Capitulo vinte e nove
Em uma encruzilhada
Severus corria como louco, nunca em sua vida o caminho da entrada a Hogwarts até os salões de classes se lhe fez tão longo. Tinha uma forte opressão que mal lhe deixava respirar, mas nem assim minguou sua velocidade. Deu volta por um dos corredores, sabia em que classe se encontrava seu filho e tinha que o sacar daí dantes de que sucedesse o que temia. Não se importou derrapar na pedra quando escutou o tenebroso grito, ao mesmo tempo em que o sangue se lhe congelava tão só teve tempo de orar para que não tivesse tido nenhuma desgraça que lamentar.
Ao abrir a porta e ver a destruição na sala de Transformações, Severus soube que as coisas estavam pior do que creu. Alguma mesa bancos tinha estalado e seus estilas encontravam-se incrustadas violentamente na parede, o candeeiro do teto jazia em mil pedaços sobre a mesa.
Os prantos dos pequenos meninos escutavam-se distantes, como temerosos de fazer demasiado ruído. Mcgonagall atendia como podia a um par deles cuja cabeça sangrava profusamente. Severus pensou em ajudar-lhe, mas sua prioridade agora tinha outro nome. Buscou entre os escombros e por fim deu com o corpo desmaiado de Ayrton. Aparentemente não tinha nenhuma ferida, mas assim que tomou seu pulso este mal podia se sentir.
— Severus, chame a Poppy, isto é uma desgraça! —exclamou Minerva assustada.
O moreno assentiu, mas não saiu do salão de classes sem levar a seu filho em seus braços, ele também precisava ajuda nesse momento. No corredor encontrou-se com Dumbledore quem já ia acompanhado por outros professores e alguns alunos que tinham atingido a escutar ruídos alarmantes no salão.
— Que passou? —perguntou Dumbledore ao olhá-lo sustentando a seu menino.
— Será melhor que ajudes a Minerva, Albus… todos ajudem. Notifiquem a Poppy, fará falta sua presença na sala de Transformações.
Isso foi o único que disse antes de retomar sua carreira dirigindo para a saída de Hogwarts com seu precioso ônus.
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Quando Harry chegou ao castelo, o primeiro que fez foi ir em busca de Anthony, tinha medo por ele. De modo que quando o encontrou no despacho de Severus acompanhado por seu Professor realizando uma de suas lições, um enorme alívio chegou a sua alma.
— Tudo bem? —perguntou ao encarregado de cuidar do pequeno enquanto sustentava ao menino em braços.
— O Professor Dumbledore pediu-me que permanecesse aqui ao cuidado de Anthony… Não sei que sucedeu, mas parece que teve um acidente com os garotos de primeiro ano.
Harry creu saber o que passava, voltou a se despedir de Anthony e lhe deixando baixo a proteção de seu professor, saiu para o despacho do Diretor. Aí estava ele, acompanhado da Professora Mcgonagall, esta tinha um vendagem em um braço e a cara luzia com algumas queimaduras, mas o mais impactante eram seus olhos, tão aterrorizados como se tivesse visto ao mesmo Voldemort ressuscitado.
— Será melhor que vá descansar, Minerva. —disse-lhe Albus ao ver chegar a Harry. — Felizmente não teve grandes consequências, os garotos estão sendo atendidos e Poppy me informou que nenhum tem lesões de gravidade, só me encarregarei de informar a seus pais.
— Albus, o que passou…
— Foi um acidente, Minerva, algo que se saiu de controle. Deixemo-lo assim.
— Não posso, me perdoa, Albus, mas me é impossível me ficar calada. —protestou nervosamente. — Esse menino tem algo mau… sua voz era… era como a de…
— Vá a descansar agora.
As palavras do Diretor não admitiam réplica e a Professora lhe entendeu assim, pelo que, ainda que com resistência, abandonou o despacho ainda sentindo suas pernas tremer. Harry só lhe saudou com uma ligeira inclinação de cabeça quando passou a seu lado, que ela respondeu do mesmo modo. Ao ficar sozinhos, Harry deu uns passos acercando ao idoso Diretor.
