Capitulo trinta e um
Súplica Desesperada
Severus passou toda a noite buscando afanosamente a seu filho. Penteou o bosque proibido de acima abaixo, atreveu-se a solicitar a ajuda dos centauros, e inclusive de criaturas mais estranhas nas que jamais teria confiado. Ninguém pôde lhe dar nenhuma notícia do garoto, e também não se sabia de nenhum fato estranho com o que pudesse estar vinculado.
Posterior ao amanhecer dirigiu-se à Mansão Malfoy, sentia-se muito cansado, queria ir ver a Anthony, assegurar-se de que estivesse bem, mas encontrar a Ayrton era prioridade por muito que lhe doía ter que fazer a seu outro filho de lado… no entanto, a cada vez via menos possibilidades de poder os ter aos dois junto a ele.
Já não sabia onde mais buscar. Refugiou-se no despacho que foi de Lucius, se servindo um copo de firewhiskey com a intenção de poder tirar esse nodo de sua garganta, mas não o pôde conseguir. Deixou o copo sobre a mesa e deixou-se cair pesadamente sobre o executivo cadeirão no que o aristocrata tinha solucionado todos seus negócios.
— Lucius… Que faço? —perguntou olhando o enorme retrato do loiro pendurando da lareira ao outro extremo do escritório. — Ajuda-me a encontrá-lo… ajuda-me a salvá-lo, que sem ele me morro.
Lucius sorriu-lhe desde seu lugar e abandonando seu lugar no retrato apareceu de repente em outro mais pequeno colocado sobre sua mesa no que se encontrava seu filho dormido.
— É um menino muito bom, Severus. —assegurou olhando ao pequeno que nesse então tinha uns cinco anos, a fotografia tinha sido tomada a primeira noite que passou nessa casa. — Não o perderá porque é um bom pai e saberá o que tem que fazer.
— Não o sei, e isso me desespera. —admitiu afundando desesperado seus dedos na negra cabeleira.
— Não deveria, por algo deixei em meu testamento que recuperava completamente sua custodia, por isso te deixei como seu tutor… e a propósito, espero que Draco não se tenha enfadado por ter posto minha fortuna a nome de Ayrton.
— Conhece-lo, não fez jamais nenhum comentário. —e era verdadeiro, Draco não protestou quando se leu o testamento, o dinheiro fazia muito tempo que tinha deixado de lhe importar, e ainda que Lucius deixasse a seu nome substancial herança de Narcisa, já multiplicada em todos esses anos, Severus sabia que o mais jovem dos Malfoy seguramente nem sequer a tocaria, e iria íntegra a mãos de seus gêmeos.
— Me sinto orgulhoso dele, e acho que é muito feliz tal como é sua vida agora. Minha intenção tão só foi proteger a Ayrton porque sei que terá uma longa vida e que você estará a seu lado sempre.
— Já não posso te assegurar… feriu a Anthony, e Harry está molesto.
— Suponho. —disse suspirando preocupado. — Tem que o manter a salvo, Severus.
— Primeiro devo encontrá-lo e não sei em onde.
— Talvez deva ir a sua habitação. —propôs olhando para o teto.
— Acha que não o fiz?... não está.
— Não estava… mas alguém acaba de chegar.
Severus se ergueu de imediato e saiu sem perder tempo, o Lucius do retrato sentou-se junto à cama de seu filho de cinco anos e carinhosamente acariciou lhe o cabelo totalmente loiro que tinha então, tinha muitas esperanças de que em um dia voltasse a aparecer esse Ayrton.
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Harry acercou-se rapidamente à cama ao notar que seu filho se removia ligeiramente, apartou as mechas suadas de seu rosto tentando verificar que não tivesse febre, felizmente estava fresca, mas sentia sua pele demasiado fria.
— Carinho, escuta-me?
— Papai… —gemeu Anthony debilmente.
— Aqui estou, bebê, não te esforce demasiado. —pediu recostando-se a seu lado, abraçando-lhe protetor.
— Quero… a papai.
Harry sentiu um forte nodo em seu estômago ao compreender que seu filho chamava a Severus, compreendeu que sua magia devia estar afetada e precisava de sua companhia. Para Harry era frustrante não poder fazer nada por seu filho, tão só lhe abraçar enquanto este continuava chamando a Severus… Tivesse dado o que fosse por ter o privilégio de seu esposo, ele seria capaz de lhe dar toda sua magia e inclusive sua vida inteira a seu pequeno Anthony.
