Parte VI
Certamente aquele lugar não era comum. Tony nunca havia entrado por um corredor tão estreito e escuro. Ao fundo, ele conseguia ver uma luz bem fraca. Uma luz esverdeada. Ele tinha a estranha sensação de que estava sob um pântano.
Andou calmamente, seguindo a luz esverdeada, até encontrar uma porta grande e de aparência rude. Estava iluminada por dois archotes que eram consumidos por um fogo no mesmo tom esverdeado. Aquilo não era comum, mas, se ele pensasse com cuidado, nada naquele lugar maldito era. Estava em outro planeta, longe de casa e, pelo que parecia, longe de sua sanidade.
Por que ainda pensava se valia a pena enfiar a chave na porta?
Dê a volta e vá embora, Tony.
Sua consciência disse, ele conseguia escutar os batimentos do seu próprio coração, e ficou surpreso que aquilo não o deixou com medo. Não. Na verdade, o que lhe proporcionava medo era o que ele possivelmente iria encontrar do outro lado da porta.
Engoliu em seco. Infelizmente, não era muito de escutar sua consciência. Já se enfiara em grandes problemas e perigos por causa disso. Mas ele sempre dava um jeito para tudo. Não era?
Decidiu não pensar muito, enfiou a chave que Frigga lhe dera na fechadura e girou-a. A porta fez um estalo, um barulho que ecoou por todo o corredor. Ele olhou para trás a fim de se certificar de que não havia ninguém ali. Mas ali era como a solitária das cadeias de seu planeta.
- Certo. Sem guardas.
Ele lembrou. Loki não poderia ter contato com ninguém que possuísse uma mente menos aguçada que a dele, o que deixava a possibilidade de um guarda ali nula.
Ele girou a maçaneta pesada, que fez um barulho ainda maior do que a tranca. Ele abriu com cuidado a porta e sentiu o peso do material que era feita. Com certa relutância, ele entrou.
Fechando a porta atrás de si, seus olhos demoraram a se acostumar com a escuridão do local. Não havia janelas, nem mesmo um móvel. A luz esverdeada ainda estava presente, porém mais fraca. No canto direito estava a cela dele, o vidro emanava um brilho estranho, dourado misturado ao verde. Era encantando, como Odin explicara a todos.
Ele caminhou até a cela, perguntando-se o real motivo de estar ali. Mas não conseguiu chegar a uma resposta, principalmente porque naquele momento, o homem que estava dentro da cela virou-se e o olhou com intensidade.
O rosto de Loki estava sério, Tony percebeu que ele não sorria de forma maldosa como sempre sorria. Seus olhos pareciam mais escuros por causa do local. E ele parecia ainda mais perigoso.
Mesmo que ele estivesse dentro de uma cela, em um lugar isolado e subterrâneo, Tony temeu por sua vida no momento em que Loki franziu o cenho.
- O que está fazendo aqui?
O moreno perguntou, deixando Tony sem resposta. Ele queria justamente a resposta que Tony nunca poderia dar. Simplesmente porque ele mesmo não sabia. Os olhos azuis de Loki correram pelo corpo do outro.
- Como entrou aqui?
- Sua mãe me deu a chave.
Loki ficou em silêncio, parecia pensar no motivo de Frigga ter dado acesso justamente a Tony. Logo ele se aproximou de Tony, tomando cuidado para não encostar no vidro da cela.
- E por que ela daria a chave para você?
Tony deu de ombros.
- Eu não sei... acho que sua mãe o conhece melhor do que ninguém. Se ela me mandou aqui, há algum motivo.
Ele respondeu, meio que mascarando as palavras da própria Frigga. Loki sorriu.
- Talvez. – pontuou.
Afastou-se do vidro e sentou-se em frente a ele, olhando para Tony com curiosidade. Ficaram em silêncio por alguns minutos, até que o Deus da Trapaça voltou a falar.
- Você sofreu.
Ele afirmou, pegando Tony desprevenido.
- Como?
- Você sofreu. Com a alucinação. Pude sentir a sua dor...
Tony travou o maxilar, andando dois passos para trás e se afastando da cela. Não queria mais aquilo. Não precisava ser humilhado. Loki o manipulara, enfiara uma lembrança falsa em sua mente, poderia ter manipulado seu sentimento também. Por que não? De qualquer maneira, ninguém tem estômago para ver o próprio pai decretando a morte do filho.
- Aquilo tudo foi falso.
- A alucinação foi falsa. Seus sentimentos não.
Tony deu mais um passo para trás, sua mente pedindo para que ele saísse urgentemente dali. Estava começando. O jogo de palavras que Loki adorava jogar, e que sempre saía vitorioso, mesmo que estivesse por detrás de um vidro imune a magia.