— Que sucedeu?
— Acho que Ayrton perdeu o controle de sua magia durante um exercício na classe de Transformações… Agora o que quisesse saber é a onde lhe tem levado Severus e porque.
— Não sei a onde… mas creio saber o porque.
O diretor olhou fixamente a seu ex aluno, então Harry respirou fundo antes de proceder a relatar-lhe o ocorrido naquele dia.
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Essa noite, Harry não podia dormir, lhe preocupava não ter notícias ainda de seu esposo. Queria sair a buscá-lo, mas não tinha ideia de onde. Dumbledore tinha-lhe ordenado que ficasse no castelo e não comentasse nada do recém descoberto a ninguém, ele se encarregaria de organizar os funerais de Lucius Malfoy e lhe dar a notícia a Draco. Concordaram em que só ele e Remus tinham que estar inteirados da verdade, não tinha caso em alarmar ao mundo ainda.
Eram mais das quatro da madrugada quando Harry voltou a recostar-se sobre sua cama, tinha estado dando voltas por toda a habitação ansiando saber algo de Severus, e então a porta se abriu. Ao vê-lo quis correr a abraçá-lo, e ainda que duvidou por um segundo, finalmente fazer.
— Onde andava? Está bem?—perguntou sem deixar de apoiar seu rosto no peito do professor, este lhe correspondeu ao abraço com macieza.
— Com Ayrton, levei-o com seu medimago… Tem estado inconsciente todo este tempo, só vim a te avisar que estou bem, me regresso em seguida.
— Que foi o que lhe passou?
— Bem, como suponho que já Lucius te disse tudo, acho que deve saber que a parte da alma do Senhor Escuro que habita em Ayrton sentiu a morte da de Lucius, eles têm estado muito unidos, era de se esperar que sucedesse.
— Que vamos fazer agora, Sev?
— Não sei… primeiro preciso saber como vai reagir Ayrton quando acorde.
— Dumbledore tem decidido guardar silêncio, convenceu a Mcgonagall para que o de sua classe seja visto como um acidente, tão só lhe dirá a verdade a Remus e Draco.
— É o melhor e lhe agradecerei sempre… Como está Anthony?
— Bem Quer o ver?
Severus assentiu e juntos foram para a habitação de seu filho. O menino dormia profundamente e não sentiu quando seu pai chegou a sentar a seu lado. Desde longe Harry observava-lhes, notou a intensa preocupação nos olhos de seu esposo, mais sabia que nesse momento em quem pensava era em Ayrton. Ele também se sentia tenso, muito nervoso pelos acontecimentos… por temeroso de ter que fazer o que achava que finalmente faria.
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À manhã seguinte, durante os funerais do poderoso empresário. Draco pôde-se manter erguido graças à carinhosa companhia de Remus a seu lado. O líder dos Malfoy foi colocado em uma cripta do sepulcro familiar e não teve grandes presenças devido à discrição com que se manejou o assunto.
Harry por um instante teve medo da reação de Draco quando este lhe olhou por um segundo depois de que a cerimônia terminasse, mas o loiro se acercou e após um instante de dúvida, lhe abraçou fraternalmente.
— Obrigado… Sei que ficou ao acompanhar até seu último fôlego. —disse-lhe fracassando em tentar manter sua voz sem avarie. — E sei que se tivesse estado em suas mãos o ajudar, o teria feito.
— Draco, eu te juro que não sabia que existia um juramento imperdoável… te dou minha palavra que não lhe tivesse deixado o romper.
— Sei-o… Sabe onde está Ayrton?
Harry não teve tempo de responder, nesse momento se escutaram umas calcadas ao fundo do corredor da enorme cripta que mais bem parecia uma casa luxuosa coberta de andares e paredes de mármore branco brilhando como a prata. Tinha um peculiar feitiço que saía de umas tochas de esmeralda onde emergia um fogo branco que alumiava o lugar à perfeição.
