Capítulo 15
A manhã de sábado era fria. O sol resolveu não aparecer deixando assim um rastro de nostalgia. Pessoas transitavam pacatas indo e vindo pelas ruas semidesertas, pouco se importando consigo mesmas ou com o bem estar dos outros. No entanto, não eram esses os pensamentos de Sam.
Quando despertou, o jovem sentiu uma paz que a muito não sentia e mesmo mantendo os olhos fechados, sentia-se cuidado, protegido, envolto a uma camada impenetrável de calor, no qual o mal não seria capaz de atravessar.
Então, ao abrir os olhos após uma leve esticada em seu corpo, encontrou um par de olhos verde-esmeralda que o olhavam docemente. Era ele, seu Dean.
— Seis e quinze da manhã e você ainda dormindo, Sammy! Está mal acostumado, não acha?
Sorriu divertido com a brincadeira, recendo apenas o silêncio como resposta do seu amado.
— Acho que já deu para perceber que a manhã está fria. Eu posso fechar a janela,se você quiser. — Sam apenas balançou a cabeça negando. Seus olhos não desviaram dos olhos do irmão.
— Olhe... Sei que não é o momento certo... — O garoto virou o corpo para o lado contrário de Dean. Não queria falar sobre o que aconteceu. Não ainda.
— Eu te amo! Amo tanto... Sei que ontem exagerei, mas...
— Exagerou?
Incrédulo, o jovem virou-se rapidamente olhando-o outro nos olhos, falando alto, demonstrando sua mágoa.
— Você ia me violentar. Entende isso? Tomar-me à força, ou seja lá como queira chamar, mas a verdade é que eu nunca esperei isso de você. Nunca, Dean!
Não ia fingir que estava tudo bem porque não estava. Sabia que estava em falta com a verdade. Seu irmão merecia saber sobre suas origens, mas isso não lhe dava o direito de agir como um bruto. Levantou-se com pressa fugindo sem pensar que com esse ato fugia do calor gostoso que sentia por está perto de Dean, pois se pensasse deixaria de lado o que aconteceu. E não podia.
— Sammy...
— Não Dean! No momento temos prioridades! Onde está a senhora Bhraonáin? Ela...
De repente sentiu uma forte dor de cabeça, a vista escureceu e seu corpo pesava como chumbo.
— Droga, droga, droga! Agora não!
Xingava-se internamente. Sabia o que estava acontecendo consigo. Esses eram sintomas de uma nova visão.
— Sammy! O que você tem? Deixe-me te ajudar!
Dean falou preocupado, pois o caçula mal se aguentava em pé e mesmo assim fugia do seu abraço acolhedor.
— Não precisa Dean! Estou bem! Estou...
Então, perdeu os sentidos.
Uma luz branca fluía do interior de uma igreja abandonada. Uma figura fantasmagórica surgia de uma fenda aberta em meio a uma fonte desativada. Era Lúcifer e a seu lado o demônio Lilith que gargalhava.
O arcanjo caminhava em direção ao demônio. A forte luz que emanava nada mais era do que seu poder e glória angelical expandindo-se em proporções mínimas porque o planeta não aguentaria toda a rajada do seu poder.
— Pai! Finalmente o senhor está de volta!
Lilith sorria aguardando ansiosamente a aproximação de seu mestre, aquele que chamava de pai. E, à medida que o ser ia andando, sua fisionomia tomava forma humana. Então viu a si mesmo na visão. Sam Winchester era o arcanjo caído, aquele expulso do céu pelo irmão e alma gêmea, o arcanjo Miguel.
— Sam! Sammy! Vamos, garoto! Reaja!
Ouviu a voz de Dean ao longe e uma segunda voz que logo reconheceu. Era Enya.
— Vamos, amor! Fale comigo!
Sentia a preocupação na voz do mais velho. Buscou forças para respondê-lo, apropriando-se dos sentidos que voltavam pouco a pouco.
— Es... Estou bem! Dean... — Sussurrava sem ainda conseguir abrir os olhos.
— Fique quieto, amor! Eu vou cuidar de você.
Sentiu-se ser erguido e algo macio lhe amparar as costas. Foi posto novamente na cama. Foi quando abriu os olhos aos poucos ignorando o ato que parecia intensificar a dor de cabeça que sentia.
— O que você viu Sammy? Você teve outra visão, não foi?
O que dizer ao mais velho? Que não era o filho de Lúcifer como achava, mas o próprio? Confirmando também suas suspeitas de que era filho de Enya? Isso estava fora de questão. Resolveu omitir a verdade, por enquanto. Precisava de provas. Precisava confirmar seu parentesco com a cantora e o que John Winchester lhe dissera há sete anos.
— Estão atrás de nós! Lilith quer Enya e a está procurando.
— Oh, meu Deus! — A cantora levou as mãos à boca quando ouviu a notícia.
— Calma, senhora Bhraonáin! Vamos sair daqui o quanto antes. Nós a protegeremos. Sam, como se sente? Pode levantar?
O garoto forçou o tronco para frente. A dormência o abandonava.
— Sim! Posso.
