Capitulo vinte e seis

Guerra perdida

Sabendo que as pernas não dariam para mais, Harry se sentou sobre seu baú. Sua respiração era contida e agitada por igual, não se atrevia a olhar a Severus, não duvidava que seguisse chorando e não estava seguro de que seu pranto chegasse a lhe avariar a alma como tivesse sucedido em qualquer outra ocasião.

— Devo-te uma desculpa, Harry, esses dias te fiz sentir mau quando sou eu quem tinha atuado como um miserável, o que fiz…

— Não o diga, não creio querer o escutar. —pediu debilmente.

— Mas…

— Que não o diga! —insistiu levantando a voz, Severus teve a bem colocar então um feitiço de silêncio para que seu filho não os escutasse. — Não posso, Severus, tão só não posso voltar a passar pelo mesmo! Você me prometeu que…! Prometeu!

— Perdão.

— Não, não "perdão"… quero saber porque! Quero ter uma explicação, algo que me faça entender porque se supostamente me amava… faz isso!

— Porque sou um imbecil, porque…

— Outra vez com o mesmo?!... Não, Severus, essa não é uma explicação!

Harry abandonou o baú e quase correndo foi para onde Severus permanecia sentado, lhe obrigou a levantar a mirada para se ver diretamente aos olhos, ambos choravam, ainda que as lágrimas de Severus escorregavam sem ruído, a única expressão em seu rosto era a dor em seus olhos negros. Por sua vez, Harry tentava não se pôr a gritar, mas lhe era impossível manter seus soluços em seu coração.

— Que demônios há entre vocês?!... Gosta, ama-lo?!

— Só te amo a ti, tão só a ti.

— Mas não sabe amar, Severus, porque eu não tenho permitido que nenhuma outra pessoa me toque, que ninguém mais entre em minha vida nem em meu coração!... Minha pele é só para ti, meu coração bate forte só por ti!... Porque não pode fazer o mesmo por mim?

— Harry…

Harry soltou o rosto de Severus e deu-lhe as costas calando-lhe dessa maneira, não cria no que pudesse dizer, e isso lhe doía, tinha sido demasiado difícil recuperar a confiança e esta voltava a se avariar. Uma horrível sensação apoderou-se de seu estômago, um medo muito ácido que lhe escoiça lhe provocando até náuseas.

— Fez por vingança? —perguntou soluçante. — Pelo que disse de Ayrton? Foi por isso, verdade?

— Não, Harry, não tem sido sua culpa… eu me equivoquei.

— E quantas vezes mais pensas que se equivocará novamente, Severus?... Se perdoasse-te, quantos dias destes teremos que viver?

— Perdoar-me? —repetiu sentindo de repente uma esperança à que quis aferrar-se com todas suas forças, por isso se pôs de pé buscando a Harry. — Poderia fazê-lo?

Harry não respondeu, se afastou de Severus se sentando no borde da cama, abraçando uma das almofadas enquanto secava seu rosto… Perdoar? Nem ele mesmo sabia porque tinha manifestado essa possibilidade, mas estava em suas mãos e a tentação de fazer era esmagador.

— Tenho tanto medo de perder-te como de ficar a seu lado… Não sei que seria mais doloroso, Severus, nem mais indignante para mim.

— Não pretendo um privilégio que não mereço, mas eu não creio poder viver sem ti.

— Você pode viver sem mim. —gemeu deprimido. — Não se importou arriscar-te a perder-me e dá-me coragem, Severus, porque parece que te sente amo e senhor de nossas vidas, está demasiado seguro de que te perdoarei tudo e isso provavelmente é minha culpa… Não se esforça, Severus, não se esforça por me manter apaixonado de ti.

O Professor não se moveu de seu lugar, podia compreender o ponto de vista de Harry, era verdadeiro, apesar do medo que tinha de perder, sempre achou que ao final terminariam juntos. Os remordimentos vieram duplicados a sua alma. Ia dizer algo quando Harry respirou fundo para continuar falando e decidiu o deixar o fazer.

— Eu sim não poderia viver sem ti... Que idiota sou ao o dizer! Não deveria, porque isso só aumenta sua soberbia, mas eu não quero te mentir… Lembro toda a dor de faz seis anos, o recordo e o sinto em carne viva, me resisto a voltar a passar por esses seis anos… agora por toda a vida.

