Capitulo trinta e dois
Mirada de anjo
Draco já não sabia que fazer, Anthony tinha sido deixado a seu cargo, mas o menino abandonou a cama sem que ninguém pudesse lhe impedir e caminhava de um lado a outro da enfermaria como um pequeno leão enjaulado.
— Anthony, por favor, regressa à cama. —pediu pacientemente depois de assegurar-se que seus bebês dormissem em seus berços sem perceber da agitação no ambiente.
— A onde foi papai? —perguntou o menino tentando obedecer, regressou à cama em onde se sentou, mas sem decolar a mirada da porta fechada, suas mãozinhas se enlaçando entre elas com nervosismo.
— Não o sei, você mesmo viu que Remus chegou com os bebês me pedindo que me ficasse contigo, a mim nunca me dizem nada. —protestou franzindo o cenho.
— É que, sento algo raro… Os vamos buscar?
— Mas não posso deixar sozinhos aos meninos e Poppy disse que regressaria em vinte minutos, tão só esperemos isso.
— Mas…
Anthony voltou a baixar de um salto, não podia ficar quieto quando tinha essa horrível sensação na alma… era como se agora fosse Severus quem lhe chamasse... quem precisasse de sua magia. Olhou como Draco voltou a concentrar nos bebês para se colocar rapidamente seus sapatos e sair correndo… Era o momento de retribuir a seu pai todo o que fazia por ele.
— Anthony! —gritou Draco alarmado pela atitude do pequeno. — Maldição, agora entendo a Potter, esse menino é escorregadio!
Com toda a dor de seu coração, Draco teve que chamar a um elfo doméstico de toda sua confiança para que cuidasse de seus bebês e poder sair em busca do pequeno. Felizmente não demorou em atingir ao final do corredor, onde Anthony olhava a um e outro lado, duvidando sobre o caminho a tomar.
— Anthony, por favor, seja bom menino e voltemos à enfermaria.
— É que algo lhe passa a papai. —respondeu gemendo temeroso. — Vamos, acho que é por lá.
Anthony tomou a Draco da mão puxando-lhe para a esquerda. O loiro pensou em aproveitar o momento e carregá-lo em braços, só assim poderia o obrigar a obedecer, no entanto, preferiu confiar no instinto do chiquito, não se perdoaria não ter podido ajudar se realmente algo mau passava… e ademais, tinha curiosidade por saber no que andavam metidos Remus e Potter.
Draco assombrou-se de que Anthony parecia saber a onde ir, baixou rapidamente as escadas até chegar ao lobby. Jamais se esperaram se encontrar com o que viram seus olhos.
Ayrton jazia imóvel nos braços de Severus, quem apertava-lhe forte contra seu peito, chorando enquanto mexia em seu colo a seu menino. Ao outro lado do lugar, Remus olhava-lhe comovido, secando-se o rosto banhado em lágrimas. Harry estava em um rincão, sentado no solo abraçado de suas pernas, encolhido sobre si mesmo, ocultando a cara entre seus joelhos. Sua varinha encontrava-se a metade do chão abandonada por completo.
Draco apressou-se a abraçar a Anthony tentando manter seus olhos apartados do dantesco palco, mas este se desfez da opressão e correu a se ajoelhar junto a Severus, olhando o corpo sem vida de seu irmão.
— Que… que lhe passou? —perguntou acariciando o cabelo loiro, enquanto olhava-lhe e olhava também a cara umedecida de seu pai.
— Draco… leva, por favor. —gemeu Harry, sem sequer levantar o rosto.
— Não! —negou-se Anthony quando o loiro se acercou, os olhos cinzas do loiro também já se notavam enrijecidos. Não pôde lutar mais contra o pequeno, caiu de joelhos a seu lado observando o corpo inerte de seu irmão.
— Como passou isto? —perguntou soluçando incrédulo.
— Draco, você salva vida! —exclamou de repente Anthony, deixando de olhar a seu irmão para pôr toda sua atenção e esperança no jovem medimago. — por favor, ajuda-lhe, que não morra, te suplico!
