Era bom Jon se preparar psicologicamente, porque um dia Aegon cobraria aquela divida com todos os juros e impostos incidentes. Uma pessoa não entra simplesmente no hotel dele ameaçando causar um escândalo e sai ileso. Não, isso ele não podia tolerar. Nem mesmo se a pessoa fosse ninguém menos que Sansa Stark.
Nem toda beleza do mundo, nem todo aquele charme de heroína de romances de quinta categoria, nem aquela cara de santa virginal iam fazê-lo tolerar uma coisa daquelas. Ele tinha um nome a zelar. Ele tinha um negócio para gerir e acima de tudo ele tinha um irmão mal agradecido para acobertar. Uma pessoa poderia duvidar da moral de Aegon Targaryen, mas jamais de sua lealdade.
Foi uma sorte ele ter decidido checar alguns documentos do hotel naquele dia. Quando o recepcionista enviou a mensagem de que havia problemas no saguão ele se preparou para lidar com qualquer coisa, menos Sansa Stark posando de defensora da moral e dos bons costumes.
É claro. De todas as pessoas do mundo ele tinha que lidar justamente com a futura líder das Mães da América. Sansa, apesar de ser uma das mulheres mais lindas que ele conhecia era também a mais insuportável. Ela conseguia fazer Jon e todo seu discurso sobre moral e lealdade parecer a coisa mais anarquista do mundo. Definitivamente ela não fazia o tipo dele. Aegon preferia suas garotas desinibidas e com pouca roupa, ou sem roupa nenhuma.
E lá estava ela. Sentada no escritório dele agindo como se fosse a própria Rainha da Inglaterra, enquanto ele estava preparado para declarar revolução e começar a cortar cabeças. Quando ele se sentou sobre a mesa, bem próximo a ela, pode notar que Sansa ficou imediatamente tensa, como se esperasse que ele avançasse sobre ela. Isso com certeza dava a ele alguma vantagem naquela negociação.
- Muito bem, senhorita Stark. – ele disse sorrindo diabolicamente para ela – Nós dois precisamos ter uma conversinha.
- Não me importa o que diga, senhor Targaryen. Eu sei o que eu vi. – ela disse ríspida – Eu vi minha irmã entrando neste seu estabelecimento escuso acompanhada do seu irmão. Eu quero Arya aqui e eu quero neste minuto. Se insistir em me ignorar, eu garanto que não vai gostar nada do que eu vou fazer. – e essa era a confirmação de que Jon estava com sérios problemas. Tudo o que Aegon poderia fazer era tentar suavizar a situação.
- Tem certeza disso? A senhorita pode ter se enganado. – ele sugeriu usando todas as suas habilidades artísticas para soar como uma pessoa séria.
- Eu não me enganei. – ela insistiu enquanto endireitava a coluna na cadeira – Você e seu irmão podem achar que toda perversão é válida e que tudo tem um preço, mas eu não vou permitir que vocês se aproveitem da ingenuidade da minha irmã. Arya está passando por uma faze adolescente de rebeldia, mas eu não vou permitir que ela estrague a própria vida sucumbindo a venda do próprio corpo. Isso eu não vou tolerar!
Foi de mais para ele. Antes que Aegon tivesse a chance de tentar se conter a gargalhada já tinha escapado de sua boca. Ele ficou sem fôlego e por muito pouco não sugeriu a Sansa que tentasse a vida como comediante, ao invés de ser uma socialite profissional. Arya Stark? Uma garota ingênua? Vendendo o próprio corpo para Jon! De todas as pessoas no mundo, logo Jon era acusado de usar esse tipo de serviço! Essa devia ser a piada do ano!
Sansa o encarou escandalizada pela reação dele. Aegon precisou de um tempo para respirar fundo e se recompor antes de seguir com aquela conversa, mas ele tinha que admitir que estava ficando difícil.
- Por favor, senhorita Stark. Tenha a bondade de me dizer de onde tirou essa ideia. – Aegon pediu.