— Fica-te, faz favor.

— Poderia responder-te facilmente que sim, que fico contigo, mas depois penso… E agora que condições poria? Que não volte a me enganar? Que não o volte a ver? Que o desapareça de sua vida?... isso já me prometeu, e inclusive renunciaste à custodia de Ayrton… e no entanto, não cumpriu… Diga-me que espero me ficando aqui, Severus, me diz e me convence que não estou sendo um iluso.

— Sei que não mereço sua confiança, mas te asseguro que te sou total e completamente sincero ao te dizer que no dia em que me disse que me amava fui o mais feliz de minha vida, que um sonho se fazia realidade ante meus olhos… Agora me olha, Harry, me olha e diga-me se não vê em mim que não te minto, que te amo inclusive mais que no primeiro dia, e que em um dia retribuirei o que te fiz sofrer.

— Não me interessa te ter beijando-me os pés para que te perdoe… Tão só queria lealdade de sua parte, Severus!... Porque é tão difícil dar-me isso?

— Não voltará a passar. Te prometo, amor, te prometo!

— Agora se sente culpado e pode prometer o que seja, mas chegará o momento em que o jogará novamente de menos, em que quererá ter o que seja que ele te dá.

— Não me dá nada, não quero nada dele!... Harry, você me conhece, sei que pode me ver e saber que te amo.

— Severus, não é o mesmo. —replicou desiludido. — É experiente em enganar, em fazer crer as pessoas o que não é.

— Também a ti, rabisco? —perguntou preocupado. — Também pensa que posso enganar com meus sentimentos?... Conhece-me melhor que ninguém, talvez tenha coisas que não esperava de mim, mas não há amor falso.

— E daí há falso, Severus?... Que me oculta? Porque sei que há algo, e quisesse o saber.

— Não posso te dizer, eu faria, mas… Confia em mim, faz favor! —pediu enfático.

— Irrita-me que lhe seja mais fiel a ele que a mim, não é justo, Severus! Eu sou teu esposo! —exclamou golpeando impotente a almofada, o professor guardou silêncio por uns segundos antes de continuar.

— Por meus filhos, Harry, que são o que mais amo, te dou minha palavra que nunca quis lastimar-te… sei que é cínico de minha parte estar te pedindo confiança, mas é que a preciso, Harry.

— Não… não posso confiar em ti.

Severus assentiu, não podia reclamar por essa desconfiança, mas se Harry continuava aí, se seguia lhe escutando… então continuava a esperança. Não sabia quanto tinha que rogar, que suplicar e implorar, mas por ele seria capaz de qualquer coisa.

— Só fica com o tempo quiçá possa convencer de meu amor. Ou se preferir, então fica-te para fazer-me a vida impossível, para que desquites tudo o que te fiz… mas não volte a se afastar… faz favor.

Harry respirou fundo, olhou a porta que o separava de seu filho, então voltou a soltar ar e assentiu… ainda que amava a Severus, não ficava aí por ele nem por esse amor apunhalado que doía… tão só não queria que seu filho voltasse a viver a separação de seus pais, e se ele sofreria igual aí que em qualquer outro lado, não tinha nenhuma diferença em permanecer junto a seu esposo.

— Seguirá dormindo no despacho… —disse em um suspiro enquanto secava suas bochechas com resignação. —… Nesta ocasião, Severus, muito temo-me que realmente se acabou, não posso me imaginar voltando a permitir que me toque, de modo que se quer seguir com ele, por mim não há problema, tão só seja discreto e que Anthony jamais se inteire de que já não estamos juntos.

Harry dirigiu-se para a porta do despacho, abrindo-a para dar-lhe o passo a Severus. Este compreendeu que não era o momento de insistir e atravessou a ombreira sentindo um golpe no coração quando a porta se fechou atrás de ele.

Ao ficar só, Harry se mordeu os lábios para já não chorar mais. Foi para a habitação de seu filho com a intenção romper a carta de despedida, e ao vê-lo quis dar-se ânimo de que estava tomando a melhor decisão.

Mas ao voltar a seu quarto e meteu-se baixo as cobertas, teve que afogar os soluços na almofada que ainda tinha impregnado o aroma de seu esposo. Fazia-lhe rabiar sentir-se estranhando lhe, querendo ir a seu lado e dormir em seus braços… ia ser muito difícil viver tendo-lhe tão perto e conter o desejo que sempre sentia por ele.

