II- A Festa, O Elfo e a Cicatriz
Podia ver as pessoas dançando pela pista, todas como silhuetas, algumas conhecidas, outras não. Até minha mãe estava dançando com papai, até Tia Gina estava dançando com Tio Harry e eu, Rose Weasley, estava aqui, sentada e sozinha em um banco no canto da pista.
-Hey Rose! – Albus apareceu na minha frente com os cabelos pretos grudados na testa por ter dançado tanto.
-Hey Albus. – falei me curvando para apoiar meu cotovelo na minha perna e minha cabeça na minha mão.
-Ora, você está aí a festa inteira! Vamos dançar! – ele esticou a mão e eu apenas neguei com a cabeça – A festa não tem graça quando só se fica no canto.
-Acredite, eu sei.
-Claro, você sempre sabe de tudo, então também sabe que vai se divertir muito mais dançando com seu primo. Agora vamos! – ele botou a mão mais próxima de mim.
-Não, obrigada.
Ele me olhou e empurrou o óculos para cima do nariz já que com o suor ele escorregava.
-Bem, eu ao menos tentei. – ele deu ombros e virou, se misturando a multidão que dançava.
A pista de dança estava montada no jardim da casa de Owen e Bonnie Golddraw para a festa do casamento em que estávamos à mais ou menos uma hora. Eles são colegas da minha mãe no ministério, departamento de Regulamentação de Criaturas Mágicas. Ela foi convidada e acabou vindo, arrastando papai, Hugo e eu com ela. Tio Harry também foi convidado, é claro, porque era o tio Harry e arrastou sua família para cá.
Não estava com humor para dançar ou ficar com Albus, James, Hugo e Lily Luna. Estava com a cabeça em outro lugar, no assunto que, maliciosamente, James tocou no almoço.
-Mas então, Rose, já fez sua primeira mágica? – ele sorriu e eu senti algo se revirar no meu estômago quando todos da mesa olharam para mim em expectativa.
Vi mamãe sorrir para mim, como se falasse que não importava que ainda não tivesse demonstrado nenhum sinal de mágica, eu era uma bruxa. Papai apenas abaixou a cabeça, como se estivesse envergonhado e eu me senti mal por desapontá-lo.
-Não, - falei com a voz tremida – ainda não.
E o silêncio imperou na mesa até o final da refeição.
Pode parecer idiota, mas eu estava pensando nisso até agora e as mesmas perguntas pairavam na minha cabeça "E se eu não for uma bruxa?" "E se for um aborto?" "O que será que papai pensaria sobre isso?" "Seria renegada pela minha família?".
Balancei a cabeça. Eu não sou uma aborto, ou ao menos queria acreditar que não era. Algumas pessoas mostravam sinais ainda bebês, antes mesmo de andar, como aconteceu com Albus, outras demoravam um pouco mais, como eu. Era apenas uma questão de tempo, que nem esperar os dentes nascerem ou caírem.
Não é como se alguém ficasse sem dente, mas cada um tem seu tempo de espera. Eu não ficaria sem a minha magia. Mesmo que até meu irmão mais novo já tenha dado seu sinal, não quer dizer que meu tempo acabou.
Levantei do banco e comecei a andar pelo vasto gramado, preferindo ir para a parte de trás da casa, já que a música estava alta e eu queria pensar.
Estava escuro e se a lua não estivesse cheia e brilhante, eu não veria um palmo a frente do meu nariz. Fui andando pela grama, pisando em folhas secas que às vezes me faziam sentir um arrepio.
Vi um galho quebrado um pouco mais a frente e me abaixei, apoiando meu peso nas minha panturrilhas e fiquei olhando para o galho com a maior intensidade que podia.
Mexa-se, mexa-se, mexa-se...
-O que você está fazendo, Weasley?
Dei um pequeno grunhido de susto antes de sentir uma mão no meu ombro, o que me fez perder o equilíbrio e cair de cara nas folhas secas.
Meu primeiro impulso foi ajeitar a barra do meu vestido amarelo e me virar, sentada nas folhas secas, para ver quem era.