— Tudo bem! Enya, vamos levá-la a sua casa em segredo. Ninguém deve saber que está conosco. Nem mesmo nossos amigos que nos aguardam em Illinois.
— Como isso será possível, Dean? Esqueceu que Bob nos aguarda junto com os outros? — O caçula não entendia os pensamentos do irmão.
— Essa é minha intenção, Sammy! Lilith acha que todos nós a protegemos. Se ela for atrás de Bob e os outros caçadores, eles saberão se defender. Acredite! Eles estarão mais seguros se Enya não estiver lá e ela estará mais segura se estiver conosco.
Ele estava certo. A vida da cantora corria perigo e quem a protegesse também estava em perigo. Então, os três agiriam conforme o plano de Dean. Usariam seus talismãs xamânicos, rabiscariam símbolos Salomão em todo o Impala e seguiriam viagem, rumo a Irlanda. Tinham os seus cartões de créditos e passaportes falsos, usariam de todo subterfugio disponível para salvar aquela mulher. Se os demônios a queriam morta, com certeza tinham que mantê-la viva. Ela era importante e tinha um papel decisivo em algo. Mas, o que não sabiam é que ambos tinham um papel decisivo e nem o céu, nem o inferno queriam os três juntos. Ainda não.
Chicago, Illinois, duas horas depois.
— Por que essa demora, Bob? Os rapazes não conseguiram fugir com a mulher? — Hellen andava de um lado para outro. Estava nervosa.
— Calma, Hellen! Há algo que aprendi com esses rapazes durante esses meses de convivência e que se chama confiança.
— Confiança? Confiança em que? Que estejam mortos? Que não deem notícias? Eles merecem levar uns bons tapas. È isso que vou fazer quando eles chegarem!
— Mãe, por favor! Sam e Dean estão bem! Tenha paciência. Eles vão aparecer!
— Joana Bete Harvelle, não me diga o que tenho que fazer! — A moça resolveu se calar. Não era inteligente discutir com a mãe quando ela estava nervosa.
— Ela é sempre assim quando está zangada? — Ruffus cochichou a pergunta à jovem.
— Sim! Sempre que está preocupada ela fica insuportável.
Desde que fugiram de Los Angeles, Ruffus, Jô e Hellen estavam na casa de Bob e junto com ele aguardavam notícias dos rapazes. Apesar de ligarem para vários contatos e se manterem bem informados através do rádio da polícia, nada foi noticiado sobre a prisão dos supostos terroristas. Apenas o que descobriram era que a polícia de Los Angeles havia resgatado o pianista Richard Clayderman, os seguranças dele e os policiais que faziam a segurança do evento. Isso graças ao telefonema anônimo dado por Bob.
— Rapazes! Só espero que estejam bem.
Eram os pensamentos do senhor Singer que rezava internamente para que nada tivesse acontecido com os Winchesters e a cantora Enya.
Aeroporto Internacional de Nova York
Sam, Dean e Enya pegariam o avião da companhia Star Mars. Viajariam na primeira classe em um voo sem escala até Portugal, onde pegariam outro voo rumo à Irlanda do Sul, no qual seguiriam até Killiney no Impala de Dean. Ele foi unânime em afirmar que seu carro ia junto.
A cantoria insistiu para que ela fretasse um jato particular, mas os irmãos negaram. Queriam descrição, serem mais um no meio da multidão. Então, quanto menos chamassem a atenção, melhor.
Estavam há dez minutos sentados em uma sala de espera aguardando a senhora Bhraonáincomprar as passagens. Ela não deu chance dos irmãos negarem sua ajuda. Sua atitude foi premeditada. Sabia que os dois precisavam conversar.
— Você não acha que é perigoso para ela? Digo, ela está se expondo ao comprar as passagens. — Dean puxava conversa com o caçula. Estava preocupado com Enya, mas principalmente em saber se o seu irmão o tinha perdoado.
— Qual é! Ela está há seis metros de distância de nós e mesmo não estando armados, eu sei o ritual de exorcismo em latim e você tem um saco com sal grosso e pó dos lobos nos bolsos de sua jaqueta. Não a com o que se preocupar. — Sam respondeu da mesma forma séria e sem emoção quando conversou com o irmão ao acordar.
— Por favor! Perdoa-me Sammy!
— Dean, eu não quero falar sobre o que aconteceu. Vamos deixar como está, ok? — Havia mágoa em sua voz.
— Você nunca vai me perdoar então, não é mesmo? — Baixou a cabeça e se deixou levar por sua tristeza. Estava realmente arrependido de quase ter cometido uma loucura.
— Eu não tenho o que perdoar, Dean! Eu te amo e prefiro acreditar que você nunca ia me machucar. Apenas me dê um tempo.
O mais velho o olhou calmamente afirmando com um aceno de cabeça. Amavam-se e sabia que se ele não era capaz de sentir rancor do caçula ou mesmo feri-lo, a recíproca era verdadeira.
—Seja o que for que esteja entre nós, Sammy, vai encontrar seu fim e então poderemos ficar juntos. Para sempre!
O garoto olhou para o irmão e sorriu diante de suas palavras. Tocou gentilmente na mão dele e teve a sua segura entre as mãos dele. Olhavam-se.
