11 – Identidade

Naruto se viu sozinha na cozinha. A loira virou-se de costas para porta e cruzou os braços sobre o peito. Ela sabia que havia arranjado problemas sérios no momento que Sasuke lhe deu aquele olhar de "eu sei que você está me escondendo algo". Ela soltou um suspiro pesado. Naruto teria que arrumar aquela bagunça. Mas, antes alguém precisava de um "agradecimento".

- sei que está ai, Sai... – ela murmurou, ainda de costas.

O moreno seguiu até ela.

- sabia que logo você notaria. – ele sorriu falsamente, como de costume.

Sai foi até o armário e pegou alguns pratos.

- muito gentil da parte dele, não é? – ele disse, sarcástico. – eu, pelo menos, ajudo minha esposa a colocar a mesa...

- ele não é nada meu... – ela respondeu, secamente. – e você, como marido, tem mesmo que ajudar ... – ela completou, sorrindo um pouco.

- ah, ta legal, Naruto... – Sai disse, com a voz cheia de escárnio – você e o Uchiha? Não são nada? Ta legal. Mais explicito do que vocês são, só se ele a pedisse em casamento...

- SAI! – ela gritou para ele, nervosa – deixe de falar asneiras!

Sai deu os ombros, um sorriso cínico brotando em seus lábios.

- não falei nada que não fosse verdade, Naruto... – ele disse, ao arrumar os pratos sobre a mesa da cozinha – ele olha para você como se fosse algo que apenas ele pode ter acesso... como se alguém que se quer tocasse em você, merecesse ser morto... – ele deu uma risada baixa, ao pegar os talheres e arrumá-los sobre a mesa.

- você fala de mais... – ela rosnou, ao passar por ele e dar uma tapa em seu braço antes de seguir para a geladeira – ele não faz isso...

- vamos testar então? – ele disse, provocante. Seu rosto estava cheio de expectativas.

Naruto o olhou longamente, ao pegar uma grande garrafa de suco e fechar a geladeira.

- você só que um motivo para irritá-lo, não é? – ela perguntou por fim.

- podemos dizer que sim... – ele sorriu.

Naruto suspirou, e colocou a garrafa sobre a mesa, no centro.

- mas Sakura-chan não vai reclamar? – perguntou, já prevendo a reação da amiga.

- bem... – ele pareceu pensar – eu adoro vê-la se corroer de ciúmes...

- você é louco... – ela bufou, olhando-o de soslaio – deixar Sakura-chan irritada nunca foi algo muito bom para a saúde.

- é porque ninguém além de mim conhece o lado "pós-irritação" dela... – ele sorriu perversamente – podemos dizer que já tive que trocar nossa cama diversas vezes...

Naruto deu uma tapa na própria testa.

- eu devia imaginar que você diria algo assim... – ela rosnou.

- vamos... não custa nada... – ele soou persuasivo – eu não vou deixar Sakura fazer nada... – ele se aproximou dela – ambos ganhamos com isso... você vai ver o que eu quis dizer sobre Sasuke se corroer de ciúmes de você... e eu ganho...

- um belíssimo soco de sua esposa bem no meio da sua cara? – Naruto o interrompeu, acidamente.

- uma boa sessão de carinhos... – ele a corrigiu – nada faz com que ela demonstre mais amor do que quando ela fica com ciúmes...

- e o que te faz crer que ela sentirá ciúmes de você comigo? – Naruto colocou as mãos na cintura.

- você vai ver... – ele disse, puxando-a para seus braços.

- Sai... – Naruto alertou.

- não se preocupe... deixe isso comigo. – ele disse ao envolver a cintura da loira. – você só precisa cooperar...

Naruto o olhou por alguns segundos e deu os ombros, concordando. Ela já imaginava o que aconteceria, então era só esperar a tempestade começar.

...

Eles foram até a sala, abraçados de modo bem intimo. Sai estava agarrado a cintura de Naruto, que por sua vez estava abraçada fortemente ao peito de Sai. Ambos riam divertidos, pois Sai começara a fazer cócegas em Naruto no momento em que eles saíram da cozinha.