Todos olharam para lá. Severus apareceu caminhando erguido e a seu lado ia Ayrton, aferrando-se a seu braço como se tivesse muito medo, nem sequer se atrevia a levantar a mirada apesar de luzir agora uns óculos escuros, e o cabelo loiro deixava cair suas mechas bicolor sobre seu rosto deixando mal muito pouco espaço para ver que estava muito pálido.
Ninguém disse nada, se fizeram a um lado para lhes permitir chegar. A um par de metros detiveram-se e Ayrton separou-se de seu pai para aproximar para uma placa de metal incrustada em uma parede, atrás de a qual já jazia o corpo de seu pai.
Um infantil soluço partiu o coração de todos, e mais quando o garoto caiu de joelhos sem deixar de chorar, era a viva imagem da desolação e tristeza.
"Papai" —gemeu apertando impotente as mãos sobre o mármore.
Severus aproximou-se e ajoelhando a seu lado abraçou-lhe estreitando sua cabeça em seu peito. Ayrton sentou-se então no chão, e no refúgio de seu outro pai chorou em silêncio. Draco ajoelhou-se também acariciando o cabelo de seu irmão, o sentiu tensar pelo contato, mas o atribuiu à profunda tristeza que devia ter.
— Eu sei como te sente… quero que saiba que pode contar comigo em qualquer momento, se você o deseja pode inclusive vir a viver conosco.
— Obrigado pelo oferecimento, Draco. —respondeu Severus ao sentir como seu filho se aferrava com mais força a ele, demonstrando sua relutância a separar de seu pai. — Mas ficará comigo.
Draco aceitou, após tudo Ayrton também parecia querer permanecer junto ao Professor. Dumbledore fez um sinal aos demais para que os deixassem sozinhos, e assim obedeceram, menos Harry. Não sabia porque, mas de repente já não cria nas lágrimas do garoto.
— Severus… —chamou-lhe, e Harry notou como os braços de Ayrton se negavam a separar do corpo do outro. —… Anthony quer te ver, está preocupado por ti.
— Está bem?
— Sim… só quer te ver, desde ontem não o faz.
— Ayrton…
— Não, eu quero ir a casa! —exclamou o garoto compreendendo as palavras que seguiriam à frase de seu pai. — Faz favor, papai, não quero ir a nenhum outro lado!
— Que vai fazer, Severus?
— Irei mais tarde… diga a Anthony que jantaremos juntos esta noite.
Harry assentiu e dando meia volta afastou-se. Ayrton ia tirar-se os óculos para ver-lhe, mas Severus reteve-lhe a mão impedindo-lhe.
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À hora do jantar, Anthony não deixava de olhar a porta primeiramente às habitações. Harry tinha-lhe comunicado o recado de seu pai e ansiava vê-lo. Harry dispôs tudo para jantar na intimidem, de todos modos o ambiente no comedor não era muito propício para um menino como seu filho. Os alunos não deixavam de comentar o incidente em classe de Transformações, e ademais, Draco e Remus não saíam de suas habitações guardando o luto do loiro.
— A que horas chega papai? —perguntou Anthony ansiosamente.
— Carinho, ele disse que viria, mas têm passado muitas coisas muito importantes, seu irmão não se sente muito bem e Severus tem que o cuidar, você entende isso, verdade?... — Anthony assentiu pelo que Harry respirou mais tranquilo. — …quiçá não possa vir a tempo, melhor começamos a jantar de acordo?
— Mas… quero esperá-lo um pouco mais.
Harry sorriu com tristeza, já era muito tarde para que Severus aparecesse, mas nesse momento a porta por fim se abriu e Anthony correu emocionado aos braços de seu pai.
— Que bom que pudeste vir. —sussurrou apoiando sua cabeça no ombro paterno. — Como está Ayrton? Porque não o trouxeste a casa?