— Anthony…
— Eu sei que você pode o salvar!
A respiração de Draco acelerou-se, não sabia que tinha passado, mas pela aparência de Ayrton podia o supor, mesmo assim, não pôde pensar com clareza, tão só se deixou levar pela esperança nos olhos verdes do menino e tirou o corpo de Ayrton dos braços de Severus. Este não se opôs, já não tinha força para nada, mas permaneceu no chão com a mirada perdida no vazio.
Draco colocou a seu meio irmão sobre o chão, sacou sua varinha e começou a formular alguns feitiços de ressuscitação que conhecia. Não quis escutar a advertência de Remus sobre o impossível de salvar a alguém de um Avada Kedavra, tão só se deixava guiar pela ansiedade de ter de regresso a seu irmão e de poder cumprir o desejo de Anthony.
No entanto, os minutos passavam e nada ocorria, começava a se sentir cansado e só os ânimos que Anthony lhe brindava conseguiam tirar da cabeça que era inútil todo o que fazia.
— Basta… —sussurrou Harry pondo-se de pé para ir por seu filho, não podia permitir que visse aquilo por mais tempo. —… não tem caso.
— Mas papai, não quero que Ayrton morra! —chorou Anthony se abrigando nos braços de seu pai. — Não quero!
Draco deixou tudo de lado, permaneceu ajoelhado junto a seu irmão se sentindo tão impotente. Anthony notou-o e soluçou ainda mais ao pensar em jamais voltar a ter de regresso a seu irmão. Harry lhe viu e então seu rosto alumiou-se, correu por sua varinha invocando um Accio ao medalhão.
Em poucos segundos teve-o em suas mãos, não sabia se ainda tinha um desejo por cumprir, não sabia se se podia pedir algo como o que tinha em mente, também não sabia se não era demasiado tarde para Ayrton, mas não era momento de duvidar. Ajoelhou-se junto a seu filho colocando-lhe o medalhão ao pescoço. O menino mal sim reagiu, estava muito confundido e seguia chorando olhando o corpo de seu irmão.
— Anthony, escuta-me bem. —pediu Harry sujeitando dos ombros para concentrar em suas palavras. — Você quer que Ayrton esteja bem, verdade?
— Sim. —respondeu limpando-se as lágrimas, sem importar que brotassem mais.
— Então tem que o desejar com todas suas forças, coração… Anda, diga pondo todo seu desejo na cada palavra.
— Eu… eu quero isso. —obedeceu soluçando entrecortadamente.
— Anthony, mais forte, grita-o, fecha os olhos e grita com a alma! Forte e claro, Anthony!
Anthony não entendia nada, Harry lhe abraçou então sem importar que agora Remus e Draco lhe observassem pensando que se tinha transtornado. Tão só orava para que ainda tivesse um desejo por cumprir e que funcionasse.
O menino não podia pronunciar palavra ante o pranto, mas com a súplica e o forte abraço de seu pai, aunado a saber que Ayrton estava abandonado no chão frio, lhe fez tomar ar para poder cumprir com a petição de seu pai.
— Faz favor, Draco, salva-o, não quero que morra! —gritou sacando seu rosto para olhar ao loiro que se mantinha incrédulo. — Eu confio em ti, eu sei que você pode o salvar!... Salva-o, faz favor!
Draco olhou o corpo de seu irmão, a sua mente vinham as cenas de quando não pôde salvar a seu paciente, tinha tanto medo de estar fomentando uma esperança vã em Anthony… e muito medo de voltar a perder a alguém, não a qualquer um, a seu irmão.
— Mais forte, Anthony! —pediu Harry sem deixar de estreitar a seu filho.
— Salva-o, Draco… que não morra, por favor! Eu quero que viva, desejo que faça algo por ele!
