Observei os trouxas passando pelas avenidas enquanto me sentava em um banco numa esquina. Suas vidas pareciam realmente interessantes comparadas as nossas. Andavam com vários tipos de automóveis e se comunicavam das mais variadas maneiras, como o telefone e o celular.

Não se enganem comigo, tio Harry me ensinou muitas coisas. Até mesmo porque cursei estudos trouxas em Hogwarts, apesar do preconceito com a matéria, para um auror era essencial se misturar com qualquer tipo de gente. Mágica ou não-mágica.

Olhei o relógio trouxa que um dia Harry me deu de aniversário. Marcavam onze horas da noite. Franzi o cenho e decidi retornar para a casa dos Potter. Procurei por um beco sem saída que eu pudesse me esconder para aparatar.

Uma senhora de idade, cabelos loiros e com um pescoço de cisne, com um senhor gordinho ao lado que arrebitava o bigodinho, me olharam estranhos quando passaram por mim.

As vezes as pessoas reparavam em mim nas ruas, por causa do cabelo azulado. Mas eram poucas, o Ministério havia colocado uma antiga magia nas famílias bruxas a milênios e isso nos mantinha anônimos. Graças a Merlin! Imaginem eu ser parado a todo momento por alguém por causa do meu cabelo?

Sem dúvidas Londres precisava demais becos, ou ficaria difícil aparatar.

Os Potter moravam na antiga vila de bruxos Godric's Hollow, que ficava invisível aos olhos dos trouxas. Mas era bem próximo do centro comercial se querem saber.

Me esgueirei por uma parede velha e com musgos grudados entre os tijolos a vista. Sem ninguém a vista eu desapareci.

CRACK!

Quando abri os olhos novamente, meus pés estavam numa rua de pedra e mais a frente eu podia dar uma boa olhada na praça cheia de adolescentes bruxos. Circundei a mesma e segui pela rua mais antiga, a contrária da qual os pais do meu tio Harry moravam.

Pude ver algumas faíscas e serpenteias brilhando nos céus e suspeitei que aqueles bruxos houvessem passado na loja do tio Jorge quando compraram seus novos materiais para Hogwarts. Isso era nostálgico, eu pensei enquanto segurava os passos até meu destino.

Sem dúvida o meu pensamento me levou para aquela "esquentadinha-loira-terrorista-loira-inteligente-w easley". Apesar de quase não vê-la fora do horário de lanches, eu sempre a encontrava na biblioteca estudando com uma amiga ou duas. E no meu último ano nas reuniões de monitores – sendo eu o monitor chefe da grifinória.

Pois é, também acho que a professora Minerva exagerou na escolha, eu não era o cara mais popular da escola, Mark Danilson – meu melhor amigo desde o primeiro dia na estação King's Cross – era o capitão do time de quadribol e considerado o melhor artilheiro dos últimos seis anos. E eu era somente o goleiro.

Parei em frente ao portãozinho de ferro oxidado e descobri o porque James reclamava tanto daquilo. Rangia muito alto!

A vizinha, a esposa do senhor Pumpkins olhou pela cortina da sua antiga sala de estar e eu acenei a ela, como se quisesse dizer: "Tudo bem senhora Pumpkins, sou eu, Teddy e não um ladrão. Ou pior, um comensal".

Não pensem que as pessoas esqueceram esses criminosos, muitos deles ainda estão soltos e eu soube pelo meu padrinho que havia um grupo poderoso se formando no norte de Londres, bem afastado da civilização. Todos jurando vingança e morte a todos os trouxas.

"Mas enquanto o poderoso Ted estiver aqui! Não se preocupem nação!" pensei como um idiota me imaginando sendo bem recebido depois de uma missão no Ministério. Presenteando-me com uma medalha de condecoração.

E quem sabe Victoire me veria diferente...

— Ah, você voltou.

"Eu não acredito! Sua bruxa terrorista! O que está fazendo na minha mente?" pensei irritado e cruzando os braços.