- Sabe por que o escolhi, Tony?
- Não me chame assim. Você nunca me chamou assim, apenas quando...
- Estava alucinando?
Loki sorriu, levantando-se rapidamente e olhando com cuidado o vidro. Tony fechou os olhos. Lembrava-se perfeitamente do momento que ele o chamara pelo seu primeiro nome. No quarto de Loki... logo antes de...
Não queria pensar naquilo. E não queria fazer a pergunta que estava prestes a fazer. Porque fazê-la seria dar munição para aquele psicopata. Mas Tony não se perdoaria se saísse daquele lugar sem aquela resposta.
- Por que eu? Por que não manipular a mente de Natasha? Ou de Steve? Seria muito mais interessante...
- Nunca tive contato com nenhum deles. Eu queria ver alguém sofrer por um motivo que ninguém sofreria. Minha morte. – Tony o olhou de forma confusa. – Entende? Frigga sofre apenas em me ver acorrentado. Thor e Odin me enfiaram nessa maldita cela. Quem mais sofreria se minha cabeça fosse arrancada do meu corpo além da única pessoa que amo? Além da minha mãe?
- Então você plantou essa alucinação doentia em minha mente para me ver sofrer? Você é um monstro egocêntrico!
Loki sorriu.
- Mas você sofreu... sofreu ao me ver morrendo. Por quê?
- Não me faça perguntas imbecis, eu já disse que estava sendo manipulado. Além do mais, aquilo tudo não foi real. Você está aí, vivo. E se eu pudesse, arrancava eu mesmo sua cabeça do corpo. Minha vontade era de enforcá-lo até vê-lo fechar os olhos.
- Podemos providenciar isso...
Naquele momento, Loki começou a andar em direção ao vidro. Tony sentiu-se extremamente desconfortável com aquilo. Ele não sabia que tipo de barreira havia ali, e se aquilo poderia explodir a qualquer momento. Mas não. O vidro parecia uma fina cortina de algo líquido, e infelizmente o corpo de Loki conseguiu transpassar aquilo com facilidade, apenas um brilho esverdeado emitindo do seu contorno quando ele o fez.
Naquele momento, Tony olhou para a cela. Havia um Loki ali dentro, que voltou a se sentar em um canto como se estivesse entediado. O outro estava perigosamente perto de Tony, e o olhava com diversão. Possivelmente pela sua cara de espanto.
- Co-como...
- Eu saí dali? Como sempre fiz... – Loki olhou em volta. – Confesso que a magia desse lugar é forte, mas eu aprendi com a melhor...
- Frigga.
Loki sorriu ante o nome de sua mãe, possivelmente a única pessoa por quem ele cultivava sentimentos.
- Ela sabe disso? – Tony perguntou.
- Sim...
- Mas... mas isso é errado! Você é um criminoso. E perigoso... ela não pode simplesmente deixá-lo livre...
- Frigga sabe que preciso abdicar de muita força para sair daqui. E a cada momento que passa, minha força fica menor. É o lugar. Esse buraco em que me enfiaram... – ele parecia pensativo. – Mas vamos ao que interessa...
Loki pegou os pulsos de Tony e guiou as mãos dele até o seu pescoço.
- Você me tem agora. Apenas aperte e acabe com isso.
As mãos de Tony estremeceram, ele sentia a pele gelada de Loki através da palma de sua mão, bem como a circulação do sangue dele ali. A respiração do moreno batia no seu rosto. Ele era mais alto que Tony. Bem mais alto. Mas isso não impediu Tony de se aproximar e tomar os lábios de Loki com os dele.
Ele não sabia por que fez aquilo, ele só tinha consciência dos lábios finos e gelados de Loki sobre os seus. Reais. Tão reais quanto as cócegas que Tony sentiu no baixo ventre no momento em que ele abriu a boca para deixar a língua do moreno invadi-la. Loki começou a empurrá-lo em direção à parede, seus braços acariciando os braços de Tony e sentindo ali os músculos trêmulos.
Trêmulos de insegurança, de excitação e principalmente de medo.
Porque Loki sabia que ele temia o que sentia. E foi por isso que ele se afastou brevemente do rosto de Tony, o olhando de forma sincera e ao mesmo tempo divertida.
- O que você fez comigo?
Tony perguntou em um sussurro, olhando calmamente para Loki. Os olhos azuis ainda estavam escuros, mas agora ele conseguia ver o brilho de malícia tomando as orbes.
- Apenas o tirei da sua zona de conforto.
Loki o beijou novamente, e nesse momento Tony jogou todas aquelas dúvidas, perguntas idiotas e senso de lógica à merda. Ele o queria. Sempre quis. Loki sempre teria poder sobre ele. Mesmo sendo um assassino cruel e um manipulador filho da puta.