Anthony sentia que a garganta lhe irritava, não compreendia do todo porque tinha que gritar, mas o fazia, se isso significava salvar a seu irmão, gritaria até morrer também. Harry seguia alentando a que não deixasse de repetir seu desejo. Desde seu lugar, Severus alçou o rosto olhando-lhes, queria protestar, não lhe parecia correto que Anthony fosse vítima de semelhante impressão, mas a voz não lhe saiu, e ficou impávido quando de repente, Draco voltou a se dirigir para Ayrton e continuou com estranhos feitiços que nem ele tinha escutado antes.
— Draco… —chamou-lhe Remus, preocupado pela atitude de seu esposo. —… que faz?
— Sei que posso!... Sei como, sei que posso!
Remus e Severus mantiveram a mirada no loiro, assombrados pela confiança que se percebia em sua voz, mas depois ambos contiveram um grito de horror quando com um feitiço Draco abriu o peito de Ayrton e oprimiu suas mãos contra o coração imóvel.
Ao ver isso, Harry ocultou o rosto de Anthony contra seu corpo, já não sabia que pensar do que estava passando, mas mesmo assim, continuou incentivando ao menino a não deixar de pronunciar seu desejo como se de um mantra se tratasse.
As lágrimas banharam o rosto de Severus ao ver o corpo de seu filho aberto e as mãos de Draco manchadas de sangue… era um pesadelo, e sentia muita coragem pela agressão ao frágil corpo.
— Deixa-o já! —gritou de repente, incapaz de ver como o sangue ia regándose.
— Remus, detêm-no, que não me interrompa! —ordenou Draco impetuoso.
Ainda que não sabia bem o que fazia, Remus obedeceu, e se apressou a sujeitar a Severus quem já tentava separar a Draco de seu filho. A debilidade do pocionista pelas emoções impediu-lhe poder lutar com a força que tivesse usado em qualquer outra circunstância e não lhe ficou mais remédio que permanecer olhando.
De repente, o rosto de Draco alumiou-se, sacou as mãos do corpo de Ayrton e voltou a sujeitar seu varinha para invocar mais feitiços, direto sobre o coração e uns mais na testa do menino… finalmente invocou um último que fechou a ferida.
— Esta… vivo. —sussurrou tão assombrado como nenhum outro. — Pude fazê-lo! Está vivo!
Severus olhou-lhe furioso, odiava que dissesse isso quando sabia que não podia ser verdadeiro, ademais, não notava nada diferente, o corpo seguia imóvel e não apreciava nada diferente… pelo menos isso foi até que fixou sua vista na ferida unida magicamente e notou um quase imperceptível sobe e baixa que fez que o sangue se lhe congelasse.
Rapidamente correu para seu filho, queria abraçá-lo, mas Draco impediu-o, não era momento de nenhuma imprudência. Severus obedeceu sem deixar de olhar atrás de suas lágrimas como a cor ia voltando ao rosto de Ayrton.
— Remus, lume a San Mungo, diga que levamos a alguém que precisará de uma sala especializada em cuidados intensivos.
Remus obedeceu a indicação de seu esposo e fez aparecer uma lareira no lobby. Em seu lugar, Harry apartou-se de Anthony, o menino não prestava atenção a seu pai, pelo momento estava ansioso, olhando agitado como parecia que seu irmão estava vivo e uma grande alegria invadiu seu peito.
Harry sujeitou o medalhão em sua mão, notou como a pedra vermelha incrustada no centro se tinha rompido em três pedaços ainda que se mantinham unidos ao leito. Compreendeu que tinha cumprido sua função e sorriu aliviado.
Nunca em sua vida se sentiu tão emocionado como naquele momento, quando os olhos de Severus deixaram de chorar de dor para transformar seu pranto em alegria… assim era como devia ser sempre.
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Tinham decorrido três semanas, em todo esse tempo Severus não se separou da habitação de Ayrton. Draco uniu-se ao grupo de medimagos para estar pendente da recuperação total de seu irmão. Tão só os primeiros sete dias foram de tensão sem saber exatamente se realmente se salvaria, mas felizmente a recuperação foi melhorando paulatinamente e agora o garoto se via mais forte. Comia bem e sorria contente.