Nunca se tinha sentido tão covarde, mas era demasiado o medo de reviver naqueles dias… Se odiou, se odiou por não poder atravessar a porta e se marchar para sempre!

"Porque demônios quero-te tanto, imbecil?!" gritou golpeando a almofada, aproveitando que ainda continuava com o feitiço de silêncio imposto na habitação.

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Pela manhã seguinte, Harry sentia-se perdido na imensidão do castelo, agora que Remus tinha regressado a dar suas classes, ele já não tinha nada que fazer, e Anthony passava as horas estudando com seu Professor. Decidiu então fazer-lhe uma visita a Draco, dessa maneira mataria o tempo.

— Sucede algo? —perguntou Draco depois de notar que o moreno tinha estado em silêncio quase o tempo todo, sempre sustentando ao bebe em seus braços enquanto o loiro alimentava a seu filho varão. — Seguem mau as coisas com Severus?

— Parece-me que Thelma ficará sem uma amiga com quem jogar.

— Duvido-o, você e Severus têm superado muitas coisas, com toda segurança não demoram em voltar a andar de luxuriosos, Potter.

— Severus voltou-me a enganar com seu pai.

Draco guardou silêncio, amava a seu pai, mas tinha que reconhecer que seu comportamento com Severus era totalmente reprovável, no entanto, agora que sua relação tinha sanado, não queria se afastar novamente dele, por isso se absteve de realizar qualquer comentário. Harry compreendeu sua posição, sorriu-lhe com tristeza e voltou a concentrar-se em admirar a beleza da pequena menina… Ficaria com vontades de ter a sua própria, porque se de algo estava seguro é que não ia poder sacar a Severus de sua cabeça e de seu coração, lhe era aberrante pensar que outro homem pudesse entrar em sua vida.

Rememorava em seus dias na Escócia, quando descobriu seu amor por Severus e soube que era correspondido… A angústia por recuperar, por voltar a ter a seu lado a esse homem que lhe sorria e no que confiava lhe enchia de desespero… Perder a confiança para Severus era como se lhe tivessem tirado a segurança, lhe fazia se sentir perdido, flutuando sem direção na vida.

Voltou a pôr atenção no bebê, sofrendo por um sonho rompido… Se queria uma filha, era porque levaria o sangue de Severus, se não era assim, não tinha caso.

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O aborrecimento conseguiu que Harry pensasse novamente em regressar a trabalhar. Já nem sequer tinha que pedir a opinião de Severus, de modo que uma manhã se foi só para o Ministério, sua documentação já tinha sido transladada e se até o momento não se tinha unido às filas de Aurores da Inglaterra era para continuar junto a sua família.

Mas Anthony agora estava bem cuidado, e Severus, dele preferia não se lembrar, inclusive o pensar lhe doía. As noites converteram-se em um tormento, seu corpo resistia-se a deixar de desejar que as mãos do Professor lhe tocassem, que seus lábios lhe enchessem de beijos, e ele poder retribuir-lhe com o maior prazer de que era capaz.

Não queria pensar que tinha obtido Severus em Lucius para ter caído novamente em seus braços, estava convencido de que o loiro se manteve afastado todo esse tempo, nunca teve indício de que vivesse atrás de seu esposo, de modo que tinha que ter sido Severus quem lhe buscasse… quem o tivesse saudades.

Sacou essas ideias de sua cabeça, tinha-as à cada momento e reapareciam sem pedir-lhe permissão. Esperava que agora que por fim conseguiu ser admitido no Agrupamento de Aurores, sua vida teria um sentido e sua mente, ocupada em seu trabalho, já não teria tempo de se atormentar.

Quando Severus se inteirou da decisão de seu esposo não lhe ficou outra opção mais que a aceitar, ainda que pelo menos esperou que isso o fizesse sentir melhor.

Uma noite, enquanto Severus colocava um cobertor sobre o sofá onde dormia, uns golpes na porta lhe interromperam. Pensou em ocultar a prova de que já não ocupava a cama matrimonial, mas preferiu se desfazer de quem se lhe ocorresse importunar a essa hora.

Para sua má sorte, quem estava na porta não era alguém fácil de jogar. Dumbledore entrou sem pedir permissão, e o pior de tudo, é que atrás dele ia Lucius.