- vamos comer. – Naruto anunciou, olhando pela primeira vez para as pessoas na sala. E ela gelou com a cena que viu.

Sasuke e Sakura tinham os olhos bem abertos, encarando-os.

Sakura olhava para os braços de Naruto, que estavam sobre o peito de Sai, tentando afastá-lo, mas aos olhos da Haruno, aquilo poderia muito bem ser um carinho. Sasuke fixava seu olhar nos braços de Sai que envolviam a cintura de Naruto. Ele não precisava que sua imaginação montasse nenhuma explicação, pois a forma que ele a abraçava já deixava claro a finalidade daquele toque.

Para provocar, Sai aproximou seu toque atrás de Naruto, colando seu corpo ao dela e ainda abraçado a sua cintura.

Sakura e Sasuke ainda os encaravam, quando ele fez isso. E Naruto pode ver que o sofá onde eles estavam sentados tremeu com a pressão das mãos dos dois, que agarravam o acento.

Sai abafou uma risada, nos cabelos da loira. Naruto virou-se para Sai e o alertou com os olhos. Mas Sai sorriu e ignorou o alerta.

Ele se inclinou de encontro ao pescoço da loira e sussurrou.

- vamos... – a voz arrastada e sensual – a comida vai esfriar...

Naruto tremeu suavemente e fechou os olhos ao sentir um beijo no vão do pescoço.

O que aconteceu depois disso foi uma confusão de gritos e rosnados altos.

Quando ela novamente abriu os olhos, Naruto se viu afastada vários metros de Sai, que sorria maldosamente, enquanto Sakura estava gritando com ele, sem que ele desse a mínima atenção a isso.

Sasuke estava a sua frente e também gritava com ela, mas os gritos dele e de Sakura eram tão altos e confusos que ela não entendia nada.

Ela se afastou do Uchiha, que a encarava colérico, ao mesmo tempo em que Sai se afastou de Sakura, que ainda gritava.

- eu te avisei... – Naruto sibilou, ao parar em frente a Sai.

Sakura e Sasuke se calaram.

- eu avisei que eles fariam isso! – ela gritou apontando um dedo acusatório no rosto de Sai, que ainda sorria perversamente.

- sim, você avisou... – ele respondeu, sem um pingo de remorso.

Sakura avançou, se interpondo entre seu marido e Naruto.

- o que diabos você acha que está fazendo, Naruto? – ela gritou colérica, e Naruto recuou um passo.

Sai agarrou o braço de Sakura, quando ela avançou para Naruto.

- mas o que...? – ela começou a gritar novamente, mas se calou ao ver o olhar frio de seu marido.

- isso foi uma brincadeira minha com Naruto. – ele disse sério.

Foi a vez de Sasuke se posicionar à frente de Naruto, encarando Sai.

- essa foi a brincadeira mais estúpida que eu já vi... – Sasuke cuspiu.

Sai o olhou, e novamente a zombaria estava em suas feições.

- ora... ela é minha "amiga"... – ele encheu a palavra de doçura – não posso abraçar a minha amiga?

Sasuke rosnou e parou a frente Naruto para escondê-la da visão de Sai.

- não, você não pode! – o Uchiha sibilou.

- não sei o porque você se importa... ela não é nada sua... – Sai disse, despreocupado, repetindo as palavras de Naruto na cozinha.

Os olhos de Sasuke cintilaram de indignação. O Uchiha avançou dois passos meticulosamente calculados, parando em frente a Sai.

- ela é minha... – ele sussurrou com a voz fria, mas extremamente calma. Perigosamente calma. Os olhos de Naruto se abriram em choque e ela corou com o tom de extrema possessividade que havia na voz do Uchiha. – não volte a repetir a brincadeira infeliz... Cortarei suas mãos imundas se você voltar a tocá-la da maneira como você fez há pouco...

...

A refeição se passou num clima tenso. Sasuke e Sai trocavam ironias a cada minuto e Sakura fitava seriamente Naruto na mesma freqüência.