-Que susto, Scorpius! – falei emburrada e cruzando meus braços.
-Que susto? Você fica abaixada aí, no escuro! Sabia que eu quase tropecei em você? – ele esticou a mão para me ajudar a levantar.
Aceitei a mão e me levantei, ignorando completamente sua última pergunta.
-Por que, afinal, você estava aqui? – falei enquanto batia no meu vestido. Ele ficou em silêncio. – Por acaso estava me seguindo? – estreitei os olhos.
Podia estar meio escuro, mas tenho quase certeza que vi as bochechas dele tomarem uma cor mais rosada.
-Apenas vim ver em que encrenca estava se metendo, Weasley.
-Você me seguiu. – acusei novamente. – E me chame de Rose!
Depois de ter certeza que meu vestido estava limpo continuei a andar ouvindo mais folhas secas sendo pisadas atrás de mim, o que significava que Scorpius me seguia.
-Não vai ficar chateada, né? – ele perguntou.
-Não, mas vou querer saber uma coisa. – falei exigente, me virando e cruzando os braços.
-Diga.
-Bem, toda criança bruxa geralmente dá um sinal de magia, qual foi o seu sinal de magia? E quando?
Ele piscou os olhos.
- Não tenho a menos ideia de o porquê você me perguntar isso, mas se quiser saber mesmo foi na Mansão, em uma festa a mais ou menos dois anos atrás. – começamos a andar novamente, só que agora um ao lado do outro - Ouvi um homem falar mal do meu pai, pelo seu passado, e me irritei profundamente com isso. – ele deu uma pausa dramática. Eu sabia o que o pai dele foi, meu pai relembrava isso sempre que podia. – A taça na mão dele explodiu e ele ficou encharcado, além disso, a cara dele começou a ficar cheia de coisas nojentas, parecia algum tipo de fungo. Acho que meu pai sabe que fui eu. – ele deu uma risadinha – Isso aconteceu há uns três anos.
Ficamos um tempo em silêncio e a lua foi coberta por uma nuvem.
-Ainda não dei meu sinal de magia. – confidenciei em voz baixa, como se as árvores pudessem nos escutar.
-Tenho certeza que logo dará. – ele falou sem hesitar e aquilo me deu confiança.
-Não acha que sou um aborto ou algo do tipo? – perguntei olhando para ele.
-Não, apenas acho que demorou um pouco para dar sinais de magia, mas eu sei que existe magia em você.
Falando desse jeito, por um breve momento, me lembrou minha mãe. Ela nunca iria perder as esperanças em mim, talvez Scorpius também não. A nuvem deixou novamente a luz da lua cair sobre nós e olhando para o céu sem estrelas falei baixo.
-Obrigada.
Ficamos alguns minutos em silêncio quando senti a mão dele na minha, olhei para ele que apenas sorriu e não tinha como não sorrir de volta. Adorava seu sorriso.
Foi quando o vento soprou mais forte e uma risada chegou aos meus ouvidos, mas não era uma risada qualquer, era uma risada envolvente, que me fazia esquecer tudo, poderia até me hipnotizar. Olhei para Scorpius, como se para saber se ele também tinha ouvido a mesma risada envolvente e ele confirmou com a cabeça.
Mais uma vez a gargalhada soou nos nossos ouvidos e eu fiquei curiosa para saber de onde vinha, ela parecia distante, mas ao mesmo tempo ecoava nitidamente. Parecia que vinha de algum lugar à frente, mas a única coisa que tinha na nossa frente era uma subida, mas teria que ser quase escalada para subir.
Scorpius sem falar nada me puxou pela mão e logo ali do lado tinha uma escada de pedra que me parecia bem improvisada e talvez um pouco perigosa, mas a gargalhada estava cada vez mais tentadora e alta. Ele foi na frente, ainda sem soltar minha mão e eu tentei acompanhar seu ritmo sem tropeçar.