"Porque não vem, Severus? —pensou Harry desesperado pela debilidade de seu filho. — Que não sente que Anthony te precisa?"
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Severus entrou sem chamar ao quarto de Ayrton, surpreendendo-o de vê-lo recostado tranquilamente sobre sua cama, como se estivesse só de férias. Não o pensou, e sem lhe importar o sorriso cínico do jovenzinho, lhe apontou e lhe atou com correntes aos postes da cama.
Ayrton não se esperava isso, teria achado que o amor de Severus por ele lhe faria seguir atuando estupidamente, sempre solícito de ajudar, e quando quis tirar sua varinha já era demasiado tarde.
— Que demônios faz, Severus?!
— Vou libertar a meu filho… Senhor. —respondeu friamente chegando até a cama para tomar a varinha e rompê-la em duas ante a fúria do garoto.
— Te matarei com minhas próprias mãos! —gritou removendo-se furioso.
— Quiseste enganar-me, mas já sabia que Ayrton perdia, só que jamais pensei que um descuido de minha parte recairia em meu menino… não te perdoarei que tenha lastimado a meus filhos.
— Se liberta-me, Snape, prometo-te que te perdoarei e voltará a ser meu servente fiel… te darei todas as recompensas que queira e inclusive, poderia manter a Potter e a seu ramo fora disto, tão só me conformo com Dumbledore… suponho que sabe que não tem feito contigo mais que manipular a seu desejo.
— Não está em posição de oferecer nada. É impossível que te liberte sem uma varinha, e seu corpo ainda é de um menino, não tem a força para romper essas correntes mágicas. Porei umas barreiras e ficará como bom garoto a aguardar meu regresso… Agora tenho que fazer outras coisas.
Severus cumpriu sua palavra, formulou todos os feitiços que se sabia para manter a Ayrton preso naquela habitação, e então saiu pressuroso para o castelo, tinha que chegar o quanto antes junto a seu filho mais pequeno, podia sentir seu chamado lhe gritando com desespero.
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Ao vê-lo entrar, Harry sentiu um alívio na alma, de imediato separou-se de seu filho quem já respirava agitado. Severus nem sequer perdeu tempo em fazer nenhuma pergunta, tão só tirou-se sua capa e envolveu em seus braços ao pequeno Anthony. Suspirou ao sentir como de imediato uma sensação de calor lhes cobiçava a ambos e o garoto gemia com prazer.
— Estará bem cedo. —afirmou olhando a Harry desde seu lugar na cama.
— Sei-o, agora que tem chegado sei que poderá lhe ajudar.
Severus sentiu-se melhor ao notar a voz de seu esposo mais tranquila, estendeu sua mão para convidar-lhe a acercar-lhe e Harry obedeceu recostando-se ao outro lado. Severus abraçou-lhe também tentando não perder nenhum contato com seu filho.
— Quisesse poder ajudá-lo como tu o fazes. —murmurou Harry desiludido.
— Cuidaste-o toda a noite, é o melhor pai que pode ter, não se sinta mau por isso porque é só uma decisão da natureza, não de ninguém mais.
Harry assentiu enquanto acariciava o rosto mais relaxado de Anthony, depois levantou sua mirada buscando a escura de seu esposo e sussurrou um "amo-te" que removeu todo sentimento do coração de Severus, tanto, que não foi capaz de falar, um nodo forte se tinha apoderado de sua garganta e só atinou a lhe dar um suave beijo nos lábios.
— Sev… —falou Harry depois de uns minutos de silêncio nos que se concretou em só desfrutar de sentir a sua família reunida. —… encontraste a Ayrton?
— Não falemos disso agora, por favor sim?
— Severus… ele não é Ayrton, me dói muito ter que o dizer porque sei quanto lhe ama, mas já não se pode fazer nada, por favor, tem que o aceitar.
— Me prometeu confiar em mim, não se esqueça disso, Rabisco, eu preciso ter uma esperança… não posso perder a meu filho. Esqueça dele, te asseguro que já não vai ter nada de que se preocupar, cedo tudo terá terminado.