- não consigo mais comer... – a loira levantou-se lentamente, fitando o chão.

Os outros a olharam colocar o prato quase intocado na pia e sair da cozinha em silêncio.

Sai começou a se levantar, para segui-la, mas Sasuke foi mais rápido. Ele o puxou violentamente de volta, para que se sentasse e, com passos lentos e firmes, foi atrás de Naruto.

Sakura e Sai ficaram a sós na cozinha do Uchiha.

Um minuto inteiro se passou antes que alguém dissesse algo. Mas foi Sakura a quebrar esse silêncio.

- você vai pagar caro por isso quando chegarmos em casa, Sai... – ela rosnou, seus olhos em chamas.

O moreno apenas sorriu.

- é com isso que eu estou contando...

...

Ele sabia que ela não estava mais na casa. Assim que ele pisou fora da cozinha, ele pode ouvir a porta da frente ser fechada, então não perdeu tempo em sair de casa também.

Sasuke caminhou pelas ruas do complexo Uchiha, com as mãos no bolso da calça, seguindo o chakra de Naruto. Era um chakra inconfundível. Poderoso e grande. Ele acharia esse chakra aonde quer que ele o sinta, não havia duvida nisso.

Ele caminhou até chegar ao templo mais afastado do complexo. Era um lugar que já estava abandonado antes do massacre. O local estava em ruínas. As paredes e o teto do templo estavam quebrados e o mato alto ocupava seu espaço. Havia pequenos roedores, esquilos em sua maioria, que passavam de um lado para o outro da estrutura.

Mas Sasuke não prestou a atenção em nada disso.

Ele focalizava a pessoa sentada nos velhos degraus destruídos do antigo templo. Ela parecia triste e amuada ao mirar o horizonte.

- hei, dobe... – ele chamou, a alguns metros de distância.

Ela o olhou, mas não respondeu.

- o que está fazendo aqui? – ele perguntou, sua voz mostrando pouco interesse.

Novamente nenhuma resposta.

Ele continuou a caminhar até que estivesse parado na frente dela.

- desculpe por aquilo... – Naruto murmurou, olhando para o chão – não devia ter deixado Sai me convencer a fazer aquela brincadeira... Sakura-chan deve estar com raiva de mim agora...

- não se preocupe com Sakura. – o Uchiha disse ao se sentar no espaço ao lado dela – ela não está com raiva de você... – ele disse calmamente, mas não conseguiu conter a pontada de raiva em sua voz quando continuou - mas porque você fez aquilo?

Naruto riu encabulada.

- Sai queria provocar ciúmes em Sakura... – ela disse.

- idiota... - o Uchiha rosnou – mas você não tinha que participar daquilo...

Ela suspirou.

– eu imaginava que você ficaria irritado, mas não sabia que fosse ficar tão furioso como você ficou...

- e você queria o que, Naruto? – ele a olhou com o cenho franzido de irritação – que eu ficasse calmo com ele te tocando daquele jeito?

- eu sei... eu sei... mas você não tinha motivos pra fica tão irritado... – ela disse dando pouco caso a questão – ele só estava brincando... fora o caso que ele é casado com Sakura.

- por isso mesmo ele não deveria ter feito o que fez... – havia um timbre possessivo na voz do Uchiha que Naruto não deixou de notar.

- você fala com se ele tivesse feito algo terrível com você, Sasuke... – ela refletiu – por que você faz isso? Ele não lhe fez nada...

Sasuke olhou para a loira com um olhar incrédulo.

- não fez nada? – o Uchiha sibilou – ele tocou em você...

- e o que isso tem a ver?

O moreno trincou os dentes. Ela estava de brincadeira? Isso era ridículo. Ele não ia permitir que outro a não fosse ele a tocasse desde que voltara a Konoha. Nem quando ambos eram homens, ele permitia que outros tocassem em Naruto. As pessoas da vila não o queriam bem. Ainda tinham medo. E Sasuke não permitia que qualquer um deles fizesse mal a Naruto. Ele o protegia. Como um irmão protetor e neurótico, Naruto disse certa vez.