Depois de que acordasse tinha passado dois dias inteiros chorando, o sucedido estava em sua mente de maneira algo borrosa como se fosse um pesadelo, mas sabia que era real. Severus conseguiu tranquilizá-lo, e ainda que teve que lhe confirmar a origem de seu nascimento, algo que lhe doeu terrivelmente a Ayrton, agora estava mais tranquilo e se via feliz de saber que a vida lhe estava dando uma nova oportunidade.
— Deixa esse espelho de uma vez por todas. —pediu Severus arqueando os olhos, pois seu filho já levava mais de uma hora se observando. — Não cabe dúvida que tem sangue Malfoy por suas veias.
— Gosto de ver meus olhos. —reconheceu sinceramente, deixando ao fim o espelho no criado-mudo. Severus sorriu ao vê-lo e assentiu compreendendo que o que fazia feliz a seu filho era ter recuperado a cor negra de suas irises.
— Quando nasceu eram de uma cor cinza aço, mas com o filtro te passando parte de minha magia se tornaram negros, tal como estão agora.
— Porque acha que agora que não tomo o filtro não têm voltado a ser como os que nasci?
— Não tenho ideia… talvez seja um efeito secundário, ou quiçá é que ainda tem restos do filtro em seu sangue.
— Não, eu penso que é a melhor prova de que é meu pai.
— Amo-te, sabe-lo?... amo-te muitíssimo, Ayrton. —disse-lhe depois de sorrir-lhe.
— Sei-o, sempre o soube, ainda quando te reclamava que sentia o contrário, eu sabia que sim me queria… mas essa coisa dentro me gritava que não cresse em ti, me perdoa.
— Eu serei quem não se canse de te pedir perdão, te machuquei demasiado.
— Bom, já não pensemos em isso… mancha e conta nova Vale?
Severus sorriu, sentando-se no borde da cama inclinou-se para beijar a ponta do nariz de seu filho, este riu divertido, passando seus braços pelo pescoço do homem. Alguém chamou à porta nesse momento, pelo que tiveram que se separar. Severus deixou de sorrir quando quem apareceu foi Harry.
Nessas semanas não tinham falado, essa era a primeira ocasião inclusive que se viam, e Severus não tinha ideia de como reagir. Harry ficou imóvel, parecia muito nervoso e não se atrevia a dizer nada. De repente, atrás dele apareceu Anthony, quem correu emocionado para seu irmão.
— Ayrton! —gritou feliz de ver novamente ao loiro, este lhe correspondeu com um sorriso estendendo seus braços para lhe convidar a ir para ele, Severus conseguiu se interpor a tempo, e sustentou a Anthony em seus braços conseguindo evitar que lastimara a seu outro filho pelo impetuoso entusiasmo que lhe caracterizava.
— É que a mim não me pensava saudar, jovenzinho? —questionou Severus fingindo-se molesto, Anthony esqueceu-se temporariamente de ir para seu irmão para abraçar e beijar a seu pai repetidamente.
— Estranhei-te muito, aos dois!... quando vai sair daqui, Ayrton?
— Isso quisesse saber eu também. —disse sorrindo a seu irmão menor. — Papai, deixa-o vir, quero abraçá-lo, por favor.
Severus assentiu e cuidadosamente permitiu que Anthony subisse à cama e abraçasse afetuosamente a Ayrton, quem fez o mesmo, fechando os olhos e sorrindo prazenteiramente com a calidez dos braços mais pequenos rodeando pelo pescoço.
— Obrigado pelo que fizeste por mim… Papai já me contou.
— Pois terá que me explicar porque ainda que papai também já me disse a mim, acho que não entendo nada. —confessou apenado.
— Claro, quando saia daqui vamos ter muito tempo para conversar.