Harry assentiu e guardou silêncio, se tão sequer pudesse achar que Ayrton seguia vivo em algum lugar!... mas não, essa mirada era a mesma de Voldemort, e tão só de recordar lhe fazia temer muito por Severus, não tinha nenhuma dúvida de que já tinha encontrado ao garoto e isso o mantinha em constante perigo.
Suspirou ao sentir a mão de seu esposo acariciando sua bochecha, mas ao olhá-lo viu-o já adormecido. Cuidadosamente os cobiçou aos três, pouco tinham conseguido descansar, e pelo cedo tinham que o aproveitar… depois quem sabe se pudesse voltar a dormir.
Uns minutos mais tarde apareceu Poppy com o café da manhã, sorriu ao encontrá-los aos três juntos, tinham-se ficado dormidos, completamente esgotados pelos acontecimentos prévios, decidiu deixar passar essa comida, mas deixou a bandeja em uma mesa próxima com um feitiço para mantê-la quente.
Dumbledore, Remus e Draco também foram aos visitar, ninguém se atreveu aos acordar depois de ver desfrutando de um merecido descanso e se marcharam com a intenção de voltar quando pudessem falar do sucedido.
Severus foi o primeiro em abrir os olhos e depois de admirar uns segundos a duas das pessoas que mais amava, virou para olhar para a janela. O sol estava muito alto já, pensou em Ayrton, tinha que regressar. Podia sentir a magia de Anthony em um muito bom nível, de modo que pelo momento não lhe afetaria estar separados.
Suavemente tentou sair da cama sem ser notado, mas o menino abriu os olhos e se aferrou pendurando de seu pescoço.
— Não… não te vá. —pediu suavemente.
— Como se sente?
— Bem, mas me sinto melhor contigo, não quero que se vá.
— Ir-te? —perguntou Harry acordando também. — Marcha-te tão cedo?
— Devo ir por Ayrton, ele precisa de mim.
— Está bem Ayrton? —perguntou Anthony—. Porque enganou-me?
— Carinho, Ayrton tem um problema agora, mas te asseguro que seu irmão não quis te machucar. —assegurou Severus tentando buscar a mirada de Anthony para que cresse em suas palavras, sorriu quando o menino assentiu sem fazer mais perguntas ao respeito, e preferiu não fazer caso do rosto franzido de Harry ao que podia olhar de relance.
— Não lhe doeu o que fez, verdade? —questionou Anthony recordando as palavras de seu irmão. — Disse que lhe machucaria se morria, por isso lutei por não o fazer… mas me digam por favor que a nenhum lhe doeu o que Ayrton me fez.
— Não, chiquito, nós estamos bem.
— Acho que Ayrton está triste pelo de seu papai… —o menino calou recordando que ele mesmo lhe tinha dito a Ayrton o zeloso que podia sentir pela atenção que Severus lhe dava, se sentiu envergonhado por isso e preferiu não o dizer. —… se o vê, diga que venha conosco, eu te espero com papi.
Severus estreitou o abraço fechando os olhos para desfrutar melhor de ter a seu filho em seus braços, não sabia quando poderia regressar a seu lado e esperava que fosse cedo. Depois despediu-se de Harry dando-lhe um carinhoso beijo nos lábios, Harry correspondeu-lhe ainda que não podia se mostrar feliz com a situação, muito mal podia ocultar seu medo ao pressentir para onde os estava conduzindo tudo aquilo.
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Mais tarde, Remus e Draco chegaram a visitá-los. Como Anthony se sentia melhor, mas ainda não podia abandonar a cama, o loiro ficou a seu lado, tinha levado a seus bebês consigo e o menino se mostrava encantado com isso, sua preferida ao igual que Harry era Thelma.
— Em um dia me casarei com ela. —assegurou penteando o loiro cabelo encaracolado da pequeninha.
— Hum, então terá um sogro muito zeloso, vai ter que esperar até que minha menina tenha pelo menos trinta anos.
Anthony abriu espantado seus olhos, trinta anos para ele era ser quase um idoso, e Draco não pôde mais que rir por sua expressão; no entanto, tinha toda a intenção de não deixar que sua bebe lhe fosse arrebatada antes dessa idade, muito menos por quem o converteria em consogro de Potter.
Enquanto eles jogavam, Harry aproveitou para conduzir a Remus ao outro lado da enfermaria, era preferível que estivessem sozinhos para a conversa que queria ter com seu amigo.