Naruto sempre foi diferente dos demais, para Sasuke. Ele o entendia. Ele o impulsionava. Ele o apoiava. Mesmo em sua era de trevas, Sasuke sabia que se ele precisasse, Naruto sempre estaria lá para ele. Era ele que nunca pode se deixar confiar nisso. Ele não podia deixar que suas emoções tomassem sua vida novamente. Porque ele sabia que não seria forte o bastante para suportar a dor de arrancar novamente aqueles que ele amava de seu coração. Foi doloroso de mais deixar para trás as últimas pessoas que ele permitira entrar em seu mundo particular.

Mas naquela época, a vingança vinha acima de tudo. Tudo o que era importante na sua vida foi deixado de lado por um sentimento que ele mesmo não conseguia controlar. Era maior do que ele. Perdeu seu lar, seus amigos e seu irmão. Tudo por culpa de um sentimento destrutivo que quase lhe tirou a vida.

A morte naquela época lhe era uma dádiva que ele ansiava. Mas como todo bom Uchiha, sua vida não seria tirada por alguém que não valesse a pena. Seu orgulho nunca permitiria que um ser inferior a ele o derrotasse. E com o tempo, a lança da morte se encontrava cada vez mais distante de si. Ele a queria, mas sua força e orgulho impediam que ela o alcançasse. O grande Uchiha Sasuke era poderoso de mais para seu próprio bem ou satisfação.

Na luta que culminou sua volta a Konoha, não foi o fato de ter sido derrotado que o fez voltar. Na verdade, ele não foi derrotado. Ele e Naruto haviam empatado novamente, como sempre acontecia quando eles se enfrentavam. Nenhum dos dois conseguia dar cabo da vida um do outro. Ele tivera sua cota de oportunidades para matar Naruto, mas por alguma razão ele não conseguia. Naruto também teve suas oportunidades de matá-lo, mas por alguma razão os golpes eram fracos de mais, superficiais de mais, calmos de mais.

O que o fez realmente se dispor a voltar a Konoha foi algo que nem ele e nem Naruto fizeram. Foi algo que aconteceu a eles.

O rumo desconexo dos pensamentos de Sasuke o surpreendeu ao levá-lo as lembranças daquele dia terrível. Como uma teia de aranha, os emaranhados das lembranças que deveríamos esquecer são aquelas que mais persistem em nos atormentar.

As coisas mais presentes em sua mente eram as dores, os sangues e as lágrimas. Apesar de sua cor similar, ele sabia diferencia cada cheiro de sangue presente. Apesar das feridas serem similares, ele conseguia definir cada grau de dor demonstrados nos gemidos, murmúrios e gritos. E apesar de serem feitos da mesma substancia, ele conseguia diferenciar cada tipo de lágrimas presentes naquela cena.

A lembrança daquele dia era tão real que o Uchiha somente foi tirado de suas memórias quando notou uma fonte de calor incomum, Naruto estava firmemente abraçada ao seu peito, murmurando palavras tranqüilizadoras. Só então ele notara que seu corpo tremia, embora a rigidez em que seu corpo se encontrava dificultasse isso.

- shhh... calma, Sasuke... – ela continuava a entoar – está tudo bem... calma...

Ele se forçou a destravar os dentes que pareciam que iam se pulverizar com a enorme pressão exercida sobre eles.

Ele suspirou pesadamente, destravando seus ombros e deixando-os arriar, a loira afastou-se brevemente para olhá-lo.

- o que te fez ficar assim, Sasuke? – ela perguntou, calmamente.

Ele virou o rosto para longe dela.

- só me lembrei de algo que não devia... – ele rosnou a resposta, ainda irritadiço pelas lembranças.

- algo que eu deva saber, teme? – ela perguntou novamente

- não. – ele respondeu de forma ríspida.

Ela suspirou e se afastou, colocando-se de pé.

- tudo bem... – ela começou a caminhar para longe – não vou mais te incomodar.