Ambos homens notaram o sofá acondicionado para dormir, e seus rostos já sérios se surpreenderam por esse ato inesperado. Mesmo assim, não fizeram comentários, algo que Severus agradeceu em seu interior lhes convidando formalmente a ocupar um par de assentos em frente a sua mesa, dessa maneira os mantinha fora da perspectiva do que agora era seu novo dormitório.

— Passou algo com Ayrton? —perguntou preocupado.

— É relacionado com ele, verdadeiro. —admitiu Dumbledore com gravidade. — Lamento ter que lhe informar que ao passo que vai, com toda segurança, reprovará o curso.

— Sei que não tem apresentado bons exames, tenho sido o primeiro no notar, mas não acho que reprove, Albus. Ayrton é um garoto inteligente, sabe que isso não lhe convém, já verá como nos exames finais obtém as melhores qualificações.

— Isso não é suficiente, Severus, sua atitude não é a melhor… Tem estado brigando sem motivo algum, e com quem se lhe ponha enfrente, o único que busca são problemas.

— E daí é o que sugere?

— Talvez tenha que o suspender… Manda uma forte sanção e se até o momento não tem sido expulso tem sido por consideração ao sangue que leva, mas não posso permitir que cause estropícios no colégio, simplesmente não há maneira do fazer entrar em razão, nem sequer cumpre com os castigos que lhe impõem os Professores.

Lucius e Severus trocaram uma mirada alarmada, não era uma boa ideia sacar a Ayrton de Hogwarts. Eles podiam lhe dar uma educação privada, mas enclaustra-lo não era a solução, tinham a esperança de que conviver com amigos de sua mesma idade poderia lhe ajudar, não lhe fazer sentir abandonado.

— Peço-lhe que reconsidere essa decisão, Dumbledore. —pediu Lucius amavelmente ante o assombro do Diretor quem esperava-se uma altaneira por parte do loiro, após tudo fazia parte da junta de pais de família. — Eu pessoalmente falarei com meu filho, tentarei que peça uma desculpa a seus Professores por seu comportamento.

— Duvido muito que resulte, por isso tenho chegado no ponto de falar com vocês ao respeito… o lamento profundamente, mas Ayrton Lucius Malfoy Snape não será readmitido em seu segundo ano.

Dumbledore luzia sinceramente apenado, mais por Severus que por Lucius, mas as queixas constantes de Professores lhe tinham contornado a tomar essa decisão, nenhum corretivo funcionou em seu tempo, o garoto Malfoy era altaneiro com seus superiores, agressivo com seus colegas, e ainda que preferiu não o comentar para não alarmar mais a seus pais, tinha as versões confirmadas de que o comportamento de Ayrton podia se qualificar como cruel.

O Diretor marchou-se deixando-os sozinhos. Severus esfregou-se as têmporas tentando minguar a dor intensa em sua cabeça, sentia-se a ponto de estalar em mil pedaços… e às vezes pensava que quiçá seria o melhor.

Umas fortes mãos em seus ombros lhe sobressaltaram.

— Relaxa-te, acho que precisa uma boa massagem… e algo me diz que não virá ninguém a nos interromper. —lhe sussurrou Lucius ao ouvido.

Severus quis tirar-lhe as mãos de em cima, mas o loiro se teimou, e como seu ânimo se encontrava pelos solos, já sem força de lutar, se apoiou sobre a mesa indiferente ao fato de que Lucius afundasse seus dedos em seu pescoço e ombros tentando relaxa-lo infrutiferamente.

O loiro sentia-se feliz de poder tocá-lo, de tê-lo tão perto. Mais de repente, pareceu-lhe escutar algo que lhe estremeceu até a alma. Esqueceu-se do massagem para ajoelhar-se a um lado de Severus quem mantinha-se com o rosto oculto sobre seus braços.

— Se sente mau? —perguntou preocupado.

— Eu queria o ter comigo… renunciei a seu custodia, mas ao menos lhe via todos os dias e sabia dele… agora já nem isso poderei fazer.

A voz do moreno era a mais triste que jamais ninguém lhe tinha escutado, Lucius lhe sujeitou das mãos para o obrigar a se pôr de pé e ir ocupar um lugar no sofá, assim poderiam falar mais tranquilamente.