— Harry, não acha que se equivoca? —perguntou Remus alarmado pela ideia de Harry. — Esse menino é Ayrton, ainda que agora seguramente está possuído, há que o salvar.
— Lamentavelmente acho que é tarde para isso. —assegurou firmemente. — Remus, eu o vi, já não tinha nada de Ayrton nesse ser que atormentou a meu menino, era Voldemort!
— Entendo que se sinta mau, o que passou com Anthony seguramente te tem muito alterado, mas recorda que Ayrton é filho de Severus.
— É que já não o é!... —exclamou desesperado. —… É Voldemort, juro! Não sei como pôde o fazer, mas ativou a horcruxe que colocou em Ayrton, e ainda que agora tenha um corpo de menino, quem está aí não é ninguém mais que Voldemort, e não posso nem quero fechar os olhos ante isso, sobretudo quando a vida de quem amo está em perigo.
— Bem, e daí posso fazer por ti?
— Ajudar-me a acabar com ele. —pediu urgente. — É necessário fazê-lo o quanto antes, e só posso confiar em ti, Remus. Por favor, não lhe diga nada a Draco, tanto ele como Severus se podem cegar pela aparência que agora tem Voldemort, eles não acharão que já nada se pode fazer pelo menino.
— De acordo… te ajudarei. —disse depois de uma breve pausa.
— Obrigado, quero que, por favor, averigue em onde tem Severus escondido ao menino, não tenho nenhuma dúvida de que já o encontrou e de que me está ocultando… é a melhor prova de que Severus também sabe da gravidade do caso ainda que se nega ao aceitar.
Remus assentiu, não lhe era difícil supor em onde se encontrava Severus com Ayrton, tão só era questão do confirmar. Olhou ao fundo da enfermaria onde Draco continuava conversando animadamente com Anthony e sustentava amorosamente a seu bebê em seus braços, por eles tinha que ajudar a Harry, não suportaria que nenhum padecesse nem um segundo por sua indecisão.
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Cumprindo sua palavra, Remus dedicou-se discretamente a espiar a Severus. Não gostou muito descobrir que o Pocionista se adentrava a de o colégio e sacava coisas de seu laboratório sem lhe dizer a ninguém. Apesar de que estava em seu direito, a atitude sub-reptícia do moreno não falava bem dele, sobretudo porque em ocasiões não ia visitar a Anthony, tão só se adentrava para sacar o que tinha que sacar e se marchava em silêncio.
Remus teve que lhe contar isso a Harry, e ainda que Harry conteve uma expressão de dor em seu rosto, sua mirada não mentia e lhe lastimava muito que Severus se estivesse afastando de Anthony e dele mesmo. Tinham passado duas semanas e praticamente não o tinha visto, o menino sempre perguntava por ele e ainda que fingia que não, seus olhos verdes refletiam a mesma tristeza que seu pai ante a desilusão de que passasse dia depois de dia sem ver a Severus.
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Uma manhã, Severus entrou à habitação de Ayrton. O garoto permanecia atado, ainda que agora só era uma corrente a que cercava seu tornozelo e esta à cama em onde se encontrava sentado sobre suas pernas, olhando a sua redor como um cachorrinho furioso, pendente de qualquer oportunidade para poder escapar.
— É um idiota, Severus. —sibilou ao ver ao moreno. — Sabe bem que não sairá vivo dessa… deveria recapacitar e anular o maleficio que me tem apresado.
— Não, primeiro liberto a meu filho. —respondeu friamente, sem fazer caso da mirada maligna que via no adolescente.
Ayton riu com deboche por essas palavras, mas Severus não se deixou convencer, ele tinha a segurança que seu filho ainda tinha uma esperança e ainda que fosse débil se aferraria a ela até o último momento… não poderia se perdoar o abandonar quando existia a possibilidade de lhe salvar.
Silenciosamente chegou até a cama, em suas mãos levava um tubo de ensaio com filtro cristalino. Suspirou cansado, tinha estado trabalhando toda a noite, e ainda que até o momento tudo tivesse tido mau resultado, não se ia dar por vencido.
— Não beberei! —informou Ayrton gateando para o adulto, em seus lábios tinha uma clara advertência de que falava em sério.
— Pelo momento, e enquanto tenha essa corrente, não tem mais opção que me obedecer… talvez deveria patenteá-la para pais desesperados. –caçoou ligeiramente.