- Ao contrário do que pensam eu não sou idiota! – Sansa disse ríspida – Eu notei que havia alguma coisa errada acontecendo desde o dia em que Arya chegou tarde em casa depois de ter pego carona no carro do seu irmão. Do nada Jon aparece convidando-a para um cinema e no dia seguinte ela mente dizendo que estava indo passar o fim de semana na casa de uma amiga pra fazer um trabalho. Nas coisas dela havia um verdadeira arsenal de lingerie e...Oh Meu Deus! Lingerie e preservativos. Eu tinha que saber o que estava acontecendo e foi ai que vim parar na porta deste bordel camuflado! Eu os vi! Juntos! Andando de mãos dadas e se beijando como...
- Como um casal de namorados? – Aegon disse arqueando uma sobrancelha.
- Você certamente não conhece as preferências da minha irmã para relacionamentos. Além disso, o que um homem rico, bem sucedido como seu irmão poderia querer com uma adolescente? – Sansa retrucou como se a sugestão de Aegon fosse a coisa mais improvável do mundo – Pelo que eu sei o que seu irmão queria, ou pelo menos fazia de conta que queria, era construir uma família. Agora faz sentido que o noivado tenha terminado. A noiva dele deve ter descoberto esta tendência pedófila e o abandonou! – desta vez Aegon conseguiu controlar o riso.
- A senhorita devia ser comediante ou escritora, sabia? – ele disse abafando o riso – Eu posso concordar que para quem conhece os dois, o quadro parece estranho, mas eu posso assegurar que meu irmão não é um pedófilo e que as intenções dele com Arya são as mais honradas possíveis.
- Ele está pretendendo levar a minha irmã pra cama, pelo amor de Deus! Isso parece honrado pra você? – ela revidou furiosa.
- Na verdade "pretendendo" não é bem o termo que eu usaria para descrever a situação. – Aegon disse rindo – O que eu quero dizer, é que ao contrário das expectativas gerais, os dois acabaram se reencontrando e se interessando um pelo outro. Jon não é do tipo que se contenta com romances passageiros, ele não acredita nessas coisas. Ele faz planos, ele tem o sonho de construir uma família um dia, mas decidiu adiar isso depois que Arya entrou na vida dele.
- Ela é uma adolescente que nem mesmo saiu do ensino médio! – Sansa insistiu – O que ele está fazendo é interferir na vida e nas escolhas dela! Arya deveria estar pensando em cursar a faculdade, em escolher uma carreira e não ficar se envolvendo com homens mais velhos!
- Pela perspectiva da sua família eu posso até concordar com isso, mas aconteceu. – Aegon disse calmo – Acredite, eu não acho que essa é uma situação ideal, mas o meu irmão está assustadoramente feliz e bem humorado depois que os dois se entenderam. Confesso que eu estou me sentido como se estivesse vivendo em algum tipo de universo paralelo, mas é a vida.
- Não dá pra aceitar isso. Eu sinto muito. – Sansa insistiu – Arya ainda é menor de idade, o que torna toda esta situação que está me descrevendo ilegal!
- Não por muito tempo, não é mesmo? – Aegon sorriu para ela vitorioso – Jon pretende tornar o relacionamento público assim que Arya fizer dezoito anos, com direito a ser apresentado pra sua família como namorado e tudo mais.
- Hah! Robb vai matá-lo se isso acontecer. – Sansa disse num esforço de manter a superioridade.
- Ele pode tentar, e pode acreditar que eu vou adorar ver isso com um saco de pipocas na mão, mas eventualmente vocês vão ver que Jon não é uma má opção. Ele é uma pessoa muito mais digna do que qualquer cara com quem ela já tenha saído na vida. – ele disse satisfeito com sua argumentação até o momento – Diga, Sansa, o que você vai poder fazer se em um mês Arya parecer em casa acompanhada do meu irmão e disse que eles estão juntos? Pode reclamar, pode espernear e pode insistir em dizer que ela está tomando uma péssima decisão, mas é a vida dela e ninguém tem o direito de interferir.
- Você espera que eu simplesmente aceite que eles devem ficar juntos? Arya não tem maturidade pra pensar em um relacionamento sério. – Sansa dizia já sem qualquer argumento contundente para apresentar – E o que Jon viu nela afinal? Ele foi noivo de uma modelo, pelo amor de Deus!