— Dou-me conta que as coisas não vão bem com Potter, também não. —comentou olhando o móvel disposto como cama. — Porque não vem comigo, Severus?... Porque não renúncia a ele e me dá uma oportunidade a mim?… você sabe que te amo, e que a meu lado também poderá estar junto a Ayrton.

Severus soltou sua mão que Lucius tinha mantido apertada. A oferta qualquer um podia a considerar razoável, com Harry parecia já não ter remédio, Harry continuava em sua posição e podia lhe entender… quiçá se se afastava dele estaria lhe dando a oportunidade de refazer sua vida com alguém mais, e se o fazia, então não concebia poder seguir nesse mundo... mas o pior de tudo é que essa seria a punhalada final para Harry, não, jamais lhe faria isso.

Pôs-se de pé, e indo para um lugar em uma gaveta, abriu um compartimento secreto ajudado por sua varinha. Algo sacou daí, e regressou a se sentar junto a Lucius, colocou na mesinha em frente a eles três cápsulas de vidro contendo um líquido morado sobre uma pequena caixa peltri, e a seu lado, um frasco contendo uma substância oleosa de uma tonalidade amarela.

— Que é isso, Severus? —perguntou Lucius sem compreender.

— Fiz faz em uns anos, estava convencido de que cometíamos um grave erro, o senhor Tenebroso tinha voltado e espreitava a Ayrton… Eu estava farto de meu papel de espião, não servia de nada, e estávamos em constante perigo… pensei que o melhor era terminar com tudo.

Lucius olhou as três cápsulas, compreendeu então seu conteúdo, e já não teve necessidade de perguntar quando ao voltear para Severus, lhe descobriu deixando sair suas lágrimas.

— Sev…

— A morte era a única solução… você, Ayrton e eu já não tínhamos cabida neste mundo, já não podia deixar de pensar no que sucederia se o Lord nos descobria, e me preocupava muito nosso menino.

— Porque não o fez?

— Te parecerá idiota… —gemeu soluçando. —… mas a noite em que eu ia pôr as cápsulas em nossas bebidas fui a Grimauld Place, precisava falar com Dumbledore para lhe dar a última informação que tinha conseguido para ele… e então o vi… vi a Harry, estava conversando com seus amigos, ria. —Severus teve que faz uma pausa para puxar ar, e ainda que seus lábios se curvaram em um sorriso pela lembrança que vinha a sua mente, as lágrimas não cessavam. — E sabes que fez?... guardou silêncio ao ver-me… se corou e sorriu-me.

— Já não recorde isso se te lastima.

— Com só um sorriso me fez me esquecer de todo e querer seguir lutando por ele, para que um dia fosse feliz e livre… e o único que tenho feito é lhe estragar a vida!

— Já basta, Severus, não te martirizes desse modo.

— Se não acabei com minha vida então, não o farei agora… por ele, porque ainda que me odeie, vou morrer o defendendo, evitarei com todas minhas forças que volte a passar pelo mesmo, não me interessa que me cria um covarde mentiroso… ainda que jamais saiba nada, eu viverei por ele… por ele e por meus filhos.

Lucius guardou silêncio, alongou a mão para tomar as cápsulas… talvez não tinha uma destinada para Severus, mas quiçá…

O moreno apressou-se a usar sua varinha e fez explodi-las provocando que o conteúdo se esvaziasse na caixa peltri, então esvaziou sobre ela o líquido do frasco.

— Não serei culpado da morte de ninguém… Te defenderei a ti também, e a Ayrton.

— Mas…

— Lucius, tão só não me volte a pedir que esqueça a Harry. —disse suavemente, olhando aos olhos sentindo ternura pelo amor que via na cinza esperançado do loiro. — Não gosto de ter que te estar lastimando… simplesmente é com Harry ou com ninguém.

— Entendo.

— Dói-me o que passa com Ayrton, e quisesse o ajudar, mas agora tudo ficará em tuas mãos… —disse depois de se secar suas bochechas para se concentrar no que devia lhe preocupar agora. —… Seguirei buscando perfeiçoar a poção, confio em que em algum dia o conseguirei e então o obrigaremos à tomar, tão só te peço que não o envie a Drumstrang, fica a seu lado, suspeito que voltará a permitir que te lhe acerque agora que já não me veja… Sei que posso confiar em que você sim saberá o manejar, Lucius, você não falhará como o fiz eu.