Quando ia abrir a porta da frente foi que eu a vi. Victoire vestida com jeans e uma blusa vermelha costumeira, e olhar ainda irritado. Ah, era eu.

— Se vai ficar muito tempo suspirando ai, feche a porta quando entrar. – Ela deu as costas e andou pelo corredor, virou à esquerda, a sala de estar dos Potter.

Entendem porque eu digo e repito que ela conseguia me deixar embasbacado? Ted Lupin, dezoito anos e melhor aluno dos recrutas dos Arores, sendo superestimado por uma bruxa que ainda nem saiu da escola de magia? Nem quero imaginar o que meus superiores pensariam.

Espero que meus tios, Harry e Rony não tenham virado dois velhos fofoqueiros do grupo de aurores especial. Ou eu estaria em maus lençóis. Afastei a imagem deles revelando essa parte da sua vida para seus companheiros de equipe e decidiu entrar.

Guardei o casaco em uma das cadeiras da sala de jantar e procurei pelos seus tios.

— Teddy! – Disse Lily, a caçula dos Potter, enquanto se agarrava em uma das minhas pernas. Eu a peguei no colo enquanto ela ria.

— Cuidado, Ted. – Alertou Victoire na sala do outro lado, me fazendo virar para ela e vendo que estavam somente ela e os primos.

Virei Lily de cabeça para baixo, e Victoire quase se levantou apavorada. Mas Lily ainda ria enquanto que Rose e Louis vinham pedir para serem pegos por mim, o "primo". Eu não me importava muito quando eles se referiam a mim como um deles, exceto se a mais velha dos Weasley me visse somente dessa maneira.

Aí eu saberei que Merlin está contra a minha pessoa!

— Hey, Lily, cadê o papai e a mamãe? – Eu perguntei. Coloquei ela no chão e vi-a cambalear rindo. Enquanto isso Louis havia tomado impulso e pulado contra meu peito, o peguei por debaixo dos braços e o coloquei nas minhas costas. – Uou!

Victoire ainda me olhava receosa, enquanto arrumava as bonecas das meninas.

— Saíram com tio Rony, tia Hermione. – James vinha da cozinha com um pedaço do bolo num pratinho de café e um garfo de plástico. – E você e a Vicky devem tomar conta de nós!

Eu realmente a olhei agora, ela tinha as maçãs do rosto avermelhadas, mas encoberta por alguns tecidos dos vestidos das bonecas que limitavam meu campo de visão.

Virei Louis de ponta cabeça e ele começou a rir descontroladamente. Até mesmo me contagiando. Rose por sua vez havia desistido para ver o que Victoire fazia na outra sala.

James me olhou com os olhos brilhando.

Ah-Tef-gue-fira-fantem – Ele disse com parte do colo ainda fora da boca, mas o que ele queria dizer era: "Ah, Teddy, me gira também!".

Não.

Não! – Dissemos eu e Victoire ao mesmo tempo. Ela me olhou surpresa e foi caminhando até o primo. – James você nem terminou de comer ainda.

— Ah!

— Pois é garotão! – Louis subia minhas costas e sua irmã tentava pegá-lo enquanto eu o girava para longe do alcance dela. – Não deixa ela te pegar, Louis!

O menino começou a rir enquanto que James parecia profundamente arrependido de ter pego o pedaço de bolo. De repente Dominique disse que iria resgatar seu irmão das garras do "terrível Ted" e Rose e Lily vieram atrás de mim.

Tinha que admitir que estava feliz por estarmos somente nós naquela casa. Victoire nos olhava rindo enquanto que Albus se juntava a caçada e Hugo sentava-se junto com James a mesa.

— Quase! – Disse uma das meninas.

Circundei a mesa e depois as duas salas, mas eles permaneciam na esperança de pegar o irmão de Victoire. Quando eu a vi ainda de pé dei a volta nela e seus primos se agarrava nas suas pernas para se aproximar de nós dois.

— Cuidado! Lily! – Ela falou quando a menina caiu de joelhos, mas nem pareceu sentir porque já estava a todo vapor atrás dos primos e de nós dois.