— Ayrton dorme agora, já será em outra ocasião que possa vir… Sinto a tardança, mas te prometo que sempre cumprirei minha palavra.
Anthony assentiu e depois de que Harry e Severus se saudassem com um breve beijo nos lábios, a pequena família se dispôs a passar um momento agradável durante o jantar. Anthony não atingiu a descobrir nenhuma estranha situação e não quis perguntar o motivo de que seu pai e Ayrton permanecessem longe do castelo esse tempo.
Mais tarde, o professor encarregou-se de mudar a seu filho de pijama e de levar à cama tal como a ambos gostavam. Harry esperou-lhe pacientemente em seu quarto, recostado sobre sua cama depois de dar-se um bom banho e pôr-se o pijama que mais gostava a Severus, justo de uma branca de seda que se anulava com uma discreta renda entrelaçada no pescoço. Sorriu recordando quanto desfrutava seu companheiro de ir desatando para descobrir a pele baixo a teia.
Severus fechou a porta que conduzia o quarto de seu filho, e ao ver a Harry em seguida adivinhou o que pretendia, sorriu nervoso enquanto caminhava para a cama se sentando no borde.
— Harry…
— Está cansado? —perguntou ajoelhando-se atrás de Severus, abraçando-lhe enquanto beijava sedutoramente a pele de seu pescoço.
— Um pouco, mas temos que falar.
— Poderia ser manhã? Hoje tenho vontade de…
— Harry, perdoa-me, mas não me sinto de humor.
Harry, quem tinha deslizado sua mão acariciando o tórax de seu esposo, sentiu de imediato como era sujeito por sua mão lhe impedindo prosseguir. Algo contrariado se apartou abraçando suas pernas no outro extremo da cama.
— Não esteja molesto comigo. —pediu Severus acercando-se um pouco mais. — Têm passado coisas muito importantes, não poderia me concentrar.
— Bem, suponho que após tudo sim te afetou a morte de Malfoy.
— Harry… eu lhe queria, não como amante nem como nada que te imagine, tão só por ser o pai de Ayrton e também porque foi um bom amigo.
— De acordo… não volto a dizer nada disso, me perdoa por ser tão morboso e pedir sexo, tão só entende que é complicado também para mim.
Harry acomodou-se baixo as cobertas afastando-se mais de Severus, ainda que sua expressão já não luzia tão molesta, mais bem, preocupada.
— Malfoy confessou-me bem as circunstâncias em que os descobri aquela vez, não sei se espere uma desculpa de minha parte, Severus, mas…
— O último que quereria seria escutar que te desculpasse, fui eu quem te falhei, não importa as circunstâncias que rodearam o fato.
— Amo-te, mas não gosto nada que de nossa relação tenha que passar por este tipo de provas, se supõe que vivo para ti e você para mim… porque não podemos ter uma vida normal?
— Não o sei, mas temos superado tudo até agora, Harry, por favor, que não tenha algo mais que nos separe definitivamente.
— Refere-te a Ayrton verdadeiro?
Severus assentiu e acomodando-se de tal maneira que ficou recostado sobre a cama e com Harry apoiado em seu peito, se deteve a lhe acariciar o cabelo e as costas carinhosamente.
— É quem mais preocupa-me… mas não quero que o veja como um inimigo agora que sabe seu segredo.
— Não é assim, mas Sev, sabe que temos que destruir esse horcruxe, verdade?
— Acho que posso controlá-lo, tenho estado estudando desde faz tempo, há um feitiço que poderia o eliminar e creio saber como o formular, enquanto o manterei baixo poções.
— Sev…
— Dá-me tempo, Harry, quero salvar a meu filho.
— Tenho medo. —confessou-lhe abraçando-lhe forte. — Medo de que não possa o controlar.
— Eu farei. Por favor, confia em mim.