Comovido pela frustração de Severus, Lucius atraiu lhe para abraçá-lo, gostava muito rodeá-lo pela cintura para apoiar de seu rosto no pescoço do moreno, dessa forma podia sonhar com que era correspondido… Era demasiado o que lhe amava, não podia simplesmente se ir lhe deixando tão triste.

Nessa ocasião o moreno não teve valor para o apartar, podia sentir ao afamado Lucius Malfoy render a seus pés como um dócil cachorrinho, fazer a um lado era cruel, ainda que às vezes não lhe ficava outro caminho. Agora olhava a porta que conduzia a seu quarto, e desejava com a alma inteira que fosse Harry quem lhe estivesse abraçando tão apaixonado.

Lucius sentiu-o, podia quase apalpar esse sentimento desanimado de Severus como se fosse próprio… Talvez poderia fazer algo por ele?

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O loiro teria desejado ficar essa noite com o professor, ainda que fosse só para lhe fazer companhia, mas soube que o melhor era lhe deixar a sós, seguramente precisava se desafogar das más notícias que ultimamente chegavam uma atrás de outra. Dantes de tomar o caminho para a saída de Hogwarts, pensou que seria uma boa ideia ir para a habitação de Ayrton, se conseguia convencer do amor intenso que Severus sentia por ele provavelmente pudessem voltar a ser pai e filho.

Sabia que as possibilidades já eram mínimas, mas ainda guardava a esperança, recordava a fervente devoção que Ayrton sempre sentisse por Severus, era seu modelo a seguir, possivelmente por isso estava tão doído ao se sentir recusado… não podia imaginar que já não ficasse nada desse carinho entranhável.

O chão afundou-se lhe a seus pés ao vê-lo em um dos escuros corredores próximos à sala comum de Slytherin, brigava revolcando-se no chão contra um garoto que bem podia estar em quinto ano por sua idade. E ainda que Ayrton era mais pequeno que o outro, pese a ser mais alto do normal, já tinha uma vantagem sobre seu adversário. Junto a eles, um par de jovens que pareciam ser parceiros do garoto de quinto tentavam os separar, assombrados pela força do menino.

Os olhos cinzas se entrecerraram enquanto caminhava para eles com a força e impotência de quando se encontrava entre filas de comensais.

— Basta! —ordenou sustentando a seu filho dos ombros para libertar ao garoto castanho que já sangrava do nariz.

— Solta-me, vou matá-lo! —bramou enfurecido enquanto os três jovens retrocediam espantados.

Lucius não compreendeu do todo o porque dessa reação, mas quando seu filho se libertou dele, levantou sua varinha lhes apontando com firmeza, jamais esperou que em algum dia fora a presenciar o que sucedeu.

— Avada Kedavra!

Um raio verde saiu da varinha de Ayrton, mas antes de que este tivesse podido terminar, Lucius tinha atingido a reagir, empurrou a seu filho e com o mais poderoso Expelliarmus enviou aos três garotos ao chão. Ainda que o Avada passou-lhe roçando a um deles, terminou impactando-se na parede em onde se desintegrou.

— Maldito! —gritou Ayrton enfurecido por seu ataque frustrado, girou-se a ver a seu pai quem continha a respiração e olhava aterrorizado o brilho vermelho nos olhos negros de Ayrton. — Não tinhas direito a intervir, nem sabe o que me fizeram!

— Só… só se enojou porque… —titubeou um dos caídos. —… porque Dennis não quis lhe fazer crer ao Professor Snape que se tinham deitado juntos… quis… quis usar um Imperius.

Ao ver que Ayrton voltava a apontar aos jovenzinhos que mal podiam reagir pelo medo, Lucius se lançou sobre seu filho lhe arrebatando a varinha para depois correr para os demais, e com um efetivo obliviate deixar no chão com a mirada perdida.

Então, regressou ao lado do jovenzinho que lhe olhava a cada mais vez furioso, sua respiração irregular demonstrava que quase estava a ponto de um colapso de ira. Lucius, com toda a dor de seu coração, lhe apontou com a varinha invocando um Desmaius.

Conseguiu sustentá-lo em braços dantes de que este caísse ao chão. Assegurou-se que ninguém o visse, e com o menino, abandonou Hogwarts.