Senti o ar começar a cansar e meu rosto esquentar. Victoire deu um sorriso de canto e indicou com a cabeça que viéssemos até a outra sala.

— Vamos, Louis, - Ela o desceu das minhas costas – dê um tempo ao Teddy...

"Pára tudo!" eu pensei com o meu coração a mil querendo sair do peito.

Todos olharam assustados para ela e eu nem preciso dizer como eu estava.

Feliz? Surpreso? É natal e eu não sei?

— Que foi? – Ela perguntou depois de um tempo.

— Vicky, você nunca chama o Teddy de Teddy. – Disse James. Dominique apareceu com um pedaço de bolo na cadeira ao lado dele e concordou com a cabeça.

Ela ficou vermelha e me olhou por segundos antes de mandar todos pegarem seus últimos pedaços de bolo. Quando perguntaram porque ela avisou que os colocaria para dormir. Eu não sei se isso aplicava a mim, mas fui pegar o meu pedaço, estava morrendo de fome. E quem sabe, ela me colocaria pra dormir também.

Agitei a cabeça tentando afastar os pensamentos, mas já era tarde.

— Que foi, Teddy? – Perguntou Hugo.

— Que... que foi o que?

— Tá com cara de que não gostou do bolo da tia. – Ele falou inocente.

— Eh... não.

— Ele tava pensando na Vicky. – Disse Rose sonhadora. O irmão fez cara de nojo, mas Lily que havia surgido por último também concordava com aqueles olhinhos cintilando.

"O que eu perdi?" foi meu primeiro pensamento. Na idade deles eu só queria saber de quebrar regras, esperar para dar duas da tarde e ir jogar quadribol com meus amigos. Não reparava em namoricos ou nas meninas, exceto para quebrar uma cabeça de boneca ou puxar suas chiquinhas.

Encontrei os Potter e os Weasley todos reunidos. Victoire não foi pegar o seu pedaço de bolo e percebi como ela ficou com aquele monte de criancinhas cheias de bolo na cara. Estava faminta.

— Pega. – Indiquei o prato.

— Não seja bobo, depois... – Ela tentou rejeitar mesmo com os olhos com aqueles brilhos intensos.

Só podia significar fome. Eu a conhecia bem.

— Vamos, está morrendo da fome, eu cuido pra eles não sujarem nada além da mesa e das roupas deles. – Falei rindo no final. Ela correspondeu.

— UUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUH – Fizeram todos na mesa.

Fiz aquele mesmo som estranho na garganta, eu não conseguia me controlar às vezes. James sorria diabolicamente enquanto que as meninas riam entre elas e sussurravam, Dominique era a única que não havia pego bolo. Mais tarde eu soube que ela havia virado vegetariana.

— O último que terminar vai lavar a louça! – Eu disse indignado.

— Teddy!

Victoire me repreendeu. As crianças riram, mas logo receberam o olhar de iceberg dela e voltaram à atenção para o bolo. Ela me deu um sorriso discreto e agradeceu.

E eu estava de novo abobalhado perto dela. Como essa "esquentadinha-loira-terrorista-loira-linda-weasley " podia ser tudo isso? Porque tinha que ser ela? Bom, Merlin escreve certo em linhas tortas, ele deve saber o que escreve.

Sabe, não sabe?

— Acabei!

James foi o primeiro, claro, eu só não entendia o motivo dele querer ir dormir. Para o mais velhos dos Potter quanto mais tarde dormir, melhor. Olhei-o de esguelho sem sucesso, seu olhar maroto não estava ativado. Dominique seguiu escada acima e foi seguido pelo primo.

Victoire indicou que eu os acompanhasse.

Esperei cada um deles subir para ao quartos. Quando Rose e Lily chegaram Dominique já estava dormindo, mas tive que pedir para Hugo manter a ordem com os dois irmãos. Só Merlin sabia o quanto James infernizava a vida de Albus.

Portas ainda abertas, Victoire veio subindo os degraus de dois em dois e direcionou primeiro ao quarto das meninas. Fechando a porta atrás dela.