Severus desviou um momento a mirada de seus dois filhos para fixar na janela, seu coração batia muito rápido sabendo que Harry estava aí, tão perto, e lhe doía não sentir com o valor sequer de olhar, muito menos de lhe falar. Tinha-se inteirado da função do medalhão por Remus depois de que Harry explicasse o sucedido em uma reunião posterior com Dumbledore e Draco.
— Harry… acerca-te. —pediu Ayrton de repente.
Harry tremeu, quis sorrir, mas não pôde, lhe lastimava na alma ver as costas de Severus dirigida a ele.
— Anda, não mordo. —insistiu Ayrton sorrindo, Anthony riu inocentemente também, algo que animou ao Gryffindor a acurtar a distância para a cama.
— Ayrton, eu… devo me desculpar por…
— Não, espera, isso não. —interrompeu lhe determinante—. Precisamente queria que soubesse que te estou muito agradecido pelo que fizeste.
— Mas, eu…
— Doía muito, Harry. —disse-lhe sem poder evitar um tremor na voz, Severus então girou-se a olhá-lo, preocupado pelo bem-estar de seu filho. — Eu não era consciente de nada, só de dor, a cada segundo era um tormento para mim… tomaste a melhor decisão, me libertou.
— Fui impulsivo. —admitiu baixando a mirada. — Devia ter mais fé em poder solucionar de outra forma, mas deixei-me levar pelo rancor que sentia… isso não esteve bem.
— Não, Harry, não tinha nenhuma outra forma. —afirmou convencido. — Ademais, tinha todos os justificantes para me odiar, e mesmo assim, ajudaste a Anthony e a Draco a voltar à vida. Isso foi só um plus… eu vi quando lançaste o Avada, e te abençoei nesse momento, porque sabia que me ia livrar da dor, era desumano, não queria viver assim e a morte que me deu tem sido um belo presente.
— Agradeço a papai… —agregou olhando a Severus. —… agradeço-lhe enormemente que fizesse todo o possível por não chegar a esses extremos, mas suas boas intenções não me ajudariam… o fez sua Avada.
Harry não soube que dizer a isso, levantou o rosto fixando nos olhos negros do adolescente, sentiu as lágrimas a ponto de sair ao pensar que a mirada de Ayrton, voltava a ser a do menino que tinha conhecido fazia em uns anos no despacho de Severus… era a mirada pura de um anjo, e se sentiu feliz de saber sendo novamente ele.
— Presenteia-me um abraço? —pediu Ayrton.
Harry assentiu e depois de que Anthony se fizesse a um lado, apertou fortemente a Ayrton entre seus braços. O garoto suspirou sentindo como seu coração se engulosinava de alegria, novamente Harry era seu herói e isso sempre o levaria tatuado em um fervente agradecimento.
— Não se preocupes por papai. —disse, adivinhando a única preocupação de Harry ao momento de separar-se e notar que este olhava de soslaio a seu esposo. — Entenderá a seu devido tempo… já sabe que é um Slytherin muito néscio.
— Sim… isso espero. —respondeu timidamente.
— E não te fixe demasiado em suas horrendas olheiras, segue tão guapo como sempre, mas faz questão de não se ir a dormir em uma boa cama, até Draco já se decidiu a que podia me deixar sozinho.
— Ama-te, e…
— Harry… —interrompeu lhe ao notar que estava demasiado triste, melhor era tentar ajudar. —… Agora vai ter que voltar a me dar teu autógrafo… É meu salvador.
Harry sorriu amargamente pelo entendimento do garoto, não cria poder se sentir merecedor da mirada tão pura que lhe agradecia sua intervenção… sentiu que queria fazer algo por ele, e já cria saber que.
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Draco gemeu prazenteiramente ao sentir como uns lábios se uniam aos seus, e um delicioso peso já muito conhecido se acomodava sobre ele, sem se apoiar demasiado para não o incomodar. Não quis abrir os olhos ainda que tinha o pressentimento de que tinha voltado a dormir até tarde, sempre era assim, e adorava essa formosa forma de dar as boas-vindas ao dia.