Harry recordou nesse momento as palavras de Lucius pronunciasse em seu leito de morte… Severus tinha confiado sempre nele apesar de tudo, apesar de que tão só tinha demonstrado ser um impetuoso menino que se metia fácil em problemas. Era o momento de corresponder a essa confiança e assentiu.
O professor sorriu aliviado com a reação de Harry e buscando seus lábios lhe beijou docemente. Harry abriu sua boca ansioso pelo sabor que tanto gostava, pela suavidade dessa língua lhe fazendo o amor à sua. Severus esqueceu-se então de seu cansaço, das fortes emoções das últimas horas, e correspondeu com mais paixão da que cria podia ter em um momento assim.
— Devo ir-me. —sussurrou ao cabo de uns minutos, se não se despedia terminaria sucumbindo ao imenso prazer que o corpo de Harry acordava nele.
— Preciso-te… para valer preciso-te comigo agora. —respondeu abraçando-lhe forte.
— Ele está só, Harry, não posso lhe abandonar.
— E quanto vai durar esta nova separação? —perguntou ocultando sua cara no peito de Severus, odiava quando não era capaz de conter o pranto, um pranto que agora sabia não ia poder conseguir nada.
— Não o sei… espero que não muito… Me enlouquece, e mais com esse pijama, rabisco.
Harry riu tristemente, então seu esposo lhe ergueu o rosto para beija-lo antes de ir-se, doendo na alma o sabor salgado de seus beijos. Ao ficar só, Harry seguiu chorando uns minutos mais, mal acabava de voltar a recuperar a seu esposo e novamente tinham que se separar… lhe parecia injusto, não podia o evitar. Ainda que reconhecia que Ayrton precisava a Severus, ele também lhe requeria a seu lado e seu corpo e sua alma sofriam pela distância imposta como se tivessem sido marcados por ferro ardente.
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Ao chegar à mansão Malfoy, Severus foi diretamente à habitação onde devia se encontrar seu filho. Ao abrir a porta viu-lhe sentado no parapeito da janela, tinha uma carinha tão triste que lhe rompeu o coração, por embaixo de seus óculos escuros se viam rios de lágrimas que não deixavam de fluir.
Severus acomodou-se sentando-se atrás dele para recosta-lo sobre seu peito, acariciando com macieza seus ombros e beijando ocasionalmente a cabeça do garoto.
— Sou um monstro? —perguntou soluçante, aferrando-se mais ao tórax de seu pai.
A pergunta provocou um nodo na garganta do professor, sabia que seu filho agora estava inteirado de muitas coisas, algo que o desconcertava, não queria pensar demasiado em como é que Ayrton parecia ter demasiada noção das circunstâncias da morte de Lucius, quase como se tivesse estado presente.
— Não, carinho… você não é um monstro. —disse-lhe suavemente.
— Está enojado comigo pelo da classe?... juro-te que não quis lastimar a ninguém!
— Eu sei, meu céu, não estou nem estarei enojado contigo, não se preocupe… não teve nenhuma desgraça e tudo tem ficado em um simples acidente.
Ayrton assentiu, guardou silêncio uns segundos antes de suspirar no meio de um doloroso soluço…
— Meus olhos têm mudado… não gosto.
— Tudo em ti sempre será belo.
— Fará que voltem a ser como os seus, verdade? —insistiu tristemente. — Era no que mais nos parecíamos… era do que mais orgulhoso me sentia… por favor, regressa meus olhos negros.
Ayrton retirou-se as lentes para secar suas lágrimas e Severus mal conseguiu conter um calafrio ao ver novamente esses olhos vermelhos… não de pranto, uns olhos vermelhos que pareciam saídos de ultra tumba… eram os mesmos que tinha visto tantas vezes durante a guerra, eram os mesmos de Voldemort, com sua mesma grade como de gato, com sua mesma frialdade, com a mesma capacidade de sentir que podia assassinar com a sozinha mirada.