— Idiota.
— Tem acabado o vocabulário?... antes era mais criativo.
— Fora de minha vista!
Severus negou, e voltando-se para o loiro, sujeitou-lhe da mandíbula. Era forte apesar de sua idade pelo que lhe custou um pouco de esforço conseguir que ficasse quieto, apesar de que o maleficio da corrente evitava que o garoto tivesse oportunidade de se resistir demasiado. Severus notava preocupado a dificuldade para controlá-lo, um menino normal tivesse obedecido de imediato, mas Ayrton lutava, e ainda que ainda não podia desobedecer, não deixava de se opor ao maleficio.
— Não, papi, faz favor… me dói! —disse Ayrton usando novamente sua voz suave, uma voz que fazia muito tempo que Severus não escutava, por um par de segundos ficou petrificado pela emoção de sentir a seu filho.
O menino movia a cabeça de um lado a outro tentando se libertar, seus olhos se encheram de lágrimas e por um momento a Severus lhe pareceu ver que ia desaparecendo o tom vermelho. No entanto, quando estava a ponto de fraquear, apertou os lábios e obrigou ao garoto a beber o filtro.
Ayrton removeu-se como se fosse vítima de uma grande dor que lhe queimasse todo o corpo. Severus apartou-se, doendo na alma vê-lo sofrer, podia escutar a respiração agitada do garoto que pouco a pouco voltou a se fazer gutural e irregular, levantou a mirada e ante o mal-estar do moreno, viu que nada tinha mudado.
— A cada dia anseio matar-te com mais vontades! —vociferou furioso. — E com minhas próprias mãos, Snape, apertarei seu pescoço com minhas próprias mãos!
Severus não fez caso, foi para o armário de onde sacou uma mala média que foi enchendo apressado de roupa do garoto.
— Que faz? —perguntou Ayrton intrigado.
— Vamo-nos… Esta era praticamente a última esperança que tinha antes de fugir, mas o tempo se acabou. Lupin tem-me estado espiando e acho que não demoram em vir por nós.
— A onde pensa me levar?
— Ao quartel, aí nunca poderão nos encontrar… ainda que primeiro faremos uma parada em Hogwarts, há uma última alternativa que só posso fazer lá.
Severus fechou e encolheu a bagagem guardando em um compartimento de sua túnica. Com um feitiço soltou o extremo da corrente que mantinha a Ayrton unido à cama.
— Vai levar-me como se fosse um animal? —grunhiu o garoto quando Severus sustentou a corrente em suas mãos.
O moreno olhou diretamente ao jovenzinho compreendendo a situação humilhante que devia de ser para ele, ainda quando fosse outro ser quem falasse. No entanto, sem soltar a corrente, acercou-se e carregou-lhe em seus braços cuidadosamente.
— Não sou um menino, me baixa!
Ayrton removeu-se para chegar ao chão, mas o professor apertou-lhe forte contra seu peito. Severus desativou as barreiras da mansão para aparecer nos limites de Hogwarts. Olhou o castelo respirando fundo para armar-se de valor, estava-se metendo em terreno perigoso, mas o único caminho que tinha era ir à sala precisa, só aí conseguiria o cristal de prata que precisava para um feitiço que jamais antes tinha formulado, mas achava que com esse podia conseguir minimizar a magia de Voldemort.
Baixou a seu filho, não podia o levar carregando todo o trajeto, caminhando de pressa, obrigou a Ayrton a permanecer o mais quieto possível colando a seu corpo e lhe levando a seu mesmo ritmo, sem lhe importar que continuasse protestando e lutando como podia.
Severus teve cuidado de não se encontrar a ninguém nos corredores, mas não contou com que Remus já tinha colocado um feitiço de detecção de intrusos que se ativou com a entrada de Ayrton. Um sinal chegou diretamente à varinha do licantropo quem correu a avisar a Harry do que sucedia.
Foram questão de minutos para que Severus chegasse à sala precisa e conseguisse a abrir, apareceu um quarto grande estofado de cores negros e sem nenhum outro aditamento, nem móveis nem janelas, a única luz provia de uma espécie de fogueira muito pequena que emanava de uma tigela de pedra no centro de tem habitação. Junto à tigela encontrava-se um cristal do tamanho de uma maçã, completamente prateado que brilhava com a luz do fogo negro azulado.
