Percy
It's All About George

O sol baixo de fim de tarde indicava um típico dia quente de verão com o céu alaranjado e limpo. A 'Toca estava anormalmente quieta – mesmo para os padrões de luto pós-guerra que a família Weasley vivenciava – e isso era porque apenas um dos ruivos estava em casa.

Ginny estava na sala, lendo um livro de transfiguração para recuperar o tempo perdido e poder voltar a Hogwarts com os estudos em dia, e o único barulho dentro da casa era o virar nas páginas ou o assovio do vento entrando pelas janelas abertas.

O Senhor e a Senhora Weasley haviam ido até a casa de Tia Muriel. Toda a guerra havia dado a Molly a urgência de visitar todos os parentes possíveis com toda a frequência que conseguisse. Os garotos estavam todos trabalhando, Hermione ainda estava tentando resolver o problema de seus pais e Harry estava em Hogwarts tendo uma longa e esperada conversa com McGonagall.

A tranquilidade de Ginny, porém, foi interrompida quando chamas verdes incendiaram a então apagada lareira e delas saiu o rosto magro e cansado de Percy.

— Percy? — Ginny arqueou as sobrancelhas, fechando o livro que tinha em mãos. — O que faz em casa a essa hora?

— Oh, Ginny. — Ele parecia genuinamente surpreso pelo fato dela estar em casa. — Achei que você tivesse saído com... alguém. — Ele falou a palavra "achei" como se disse "esperava".

— Todos tinham compromissos que não me incluíam. Menos mamãe e papai, mas não estava muito a fim de visitar a Tia Muriel. Mas você não me respondeu, não deveria estar trabalhando?

— Eu... hã... — Ginny poderia jurar que nunca tinha visto o irmão tão perdido quanto naquele momento.

— Hey, aconteceu alguma coisa? — Ginny começou a se preocupar, aquele comportamento em nada se assemelhava a Percy.

— Não. — Ele disse rápido demais, e Ginny viu quando ele abriu a boca de novo, suspirou e desistiu.

— Você pode tentar desconversar, mas eu não vou deixar você sair dessa sala sem me dizer o que está te incomodando. — Ginny estava preocupada com o irmão, além de um pouco ofendida por ele não confiar nela o bastante para lhe contar seus problemas. — Nem que eu tenha de usar minha varinha.

— Você não pode fazer magia. — Ele exclamou e, naquele momento, falando de regras, ele soou um pouco mais como Percy.

— Oh, veremos. — Ela respondeu lhe dando um olhar duro e intenso.

Ele finalmente suspirou e se jogou na poltrona que ficava meio que em frente, meio que do lado do sofá em que ela estava.

— Eu ando muito... distraído. — Ele disse, cansado, e antes que Ginny pudesse dizer algo ele complementou. — E é exatamente o que você está pensando: eu não me distraio.

— Bom, sim. — Ela concordou. — Então...

— Eu demorei muito pra perceber, pra entender o motivo. Mas eu finalmente consegui. — Ele tinha os olhos fechados e soava tão... decepcionado.

Ginny esperou que ele continuasse e dissesse qual era o motivo afinal, mas ele se calou e ela forçou:

— E?

— Eu me odeio. — Ele disse simplesmente. Não foi como uma exasperação nervosa ou uma piada, foi uma constatação, como se ele realmente se odiasse com todas as forças possíveis.

— Percy... — As palavras faltaram a Ginny e tudo que ela conseguiu dizer foi o nome dele.

— Eu me odeio, e eu sei— A certeza dele chegava a ser algo invejável. — que George me odeia também.

A boca de Ginny se abriu em espanto, como se ela não acreditasse que tais palavras estivessem realmente chegando aos seus ouvidos.

— O... o quê? Percy, você tem noção do absurdo que você está falando?

— Ginny, — O tom dele era amargo e ele riu sem emoção. — Você deveria me odiar também, não sei como não odeia.