— Me fará o amor? —perguntou quando o beijo se rompeu e olhou aos olhos dourados que tinha tão perto, se sentia tão apaixonado que não podia dissimula-lo, acariciava benevolente o rosto maduro de seu companheiro.
— Primeiro tem que tomar o café da manha… ou deveria dizer "comer"?
Draco riu sem vergonha, e Remus sorrindo incorporou-se para permitir-lhe que se acomodasse sobre os almofadões, então colocou em suas pernas a bandeja com o café da manhã preparado por si mesmo. O loiro lambeu-se os lábios ao ver as panquecas cheios de mel e chocolate.
— Aumentarei de importância por sua culpa. —disse depois de provar gulosamente seu café da manhã.
— Aumentará porque dormiste muito, mas não importa porque acho que te vê lindo com uns quilinhos a mais.
— Que me vejo lindo?! —repetiu cuspindo sua comida. — Estou passado de importância?
— Claro que não! Dizia-o porque quando se engravidou era a visão mais formosa que jamais tinha visto.
— Mas vale-te, Remus Lupin! —disse, já mais tranquilo e regressando a comer. — Onde estão os bebês?
— Um pai normal teria perguntado por eles assim que abrisse os olhos, mas me encanta como é, e me encanta que tenha perguntado primeiro se te faria o amor. —riu divertido sem fazer caso do franzir de sobrancelhas de seu loiro. — Não se preocupes pelos meninos, agora dormem, acabo de terminar de alimentar.
— É um anjo, e já me começo a preocupar por tão desmedida atenção de sua parte… talvez tenho em meus dias de vida contados? —caçoou saboreando uma framboesa que enfeitava suas panquecas.
— Sim, são cinquenta milhões duzentos setenta e sete mil novecentos oitenta e cinco. Mas não nos preocupes por teu longevidade, porque eu posso suportar viver contigo até o infinito, no entanto, acho que não me atingirá a vida para te demonstrar quanto te quero e quão orgulhoso estou de ti.
— Ah, já vejo… seguem chegando cartas?
— Por milhares, e as que atinjo a ler falam maravilhas de ti, e…
— Basta, não tens que dizer mais. Em realidade pensei-o e acho que sim, Remus… vou voltar a exercer a medimagia.
— Para valer? —perguntou entusiasmado.
— Sim, mas não agora, quero que nossos meninos estejam mais grandinhos para não me separar tão cedo deles, provavelmente será quando cumpram no ano de idade… está de acordo com isso?
— Por suposto, o que você decida está bem. E daí sigo lhe respondendo aos jornalistas e eminencias médicas que solicitam entrevistas contigo?
— O mesmo, que se fodam.
Remus sorriu, já sabia a resposta, mas de todos modos tinha prometido a fazer. Não tinha dia em que não chegassem milhares de solicitações para trocar ideia com Draco e que este expressasse sua experiência ao ter revivido a um menino vítima de um Avada Kedavra. Draco tão só fez um aparecimento público dizendo o que sabia, depois não quis lhe dar mais importância, para ele o único que importava era ver a Ayrton vivo, nada lhe daria mais alegria que isso.
— Se permite-me… —prosseguiu Remus—… utilizarei palavras mais civilizadas para desculpar por um tempo, alguns se mostraram interessados em te oferecer bolsas para que continue com os estudos que solicite.
— Isso devo o meditar ainda, sim quero, mas como te disse, esperarei um pouco. De todos modos não acho que devam sobrestimar o que passou, seguramente não teria conseguido nada se não fosse pela magia do medalhão e o desejo de Anthony.
— Ah não, jovenzinho, que não volte a dizer isso!... eu lembro que o que Anthony desejou foi que não te rendesse e isso foi o que passou. A mim ninguém me tira da cabeça que nada teria sucedido se qualquer um dos outros que estávamos aí tivesse estado em seu lugar… nem ainda que Anthony tivesse desejado que seu irmão vivesse.