Sem fazer caso da expressão atordoada de Ayrton, quem já se imaginava o procedimento a seguir, atou a corrente do garoto a um eslavo de aço que surgiu de repente do solo.
— Que vai fazer? —perguntou Ayrton sem poder ocultar algo de assombro por aquilo.
— Já deve imaginar.
Severus ajoelhou-se em frente aos lumes estendendo as mãos com as palmas para acima, um pergaminho antigo apareceu então sobre elas e se estendeu deixando ver um feitiço escrito em uma linguagem antiga. Isso não surpreendeu ao Pocionista, tão só o pronunciou como melhor sabia, se concentrando em todo o possível em canalizar sua magia em um só pensamento.
— Não conseguirá nada. —debochou-se Ayrton depois de escutar lhe. — Se em Poções, que é seu forte, não pode comigo, muito menos com um feitiço que ninguém mais que eu sei pronunciar, Snape.
— O único que sei é que não renunciarei a meu filho.
Severus voltou a repetir o feitiço e soube de sua falha quando Ayrton se acomodou placidamente a desfrutar do espetáculo, se debochando dos nulos resultados do moreno.
— Já nos podemos ir?... Me aborrece sua ineptidão, Severus.
O homem suspirou derrotado, deixou cair o pergaminho ao fogo que se consumiu levantando um lume dourado, de nada tinha servido, o cristal que supostamente devia se transformar em prata líquida ficou em sua forma original… agora só lhe ficava uma coisa, renunciar a tudo por ir com seu filho, cuidaria dele até o final de seus dias, ainda que lhe doesse saber que com isso teria que renunciar a quem tanto amava.
Acercou-se a Ayrton para soltá-lo do eslavo quando um ruído lhe surpreendeu e ao se girar viu que a porta se abria intempestivamente e por ela aparecessem as duas pessoas que sabia não demoravam em ir por eles, mas não esperava que fosse tão cedo. Evitou cruzar uma mirada com Harry, temeroso do que ela encontrasse, de modo que franziu o cenho ao ver a Lupin lhe apontando com sua varinha.
— Não achei que tivesses as calças para me ameaçar… você não tem nada que ver em isto, te vai!
— Tenho vindo com Harry e não me irei sem ele… Expelliarmus!
Severus tinha sacado também sua varinha, e reagindo mais rápido que Remus conseguiu esquivar o feitiço e desarmar ao licantropo.
— Sev, por favor, não faças isso! —pediu Harry tendo que entrar em ação e apontar a seu esposo com sua varinha, mas o professor não se imutou, girou para ele lhe apontando igual enquanto com seu outro braço mantinha a seu filho colado a seu corpo.
— Não, Harry… não o faças você. Deixa-me passar. –ordenou friamente.
— Lamento, mas desta vez não posso te comprazer.
— Mais, bem mais lamento eu, Harry… Expelliarmus!
Harry não pôde reagir, realmente não pensou que Severus se atrevesse ao atacar e terminou caindo ao chão ao outro lado do corredor depois de que atravessou a porta. Severus aproveitou o momento para sair correndo levando a Ayrton consigo. Baixou as escadas a toda pressa, com o medo a flor de pele de não poder atingir a tempo os terrenos fora de Hogwarts. Escutava a respiração agitada de Ayrton correndo a seu lado, cansado ao ser um pouco menos veloz que o pocionista.
Iam descendo os últimos degraus e ao ver a porta de Hogwarts aberta de par em par, Severus gemeu esperançado, nem sequer podia escutar que alguém viesse atrás dele, isso podia os ajudar. Mas mal puseram um pé no lobby, uma imponente sombra apareceu se desenhando a contraluz no quício da porta.
— Não, Severus… não pode sair de aqui. —disse Dumbledore acercando-se, com sua varinha apontando ao rosto do adolescente.
O moreno retrocedeu aterrorizado. Foi então que escutou apressados passos a suas costas e foi a encostar contra uma parede. O suor corria-lhe pelas têmporas, respirava com dificuldade, não por cansaço, senão pela angústia, ia ter que se enfrentar com quem amava, mas ao sentir a seu filho junto a ele, lhe dava a força necessária para manter sua varinha em guarda.
— Farei o que deva de fazer… de modo que mais lhes vale que se apartem e nos deixem ir.
