James subiu as escadas da torre da Grifinória apressado. A voz trêmula precisou repetir algumas vezes até que o quadro compreendesse e abrisse a passagem. Agradeceu silenciosamente pelo salão comunal estar vazio naquela hora da noite. Correu para lavar as mãos sujas e sangue.
O sangue de Snape.
Jogou um pouco d'água no rosto tentando se acalmar. Não fazia sentido. Não tinha como Snape ter entrado no Salgueiro Lutador. Mas entrou, e agora esperava que o rapaz sobrevivesse.
James tentava entender: Entrou na passagem como de costume para fazer companhia a Lupin, e quando viu o Lobisomem com os dentes e as garras sujas de sangue sabia que algo de muito errado aconteceu . E após poucos passos viu Severus Snape imóvel, inconsciente e banhado em sangue.
James nunca tinha visto algo assim antes.
Os momentos seguintes foram confusos: lembrava ter pego Snape e retirado de dentro da casa dos gritos. O caminho até a escola ele não conseguia recordar. Muito menos lembrava se tinha cruzado com algum aluno ou membro da equipe da escola pelo caminho. Ele acreditava que não.
Mas ele lembra claramente da reação da Madame Pomfrey ao ver o estado de Snape, ela soltou um grito de horror ao ver os ferimentos nas costas do rapaz. "Deixe-o aí, meu rapaz, e chame Dumbledore." A mulher falou com a voz abalada. James lembrava ter ouvido mais uma vez a voz da mulher enquanto saía da enfermaria: "torta de morango." Ele não precisou perguntar o que significava, já estivera vezes demais na sala do diretor para entender o padrão que ele utilizava em suas senhas.
O resto era tudo confuso demais. Não sabia dizer qual foi a reação do diretor, apenas que ele tinha mandando que voltasse para a torre da Grifinória e ali ficasse até que as coisas se acalmassem.
E ali estava James, olhando seu reflexo atônito. Se Severus Snape morresse seu amigo Lupin estaria em sérios problemas.
O rapaz entrou no quarto que dividia com Sirius, Peter e Remus. Deitou-se, mas o sono não veio. Pensava em tudo que deu errado naquela noite: Como Severus achou passagem? E como o infeliz conseguiu achar a passagem exatamente em uma noite de lua cheia? O pior de tudo era: Se Snape morresse, nem que Merlin aparecesse na frente do Wizengamot e pedisse por clemência, Moony escaparia de Azkaban. Pensando bem, Azkaban já seria clemência, se Snape morresse Remus John Lupin seria o mais novo bruxo a ser beijado por um dementador.
E sem pensar no que poderia acontecer com a escola quando descobrissem que acidentalmente um aluno foi assassinado por nada mais nada menos que um Lobisomem.
Snape iria dar ainda mais trabalho morto do que vivo.
Enquanto pensava em todas essas possibilidades James viu o sol nascer, por um segundo James desejou muito que tudo não passasse de um sonho.
Mas quando amanheceu e Remus não voltou ele sabia que era real. O rapaz se aproximou da cama de Sirius, eles precisavam bolar um plano e rápido para salvar a pele do amigo.
"Sirius..." Ele chamou ao se aproximar da cama. "Sirius acorda é uma emergência."
"Só mais dez minutos... E seus sonhos com a ruiva não são emergência." O rapaz respondeu de modo sonolento.
"Sirius é sério. É sobre o Moony." James hesitou por um momento. "É sério, ele... ele matou alguém."
"O que?" Sirius abriu os olhos e sentou. Os olhos ainda semi-abertos demonstravam o susto ao ouvir. "James você tem certeza disso?" Sirius não esperou a confirmação do amigo. "Peter levanta." E de uma vez foi até a cama do colega. "Peter é sério, o Moony."
O rapaz não respondeu, apenas puxou o cobertor para junto do corpo e cobriu a cabeça com um travesseiro.
Sirius puxou o cobertor que cobria o outro garoto. "Peter! O Remus matou o ranhoso. Nós temos que fazer alguma coisa."
O rapaz abriu os olhos e sua expressão era ainda mais assustada do que a de Sirius.
Antes mesmo que James tivesse a chance de perguntar como Sirius sabia que o ataque foi em Snape, a porta do dormitório abriu e um dos monitores da casa entrou e avisou que o diretor exigia conversar com os três urgentemente.
Os rapazes ameaçaram trocarem de roupas. Mas o garoto baixo de cabelos muito claros enfatizou que o assunto era urgente. Eles apenas colocaram uma capa por cima do pijamas e saíram em direção a sala do diretor.
Os três caminharam apenas trocando alguns olhares, mas permanecendo em silêncio até chegar ate a sala do diretor. Lá Remus Lupin estava sentado na frente de Dumbledore com o rosto baixo. Quando os rapazes entraram ele virou o rosto para encará-los, o rosto inchado, as olheiras profundas demonstravam que James não foi o único a passar a noite em claro. Remus logo voltou a encarar o chão.