Mas ela não conseguiu chegar muito longe. Já no terceiro passo, Sasuke a puxou rapidamente pelo pulso, de volta para o espaço ao seu lado.

- sabe... – ela resmungou, afagando a área abusada – isso já ta me cansando, teme... será que dá para me chamar como uma pessoa normal, ao invés de ficar me puxando? Vai acabar quebrando meu braço qualquer hora dessas...

Ela mudara de assunto de propósito, Sasuke sabia. Ela não iria pressioná-lo para saber o que queria, mesmo que a curiosidade a queimasse por dentro.

- se você não fosse estúpida o suficiente para pensar coisas imbecis e fazer coisas idiotas o tempo todo, eu não teria que fazer isso... – ele disse num meio sorriso, vendo o rosto da loira corar de ódio e indignação.

Era tão fácil esquecer-se das preocupações quando eles brigavam. Era como se cada briga estúpida e idiota abrisse a porta de um mundo particular onde somente eles habitavam. Nele só havia teme e dobe. Nada mais.

- seu teme imbecil retardado! – ela gritou, lívida de ódio.

- sua dobe tapada idiota. – ele respondeu com a voz sarcástica e debochada.

Foi só então, quando preparava outra rodada de insultos, que Naruto notou que Sasuke ainda lhe tocava, não mais no pulso, mas agora no antebraço, e o ato parecia totalmente inconsciente. Ela sorriu presunçosa ao afastar mão dele, as palavras de Sai presente em sua cabeça.

"você vai ver o que eu quis dizer sobre Sasuke se corroer de ciúmes de você..."

- hmmm... acho que vou procurar uma companhia mais... acolhedora. – ela murmurou, sua voz estranhamente dengosa. Ela se pois de pé, alisando sua roupa. – Sai deve ter brigado com Sakura... ele deve ter um tempinho para me ouvir, não é? – seu sorriso aumentou ao ver a pouca cor que havia no rosto do Uchiha desaparecer – pelo menos ele me trata como uma dama... – ela olhou friamente para Sasuke, que ainda lhe encarava em choque – ao contrario de certas pessoas...

Ela novamente tentou se afastar, mas Sasuke novamente a impediu. Dessa vez, mais brusco. Ele a agarrou pelos ombros, virando-os para ele, seus olhos queimavam com as como as chamas negras do inferno. A satisfação de ver pela segunda vez o tão sério e impassível Uchiha Sasuke se transformar num furacão de emoções violentas lhe era imensamente prazeroso. Ela não conseguiu ocultar o sorriso.

- não! – ele rosnou, seu rosto tomado por uma fúria extrema.

- não o que? – ela perguntou, aparentando inocência.

- você não vai procurá-lo, você não vai chegar perto dele, e você não faz fazer isso! – ele continuava, ainda colérico.

- fazer o que? – ela perguntou em tom de desafio, colando-se de modo provocante ao corpo do moreno. Ela queria provocá-lo, queria irritá-lo. Fazê-lo ver que ela não era um objeto e ele não era o seu dono. Ela era Uzumaki Naruto. Ela fazia o que queria a hora que queria. Mesmo que quebrasse a cara depois, mas eram sempre suas decisões.

Agora foi a vez dele sorrir. Sasuke aproximou seus lábios do ouvido esquerdo da loira, fazendo-a estremecer com sua respiração, e envolveu sua cintura de modo possessivo.

- me fazer desejar você dessa forma... – ele sussurrou roucamente, arrancando outro tremor involuntário dela.

Naruto não teve muito tempo de assimilar o que veio primeiro, depois disso.

Ela não sabia se tinha sido o empurrão que ela levara do Uchiha, fazendo ela cair no chão com ele por cima dela, seus corpos colados demais para a sanidade de ambos.

Ela não sabia se tinha sido o choque brutal dos lábios frios, mas extremamente deliciosos e viciantes, de Sasuke nos seus.

Ela não sabia se tinha sido suas próprias mãos arrancando a camisa do moreno, rasgando a em tiras por causa das unhas grandes e afiadas, buscando por mais contato com aquela pele que era tão fria e tão quente ao mesmo tempo.