— Hey Teddy! Vamos jogar quadribol amanhã! – Disse James, eu me encostei no batente da porta do quarto deles, improvisado com um colchão a mais para Hugo e Louis. – Posso te emprestar a Nimbus 300!

— Mas essa é a minha vassoura! – Reclamou Albus.

— Eu posso pegar a minha depois do café. – Informei. Os olhos dos quatro meninos brilhavam como diamantes. – ... E eu trago o pomo de ouro também.

Dei uma risada, enquanto eles vibravam. Um pomo de ouro era difícil de se encontrar para venda no Beco, mas quando ganhamos a taça das casas no meu último ano, recebi o pomo de presente da diretora, a professora Minnie.

— E vamos voar até os Karrigans!

— E podemos pedir pro papai apitar o jogo! – Disse Hugo.

— Não! A minha mãe vai apitar o jogo! – Reclamou James.

Os primos se levantaram e começaram a agarra um a camisa do outro. Dei um longo suspiro e passei por Albus e Louis sentados do outro lado, receosos por serem forçados a entrar na briga.

Peguei James pela gola da camisa e Hugo também.

— Vocês dois...

Hugo e James! – Disse Victoire irritada.

Engoli a saliva e pude jurar que os dois também tiveram a mesma reação. Lá estava ela, com os olhos arregalados e a varinha apontada para eles.

Já. ! – Ela disse pausadamente.

Senti eles tentarem se soltar e imediatamente eles obedeceram a prima. Victoire suspirou e maneou a cabeça, guardou a varinha no bolso de trás da calça e amarrou novamente os cabelos. Eu abri os baús e distribui os cobertores de cada um enquanto que ela dava as ordens nos quatro.

— Não quero escutar nenhuma conversa... Não quero saber de vocês irem assustar as meninas... – Isso era o James, eu pensava enquanto ela apontava para eles e citava mais ordens. - ... James nada de usar magia em algum deles... – Ela falou ainda mais séria que eu fui obrigado a sair dali, já que os acusados eram eles, não queria que sobrasse para mim. - ... Nada se acenderem a luz, eu vou saber...

Se aproximou de cada um e deu um beijo na testa.

"Será que ela iria me colocar pra dormir também? Porque sabe, meu cabelo só cobre a minha testa, e ela é bem beijável". Passei a mão pelo rosto como se eu suasse. "Merlin... O que você fez comigo? Vovó deve ter me deixado cair do berço, ou quem sabe o tio Harry".

— Algum problema, Ted? – Victoire fechou a porta do quarto deles com as luzes apagadas. Ela me olhou investigativa e foi em direção as escadas. – Vamos?

— Vamos? – Eu perguntei em seguida.

Ela agitou a cabeça e desceu as escadas. Certo, ela não iria me colocar para dormir, soltei uma risada. Saltei os degraus e encontrei Victoire encantando a louça que se lavava sozinha. Eu sempre gostei de ver isso sabe, louças sendo lavadas, me lembrava a cozinha de minha avó.

Vovó Andrômeda vivia enfeitiçando tudo para que pudesse descansar por mais tempo, e a louça era uma de suas façanhas.A louça mergulhava dentro da água com sabão e depois ia se esfregando na esponja e depois mergulhava de novo. Enquanto minha avó tricotava algum casaco e cantava ao mesmo tempo.

— Do que está rindo? – Ela perguntou depois de me ver encostado na entrada da porta.

— Nada não. – Respondi. Ela atravessou e foi para a sala de estar pelo que eu vi pelo canto do olho.

Victoire estava estranha. Na verdade, tudo estava estranho. Meus tios fora. Seus filhos dormindo, enquanto que ela esperava-os acordada.

— Ted?

Eu achei que fosse alucinação. Descruzei os braços e caminhei devagar até onde ela estava.

Você me chamou? – Certo, talvez o meu "você" havia sido um pouco presunçoso.