- Com inveja, Sansa? – Aegon sorriu diabolicamente para ela, finalmente compreendendo toda linha de pensamento deturpada da garota – Com inveja da sua irmã mais nova, menos bonita, que conseguiu fisgar o milionário sério, bonito e responsável antes de você? Que coisa feia.
- Está sendo absurdo. – ela disse indignada – Por que eu teria inveja da minha própria irmã?
- Por que você está acostumada a ter as atenções de todos os homens ao seu redor no momento em que você entra num ambiente. – Aegon disse descendo da mesa e caminhando até parar atrás da cadeira onde ela estava. Aquilo estava se tornando um jogo muito divertido – Você está acostumada a ouvir todos dizerem como você é bonita, bem educada, gentil...Está acostumada a ganhar atenção por todos os atributos que você considera indispensáveis a uma boa dama da sociedade e Jon é justamente o tipo de homem que todos consideram seu par ideal. Arya não se parece em nada com você nesse sentido. É impulsiva, insolente, até mesmo mal educada, além de não chegar nem perto de ser tão bonita quanto você. Presta atenção que eu vou te dizer por que Arya é tão interessante ao ponto de fazer meu irmão mandar a porra do moralismo dele pro espaço por causa dela. Ela é autêntica! Ela não tem vergonha de pensar, de falar, ou de agir. Jon não quer um enfeite na vida dele, ele quer uma mulher de verdade.
- Você é ridículo. – ela disse no auge de sua empáfia e falta de argumentos – Você não tem qualquer noção de moral, você não me conhece e ainda tem a audácia de ficar me julgando como se fosse o senhor do universo e...
- Cala a boca! – ele disse num tom de voz que costumava usar muito raramente, mas não dava margem para discussões. Milagrosamente, Sansa se calou e sua postura mudou. Ela ficou imóvel na cadeira, agarrando-se ao braço do assento. – Assim é bem melhor. – Aegon respirou fundo antes de recuperar sua linha de raciocínio – Eu entendo que se preocupa com sua irmã e, acredite ou não, eu me preocupo com Jon. Ele não é só meu irmão. Ele é a única família que eu tenho e também meu melhor amigo. Eu farei tudo o que eu puder para fazê-lo feliz, ainda que eu tenha que te amordaçar pra isso.
- Está me ameaçando? – Sansa questionou escandalizada.
- Não, eu estou tentando te fazer entender a minha perspectiva da situação. – Aegon falou sério – Eles estão bem. Eles estão felizes e em breve o relacionamento deles será perfeitamente legal, o que torna tudo mais simples. Deixe que Jon e Arya decidam o momento para tornar o relacionamento público. Não fale sobre o que viu hoje pra ninguém e em um mês tudo isso estará resolvido.
- E se eu não concordar com a sua perspectiva, seu sujeitinho arrogante? – Sansa desafiou. Aegon sorriu satisfeito.
- Sou um homem bem relacionado, sabia? – ele disse sorrindo – Se eu precisar recorrer aos meus contatos para incentivá-la a cooperar, eu vou. Pode apostar que em uma semana eu vou conseguir todo tipo de escândalo envolvendo a sua pessoa e aquele cara da coluna de fofocas, o Varys, vai ter um dia cheio. Acredite, Sansa, você não quer me ver furioso. – Sansa permaneceu calada – Nós dois temos um entendimento?
- Eu suponho que sim. – ela disse consideravelmente mais calma. Aegon alargou seu sorriso.
- Ótimo! – ele voltou a se sentar sobre a mesa parecendo satisfeito – É bom quando conseguimos nos entender tão bem, principalmente quando parece óbvio que seremos todos parte de uma grande e feliz família em breve, não é mesmo?
Ela se levantou da cadeira, ficando cara a cara com ele e por um instante Aegon chegou a achar que Sansa Stark ia perder a compostura e lhe dar um tapa na cara, mas ela não o fez. Ela era educada de mais pra isso, mas talvez se ele a pressionasse um pouco mais ela finalmente deixasse aquela máscara de santa de lado.
- Aparentemente eu não tenho escolha no momento, mas pode esperar. Um dia, isso vai ter troco. – ela disse séria enquanto Aegon mantinha o sorriso confiante. – Eu acho tudo isso absurdo, mas um mês me parece um tempo razoável.