Loki começou a retirar a roupa de Tony, daquela vez sem magia. Assim que sentiu sua blusa saindo do corpo e Loki começando a beijar seu pescoço, fechou os olhos.
- Como vou saber que é real?
- Ah, você saberá. Você sentirá a diferença.
O moreno riu no ouvido de Tony, o que deixou o bilionário apenas mais excitado. As mãos longas de Loki trabalharam com facilidade no cinto dele, bem como na sua calça. Ele enfiou a mão dentro da roupa íntima de Tony, tocando-o com luxúria. O outro fechou os olhos ao sentir os dedos de Loki fazendo o trabalho divino, e antes que pudesse comandar seu corpo a não fazer aquilo, suas mãos correram pela blusa de algodão fino do moreno e ele começou a retirá-la, despindo o Deus da Trapaça do mesmo modo que ele o fizera consigo.
Era estranho, despir um homem. Mas ele sentiu a expectativa tomar o seu corpo rapidamente ao ver Loki nu.
O moreno pegou as pernas de Tony com incrível facilidade, levantando-o.
- O que está fazendo?
- Acalme-se, Tony. – novamente o primeiro nome saindo daquela boca maldita. – Não vou matá-lo...
- Eu sei, mas é que... normalmente eu que faço isso.
- Normalmente você está com uma mulher nos braços. Agora não... – Loki colocou as pernas de Tony envolta do seu corpo, pegando o seu membro e o direcionando para o lugar desejado. – E eu gosto de estar no comando... sabe... é sempre um desejo meu.
Ele riu da sua própria ironia e logo penetrou Tony, que arfou quando sentiu Loki dentro de si. Ele fechou os olhos quando sentiu novamente as mãos longas do moreno pegando seu membro e estimulando-o, enquanto empurrava o quadril em direção a ele, pressionando-o ainda mais à parede. Tony abriu os olhos ao sentir Loki mordendo seu pescoço. E o que viu o deixou desconcertado.
- Loki... o Lo... o seu outro eu está nos olhando.
E estava. O outro Loki havia ficado de pé e observava tudo com visível interesse. Tony não sabia o que sentir ao ver aquilo. Era surreal demais ter uma cópia exata do homem que estava o possuindo o olhando de outro ângulo.
- Sim. Ele deve estar... sabe, esse lugar é muito tedioso. Não é sempre que temos diversão.
Tony olhou para Loki com espanto.
- Você é insano.
Loki sorriu, aumentando o ritmo e a força do quadril.
- Você gosta da minha insanidade.
Tony gostava. Gostava de sair da sua zona de conforto. Com mulheres, ele sabia exatamente o que fazer e como conquistá-las. Com Loki era tudo novo, era tudo diferente. A cada movimento do moreno ele se sentia mais à vontade, a cada estocada ele desejava mais o corpo magro e forte que estava o tomando, o cheiro de Loki estava por todos os lugares, bem como seu gosto. E ainda havia sua cópia exata, os olhando.
- Sinta isso. Vê? É real... somos reais.
Ele sentiu... sentiu-se sendo invadido, sentiu-se sendo estimulado, sentiu seu gozo estremecer seu corpo, bem como o corpo de Loki o prensar uma última vez na parede enquanto ele gemia de forma quase vulnerável em seu ouvido, mordendo fortemente o pescoço de Tony, que antes o mataria, mas naquele momento apenas recebeu a mordida de bom grado.
Eles permaneceram ali por alguns segundos, até Loki se afastar e passar a mão no cabelo liso e escuro, olhando para Tony com diversão. Esse procurava suas roupas, sentindo uma necessidade imensa de se vestir e sair dali. Porque era errado. Era errado aquele desejo, e aquele sentimento.
Sentimento.
Aquilo era no mínimo patético. Ele não sentia nada por Loki.
- Em que está pensando?
O moreno perguntou. Já estava vestido. De repente Tony odiou a velocidade anormal dele. Ele começou a colocar a calça jeans.
- Em nada em específico. Aonde isso vai parar...
- Acho que é um pensamento comum depois de tudo o que fizemos.
Loki sorriu.
- E você tem a resposta?
Tony perguntou com esperança. Loki deu de ombros.
- Possivelmente. Mas nunca a daria para você.
Naquele momento, Tony sentiu a vontade de enforcar aquele homem voltar. Mas antes que pudesse completar seu desejo, Loki se aproximou, pegando levemente o queixo dele e depositando um beijo em seus lábios, um beijo diferente dos beijos que eles costumavam trocar. Um beijo cúmplice e sincero.
- Eu preciso ir.
Ele deu as costas para Tony, andando calmamente até a cela e transpassando o vidro com a mesma facilidade que saíra. O brilho esverdeado emanou novamente no contorno do corpo dele, e no momento em que o Loki que estivera fora da cela tomou o lugar do outro Loki, viraram um só.