Ela realmente não sabia.

Mas ela não queria mesmo saber aquilo. Era um mero detalhe e Uzumaki Naruto nunca se prendeu a detalhes.

Num movimento rápido e puramente instintivo, Naruto se empurrou para cima, jogando agora Sasuke de costas no chão. Ele franziu o cenho quando ela se posicionou de quatro acima dele. Ela passou uma de suas mãos sobre o abdome definido do Uchiha, arrancando um gemido involuntário dele quando ela alisou seus músculos lentamente. Os olhos dele brilhavam de desejo. Ela sorriu ao ver a expressão dele.

- desculpe-me, mas eu nunca gostei de ficar por baixo... – a voz dela saiu luxuriosa e arrastada.

Mas antes que ele protestasse ou perguntasse o sentido daquela frase, ela se lançou aos lábios dele, atacando-os com fúria e desejo.

Sempre houve essa busca de domar um ao outro na relação entre Naruto e Sasuke. Nem um dos dois estava satisfeito com o posto de segundo lugar, e o desconforto era maior ainda quando era um dos dois é que estava perdendo para o outro. O que ocorria sempre.

- sabe, isso é no mínimo peculiar... – uma voz, que parecia se divertir, se fez presente, vindo de dentro da floresta. – mas não posso deixar de apreciar a beleza nisso... – a voz debochou.

Naruto e Sasuke simplesmente congelaram com a presença recém descoberta. Então, de repente, a loira se afastou bruscamente, pondo-se a alguns metros de distância de Sasuke, alisando e arrumando sua roupa. O moreno se ergueu devagar, sua expressão homicida. Ele estava louco de vontade de matar o infeliz que os interrompeu.

Analisando o prospecto da situação, Naruto se encontrava em pé, a cerca de quatro metros de onde até poucos instantes se agarrava a Sasuke. Sua roupa, apesar de estar bastante amarrotada, estava inteira e ela não teve muito trabalho para se recompor. Já Sasuke era um pouco diferente. Depois de ter sua blusa feita em tiras por Naruto, ele agora se encontrava com o peito pálido e musculoso a mostra.

- você ainda não perdeu essa maldita mania? – Sasuke sibilou.

- oh, não, Sasuke... você não sabe como é divertido ver coisas desse tipo, meu caro...- o dono da voz parecia estar se aproximando a medida que sua voz ficava mais alta e próxima do local onde eles dois estavam.

- você vai ver a diversão, Kakashi... – ele rosnou virando-se para caminhar até uma muda e paralisada Uzumaki – vai ser divertido eu arrancar a tua cabeça e dar os teus restos para os animais da floresta... isso sim vai ser divertido.

- Kakashi-sensei? – Naruto perguntou num sussurro, saindo do transe e passando encarar o local de onde a voz pareça vir.

- oh, meu querido ex-aluno... – o homem de cabelo prateado surgiu entre as árvores – você ainda tem muito que aprender... – ele zombou e se encostou a um tronco, cruzando os braços.

Naruto o olhou por alguns segundos antes que um lindo e brilhante sorriso se espalhasse por seu rosto.

- sensei! – ela gritou e correu até o homem de cabelos prateados, se jogando sobre ele e o abraçando.

- hei, meu ninja número um ao contrário! – ele a saudou, amavelmente, ao retribuir o abraço. – opa... errei... – ele riu – agora é "minha ninja número um ao contrário"...

Naruto riu calorosamente. Sasuke deu um pigarro e a loira o olhou. Ele tinha os olhos presos em Kakashi e ela entendeu que deveria se afastar do sensei caso não quisesse repetir o que aconteceu na casa há pouco tempo.

Depois de algum tempo conversando com Kakashi, relembrando os antigos tempos de time 7, Sasuke e Naruto já se preparavam para ir embora quando o sensei lhes impediu.

- Naruto, preciso que você fique mais um pouco... – ele disse com a voz repentinamente séria. E olhando para Sasuke, continuou – você pode ir na frente... Logo ela estará em casa.