- Sabia que era uma garota esperta. – ele provocou mais uma vez – E eu já disse o quanto você fica linda nervosa?
- Você é insuportável. – ela resmungou.
- Uma característica que compartilhamos, não é mesmo? – ele revidou – Tenha um bom dia, Sansa. E de preferência, só passe perto do meu hotel quando achar alguém que seja louco o bastante pra tentar arrebentar esse seu maldito cinto de castidade.
Sansa lançou a ele um olhar indignado e lhe deu as costas, saindo da sala pisando firme. Aegon passou a mão pelo rosto e respirou fundo. Que mulherzinha irritante! Agora ele entendia porque Arya tinha tanta propensão à rebeldia. Com uma irmã como aquela até ele teria se rebelado aos quinze anos.
Ele se rebelou aos dezessete e não por causa de Jon e seu estilo politicamente correto. Ele se rebelou no dia em que recebeu a notícia de que o pai e a mãe haviam falecido num acidente de carro. Foi quando Aegon passou a procurar um caminho rápido pra própria cova, ou um meio de se anestesiar. Ao invés de enlouquecê-lo, Jon o tirou do fundo do poço.
Não podiam culpá-lo por querer defender o irmão e desejar que Jon fosse feliz, porque enquanto Aegon embarcou naquele ciclo autodestrutivo, Jon não só o ajudou a se erguer como também assumiu todos os negócios da família, ainda que não tivesse a menor condição de lidar com todas aquelas responsabilidades. Eddard Stark o ajudou, ensinou tudo o que podia, e Jon se fechou pro mundo pra não ter que enfrentar a dor da perda. Ele focou suas energias em manter o império que o pai deles havia construído. Jon deixou de ser um menino aos dezoito anos, para se tornar um dos homens mais importantes do país sem vacilar e sem decepcionar ninguém, mas o que poucos viam era o que ele havia sacrificado no meio do caminho.
Ele até conseguia entender porque o irmão tinha aquele sonho louco de ter sua própria família, mesmo assim Aegon estava satisfeito com a reviravolta de planos de Jon desde que Arya apareceu na vida dele. Ela estava dando ao irmão dele a chance de viver, de ser espontâneo, de se divertir, de ver além da perda e aproveitar a juventude que ele ainda tinha.
Ninguém tinha o direito de interferir na felicidade do irmão dele. Nem mesmo os Stark.
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O fim de semana com Arya foi espetacular, pra dizer o mínimo. Jon chegou no escritório na segunda pela manhã se sentindo um novo homem. Era como se sentir dez anos mais novo, como respirar e sorrir pela primeira vez.
Eles haviam passado dois dias inteiros sem se preocupar com nada além daquele quarto de hotel. Conversaram sobre tudo, sobre coisas que gostavam, coisas que odiavam, coisas que tinham vontade de fazer e também aquelas que preferiam evitar. Arya tinha um espírito inquieto, tinha sede de ver e conhecer coisas e sentir o mundo com seus pés e suas mãos ao invés de se contentar em vê-lo por uma fotografia.
Ela lhe falou sobre seus treinos de esgrima e como ela queria uma boa colocação nas classificatórias para então, quem sabe, conseguir representar o país nas Olimpíadas um dia. Ao contrário do que a imagem rebelde e o jeito impulsivo sugeriam, Arya era focada e disciplinada no que dizia respeito à carreira de esgrimista. Ela não parecia tão empolgada com a perspectiva de ingressar na faculdade, mas estava cogitando a ideia de fazer jornalismo para se especializar em jornalismo esportivo.
Jon ficava cada vez mais surpreso com a personalidade decidida e com a força das convicções dela. Arya falava sem medo, defendia seu ponto de vista com propriedade e era inteligente. Em dado ponto da conversa ele reparou em como ela era maternal, apesar desta ser uma característica totalmente inesperada. Ela falou sobre como ajudava Rickon com as tarefas de casa, brincava com ele e era sempre quem o acompanhava quando ele queria ir ao parque, ou assistir algum filme infantil. Aquele era o tipo de coisa que Jon não esperava dela, mas se lembrou de como ela costumava ser protetora em relação a Bran também.