— Bem, já basta de porras, e tira essa estorva charola… é tempo de fazer exercício.
— Ah, vai sair?
— Claro que não!... há que aproveitar que os gêmeos dormem, eu me refiro a verdadeiro exercício de cama ou é que não me disse que me faria o amor depois de tomar café da manha?... Pois estou pronto.
Draco voltou-se a recostar depois de que Remus tinha tirado sua charola quase vazia. O castanho sorriu, não o ia fazer esperar e novamente se apoderou de seus lábios, esperando poder aproveitar o tempo todo disponível dantes de que o loiro regressasse a seu trabalho.
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Harry regressou a sua habitação depois de deitar a seu menino e assegurar-se que dormia serenamente. Suspirou tristemente ao sentir o vazio do quarto matrimonial, estranhava muito a Severus apesar de que entendia o motivo de sua ausência. Esperava seu regresso entre a ansiedade por voltar a vê-lo e o medo de não saber o que passaria entre eles.
Deu-se um banho e vestiu-se com uma dos pijamas de Severus, era uma forma de senti-lo perto. Foi a sentar-se junto ao fogo apagando o resto das luzes, olhou para os lumes sentindo falta ver o rosto de seu esposo, depois abraçou suas pernas apoiando sua testa em seus joelhos, aspirando o aroma que emanava das prendas que lhe cobriam.
— Sev… por favor, não me esteja odiando… preciso que falemos. —suplicou em um sussurro.
Como se seu rogo tivesse sido escutado, se ouviu o ruído da fechadura, rapidamente levantou o rosto, mas um sorriso morreu em seus lábios sem sequer ter nascido. Severus olhava-lhe demasiado sério e seu coração sofreu demasiado, sentindo-se de novo um infeliz rabisco que não fazia parte de nada.
O professor caminhou lentamente para onde Harry estava, tomou um almofadão e se sentou no chão com as pernas em meio loto.
— Sei que está molesto comigo… —iniciou Harry, mas Severus desviou a mirada indicando que não queria lhe escutar e Harry calou se mordendo os lábios, contendo o pranto.
— Lançaste um Avada contra meu filho… Meu filho!
A voz de Severus não tinha sido agressiva, mas sim tinha uma funda dor que calou forte no coração apaixonado de Harry.
— Só queria ajudar. —respondeu avariado.
— Roguei-te… te supliquei que não o fizesse, que me desse uma oportunidade, mas não, Harry, estava tão ofuscado pela raiva, uma raiva que entendo bem, mas que mesmo assim, tinha a esperança de que compreendesse que sua dor por Anthony, era o mesmo que eu tinha duplicado também por Ayrton, e mesmo assim, lançaste esse Avada.
— Sev… Perdoa-me, por favor, perdoa-me!
Harry ajoelhou-se inclinando seu corpo para abraçar-se da cintura de seu esposo, este se tensou pelo contato se apressando ao apartar. Harry resistiu-se em um princípio, mas terminou acedendo, permanecendo sobre seus joelhos, deixando que as lágrimas banharam seu rosto ante a impotência de não conseguir mudar a expressão fria do dono de seu coração.
— Lamento-o… não posso. —foi a curta resposta do mais velho. — Não posso, Harry, e também não posso fingir que nada passou ainda que felizmente Ayrton sobrevivesse graças à pronta reação que tiveste ao ajudar a Anthony para usar o medalhão… Mesmo assim, sua voz pronunciando a maldição assassina e o raio verde golpeando a meu filho, se repete continuamente em minha cabeça. Não posso a sacar daí!
Severus golpeou-se a cabeça com as palmas de suas mãos, desesperado enquanto fechava fortemente as pálpebras. Harry olhou-lhe agoniado, notando em seu rictus toda a dor que emanava dele, e lhe doeu ser o causante disso… jamais teria querido lhe provocar tal dano, seu sonho e seu propósito na vida era o fazer feliz, viver por ele, e em mudança, tinha feito todo o contrário.