Severus tão só lhe sussurrou um "Eu farei, é meu filho e ainda que tenha que me sacar os olhos para te dar, voltará aos ter"
Ayrton não respondeu nada, tão só voltou a se abraçar chorando. Severus recordou então o nascimento do garoto, seus formosos olhos de um cinza escuro como o aço com pequenas vetas azuis, era algo realmente impactante, mas mudaram assim que lhe começaram a dar o filtro que minguou a magia de Quirrell, e até a de Lucius que se viu deslocada pelo bom recebimento que fez o menino à nova, àquela que lhe brindava paz e equilibrava seu poderio.
Severus levou em seus braços a seu filho à cama, cobriu-o e esperou a que deixasse de chorar e ficasse dormido para lhe dar um beijo na testa e sair. Quando o moreno abandonou a habitação, Ayrton então se incorporou se esfregando os olhos até tirar todo resto de umidade, olhou então a porta e seu doce rosto não mostrava agora outra coisa que não fora deboche e ódio.
"É um imbecil, Severus… me pagará por sua traição. —sibilou malignamente. — Enquanto ache que ainda tem a seu filho estará em minhas mãos e fará o que eu queira… por ti chegarei a Potter e você mesmo me ajudará a me desfazer dele"
Ayrton abandonou sua cama e foi para seu armário. Tirou umas caixas acomodadas no chão composto por placas de madeira, soltou um deles e seus olhos vermelhos brilharam quando do falso andar sacou a varinha de Narcisa. Tinha-a descoberto fazia em uns anos guardada em uma das gavetas da habitação da mulher, nesse então o único que pretendia era que Lucius não tivesse nenhuma lembrança de sua esposa, sua mente infantil achava que assim seus dois pais se iam amar sempre.
Mas agora se alegrava da decisão tomada. Severus tinha-se assegurado de tirar-lhe sua varinha e sabia que tinha escondida a de Lucius. Ayrton pensou que o melhor era lhe deixar achar que o tinha dominado, assim a surpresa que se levaria seria mais divertida… pelo menos para ele.
Sorriu extasiado de levar a vantagem… Severus jamais se imaginaria que essa noite não tinha sido o único que saiu dessa casa, e agora se alegrava, porque seus planos marchavam à perfeição, cedo lhe daria uma nova oportunidade de redenção ao único que podia lhe ajudar a cumprir seus propósitos.
O que Ayrton não imaginava era que Severus por algo tinha conseguido enganar por tantos anos ao Senhor Escuro. O moreno permaneceu de pé ao outro lado do corredor, olhando entristecido a porta da habitação de seu filho.
"Amo-te, Ayrton… —pensou abatido. —… e lutarei por recuperar-te porque sei que segue aí, ainda que agora me minta, sei que segue aí"
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Duas semanas decorreram, o fim de cursos chegou e com isso no dia da graduação. O mais feliz de todos era Anthony, lhe alegravam as festas, a felicidade e entusiasmo dos estudantes e sonhava com o dia em que pudesse ingressar ao colégio como estudante. Mas o que mais feliz lhe fazia era saber que nesse dia seu pai estaria mais o tempo no castelo, lhe jogava muito de menos, pois já só lhe via à hora do jantar, e nem sempre podia suceder.
E sua alegria era cem por cento compartilhada por Harry, tinha diminuído as horas de seu trabalho no Ministério para não deixar só a Anthony por demasiado tempo, e para poder estar sempre presente quando Severus se aparecia pelo castelo. Os minutos a seu lado eram o motivo de abrir os olhos a cada amanhã, e já nem sequer queria lhe perguntar sobre Ayrton, isso só seria motivo de um provável desacordo e brigar era o menos que queria… muito menos quando podiam aproveitar o pouco tempo a sós para outras coisas.
— Que bem luzes, papai. —comentou Anthony admirado ao entrar à habitação de seus pais e ver a Harry já ataviado para ir à graduação. O jovem pai sorriu olhando no espelho, tinha eleito para essa noite uma calça negra e uma túnica vermelha muito escura com abotoadura dourada, pôde ademais conseguir que seu cabelo se amoldara como quis e até seus sapatos reluziam como nunca.