O que havia começado de uma forma inconsequente naquela festa de máscaras estava se tornando algo mais. A parte do sexo era sempre fantástica, mas o que ele estava sentindo por Arya ia além do mero desejo. Ele gostava da companhia dela, gostava de seu humor inteligente e ácido e de como ela aos poucos baixava a guarda quando estava próxima a ele e o fazia se sentir um adolescente outra vez.
O aniversário dela estava chegando e ele tinha que pensar em um presente adequado. Jon reconhecia que não era a pessoa mais criativa do mundo quando se tratava de presentear uma pessoa, em especial uma garota. Por esta razão ele sempre recorria aos clássicos, mas naquela ocasião em especial ele queria dar a Arya algo que demonstrasse a seriedade dos sentimentos dele em relação a ela e acima de tudo algo que marcasse o início daquele relacionamento.
Ele aproveitou seu horário de almoço para ir até uma joalheria e quando voltou encontrou Aegon jogado no sofá do escritório usando óculos escuros e com as luzes apagadas. Jon arqueou a sobrancelha ao ver o irmão ali e chegou a pensar que ele estivesse dormindo, mas assim que deixou o embrulho da loja sobre a mesa Aegon resmungou, anunciando que estava bem acordado.
- Dor de cabeça? – Jon perguntou reconhecendo os sintomas.
- Dor de cabeça é pouco. – Aegon respondeu – Enquanto você aproveitava sua suíte na companhia da nossa queria Arya eu tive que lidar com uma bem menos agradável e divertida.
- Alguma de suas ex? – Jon perguntou se sentando e encarando o irmão.
- Deus me livre! – Aegon exclamou imediatamente – Quem dera fosse, eu não estaria tão mal humorado quanto estou agora. Eu nunca pensei que viveria o bastante pra acobertar você, mas o mundo se tornou um lugar muito estranho de uns tempos pra cá. Você me deve uma e pode apostar que quando eu cobrar a fatura vai ser alta.
- O que aconteceu? – Jon perguntou preocupado.
- Eu estava cuidando do meu negócio quando ninguém mais, ninguém menos do que Sansa Stark entrou no saguão do hotel disposta a fazer um escândalo. – Aegon disse tirando os óculos escuros – Aquele projeto de Paris Hilton com cara de freira teve a audácia de me ameaçar e me ofender de todas as maneiras que puder imaginar. Não é como se eu não estivesse acostumado com isso, mas quando eu sou inocente na história a coisa é bem diferente. Ela viu você e Arya juntos, seguiu os dois até o hotel.
- Meu Deus. – Jon levou a mão à testa – Ela contou pra alguém? Ela pretende contar?
- Ela queria. – Aegon disse – Mas não se preocupe, eu dei um jeito na doida. Mulherzinha insuportável essa que você arrumou pra ser sua cunhada. Imagine você que ela chegou a pensar que Arya estivesse se prostituindo e que você era algum tipo de depravado e por isso Ygritte terminou o noivado. Dá pra acreditar? Eu estou te avisando. Não sei que tipo de drogas aquela doida usa, mas é coisa pesada! Se eu fosse você tomava cuidado, ela pode ser uma psicopata ou algo assim.
- Posso saber o que exatamente você fez pra que ela ficasse calada? – Jon perguntou sério.
- Digamos que eu sei argumentar quando eu quero. – Aegon disse sorrindo satisfeito – Sansa não vai abrir a boca, mas se eu fosse você tornaria sua relação com Arya pública assim que ela fizer dezoito.
- Pelo menos esse é o plano. – Jon disse sério – Obrigado por tudo o que tem feito. Eu nunca imaginei que você era tão a favor do meu namoro com a Arya.
- Eu sou a favor de qualquer garota que coloque um sorriso nessa sua cara azeda e que te faça lembrar de como se usa isso que você tem entre as pernas. – Aegon disse lançando ao irmão um sorriso – Além disso, eu gosto da Arya. Ela tem estilo, tem personalidade e sendo filha do Ned eu sinto que posso esperar dela lealdade e caráter. Além disso, acho que posso confiar nela pra colocar um pouco de caos nessa sua vida certinha, se um dia eu estiver ocupado de mais pra isso. – Jon riu.