No final da escada tinha um pequeno terreno plano com a grama bem amassada e nenhuma árvore ou flor, como no jardim de baixo, mas logo deixei de me importar com as plantas quando ouvi a risada e agora ela ia no fundo dos meus tímpanos. Levantando a cabeça vi uma jaula e lá estava o nosso homem, nesse caso elfo.
Ele estava preso na jaula e segurava as barras como quem quer escapar, deveria ser apenas um pouco menor do que nós e tinha um sorriso travesso no rosto. Aquele não me parecia nenhum dos elfos domésticos que já vi, talvez não fosse um doméstico e por isso estivesse preso.
-O que é isso? – Scorpius soltou minha mão enquanto sussurrava, mas era bem audível já que sem a risada do elfo a noite era silenciosa.
Eu sabia o que era aquilo, já tinha visto uma foto desse animal, mas não me lembrava o nome agora, a única coisa que eu lembrava era que era classificado como perigoso e isso me fez sentir um arrepio.
O elfo riu novamente e eu me senti mais leve do que nunca, tão leve que fechei meus olhos e relaxei. Como um animal que ria de uma maneira tão deliciosa podia ser considerado perigoso?
Foi como em um estalo me lembrei. Aquilo era um Elfo-da-Bavária! Ele era conhecido por comer crianças e ter uma gargalhada que as atrai. Abri os olhos exasperada e vi a última coisa que eu queria: Scorpius perto da jaula e o elfo no fundo dela dando pequenas risadas para seduzi-lo a abrir a grade.
-Scorpius! Não abra essa jaula! – gritei paralisada de medo.
Esse grito ecoou e Scorpius até balançou a cabeça como se tivesse recuperando a mente, mas o elfo deu uma risada altíssima, fazendo meu grito parecer apenas um sussurro e Scorpius por fim girou o que parecia uma espécie de prego e abriu a jaula.
Tudo aconteceu muito rápido, se eu piscasse perderia com toda certeza, em um momento Scorpius estava em pé de costas para mim, no outro ele estava no chão com o elfo em cima dele.
-Scorpius! – gritei e corri em sua direção, mas logo parei assim que o elfo levantou a cabeça e me olhou, com aquele olhar uma onda de medo se apoderou do meu corpo e me deixou quase paralisada.
O elfo sorriu de forma maldosa e cravou os dentes no ombro de Scorpius, o fazendo gritar de dor. Aquilo foi o suficiente para meu medo virar pânico completo.
-Solte ele! – gritei, mas o elfo apenas levantou o rosto e sorriu com seus dentes pontiagudos a mostra e o sangue de Scorpius manchando tanto seus dentes quanto em volta dos lábios.
E eu abaixei a cabeça, não me permitindo ver uma cena dessas, senti todo meu corpo tremer de raiva e culpa. Não deveria ter me preocupado com coisas idiotas, deveria ter dançado com Albus e não me esgueirado pelos jardins. A culpa era toda minha e por isso Scorpius ia morrer na minha frente. Levantei os olhos molhados, mas mesmo assim me sentia forte, me sentia plena e como se pudesse enfrentar qualquer coisa.
O elfo continuava a olhar para mim, como se esperasse que eu corresse ou algo do tipo.
-Sai de perto dele! – gritei o máximo que pude e um segundo depois alguma coisa estranha aconteceu porque o elfo foi lançado para trás de uma maneira bruta, batendo com as costas no final da jaula de ferro e soltando um grunhido.
Arregalei os olhos e olhei para minhas mãos. Eu tinha acabado de fazer meu primeiro sinal de mágica! Sorri, mas assim que levantei minha cabeça e vi Scorpius caído no chão sangrando sai correndo e me ajoelhei ao seu lado.
-Ai, desculpe, desculpe, desculpe! A culpa é toda minha, não deveria...
-Rose, - ele apenas murmurou fraco, sua pele estava mais pálida que o normal e seus lábios também – você deu seu primeiro sinal de magia.
E aquilo foi o suficiente para mais lágrimas rolarem pelos meus olhos.