— Eu não quero ser indiscreta, rapazes, mas já comprei as passagens e o Impala já está no compartimento de bagagens. Podemos ir?
— Como a senhora conseguiu? Eles não revistaram o porta-malas? — Sam perguntou curioso.
— Infelizmente, Sam, o dinheiro move o mundo. Nada como uma boa quantidade de dinheiro para driblar a lei.
Os irmãos concordaram. Era verdade. O fato de terem seus cartões de crédito falsos e a cantora ser milionária era uma grande ajuda para fugirem da polícia e dos demônios que queria a senhora Bhraonáin morta.
Os três seguiram para o salão de embarque. Ambos vestidos com trajes que não permitiam reconhecimento de seus rostos. Nem sequer desconfiavam que estavam indo ao encontro do destino traçado a ambos desde o início dos tempos.
Killiney, Irlanda do Sul, doze e quarenta e cinco da tarde.
Depois de horas desgastantes em voos domésticos, expostos a alimentação mínima de seus serviços, finalmente o trio havia chegado ao destino; Killiney, Irlanda do Sul.
Depois que o Impala foi liberado do voo, os Winchesters e Enya seguiram caminho pelas charmosas ruas daquela cidade, em direção ao castelo Manderley, lar da cantora.
No carro, o silêncio era imperativo. De um lado, uma mulher com a ideia fixa de ir atrás de quem tentou matá-la buscando respostas sobre o filho amado. Do outro lado, um jovem em conflito com uma verdade escondida ao irmão durante sete anos. Ambos carregando seus conflitos e entre eles um jovem loiro com a responsabilidade de salvá-los, apesar de ainda não saber.
— Meu Deus! Que lugar lindo!
O Impala entrava na propriedade de Enya. Um vasto jardim que mais parecia uma avenida florida, contornado por vários estilos de flores em nuances que destacavam a beleza e simplicidade delas. E ao centro, o castelo Manderley, uma construção antiga de épocas remotas quando os reis e rainhas ainda governavam o modo de vida das pessoas.
— Que bangalô, hein?
Sammuel e a senhoraBhraonáinolharam sérios para Dean.
— Que é isso gente! Estou apenas elogiando o lugar!
Apesar de falar em tom risonho, seu irmão e a cantora continuavam com as expressões sérias.
— Eu, hein? Essa senhora é tão sem graça quanto o meu irmão. — Pensava, mais uma vez comparando a personalidade dos dois.
Quando o Impala cruzou o jardim do castelo, os seguranças deixaram-no passar sem resistência. Viram a cantora no Banco do carona, na parte de trás do carro. Avisaram ao mordomo que a patroa tinha retornado. Então, quando Dean estacionou na porta principal do lugar, James já os aguardava e em seu olhar a mais pura preocupação com a mulher. Ele nem ao menos a deixou falar primeiro.
— Senhora, Bhraonáin! A polícia dos Estados Unidos e da Irlanda a estão procurando. O que aconteceu? Quem são esses dois rapazes?
— James, acalme-se, por favor!
Falou paciente ao sair do carro e ver seu mordomo abrindo a porta para ela e a bombardeando com perguntas.
— Senhora, nós não conseguíamos encontrá-la. Tenho novidades.
De repente ela parou no meio das escadarias do seu castelo encarando o homem.
— James, não me diga que é sobre...
Ele confirmou com um aceno de cabeça.
— Sim, senhora Bhraonáin. O detetive Fargor encontrou seu filho.
Continua...
Boa noite!
Desculpem-me não ter postado mais um capítulo dessa fic na sexta-feira. Eu tentei muito, mas o FF estava com problemas. Eu não conseguia acessar minha conta. Espero que gostem e comentem também esse capítulo, pois eu senti falta de algumas pessoas que eram constantes e não comentaram o capítulo passado. O próximo sairá sexta-feira, ok? Daqui a pouco eu vou postar Sweet August e responder aos rewies dos leitores logados, combinado?
Beijos e uma excelente noite de segunda-feira.
Respondendo aos rewies:
Elisete - Minha linda! O Sam é todo fofo, não é? Tadinho do lindinho... Imagine como deve ser crescer sem nunca ter tido o carinho de uma mãe? Quanto ao Dean, o loirão quase perdeu as estribeiras, mas acredito que ele nunca machucaria o Sammy. Na hora H recobraria o juizo. Quanto a sua pergunta... Suspense! kkkkkkk Beijos, linda!
Patrícia Rodrigues - O Sammy bem que estava precisando de um pouco de afeto. Resolve dá isso para o nosso bebê. Obrigada mais uma vez por suas palavras de carinho, amiga! Vê se também não some mais, né? Beijos, querida!
soniama livejournal - quanto ao Sam, o tadinho está segurando uma "barra" pesada, mas ele é forte e o amor que ele sente pelo DEan também é mais forte. Obrigada por sua compreensão e não se preocupe: sua fic vai sair mais cedo do que você imagina, junto com a da minha amiga Vitorinha. Sweet e Almal acorrentadas estão perto de acabar. Beijos, querida!