- Pode ter certeza disso. – Jon concordou.
- Se não se importa, o que diabos você foi comprar na Tiffany & Co.? – Aegon perguntou apontando pra sacola. Jon sorriu satisfeito.
- O presente de aniversário da Arya. – ele disse.
- Me diga que não é um anel, pelo amor de Deus. – Aegon implorou e Jon gargalhou da reação do irmão.
- Não é um anel, pode ficar tranquilo. – Jon disse pegando a caixa e abrindo para mostra a Aegon. Era uma corrente de ouro, com um pingente de diamante amarelo de tamanho considerável. Simples e elegante.
- Não acha que talvez fosse melhor outro tipo de presente? Algo menos brilhante e com menos quilates? – Aegon perguntou desconfiado.
- Não. – Jon disse firme – Eu quero passar a ideia de que minhas intenções com ela são sérias. Um homem só dá joias a uma mulher que considera especial.
- Pode ser que tenha razão. – Aegon concordou – Só se controle e espere pelo menos quatro anos antes de passar perto do mostruário de anéis, está bem?
- Vou manter isso em mente. – Jon disse sorrindo – De qualquer modo, se um dia eu fizer o pedido a ela, vou passar no banco, não numa joalheria. Arya merece algo mais significativo do que um solitário de diamantes da Tiffany & Co..
- É claro. Só você pra pensar em colocar aquele rubi obseno no dedo de uma mulher. – Aegon disse se arrepiando ao lembrar do anel – Deus do céu. Ainda bem que eu não tenho propensão a ficar do jeito que você está agora. Morro de medo de acordar um dia de manhã pensando em dar joias da família pra uma garota.
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O resto do mês passou e Arya tinha seu tempo monopolizado pela escola, os treinos de esgrima e os encontros clandestinos com Jon. Aquele mês havia sido o mais agitado e o mais improvável da vida dela. Apesar do cansaço e da tensão constante, ela estava feliz.
Às vezes ela se pegava lembrando de quando era criança e de como costumava imaginar como seria namorar Jon Targaryen. Naquela época Jon era menos sério. Ele saía com Robb para jogar futebol, ou às vezes ficavam jogando vídeo games na sala da casa dela. Jon ria mais naquela época. Gostava de ajudá-la a planejar travessuras, fazia piadas e ria das bobagens que ela falava. Ele sempre sorria pra ela e Arya sentia o coração acelerar todas as vezes que ele fazia isso.
O Jon adulto era outra história. Ele era inteligente, mais sério e reservado do que ela se lembrava, mas sempre gentil e atencioso com ela. No início de todos os encontros que eles tiveram, Jon estava sempre carregando aquela expressão severa de quem tem de se armar contra o mundo. Aos poucos ela conseguia suavizar aquelas linhas e ele sorria para ela como se tivesse acabado de aprender a fazer aquilo.
Ela se lembrou de quando o pai dela contou que Jon havia perdido os pais num acidente de carro. Arya era jovem de mais para comparecer ao funeral. Ela ficou em casa com Bran e Rickon, que ainda era um bebê na época. Ela viu pela televisão as notícias. A foto dele e do irmão. Aegon parecia revoltado, sem se importar em usar óculos escuros para esconder os olhos vermelhos. Jon estava sério, vestindo luto e demonstrando todo seu autocontrole.
Arya quis estar ao lado dele naquele dia, quis poder abraçá-lo. Robb fez isso por ela, ou pelo menos disse que fez. Jon parou de ir a casa dela pouco tempo depois e um ano mais tarde, Robb foi estudar fora do país. Ela conseguia notícias de Jon através do pai dela, ou dos jornais até desistir de procurar por informações a respeito de alguém que provavelmente nem se lembrava dela.
A melhor parte daqueles encontros clandestinos era quando Jon baixava a guarda e voltava a ser o rapaz divertido e gentil que ela se lembrava. Quando ele ignorava o mundo, desligava o celular e eles ficavam abraçados assistindo um filme, ou apenas conversando e ele falava sobre coisas sem importância, coisas que ele gostava, coisas que ele tinha vontade de fazer, mas nunca tinha tempo.