— Para valer?... oxalá seu pai pense igual.
— Eu acho que sim.
— E você também ficou muito guapo, Anthony. —afirmou Harry indo tomar a seu filho com ambas mãos para que lhe mostrasse seu vestuário, era a primeira vez que Anthony usaria uma túnica sobre sua roupa e se empenhou em que fosse vermelha, mas de uma cor mais viva que o de seu pai e empunhaduras bege.
— Obrigado… papai vai vir conosco?
— Não, carinho, nos reuniremos todos no comedor.
— Então vamo-nos já?
— Assim é… E aí vão, dois valorosos Gryffindor´s! —exclamou Harry levantando um punho ao ar com vigor. — E por quem vamos?
— Por nosso Slytherin! —respondeu Anthony a sua vez, igual levantando o punho emulando a seu pai.
Ambos riram entusiasmados e juntos saíram felizes para a graduação, ilusionados com ver cedo a Severus.
Ao chegar ao comedor tudo era ambiente de festa, a música soava e as mesas se encontravam ocupadas em sua totalidade. Harry sentiu seu coração revoltar-lhe entusiasmado ao ver a Severus entrar nesse momento pela porta lateral acompanhado por Dumbledore. Anthony também lhe viu e soltando da mão de Harry saiu correndo para seu outro pai.
Fazendo-se passo entre os alunos, Harry conseguiu chegar até onde Anthony enchia de beijos a Severus, desejando poder fazer o mesmo, ainda que teve que se conformar com lhe sorrir e sujeitar carinhosamente sua mão.
— Estranhava-te. —confessou-lhe olhando-lhe sem poder ocultar o amor que sentia.
Severus não lhe respondeu, pelo menos não com palavras, mas baixou a seu filho e com sua mão livre acariciou a bochecha de Harry, lhe sorrindo com o mesmo sentimento que via nele.
— E Ayrton? —perguntou Anthony. — Não o vi desde o de seu papai… Está triste? Podemos ir vê-lo?
— Será em outra ocasião. —respondeu Severus ocultando atrás de seu sorriso a tristeza de que seu filho não estivesse presente a esse dia que devia ser muito especial para qualquer menino que terminasse em seu primeiro ano em Hogwarts.
Anthony assentiu, e Dumbledore acercou-se a tomá-lo em braços levando-lhe para a mesa do comedor e dar assim oportunidade a que não tivesse mais perguntas incómodas.
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Uns minutos mais tarde, a cerimônia de entrega de diplomas tinha terminado e levava-se a cabo um grande banquete. Anthony era feliz admirando as elaboradas sobremesas postos em frente a ele na mesa de professores onde se tinha sentado junto a seus pais. A Harry custava-lhe trabalho soltar a mão de Severus e mantinha-a aferrada baixo a mesa, ansiando que o jantar terminasse já e poder lhe levar a sua habitação, se morria de vontades por lhe o comer a beijos. O professor acariciava lhe também com seus dedos, mas tinha que se manter uniforme em frente a seus alunos e seguir sendo o professor de poções que sempre conheceram.
Finalmente, quando Dumbledore deu início a uma pequena festa, as mesas foram retiradas para que os recém graduados pudessem dançar ou simplesmente se ir despedindo de seus colegas, todos partiriam no comboio a primeira hora da manhã.
Anthony dançava entre os alunos e eles lhe faziam segunda, divertidos pela alegria do pequeno que não dava a impressão de ser filho do amargurado pocionista, mas também não do recatado herói salvador do mundo, de modo que lhes era fácil o integrar a eles e o tratar como se fosse um mais.
— Sev… vamos a nossa habitação. —sussurrou Harry ao cabo de uns minutos.
— Sim, acho que já é hora.