— Entrega-o, Severus, não tem outra saída. —pediu Dumbledore acercando-se, Harry e Remus fizeram o mesmo, ambos com suas varinhas recuperadas, ainda que Harry mal podia respirar, lhe doía ver a Severus decidido a tudo.
Severus negou com a cabeça, apertou forte a seu filho e Ayrton aproveitou, depois de ver a situação, para sussurrar ao ouvido do moreno.
— Não poderá contra eles, Severus… é muito poderoso, mas não para te enfrentar a Potter e Dumbledore ao mesmo tempo… Me dá sua varinha e te prometo que ambos sairemos bem livrados.
— Meu filho… —sussurrou debilmente—… preciso que salve a meu filho, tem que o fazer, é o único que me importo… saia desse corpo, toma o meu, que não o toquem a ele!
— Dá-me sua varinha, só assim poderei fazer o que pede! —insistiu desesperado.
— Sev? —chamou-lhe Harry notando a conversa de seu esposo com seu filho, não tinha atingido a escutar nada, mas o fato de que Severus começasse a descer sua mão lhe dava demasiado medo. — Sev… não o faça.
Com as palavras de Harry, Dumbledore adivinhou as intenções de seu pupilo, e antes de que passasse algo irremediável, enviou um feitiço para desarmar ao Professor.
Severus sentiu em plenitude todo o poderio de Dumbledore sobre sua pessoa e terminou estrelado contra a parede ao outro extremo da habitação enquanto Ayrton caía ao solo. Aproveitando estar em liberdade, o garoto sustentou sua corrente e tentou apoderar-se da varinha de Severus que tinha caído perto, mas um Accio de Remus a deixou fora de seu alcance, grunhindo não lhe ficou mais que sair correndo, mas Harry se interpôs em seu caminho e com um feitiço imobilizante conseguiu voltar a atar sua corrente a outro eslavo que fez surgir no solo, ante a ira do garoto.
— Não, me solta! —gritou enfurecido enquanto Harry caminhava para ele, se dando conta do maleficio da corrente, não ia a desaproveitar a oportunidade, via os olhos vermelhos brilhar de angústia, sabia que Voldemort estava consciente de sua débil posição.
— Tem chegado seu momento, nesta ocasião não terá modo de deixar nenhum cabo solto… seu desaparecimento será para sempre.
Severus sacudiu sua cabeça tentando desesperadamente de despejar-se. Ao ver a Harry tão cerca de Ayrton, e apontando-lhe com sua varinha, seu coração se deteve dolorosamente, mas não teve tempo de reagir, Remus lhe manteve apartado com um escudo depois de ter aproveitado à confusão do pocionista e o deixar sem sua varinha.
— Harry, por favor, não faça nada do que possa te arrepender! —rogou angustiado pela mirada decidida de Harry.
— Severus, em algum dia o entenderá… não há outro caminho. —disse sem apartar a mirada do garoto que via a todos lados buscando afanosamente uma saída.
— Não, por favor!... Prometo-te que não lastimará a ninguém, que dedicarei a cada segundo de minha vida ao manter controlado, mas não o machuque, por favor!
Harry atreveu-se então a pôr seus olhos em Severus, notou sua angústia refletida em sua mirada, a forma em que tentava atravessar o escudo sem o conseguir.
— Sev… não seria justo para ninguém, nem sequer para ti, não pode dedicar sua vida a ser o cercado de um monstro.
— É meu filho! —gritou enrouquecido. — É meu bebê, Harry, não me tire!
— Ayrton já não existe… já não é ele.
Harry baixou o rosto, não podia seguir olhando a Severus nesse estado, lhe doía que não entendesse a magnitude do problema, e provavelmente lhes esperavam momentos muito difíceis, mas não ia deixar solto a um ser diabólico como Voldemort.
Ayrton deixou de buscar uma saída, não a tinha, e muito menos quando ainda tinha a maldita corrente atada a seu corpo. Depois de escutar o diálogo entre Severus e Harry, compreendeu que só lhe ficava uma saída, olhou então para onde seu pai tentava romper a barreira.
— Papai? —chamou-lhe usando um tom desvalido, tão assustado como quando era um menino de cinco anos e tinha um pesadelo. — Papai, que está passando?
— Ayrton, tem que ser forte, carinho! —exclamou Severus olhando-lhe, Harry moveu negativamente a cabeça, não cria em nada.