Aos poucos ela notou o quanto o apartamento dele era grande e como deveria ser horrível morar ali sozinho. Aegon tinha sua própria casa e uma suíte particular no hotel. Não era difícil de entender porque Jon levava relacionamentos a sério. Aquela devia ser uma vida bem solitária, mas apesar disso Arya não conseguia evitar o temor de que ele estivesse tentando fazer dela a solução para o problema.
Todas as vezes que ele falava em tornar o relacionamento público e ser apresentado aos Stark como o namorado dela, Arya sentiu o coração falhar uma batida. Jon falava de uma forma tão séria, que às vezes ela se perguntava quanto tempo levaria até que ele decidisse que um namoro não era o que ele queria. Ela sabia. Tudo o que faltava na vida dele era uma família. Ficando com ela, Jon estaria abrindo mão daquele sonho, ou pelo menos adiando-o consideravelmente. Logo ele começaria a se perguntar se aquilo valia ou não a pena.
Arya preferia que ele não fizesse tantos planos, que vivesse um dia de cada vez aproveitando o relacionamento que havia acabado de começar. Mesmo que ele evitasse tocar no assunto, às vezes Jon acabava comentando que sempre quis uma família grande. Ela sempre tinha a sensação de que ele esperava que ela dissesse "eu também" ou "um dia nós teremos". Essa era uma perspectiva um tanto assustadora. Uma para a qual ela não estava preparada.
Ela tentava convencê-lo a esperar um pouco mais para contar a família dela, mas todas as vezes Jon se recusava a aceitar aquela sugestão. À medida que o aniversário dela se aproximava, ele parecia cada vez mais ansioso e ela mais nervosa, principalmente porque não sabia qual seria a reação dos outros Stark a novidade, em especial Robb.
E o aniversário chegou. Ela rezou para que Jon não tivesse um de seus ataques de romantismo e decidisse mandar flores pra casa dela, ou algo do gênero. Sobreviver àquele dia já seria complicado o bastante sem que ela tivesse lembretes de como ele estava ansioso para tornar o namoro público.
Arya acordou com Rickon pulando sobre a cama dela e gritando feliz aniversário, antes de entregar a ela seu presente e um cartão feito a mão. Ela agradeceu e os dois desceram pra tomar café e encontraram Bran com cara de sono, tentando não dormir enquanto comia seu cereal. Ele desejou um feliz aniversário para ela, apesar do sono. Sansa apareceu em seguida e mesmo que tenha lhe desejado felicidades a irmã parecia estar desconfiada de alguma coisa. Sansa vinha agindo de forma estranha nos últimos tempos.
Os pais dela decidiram fazer um pequeno churrasco pra comemorar o aniversário dela, aproveitando o fato de que a data havia caído num sábado. Ela não estava muito animada com a ideia, mas acabou concordando.
Aos poucos os convidados iam chegando. Alguns amigos dela que os pais consideravam apresentáveis, o que incluía Gendry Baratheon, foram convidados. Robb chegou cedo, acompanhado pela noiva. Ela se sentia nervosa como se estivesse prestes a disputar uma final de torneio e sabia exatamente qual era a razão daquele nervosismo. Não demorou muito para que ela avistasse Jon e Aegon.
Os pais dela se apressaram em ir até eles cumprimentá-los. A mãe dela fez questão de conduzir os dois até ela. Jon estava sem terno, o que era quase um milagre, e Aegon parecia ter saído de um catálogo de verão de uma grife masculina.
- Obrigada por virem. – Arya os cumprimentou, sentindo o próprio coração acelerar.
- Feliz aniversário, Arya. – Aegon respondeu sorridente.
- Feliz Aniversário. – Jon disse sorrindo. Ele não tentou abraçá-la, nem nada disso, apenas sorriu para ela e Arya já sentia seus joelhos fracos – Isso é pra você. – ele entregou a ela uma caixa de joalheria.
Ela não queria abrir o presente. Sabia que não era um anel por causa do tamanho da caixa, mas não importava o que estivesse lá dentro ela sabia exatamente o que significada. Jon a estava pressionando, estava afirmando que não ia esperar muito tempo e que suas intenções com ela eram sérias. Talvez fossem sérias de mais.