"Sentem-se" O diretor disse em um tom firme.
E os três obedeceram no mais puro silêncio.
"Acredito que não preciso falar para vocês a gravidade da situação." O diretor disse de forma dura. "Mr. Lupin me falou que vocês estão a par da situação dele, logo não preciso esconder o que aconteceu ontem." O professor levou a mão até os olhos, respirou fundo e continuou a falar. "Mr. Snape foi gravemente ferido por um lobisomem ontem. Levá-lo para St. Mungus seria assumir para o mundo bruxo que eu permiti um lobisomem dentro da escola."
Todos na sala conseguiam ouvir Remus segurar a vontade de chorar.
"Eu conversei com o Sr. Lupin e ele me disse que vocês três descobriram uma maneira de lhe fazer companhia durante o período de lua cheia, e que sabiam sobre a passagem no Salgueiro lutador. Eu não irei perguntar que método é esse, mas preciso saber se algum de vocês tem algo a ver com o acidente com Sr. Snape."
A sala permaneceu em silêncio. Nem os quadros de antigos diretores ousavam se manifestar, nem um eu bem que avisei foi dito.
O diretor arrumou os óculos. "Vocês sabem que se o Sr. Snape sobreviver, ele irá contar o que aconteceu, não sabem?" O tom do diretor mesmo severo era doce.
James foi o primeiro a quebrar o silêncio dos marotos. "Quão grave é a situação dele?"
"Grave, os ferimentos foram profundos, é difícil dizer se ele vai sobreviver. Mas se ele não sobreviver Remus será expulso da escola." Dumbledore disse encarando Pettigrew.
"Mas não foi culpa dele," Peter interveio. "Moony não fazia ideia que seb-Severus iria entrar lá." A voz do rapaz começou a ter tom de desespero. "Ele não deveria ter entrado, deveria ter ouvido os gritos e saído correndo assustado.." "Peter!" Sirius interrompeu.
"Vocês tiveram algo a ver com isso?" Agora foi a vez James interromper. Seu tom de voz estava alterado. "Como? Vocês são loucos?"
"Era pra ser uma brincadeira" Sirius justificou. "Ninguém esperava que o idiota entrasse, mesmo ouvindo todo barulho que o Remus faz quando se transforma." Sirius olhou para Remus. "Ele vivia seguindo a gente, nós... quer dizer eu pensei se ele se nós o assustássemos deixaria a gente em paz."
"Você sabe a gravidade do que você fez rapaz?" Dumbledore perguntou.
"Não foi proposital, eu, eu não pensei."
"Diretor Dumbledore..." Remus não levantou o rosto, e sua voz saia fraca. "Se ele sobreviver..." Remus não conseguiu terminar a frase.
"Foi por isso que chamei vocês aqui, se Severus Snape sobreviver ele se transformará em um lobisomem, não há dúvida a respeito disso. Eu preciso que vocês ajudem não só o Sr. Lupin, mas também o Sr. Snape com isso. E claro, entregar o segredo de um é entregar o segredo do outro e de toda escola. Vocês possuem consciência disso?"
Os três garotos apenas acenaram com a cabeça.
"Vocês três podem ir. Espero que essa conversa fique restrita apenas a nós."
"Pode deixar, professor." Sirius respondeu antes de levantar e ir em direção a porta.
"Eu ainda preciso ainda conversar com o Sr. Lupin." Dumbledore disse antes que Lupin se levantasse e seguisse os amigos. Ele sentou e voltou a encarar o chão.
E olhando para o chão ele não pode ver a forma que seus amigos olharam para ele ao se despedir.
-x-
Remus viu seus amigos saírem. Em sua cabeça as palavras Snape e Lobisomem ainda ecoavam.
"Mr. Lupin." Dumbledore chamou o rapaz e ele levantou o rosto para encarar os olhos do professor. "A condição de Severus é complicada. Mas se ele sobreviver, a vida dele mudará para sempre. Gostaria que você o ajudasse, não apenas no período de lua cheia. Vai ser difícil para ele."
"Eu sei..."
"Eu sei que Mr. Snape pode ser um pouco difícil, mas não desista dele. De todas as pessoas você é a que melhor vai poder ajudá-lo."
"Eu sei. Eu vou ajudar. Professor, posso... posso vê-lo?"
Dumbledore concordou com a cabeça, e Lupin saiu da sala do diretor em direção a enfermaria. Sem ter certeza se desejava que Snape sobrevivesse ou não.
Porque se Severus sobrevivesse, a vida dele se tornaria um inferno. E ninguém merecia a vida de lobisomem, nem mesmo Snape.
Remus chegou a enfermaria decidido que se Snape virasse um lobisomem ele seria sua responsabilidade.
E nunca mais Snape estaria só.
Review?