— E tem mais alguém aqui que se chama Ted? – Ela falou irônica. Pegou os vestidos das bonecas e guardou em algumas caixas.

— Certo.

Ela me olhou irritada. "O que eu fiz agora?" pensei olhando para os lados.

— Achei que não ficariam depois da festa. – Disse me sentando em uma das poltronas e pegando um dos dardos bruxos de Albus.

Victoire suspirou e eu a fitei, sem que ela fizesse o mesmo disse:

— Nem eu, mas tia Gina insistiu. – Ela falou. Agora estava com outra caixa e guardava os dardos, estendeu a mão para que eu entregasse o que eu tinha em posso. – E meus irmãos queriam dormir aqui.

Pode ser coisa de filme trouxa, porque tia Hermione as vezes colocava nós dois juntos em frente a TV a tarde. Aquele momento em que a eletricidade atravessa os corpos, era realmente real.

Fiquei de novo tentando descobrir qual era a cor dos olhos dela, enquanto a mão dela ficava envolta da minha. Era quente, e a minha ainda estava fria. As maçãs do rosto dela começavam a esquentar também, e algo dentro de mim se agitava.

Victoire puxou o dardo, baixou os olhos e fechou a caixa, respirando fundo e mordendo os lábios.

— Olha, Vicky. – Eu disse limpando a garganta, ela empilhava as caixas e não me olhava. Mesmo assim continuei. – Sério. Me desculpe por antes, muito antes de antes.

— Qual antes? – Ela falou de costas.

Eu me peguei analisando os tons de loiro dos cabelos dela, e como eu nunca percebi que eles se enrolavam nas pontas?

— Antes de antes. – Ela riu. – Okay, quando você chegou.

Ela se apoiou com as costas na parede e sorriu. Olhou para o teto e depois para os pés.

— Tudo bem. - Ela mexia com as unhas dela - Ted? Você também fica, ahm... – Ela balançou a cabeça e afastou a franja. – Esquece.

— Não, o que é?

Ela me olhava diferente, uma expressão entre confusão e negação. Como quando ela não conseguia alguma coisa. Ou quando ela tentava sorrir mesmo quando a situação não era apropriada. Mas ao mesmo tempo.

— Esquece. – Ela falou como se a reação de antes tivesse sido passageira. Juntou as mãos na frente e se balançou um pouco. – Vou indo.

Ela ficou ainda parada por algum tempo. Eu ainda tentava digerir os olhares e as palavras, elas não se combinavam. Não, nenhum pouco. Meu estômago se agitou num salto e meus lábios tremiam. Minhas mãos suavam e a única coisa que eu queria era diminuir o espaço entre eu e ela.

— Vou. – Ela riu com a garganta e balançou de novo a cabeça.

— Vicky?

Ela voltou-se, com a face ficando vermelha.

— Sim, Teddy?

— Queria te perguntar uma coisa.

Algo que havia me deixado irado desde o primeiro momento que eu descobri. Não entendi porque ela havia escondido o fato que estava namorando com alguém. Não que eu não me importasse, mas se ele a havia maltratado, eu deveria ir lá e arrancar parte do couro dele.

Somente pela integridade dela. Para o bem dela, é, isso ai... Somente pela honra dela.

Ela cruzou os braços e riu.

— Sim.

— Porque não me disse que estava namorando?

Ela deveria esperar tudo, menos essa pergunta. Abriu os lábios algumas vezes, ficou perdida olhando para os lados e sem me responder por algum tempo. Guardei minhas mãos nos bolsos, antes que eu a balançasse de raiva para que ela me respondesse.

— Por que... Eu... Bom... – Ela engoliu a saliva e deu uma respirada alta. – Ah... Eu... Bom, eu o conheci no natal há dois anos. – Ela me olhou com a voz quase falhando – Quando fui a França... – Ela mexeu os lábios ainda escolhendo as palavras, pela forma como os olhos se moviam.

Maldito detalhista que eu era. "Estava nervosa?"

— Foi algo inocente... A gente se comunicava apenas com cartas cartas... Mas ele se transferiu para Hogwarts no ano passado...