— Papai, ajuda-me! —gemeu Ayrton puxando sua corrente. — Porque ataram-me?
— Severus, não pode lhe crer… Está te mentindo! —assegurou Harry.
— Não, é meu filho, eu sei que ele ainda está aí, por favor, não lhe mate!
Remus, quem tinha permanecido à expectativa, também duvidou ao escutar a voz temerosa de Ayrton, e ante a súplica de Severus, já não esteve tão seguro do que fazia.
— Harry… está convencido de não estar cometendo um grave erro?
— Não, Remus, não te deixe manipular você também. Ele é Voldemort e não vou perder mais tempo, tenho que o destruir!
— Não! —gritou Ayrton assustado, arrastando-se até ficar o mais perto possível de Severus. — Quer-me matar, papai, não o deixe, por favor!
As lágrimas que começaram a banhar o rosto do garoto causaram entalhe no coração de Severus, não soube como pôde o fazer, mas de repente lançou um grito de guerra lançando sobre a barreira, conseguindo que esta cedesse. Caiu ao chão justo ao lado de seu filho, ao que abraçou protegendo com seu corpo.
— Severus, aparta-te dele! —gritou Harry assustado por seu esposo, não achava que fosse boa ideia que Voldemort lhe tivesse a seu alcance.
— Amigo… Harry tem que o fazer. —interveio Dumbledore com pesar.
— Se vais matá-lo a ele, primeiro o faz comigo. —disse o homem, ignorando ao idoso, só acariciou suavemente a cabeleira de seu filho apoiado em seu peito, começou a chorar também, mas em silêncio, já sem forças para nada que não fosse dar sua vida por Ayrton.
— Sev, não faça isso, por favor. —pediu Harry com pesar. — Entende que já não podemos fazer nada por Ayrton, que ele perdeu a batalha… Malfoy sabia, por isso me pediu que o libertasse… Me ajuda ao fazer e te afasta.
— Não!... pode fazer o que queira, mas não peça que abandone a meu filho, se tem de morrer porque você assim o dispõe, eu não posso sobreviver a isso... não posso!
Harry olhou a Remus em busca de um apoio, mas o licantropo estava realmente confundido, tinha baixado sua varinha e mantinha-se à margem, sem poder atacar a um homem que tão só protegia a seu filho, e também não a um garoto que chorava assustado e que parecia não entender o que passava, tão só se cobiçava tremendo em braços do único que estava a seu lado.
— Repulso! —gritou Harry de improviso, e Severus saiu expulso novamente para os ares, Remus conteve uma exclamação de horror por isso, e mais quando Harry lhe deixou de apontar a ele para então o fazer para Ayrton, quem se puxava a corrente em busca de voltar a reunir com seu pai.
Severus levou-se as mãos à cabeça por uma forte dor pelo golpe, mas os gritos de auxilio de seu filho obrigaram-lhe a esquecer-se de si mesmo para voltar a tentar se acercar, novamente sem sucesso por uma renovada barreira.
— Papai, tenho medo! —chorou Ayrton olhando de relance como Harry lhe via furioso. — Ajuda-me!
— Harry, te imploro! —pediu Severus impotente. — Por nosso filho, pelo amor que lhe tem a ele e que é o mesmo que sento por Ayrton, não o fira!
— Harry… espera. —pediu Dumbledore, incapaz de permanecer mais tempo sem sentir-se comovido pela extenuante súplica da quem amava como um filho.
Mas Harry não atingiu ao escutar, sua mente sua nublou, que Severus mencionasse a Anthony não ajudou no absoluto, a imagem do menino torturado por Ayrton lhe ferveu o sangue de ira, e sustentando sua varinha com ambas mãos pronunciou a maldição.
— Avada Kedavra!
Um uivo de terror brotou da garganta de Ayrton quando o raio verde cegou seus olhos vermelhos. Remus preferiu girar-se para não olhar, as lágrimas banhavam já seu rosto pela desolação que tinha atingido a vislumbrar nas irises negras do pocionista.
Severus viu tudo como se sucedesse demasiado lentamente, o corpo de seu filho foi tocado pela maldição e jazia sem vida no chão enquanto ele sentia que também morria… e muito dolorosamente.
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Nota tradutor:
E agora? Será que Severus vai perdoar Harry?
Vejo vocês no penúltimo capitulo
Ate breve
Fui…