O Uchiha olhou-o com desconfiança, mas nada disse.

- pode ir, teme... – Naruto sorriu para ele, com diversão, encorajando-o a ir. – porque você não vai ver se o Sai ainda está na sua casa?

Sasuke ergueu uma sobrancelha, confuso.

- mais você não queria que eu fizesse... – ele começou a falar, mas ela logo o interrompeu.

- o que eu não vi, não posso criticar, não acha?

Ainda desconfiada com a atitude de Naruto, Sasuke fingiu-se de convencido e partiu.

- Naruto...? – Kakashi começou, ainda temeroso. Ele havia esperado alguns minutos antes de prosseguiu, sendo observado pela loira. – Tsunade-sama me contou o que havia acontecido com você...

- hoje? – a loira perguntou, com aparente interesse.

- não... Já sei faz mais ou menos uns três anos... – ele disse.

- hmm...

- tentei vê-la, nesse tempo, mas por mais autorização que Hokage-sama me desse, nunca conseguia encontrar você...

Naruto manteve-se em silêncio por alguns instantes, antes de responder.

- eu não queria ser encontrada... Se não fosse por ordem extrema da baa-chan, nem Sai teria me encontrado.

- e porque você não quis que víssemos você, Naruto?

O rosto da loira entristeceu, apesar dela ainda continuar sorrindo.

- eu não posso mais ser o que eu era, Sensei. – ela o olhou e apontou para o próprio corpo – "isso" não é mais o que era... Eu não sou mais o que era.

Deduzindo o que ela queria dizer, Kakashi prosseguiu.

- você passou pelo treinamento da ANBU, eu suponho...

A loira confirmou com um aceno de cabeça e Kakashi suspirou.

- se não fosse pela presença constante de Sai, duvido que eu tivesse conseguido manter o mínimo de mim, da minha personalidade, que eu tenho hoje... – ela sentou-se no chão e começou a arrancar algumas folhas de grama, distraidamente – se ele não estivesse por perto, eu provavelmente seria a shinobi perfeita... Sem alma... Sem coração... – ela disse com amargura, arrancando mais algumas folhas de grama.

Kakashi caminhou até a loira e sentou-se ao seu lado, olhando para o céu. Ambos ficaram em silêncio, ele olhando para cima e ela para baixo.

- não acho que teria... – ele disse, depois de vários minutos calados. – conheço você, Naruto... Fui seu sensei e, depois, companheiro de equipe... Não creio que alguém nesse mundo teria poder suficiente para te "destruir"... Para destruir o que você é...

A Uzumaki o olhou, um tanto surpresa.

- como eu disse antes... – ele prosseguiu, agora bagunçando os longos cabelos loiros dela – você é a ninja numero um de trás pra frente... Ninguém consegue prever o que você vai fazer... Nem como fará... Então sei que, apesar de estar diferente por fora, ainda é o mesmo moleque encrenqueiro e agitado de sempre... E sempre será. – Kakashi se levantou e começou a andar, seguindo novamente para a floresta – não se preocupe com coisas bobas, Naruto... Nós te aceitamos pelo que você é... Um shinobi forte que sempre protegeu nossa vila e não é a sua aparência que vai mudar quem você foi e é... – ele parou, na entrada da floresta, e virou-se para olhar a loira que ainda permanecia encarando-o com uma expressão surpresa – e você é Uzumaki Naruto.

Naruto ainda ficara observando o caminho pelo qual Kakashi sumira, por um bom tempo. As palavras do professor ainda rodando em sua mente. Ele realmente a aceitara, ela pensava com uma enorme felicidade, ele realmente a reconhecera. Ele ainda a via como quem ela era. Kakashi não se incomodava com quem ela parecia ser agora.

Sem saber bem o porque, isso a preencheu com uma felicidade que ela nem ao menos sabia calcular o tamanho. Ela poderia pensar que explodiria de tanta felicidade. Um sorriso, um dos sorrisos verdadeiros que ela costumava dar, ornamentou seus lábios, ao se levantar e partir correndo para a casa de Sasuke