— Quer que me vá? —perguntou ao cabo de uns minutos de silêncio, notando entristecido como não teve resposta verbal, ainda que a atitude isolada de seu esposo gritava sua indecisão, pelo que Harry respirou fundo, ainda que fosse sua morte, lhe daria o que precisava. — Então me irei hoje mesmo.
— Lamento-o, mas sim… é o melhor. —disse finalmente.
— Bem. —afirmou doído, mas tentando não o demonstrar, carinhosamente deslizou seus dedos sobre uma das bochechas de seu esposo. — Posso guardar uma esperança de que seja questão de tempo?
— Não.
Harry não se esperava essa resposta tão rápida e contundente, aí sim que lhe custou não voltar a rogar chorando e aceitar estoicamente a vontade de Severus. Baixou sua mão apertando a teia da calça.
— E… Anthony? —questionou temeroso.
— Não quisesse me separar dele, faz demasiado pouco tempo que o tenho comigo, mas também não posso te pedir que renuncie a estar com seu filho… sinceramente não sei que fazer.
— Ficará contigo. —afirmou após meditá-lo uns segundos. — Vocês se precisam, e não só pela magia, você tem razão, os mantive separados demasiado tempo, não posso voltar ao fazer agora.
— Agradeço, e pode vir quando queira ao ver.
Harry assentiu, pôs-se de pé lentamente, assustado descobriu então a Anthony sustentando-se do quício da porta, suas bochechas estavam cobertas por um silencioso pranto enquanto seu lábio inferior tremia. Ao saber-se descoberto, o menino correu a abraçar de seu pai. Harry sentiu como seu abdômen era umedecido por umas lágrimas que lhe queimavam como ácido.
— Não me deixe! —pediu assustado.
— Eu não te estou deixando, coração. —afirmou Harry voltando a ajoelhar-se para ficar à altura do menino, Severus olhava-lhes em silêncio. — Virei a ver-te todos os dias e te trarei presentes.
— Mas porque vai-te?
— Pois porque agora precisa passar tempo com papai Severus, e trará a Ayrton com ele, vocês três vão passar dias muito divertidos juntos.
— Mas contigo!
— Amor, eu quisesse, mas tenho trabalho no Ministério e é melhor que fique perto… te prometo que não te darei tempo nem de me estranhar, me terá contigo todos os dias.
— Harry… —interveio Severus ao ver como o menino se aferrava fortemente a seu pai. —… talvez seja melhor que o leve contigo.
— Não, não quero me ir! —negou Anthony abandonando a Harry para lançar aos braços de Severus, ao estar este ainda sentado no chão, se pendurou de seu pescoço com tanta força que o Professor teve que o sustentar. — Quero estar com os dois!
— Por agora isso não é possível, carinho. —respondeu Harry. — Mas isso não quer dizer que não te queiramos, o entende, verdade?
Anthony negou com a cabeça para depois deixar seu rosto escondido no pescoço de Severus, este lhe abraçou calidamente, pensando que ia ser muito doloroso se separar outra vez do menino, mas provavelmente era a melhor solução, fechou os olhos para desfrutar mais do contato.
Harry aproveitou o momento para dirigir-se silenciosamente à saída, conseguiu abrir a porta, mas antes de sair voltou a olhá-los. Anthony levantou então o rosto olhando a seu pai acima do ombro de Severus, e imensamente entristecido levantou seu mãozinha dando um adeus.
Harry sorriu com igual tristeza, respondeu à despedida enviando-lhe um beijo e desenhando em seus lábios um "amo-te"… estava orgulhoso de seu filho, de sua capacidade de eleger o melhor, combinar-se com quem mais precisava-lhe.
… Ainda que Harry teve que se ir sentindo seu corpo vazio, tinha deixado seu coração nessa masmorra.
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Nota tradutor:
E agora?
Vejo vocês no ultimo capitulo
Ate breve
Fui…