-Idiota, - murmurei – mesmo quase morrendo continua sendo um idiota.
E nós sorrimos.
Um barulho vindo da jaula me vez levantar a vista e ver o elfo já em pé vindo na nossa direção e antes que eu pudesse gritar por socorro ou tentar tirar Scorpius dali o elfo voltou a ser lançado para trás.
Mas dessa vez não fui eu.
Olhei para trás e pude ver mamãe com a varinha na mão e logo atrás dela Malfoy e de pouco em pouco mais pessoas subiam e se juntavam ali para ver a cena.
-Mas o que? – papai gritou assim que viu como estávamos.
É, isso vai dar o que falar.
Bem, depois do que aconteceu Scorpius foi levado ao St. Mungus e, obviamente, a festa acabou. Tive que explicar tudo a mamãe e papai o que tinha acontecido e aproveitei para falar do meu primeiro sinal de magia, que os fez sorrir, mas pediram para que continuasse com a história.
Ela me disse que apenas foi nos procurar por que eles ouviram a risada do elfo, mesmo não sabendo que era dele, e falou com Owen sobre essa risada, ele explicou rapidamente a história sobre o elfo. Só que mamãe notou minha ausência e viu Malfoy procurando pelo filho. Ela disse que todas as peças se encaixaram e mandou Owen mostrar onde estava o elfo e, bem, ela nos encontrou naquela situação.
Perguntei para mamãe o que um Elfo-da-Bavária fazia aqui e ela disse que, na verdade, Owen estava com esse animal porque ele foi encontrado por aqui, na Inglaterra, e já que essa não é sua região ele o guardou para levar de volta a Floresta Negra. Só não contava que alguma criança entrasse em perigo.
De qualquer maneira, nesse momento ele já deve estar em seu habitat.
-Entre você, te espero aqui fora. – mamãe disse se sentando em uma das cadeiras que ficavam do lado de fora do quarto.
Respirei fundo e entrei sem bater antes, encontrando Scorpius deitado na cama do hospital, onde estava por dois dias, apoiado em um travesseiro.
-V-vim ver se estava bem. – gaguejei olhando para o chão e fechando a porta atrás de mim.
-Melhor do que nunca.
-Bem, que bom. – tomei coragem e olhei para ele.
Ele não me parecia abalado ou doente, parecia o Scorpius normal, sem pele ou lábios pálidos.
-Sabe? Eu pensei que iria doer muito para meu ombro voltar a ser o que era, mas apenas tiveram que botar um pano com um tipo de pomada para melhorar. – ele sorriu – Mas vai ficar uma cicatriz.
-Não tem como tirar? – perguntei mordendo meu lábio inferior, essa cicatriz me lembraria a todo momento da minha culpa.
-Tem, mas papai disse que mulheres gostam de cicatrizes. – ele sorriu e não teve como não acompanhá-lo. – Isso é para mim? – ele apontou para o saco de bombas de caramelo na minha mão.
-Sim, - cheguei mais perto dele e entreguei o saco – melhoras.
Ele sorriu.
-Vou sobreviver, - ele sorriu zombeiro - obrigada por vir. – ele abriu o saco e comeu uma bomba.
-Vou indo. – mas antes de eu me virar ele falou.
-Pegue uma. – e me ofereceu.
Peguei apenas por educação e me virei para ir embora. Quando estava com a mão na maçaneta ele me chamou novamente e eu o olhei por cima do ombro.
-Não foi sua culpa, fizemos a besteira juntos e saímos juntos.
Essa frase fez com que o peso da culpa não me parecesse tão grande e, provavelmente, também me fez corar.
Juntos.
N/A.: Esse é um dos meus contos favoritos, nada como uma experiência de quase morte pra juntar as pessoas, né? ;3
Esse elfo é, na verdade, nativo da Alemanha, então eu botei ele perdido por aí, já que quando terminei de ler a descrição dele no livro Animais Mágicos e Onde Habitam senti necessidade de usá-lo. Ainda mais com o detalhe dele devorar crianças. Haha.