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Uns minutos mais tarde, Lucius olhava a seu filho dormir sobre sua cama. Amorosamente lhe penteava retirando-lhe o cabelo do rosto, mas sua olhada cinza mostrava também muita preocupação… Tinha que admitir o que estava passando, seu filho esteve a ponto de matar a alguém, e nem sequer sabia como é que tinha aprendido a invocar o Avada.

Não sabia como tinha aprendido tantos feitiços.

Mas o pior de tudo, veio quando Ayrton começou a gemer em sonhos, tentava acordar com todas suas forças, se lhe via lutando contra o feitiço… e de sua garganta saiu um sibilo assustador que a Lucius lhe provocou o mesmo terror que sentia quando estava cerca do Senhor Tenebroso.

— Ayrton… faz favor. —suplicou colando seu em frente à do garoto. — Faz favor, carinho… sei que me escuta, não deixe de me escutar e segue minha voz… Não se afaste, não permita que nada te faça dano. Você é um menino bom, é uma alma nobre e também muito forte… Eu confio em que poderá sair disso Verdade?

O sibilo de Ayrton converteu-se em um rosnado como de uma feroz ferida… abriu os olhos intempestivamente fixando sua mirada na cinza de seu pai… sorriu diabolicamente ao notar o medo em seus olhos, um medo que lhe alimentava lhe fazendo sentir mais forte.

Mais de repente, Lucius uniu seus lábios à testa de seu filho, fechou seus olhos, orando pela primeira vez em sua vida… tinha que conseguir ter de regresso a seu filho. Ayrton ainda não recuperava de todo seus movimentos, esses eram torpes, mas mesmo assim quis se separar de Lucius como se seu beijo lhe queimasse.

O loiro não se afastou, abraçou a Ayrton tão forte que quase temeu chegar a lhe romper algum osso, mas nada seria pior que o deixar se sentir sozinho. Pouco a pouco o rosnado foi fazendo-se mais débil, Ayrton pôde mover mais facilmente seus braços, deixou de empurrar para rodear a seu pai, e um gemido tão suave como lastimoso emergiu de sua garganta. Lucius sentiu-o chorar, mas nem assim lhe separou, ainda que se morresse de vontades por se pôr a chorar também, tão só permaneceu lhe abraçando fortemente.

— Papai… —soluçou afundando seus dedos na longa cabeleira loira, sua voz já se escutava como fazia tempo não saía, tão doce e desprotegida que rompeu a alma do aristocrata. —… não me solte… tenho medo.

— Sempre poderá contar comigo, esteja ou não esteja, Ayrton, seu pai sempre te estará protegendo.

— Severus não me quer. —gemeu estremecendo-se como se tivesse uma forte dor.

— Severus adora-te, qualquer coisa que tenha feito não foi porque te quisesse menos… ele sofre por ti, sofre porque não o quer a seu lado, porque sente que te perde.

— Não, Severus não me quer e eu lhe odeio, lhe odeio com todas minhas forças!

Lucius permitiu-se um amargo sorriso, cria na sinceridade dessas palavras, mas era porque Ayrton não estava conseguindo manejar seus sentimentos, em realidade, não tinha ninguém mais importante para seu filho que Severus… absolutamente ninguém, nem sequer ele.

Antes de que amanhecesse, Ayrton se encontrava mais tranquilo e fez questão de voltar ao colégio. Lucius tinha pensado em deixar a seu lado, após tudo já nem sequer poderia continuar seus estudos em Hogwarts, e lhe precisava perto, mas não teve poder humano que fizesse que o garoto mudasse de opinião.

Ninguém se percebeu da ausência de Ayrton aquela noite, e quando Lucius voltou a sua mansão depois de deixar em suas habitações do colégio, respirou fundo, tinha que se armar de valor para dar o seguinte passo… Já só ficava um caminho por tomar, e ainda que era o mais difícil, também era o melhor para todos.

Em suas mãos tinha a possibilidade de devolver a felicidade a Severus… de salvar a alma de seu filho… de salvar-se a si mesmo.

A hora tinha chegado, a hora de reconhecer sua guerra perdida.

Voltou a encerrar na escuridão de seu despacho, igual que no dia em que Severus lhe comunicasse que iniciava uma vida ao lado de Harry Potter… voltou a chorar como então, ainda que pelo menos agora tinha uma esperança de salvação.

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Nota tradutor:

O que será que Lucius vai aprontar para salvar o casamento de Severus e Harry?

Vejo vocês por ai

Ate breve

Fui…