Como? – Eu a interrompi. Victoire me olhou assustada, mas prosseguiu.

— Ele se transferiu ano passado. Ele queria me conhecer melhor e se transferiu...

A ideia remota que fosse inocente o fato dele ter se transferido só me dava mais razão de acha-lo um aproveitador. E que eu deveria realmente arrancar-lhe o couro fora!

— Vocês... – Eu me interrompi e pensei melhor não dizer nada, mas agora ela me esperava. – Vocês se agarravam nos corredores?

Dessa vez eu escutei ela fazer um som estranho com a garganta. Ela riu e cobriu os lábios. Certo eu deveria ter dito, namoravam e não se agarravam. Mas era tarde demais pra isso.

Teddy, Hogwarts sempre tem salas desocupadas e a Sala Precisa. – Ela falou como se fosse óbvio.

Eu estava boquiaberto. Não podia, podia? Não. Ela não deveria.

— Qual é Ted, você se agarrava com qualquer uma na frente de todos. – Ela falou inclinando a cabeça como se eu fosse seu alvo. – Eu era bem discreta.

— Você não devia!

— O que? – Ela perguntou atônica.

VOCÊ.NÃ !

Disse irritado. Como, em nome de Merlin, ela se agarrava com um francês pelos corredores e salas de Hogwarts?

— Por que não? Quero que me explique. Agora. – Ela falou irritada e sem levantar a voz.

— Ora, porque... Porque, bem, você...

— Eu? – Ela se fez mais ainda de desentendida. Me deixando maluco.

Essa "esquentadinha-loira-terrorista-loira-linda-maluca- weasley".

— Você não devia! – Passei a mão pelo rosto abismado comigo mesmo. Agitei os cabelos e quando voltei como estava, Victoire batia o pé seguidamente.

Ted Lupin. – Ela falou me apontando o dedo no rosto. – Não venha me dizer o que é certo!

— Hey!

— Hey, nada! – Ela reclamou avançando demais. Por Merlin, demais! – Você, se exibindo por ai... com aquelas galinhas! Argh!... Não se importava comigo... com o que eu achava!... Só se agarrando por aí onde todo mundo... – Os olhos dela já estava marejados de novo. E eu não sabia o que fazer, exceto passar os braços ao redor dela. Ela deu um pulo assustada. – Me solta... você é um idiota...

— Hum. – Murmurei concordando.

Ela se agarrou nas minhas vestes e me fez olha-la.

Ela tinha olhos azuis. Eram iguais ao céu de Londres quando amanhecia e não havia nuvens.

— Se você continuar assim... Perto... - Eu tentei deixa-la terminar de falar, porque, olha, estava complicado nessa situação. - Eu provavelmente vou te beijar...

— É...

— E isso, bom... – Ela falou enquanto me olhava dos olhos para a minha boca.

"Merlin essa mulher ainda me mata!"

— Não deve ser certo...

— Não... – Eu disse. Ela ficou surpresa. – Mas não custa tentar...

Vicky arregalou os olhos antes que eu a beijasse.

As pessoas sempre dizem que o primeiro beijo sempre será inesquecível. O nervosismo. O calor. A intensidade. A balbúrdia dos sentimentos. Mas como eu posso descrever o beijo dessa maluca?

Sinto muito, mas não entrarei em detalhes. Não quero ter que expulsar mais marmanjos do que eu faço agora, em Hogwarts ou no Ministério.

Depois do beijo - melado por causa das lágrimas dela e quente por causa da falta de ar - voltamos para a sala de estar e ficamos abraçados no grande sofá. Não pense besteiras! Afinal, Vicky não era qualquer tipo de garota que eu saia e podia fazer o que quisesse quando tinha meus dezesseis anos. Não. Eu queria que fosse especial, porque ela era.

E continua sendo.

Merlin sabe o quão triste e grudento eu fiquei dias antes do embarque dela na estação King's Cross.

Mas muita coisa ainda aconteceu nesse dia.


Continua...