— Percy, todas as coisas que você fez... eu não concordo, mas eu entendo sua visão. E você mudou. Como eu poderia te odiar?

Ele sacudiu a cabeça, negando.

— Não é por isso. — Ele a olhou, esperando que ela entendesse, mas ela continuou perdida. — George... digamos que toda vez que ele me olha eu sei que ele está pensando que eu deveria ter morrido no lugar de Fred. — Ginny o olhou, escandalizada. — Ele certamente estaria mais feliz. Você também. Mamãe também. Todo mundo estaria mais feliz. Afinal, que justiça é essa em que o gêmeo leal e engraçado e engraçado morre e o irmão que negligenciou a família vive?

Ginny sentiu-se presa no sofá, paralisada. Aquilo nunca – nunca – cruzara sua mente, e naquele momento, ouvindo aquilo em alto e bom som – na voz de Percy – a deixava nauseada. Ela vivenciara uma guerra e ainda assim aquilo soava como a coisa mais cruel que ela já havia ouvido. Ele estava sugerindo que ela poderia escolher qual irmão ela gostava mais e qual deles mereciamorrer?

A relação de Ginny com seus irmãos era complicada, claro. Não que fosse difícil, eles se davam muito bem. Mas quando se tem tantos irmãos mais velhos, cada um com uma diferença maior de idade, estabelecer um relacionamento fica complicado. Bill, Charlie e Percy eram irmãos mais velhos mesmo, eles cuidavam dela quando era criança pela diferença de idade entre eles e a travam realmente como uma garotinha. Quando ela começou a crescer, eles já não estavam por perto. Fred e George já eram um pouco mais próximos, então mesmo cuidando dela quando eram pequenos, eles viram quando ela começou a mudar. E Ron... bem, Ron sempre fora o irmão mais próximo dela. Ainda assim – aliás, por conta disso– ela reservava um carinho diferente e especial por todos eles, e não havia dúvidas dentro de si quando ela afirmava que amava todos da mesma forma.

— Percy. — Só naquele momento que Ginny notou que tinha lágrimas nos olhos e ela se odiou por isso. — Quando você... quando você virou as costas pra gente... — Ela fechou os olhos buscando as palavras certas. — Todos nós ficamos com raiva, sim. Mas você sabe que a raiva é apenas uma máscara que usamos pra tristeza, certo? Mais do que o que você fez, ficamos devastados com a perda da sua presença na família. E por quê? Porque nós te amamos, Percy. Se não te amassemos seriamos indiferentes.

— Gin...

— Não. Você vai parar com essa bobagem. Se ficamos tão maus com isso, como você acha que ficaríamos com a sua morte? Da mesma maneira que ficamos com Fred. Você não é menos importante que nenhum membro dessa família, entendeu? — Ela segurou a mão dele e esperou que ele dissesse algo, mas como não, ela apertou com força a mão entre as suas e questionou de novo: — Entendeu?!

Ele puxou a mão doída do aperto e a olhou meio espantando.

— Eu... — Ele pigarreou. — Eu suponho que sim...

— Não. Não! — Ela exclamou. — Eu amo você. Essa família toda ama você. George ama você. Okay?

Ginny prendeu o olhar ao dele e ele se sentiu incapaz de desviar. E foi então que olhando com atenção nos olhos dela que ele percebeu que mais do que um olhar intenso ela tinha um olhar caloroso. Ela queria que ele entendesse, porque ela realmente sentia.

— Sim. — Ele sussurrou com simplicidade, e se surpreendeu com quanto ele se sentiu mais leve por isso.

— Ótimo. — Ela sorriu, como se não tivesse estado a flor da pele há poucos segundos, e ele sorriu também.

— Eu também amo vocês. — Ele disse a abraçando, num impulso. Ela correspondeu imediatamente.

— Agora vamos lá comer alguma coisa, você deve estar faminto.

Ele a seguiu, ainda sorrindo, a sensação de leveza tomando conta de si.

Ele nunca se sentiu tão feliz por ter Ginny como sua irmã.