N/A 1: Inspiração pra essa one-shot vem de On My Own, original do musical Os Miseráveis, também conhecida como o primeiro solo de Rachel Berry em Glee.

N/A 2: melhor parte da season finale foi quando Santana disse que quer viver em Nova York.


In the rain

The pavement shines like silver

All the lights are misty in the river

In the darkness, the trees are full of starlight

And all I see is him and me forever and forever.


Rachel Berry completava cinco meses como nova-iorquina naquela sexta-feira gelada de outono. Já havia se acostumado com a paisagem, com seus tutores na NYADA e com seus novos 'amigos' (colegas; Rachel preferia manter uma relação que se limitava a cordial com seus parceiros de turma).

Ainda estava se acostumando com sua colega de apartamento. Santana Lopez chegou à Nova York três meses atrás, convencendo Rachel a trocar o dormitório da NYADA individual por um apartamento do tamanho de uma caixa de sapato em que elas pudessem viver juntas. Dois quartos, um banheiro e uma sala/cozinha/sacada conjugados. Santana, com as economias que ganhou da mãe, comprou mobília simples, quitou parte do apartamento e guardou o resto como segurança para os primeiros meses. As duas eram de temperamento forte, e às vezes rolavam faíscas, mas os três meses de convivência já faziam efeito.

Rachel aproveitou a sexta para jantar no restaurante onde Santana trabalhava. A latina continuava sem senso de direção, então, decidiu conseguir um emprego temporário, enquanto clareava as ideias.

"O mesmo de sempre?", Santana perguntou, enquanto passava um pano no balcão.

"O mesmo de sempre."

Santana saiu buscar o pedido dela, enquanto Rachel sentava-se na beira do mezanino, perto das pilhas de pratos. Aquele canto era mais tranquilo, além de ser estratégico, já que Lopez sempre fingia lustrar os pratos só para conversar com a amiga.

A estudante de artes dramáticas estava completamente desvalida. Aquela semana tinha lhe tirado todas as forças. Tibideaux fizera um workshop de três dias sobre monólogos. Sua tutora, Megan, havia lhe passado exercícios vocais que realmente desafiavam sua voz. Os testes finais do primeiro semestre estavam próximos (alguns teóricos, outros práticos), e ela tinha passado algumas noites em claro tentando estudar história da arte. Kurt ligara todas as noites, ansioso pela audição para as novas admissões de NYADA. Ela o ajudara na escolha de sua canção, e acompanhava os treinos dele por Skype. Preferia estar dormindo, mas ajudar o amigo era necessário. Kurt precisava daquela vaga de qualquer jeito.

Respirou fundo, e puxou um dos seus livros de estudo da sua enorme bolsa rosa.

"Não. Nada disso. Se começar a estudar de novo, eu vou dar uma Lima Heights pra cima de você.", Santana chegou, fechando o livro, e colocando o prato de sopa de cenoura com torradas na frente da amiga. Naquele frio, nada melhor do que um prato quente de comida. Bom para recuperar a voz e os ânimos. Principalmente o ânimo, que lhe faltava há tempos.

"Tudo bem, tudo bem."

Rachel tomou até a última gota da sopa, e esperou Santana terminar seu expediente. Saíram do restaurante beirando a meia-noite.

A chuva fraca caía, deixando o clima congelante mais congelante ainda. Amarraram bem os cachecóis, ajeitaram os casacos, e abriram o guarda-chuva. Estavam no Upper East Side, e o apartamento das duas ficava em Murray Hill. Não era tão longe assim, por isso sempre caminhavam e conversavam banalmente sobre as coisas que gostavam ou não gostavam, do tempo, da saudade da família...

Santana resolveu mudar a rota naquela noite, e dar uma volta noturna pelo Central Park. Apesar de ser quase madrugada, o parque ficava sempre aberto e iluminado.

"Tem falado com a Brittany?"

"Aham. Ela está fazendo o que pode. A sorte dela é que Sue anda chantageando alguns professores a favor dela. Britt é uma das melhores cheerleaders. Mais uma repetência a impede de fazer parte do grupo, por isso a Coach Sylvester acabou intercedendo."

Rachel balançou a cabeça e olhou para os pés, tentando ignorar a paisagem.

Santana já conhecia Rachel o bastante para saber que não devia fazer a pergunta, mas mesmo assim fez.

"E você? Teve mais notícias do Finn?"

Rachel respirou fundo.

"Não. O mesmo de sempre. Está na Geórgia, campo de treinamento. Carole não ouve nada sobre ele há dois meses. Talvez eles estejam em algum tipo de missão."

O anel pesou em sua mão. Continuava lá, meio molhado por causa da chuva que caía, mas permanecia intacto. Rachel não tirava nem para dormir, ou tomar banho. No primeiro mês em Nova York, até surgiu um leve hematoma ao redor da joia, de tanto que Rachel mexia nela. Não tirou mesmo assim.

As duas chegaram a ponte do rio, e Rachel decidiu parar para observar as luzes da cidade refletindo na correnteza leve. Santana chegou mais perto, para ouvir o que Rachel ia falar, quase sussurrando.