O moreno se sentou na cela, parecendo exausto. E estava. Aquele tipo de magia pedia boa parte de sua força.
- Não sei quando poderei sair daqui novamente... – Loki começou. – Você me cansou.
Sorriu, deixando Tony desconcertado. Ele colocou a blusa, aproximando-se da cela.
- Então é um adeus?
- Provavelmente não...
O silêncio que se seguiu foi estranho. Parecia que Loki ia dizer algo, algo importante.
- Ele virá atrás de mim, sabe? – o moreno declarou.
- Ele quem?
- Thanos...
- Qu...
- Desde o ataque de Nova Iorque ele está atrás de mim. Não creio que ele se foi junto com aquela explosão. Procurei você naquele dia para ter certeza da morte do meu pior inimigo, mas você não me deu a resposta que eu queria... e depois tudo ficou confuso. Saiu do controle.
- A nave central explodiu, Loki.
- Eu sei, mas Thanos não é tão fácil de matar... longa história.
Tony não sabia o que dizer sobre aquilo. Se aquele Thanos fosse atrás de Loki, provavelmente teria que invadir Asgard e passar por cima de Odin e Thor. E Frigga, que era uma feiticeira tão boa quanto o filho. Achou que Loki estaria seguro ali, e não levou muito a sério o temor do moreno.
- Bom, boa sorte com isso.
Ele desejou, dando as costas a fim de finalmente sair daquele lugar. Ao dar dois passos, a voz de Loki soou pelo lugar.
- Thanos tem interesse nos humanos. E em Midgard. Ele é problema tanto meu quanto seu.
Tony virou-se de forma abrupta.
- Como?
- Os Vingadores chamaram bastante atenção naquele dia...
- Por sua culpa. – Tony começou a dizer de forma irritada. – Tivemos que proteger a Terra, e agora alguém mais psicopata que você está atrás de nós?
- Provavelmente ele ficará satisfeito apenas com minha morte.
- Espero que sim.
Tony virou-se novamente, andando de forma decidida para a porta.
- Posso contar com você? – a voz de Loki voltou a soar pelo lugar. – Caso ele venha atrás de mim, você virá até mim, não é?
Tony não acreditava que Loki estava pedindo aquilo. Mas pela primeira vez ele viu a vulnerabilidade do Deus da Trapaça. Ele não sabia se Odin e Thor tinham conhecimento de Thanos, mas ele poderia apostar que Frigga já sabia, e que na hora certa alertaria o marido e o filho.
Tony pensou com cuidado e respirou fundo.
- Apenas para proteger meu povo.
Loki sorriu, vitorioso.
- Sim... para proteger Midgard.
Tony abriu a porta.
- Nos vemos em breve, Tony.
Ele voltou a olhar para a cela.
- Em breve?
- Ora... mesmo que demore um pouco, posso me recuperar.
- Estarei na Terra.
- Eu já desci lá antes... você se lembra muito bem da minha presença por lá.
Tony engoliu em seco, sentindo seu coração bater mais forte dentro do peito. Odiou-se por sentir aquilo. Ele assentiu, fazendo Loki sorrir.
- Nos vemos em breve, Loki.
E fechou a porta.
Ao andar pelo corredor, pegou-se pensando em tudo o que havia vivido em Asgard e nos últimos dias em Midgard. E percebeu que ninguém ali fora importante naqueles dias, nem mesmo Pepper, apenas Loki. Loki acompanhou cada movimento seu, bem como cada insegurança e momento peculiar.
Ele sabia que aquilo não era sentimento. Não dele para com Loki, e certamente não de Loki para com ele. O moreno não era o tipo de pessoa que entregava algo tão importante para o primeiro que aparecia, se é que ele tinha aquele tipo de coisa dentro dele. Sentimento...
Tony estava em um beco sem saída. Por mais que soubesse que não eram amantes, ele sabia que estava ligado a Loki de uma forma única. E que inevitavelmente ele cultivaria algo por ele. E infelizmente nunca receberia nada em troca, a não ser visitas noturnas e problemas únicos.
Mas ele poderia se acostumar com aquilo.
Loki o curou. Curou o seu medo pelo novo. Curou seus pesadelos durante a noite. Curou sua crise de pânico nas horas vagas. Curou até mesmo suas certezas, plantando dúvidas em sua mente que nunca poderiam ser anuladas.
E por isso Tony seria eternamente grato. Era extremamente diferente sair da sua zona de conforto. E ele teria que sair de vez em quando. Felizmente aquilo lhe daria prazer. Um delicioso e peculiar prazer.
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You may have my number
You can take my name
But you'll never have my heart
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