Severus olhou o relógio e Harry então temeu que estivesse pensando em se marchar, decidido pensou "Nem o sonhe, amor, que esta noite não te me escapa"
Apressando-se para que Severus não tivesse oportunidade de pôr pretextos, Harry foi por Anthony, quem muito a seu pesar teve que despedir de seus amigos e obedecer a seu pai. A pequena família dirigiu-se então a seus aposentos, Severus levava em seus braços a seu menino e Harry olhava-lhes de relance, feliz de vê-los juntos.
Severus encarregou-se de mudar a Anthony para que dormisse e acoberta-lo, ao terminar, se dirigiu a seu quarto e Harry tão só lhe avisou que iria em seguida, e com travessura, voltou à cama de seu filho.
— Anthony, seja bom menino e não entre ao quarto de seus papis em toda a noite, de acordo?
— Não irei… mas porque?
— Pois porque seu papai e eu temos muito que falar, e porque quero beija-lo. —confessou sorrindo-lhe.
— Bem, mas te recordo que não me deste a irmãzinha que te pedi.
— Pois precisamente disso quero falar com papai, de modo que dorme já sim?
Anthony assentiu e Harry regressou correndo para seu quarto, esforçou-se em não deixar de sorrir quando viu a Severus preparando uma nova mala com roupa limpa.
— Não te irá tão cedo, verdade? —perguntou afastando da mala sobre a cama e abraçou-lhe carinhoso.
— Tenho que o fazer, Harry, não posso deixar só a Ayrton por demasiado tempo.
— Mas fica-te um momento mais… sim? Não te peço que se afastes dele, e inclusive até poderia o trazer de regresso, não vejo a necessidade de que se isole de nós… podemos te ajudar.
— Harry…
— Faz favor… —suplicou aferrando-se mais forte. —… Tenho sonhado contigo o tempo todo, te preciso, Severus, e muito!
— Eu também, mas é que…
— Sente-me! —lhe sussurrou colando mais seu corpo ao de seu esposo. — Meu sangue corre rápido e quente por ti… te desejo com todas minhas forças, não me deixe só esta noite… a esperei ilusionado porque prometeste que ficaria mais tempo… por favor, Sev.
Harry buscou ansioso os lábios de Severus, este lhe correspondeu por uns segundos, mas bem podia o sentir demasiado excitado e ele não podia negar que já sentia sua mente se ir esquecendo de tudo, por isso teve que fazer um enorme esforço e ante o assombro de Harry, lhe apartou.
— Severus…
— Agora não é possível, tenho que me ir.
Harry viu como Severus tomou sua bagagem para se ir, então seu rosto se contraiu de raiva por essa atitude tão fria, furioso lhe deu um empurrão para a porta.
— Já não volte! Não pense que te estarei rogando o tempo todo, Snape, por muito que queira sua companhia, não me humilharei por ti!
Severus olhou-lhe apenado por essas palavras, mas pensou que não era o momento de discutir, já regressaria quando Harry estivesse mais acalmado e então falariam tranquilamente. Saiu da habitação ante o assombro do Gryffindor que ainda tinha a esperança de que isso não sucedesse. Harry pensou em ir atrás dele, em se desculpar pelo dito, mas se conteve e se obrigou a permanecer em seu lugar.
O Professor caminhava para a saída de Hogwarts, a chuva começou a cair nesse momento, mas mesmo assim deteve-se justo no lugar onde no dia de seu casamento ele e Harry se amaram baixo a tormenta, apesar de tudo nesse então as coisas eram mais fáceis.
Olhou então para o castelo e pensou em seu esposo, depois para a saída em onde poderia desaparecer e chegar junto a seu filho, era uma decisão tão complicada… Alçou a vista o céu sentindo como a água caía em seu rosto. Com todo gosto se partiria em dois para estar com quem amava, mas ao final teve que eleger, pelo menos essa noite, e abandonando a mala, regressou correndo ao castelo.
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Nota tradutor:
Hummmmmmmmmmmmmm
Vejo vocês no próximo capitulo
Faltam somente quatro capítulos
Vejo vocês nos reviews
Ate breve
Fui…