"Lembra-se daquele ano, em que as nacionais foram aqui em Nova York?" A latina balançou a cabeça. "Nunca contei a vocês garotas, mas naquele dia em que eu fugi do hotel, vim até aqui, me encontrar com o Finn. Ele me deu um buquê de flores no meio dessa ponte, depois me levou até o Sardis, e quando já era noite, voltamos caminhando, ouvindo o barulho da cidade. Eu fechei os olhos, e nunca me senti tão completa quanto naquele dia. Tinha a minha cidade e tinha ele do meu lado. Eu nunca havia imaginado Finn fazendo tudo aquilo para mim. Os garotos apareceram com uma serenata... Como num filme bobo romântico. Quando ele tentou me beijar, eu acabei fugindo, e hoje até me esqueci do porquê. Ele vestia um terno, me tratava como uma porcelana delicada. Os olhos dele não saíam de mim. E então nós encontramos Patti LuPone perto da nossa mesa no restaurante, e ela me disse para nunca desistir dos meus sonhos, e soprou no meu ouvido que tinha achado Finn bonito. Nós rimos juntos, e conversamos de tudo um pouco. Aliás, eu conversei de tudo um pouco. Ele só ficava me olhando, com aqueles olhos doces que só ele tem."

E no meio dos sorrisos que ela soltava enquanto se lembrava daquele dia, foi perceber depois que os olhos estavam marejados de água. Ela inclinou a cabeça até o ombro da amiga, e começou a chorar.

"Ele me faz tanta falta, Santana. Ele me faz tanta falta."

Ela queria voltar no tempo, e viver aquele ano novamente. E repeti-lo toda vez que ele chegasse ao final. Ela não se importava em ser uma sênior para sempre. Ela sentia tanto a falta dele.

Debaixo do guarda-chuva, no meio das árvores depenadas e das folhas alaranjadas pelo chão, as duas ficaram ali paradas, na beira da ponte. O rio continuava correndo. A vida continuava passando. E Rachel ia levando.


Rachel ao menos tinha Santana. Mas Finn Hudson estava sozinho. Sozinho, no seu sentido literal. Vivia num quarto individual, não conversava com nenhum outra recruta. Só tinha um desejo em mente: sair logo daquele inferno. Ele não podia suportar, mas precisava, pelo seu pai. Acordava todos os dias às cinco horas, praticava tiro, noções de sobrevivência, embalava cartas, e dormia às onze da noite, ou às vezes, passava a noite em claro no seu notebook, pesquisando sobre seu pai. Se conseguisse completar pelo menos um ano de recrutamento, já seria um ótimo pretexto para a petição da carta de honra. Além disso, estava perto de conseguir algo realmente valioso nas suas pesquisas. Seu pai tinha salvo dois soldados que estavam em um caminhão em chamas, na Guerra do Kuwait. Os dois sobrevivente morreram alguns anos depois, mas Finn descobriu o nome de seus filhos, da mesma idade que ele. Ben Linney e Brad Jones. Estava parado nessa informação há duas semanas, e não conseguia encontrar mais nada: onde moravam, alguma pista de como encontrá-los... Apenas o nome.

Naquela noite, ele fechou a tela do computador, bufou, tirou as botas, trocou de roupa, deitou na cama, e fechou os olhos. Ele se sentia tão sozinho. Pensava seriamente em ligar para a sua mãe, e contar as novidades da pesquisa. Mas não tinha a vontade. Seu celular piscou. Era Kurt, novamente. Ele não desistia. Todos os dias, a mesma mensagem. "Quero notícias", "Por favor, onde você está", "Dê sinal de vida", "Estamos preocupados", "Deixe de ser idiota e responda minhas mensagens", etc.

Decidiu responder, para tranquilizar o meio-irmão. Aproveitou e pediu ajuda.

Estou bem kurt. Descobri uma coisa. Preciso encontrar ben linney e brad jones. Eles são da minha idade. Vão me ajudar no pedido da carta de honra. –finn

Ele pensou em perguntar sobre Rachel, porque estava morrendo aos poucos sem notícias dela. Mas ele precisava dar uma chance de ela construir uma vida sem ele. É claro que ele queria o contrário, mas ela merecia o melhor. E se o melhor não fosse ele, então ele ficaria bem. Imaginava se às vezes ela olhava a estrela que ele a deu de presente no ano passado, lembrando-se das palavras dele.

Apagou a luz, puxou as cobertas, e tentou dormir. Mas o sono não vinha.

Acabou fazendo uma coisa que estava se tornando hábito: imaginou que Rachel estivesse ali, deitada ao lado dele, como numa noite normal em Lima. Então, contou a ela seu dia. Da bronca que levou de seu capitão, da pesquisa que empacou num ponto crucial, do medo de ter se alistado e não conseguir a carta de honra, da saudade que sentia dela.

Ele chorou silenciosamente. A que ponto ele havia chegado.


In the rain

The pavement shines like silver

All the lights are misty in the river

In the darkness, the trees are full of starlight

And all I see is him and me forever and forever


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