não tenho ideia do que isso quer dizer. Seu pai impediu-me de vê-lo depois do ocorrido. Mas, caso a senhora realmente acredite em mim, quem invadiu meu corpo e minha mente, cobraria o favor em dinheiro?

Enya estava cada vez mais assustada com o que ouvia. E se o relato do doutor fosse verdadeiro? E se algo sobrenatural realmente dominou-o para que roubasse a criança... Mas, por quê? Para quê? Perguntas sem respostas, caminhos sem saídas, encontrava-se em um túnel escuro, mas agora, a diferença é que estava disposta a encontrar a saída. E ela a levaria ao seu filho.

– Doutor Maison, essa conversa se encerra agora. Por enquanto. Manterei contato. Vou averiguar a fundo o que me falou, pois cansei de deixar a busca por algo meu nas mãos de terceiros.

– Eu a compreendo. – O homem falou triste com a cabeça baixa. Era visível seu sentimento de derrota.

– No entanto, caso sua história fantástica seja verdadeira, farei de tudo para tirá-lo da cadeia. Não permitirei que um inocente pague pelo que não cometeu.

Ao dizer as palavras saiu, sendo conduzida por um guarda que estava do outro lado da porta.

E enquanto afastava-se daquela sala deixava para trás alguém com a esperança de liberdade guardada em seu peito.

Deus! Por favor, ajude-a a encontrar o filho! Ajude-me a ser livre novamente.

Pensava doutor Maison enquanto era conduzido para sua cela.

SeD

Eram nove da manhã. Sobre a cama de motel Dean despertava lentamente sorrindo com as lembranças do que aconteceu na madrugada.

Girou o corpo e abraçou o vazio ao lado. Assustou-se, pois esperava encontrar o corpo forte de Sam. Abriu os olhos, levantando bruscamente e sentando na cama. Observou os cômodos, mas nenhum sinal do seu irmão.

– Sam?

– Sammy?

Não obteve resposta.

– Sam! Onde você está?

Um pequeno barulho foi ouvido do lado de fora do quarto, próximo a porta. Dean voltou seu campo de visão para ela, vendo o trinco girar. Samuel adentrava o cômodo e fitava os seus olhos. Percebeu que ele estava chorando.

– Sammy... Não faz isso comigo... Não me diga que se arrependeu...

O jovem apenas baixou a cabeça como resposta.

SeD

Samuel observava o céu, contemplando a beleza daquela nova manhã.

As lágrimas molhavam seu rosto e em um lamento silencioso, chorava a dor da perda, antes mesmo que ela acontecesse.

Quando acordou logo cedo, estava abraçado ao corpo forte do seu irmão. Sentia seu carinho e sua proteção pelo simples fato daquele abraço lhe reter mandando embora toda a solidão de uma vida de caçadas.

Porém, ao lembrar das duras palavras do seu pai há sete anos atrás, a tristeza se fez presente e o medo o dominou.

Deus! Por que não resisti?

Falou em um sussurro observando o rosto adormecido daquele que amava.

Então, sem fazer barulho, levantou e depois de um bom banho e vestir roupas limpas, saiu do quarto e foi dar uma volta pelo bairro. Precisava arejar as ideias.

Após quase uma hora de caminhada, sentara em um balanço de madeira em frente ao quarto alugado e deixou que mais lágrimas banhassem seu jovem rosto. Sofria em silêncio.

Algum tempo depois ouviu a voz dele o chamando. Respirou fundo, enxugou as lágrimas com um lenço e ajeitou a longa franja. Esconderia de Dean o seu estado de espírito, mas sabia que precisavam ter uma conversa. E séria.

Levantou do balanço fazendo um pouco de barulho, girou a maçaneta da porta com firmeza e entrou no quarto, percebendo a expressão assustada de Dean, antes dele dizer:

– Sammy... Não faz isso comigo... Não me diga que se arrependeu...

Apenas baixou a cabeça como resposta.

– Quando você vai entender o quanto eu te amo? Quando vai vencer esse medo que nos persegue e se entregar a mim sem barreiras?

– Dean, eu não quero falar sobre isso ago...

– E QUANDO IREMOS CONVERSAR? NUNCA? – Cortou a fala do caçula com seu grito, assustando-o.

– Eu não vou brigar com você.

Sam tentou sair do quarto, mas o Winchester mais velho foi mais rápido e o agarrou pelo pulso. Jogou-o na cama e apoiou seu peso sobre o corpo dele, segurando os pulsos ao lado de sua cabeça.

– Solte-me! O que pensa que está fazendo? – Sam falou desesperado chacoalhando a cabeça.

– Somente quando você me disser por que foge tanto de mim e se arrepende sempre que eu o tenho em meus braços!

– Não quero perder você, Dean. – Olhou no fundo dos olhos do irmão.

– Tem certeza? Porque suas atitudes provam o contrário.

– Por favor... Solte-me. Não há nada para contar. Apenas eu me sinto mal quando fazemos isso porque somos irmãos. – Mentiu.

– Sinto muito, maninho! Mas, eu conheço você e sei que está mentindo. Vamos! Conte-me a verdade!

– Dean! Solte-me, por favor!

Inclinou a cabeça para o lado esquerdo. As lágrimas novamente molhavam seu rosto e a dor crescia em sua alma. Contar para o irmão o levaria a perdê-lo, mas não contar o faria perdê-lo do mesmo jeito.

Entre a cruz e a espada, Sam clamava desesperado por uma saída para os dois. Viver ao lado de Dean amando e sendo amado, era tudo o que queria. No entanto, isso não seria justo sem dizer a ele o que ouvira há sete anos atrás.

Estava disposto a contar tudo e deixar que as consequências se mostrassem, fosse elas qual fosse, quando ambos escutaram batidas violentas na porta e uma voz feminina ordenando em alto e bom som:

– Abram essa porta agora!

Continua...


Perdoe-me pela demora na postagem também dessa fic. Espero que gostem do novo capítulo e me deixem seus comentários. Eles animam, sabiam?

A semana que vem, sem falta, postarei o capítulo 19 de Sweet August e capítulo 6 de Almas acorrentadas. Só não sei o dia.

Amanhã postarei o capítulo 8 de O amor venceu a dor.

Beijos e um excelente início de semana a todos.

Patrícia Rodrigues, Malukita e Casammy, obrigada pelos rewies no último capítulo e espero que gostem desse novo e me deixem saber. Beijos meninas.