Arya abriu a caixa por fim. Uma corrente de ouro com um pingente em forma de gota. Ela nem precisava ser uma especialista em joias para saber que aquilo era um diamante. Ela queria gritar com ele ali mesmo e perguntar o que diabos ele tinha na cabeça para dar um diamante para ela, mas Arya já sabia a resposta. Aquilo deixaria todos desconfiados do tipo de relação que eles tinham e mesmo que ela não abrisse a boca para contar a verdade, logo alguém da família dela chegaria à conclusão óbvia.
- Meu Deus, que coisa linda! – a mãe dela exclamou ao ver a joia – Seja educada e agradeça a ele, Arya.
- Obrigada, Jon. É uma joia muito bonita, mas não precisava ter se incomodado. – ela disse um tanto apática.
- Não foi incomodo nenhum. Ficou feliz que tenha gostado. – ele respondeu – Quer que eu a ajude a colocar?
Ela concordou com um aceno de cabeça e Jon se apressou em pegar a corrente e colocá-la ao redor do pescoço dela. Apesar da joia não pesar mais do que alguns gramas, Arya sentia como se estivesse com uma bola de ferro pendurada no pescoço.
- Fica muito bem em você. – Jon comentou sorrindo.
Não demorou muito para que ela inventasse uma desculpa para se afastar dele. Se ficasse ali muito tempo ia acabar perdendo a paciência e tentando esganá-lo com as próprias mãos.
Arya podia entender que Jon queria acabar com clandestinidade do namoro deles, mas ele não tinha o direito de pressioná-la daquela maneira, nem exigir que ela ficasse sentada de lado, apenas observando enquanto ele construía a vida que ele sempre sonhou ao redor dela.
Quantas vezes ela precisaria dizer que uma vida estável não era o que ela queria naquele momento? Talvez um dia, quando Arya sentisse que já havia alcançado pelo menos algumas de suas ambições pessoais, ou se sentisse minimamente preparada para dar um passo tão grande quanto se casar com alguém.
Jon não a estava pedindo em casamento, mas o que ele queria dizer com relação séria nada mais era do que um prelúdio disso. Naquele momento ele a estava colocando contra a parede e exigindo que Arya contasse aos pais e aos irmãos o que estava acontecendo. Tudo o que ela conseguia pensar era o que ele exigiria depois. Jon estava fazendo dela o centro do mundo dele e aquilo era assustador.
- Você não está com uma cara muito boa. – a voz de Gendry soou e tudo o que Arya não precisava naquele momento era ter que interagir com ele.
- Talvez porque eu odeie fazer aniversário. – ela respondeu – Se divertindo?
- É, estou, mas seria mais divertido se você me desse alguma atenção. – ele disse sorrindo para ela – O seu caso complicado apareceu pra te dar parabéns? – ele perguntou. Ótimo, tudo o que ela não precisava era que Gendry soubesse que o caso complicado dela não só havia aparecido como praticamente botou uma coleira nela.
- Não. – ela respondeu simplesmente.
- Então ele não te merece. – Gendry disse tentando parecer sedutor – Talvez devesse esquecer o cara e ficar com alguém que se importe com você de verdade. Sabe, eu gosto mesmo de você, Arya. Sei que não começamos muito bem, mas eu acho que ainda podemos dar certo.
- Gendry, hoje não é o melhor dia pra falarmos sobre isso. – ela disse tentando se afastar dele tanto quanto possível.
- Tudo bem, mas eu não estou brincando. – ele insistiu – Eu ainda quero mais uma chance.
Ela se esquivou dele antes que Gendry pudesse retomar o falatório. Queria entender quando foi que ela passou a ser o alvo número um de todos os caras solteiros da cidade. Pra piorar Jon nem estava tão longe quando Gendry começou com aquele monte de bobagens. Ela só esperava que ele não tivesse ouvido o que o cabeça de touro estava falando.
Arya se afastou da festa e foi para dentro da casa, procurando um pouco de sossego pra poder pensar. A sala de estar estava vazia e ela se jogou no sofá. Seus dedos tocaram o pingente em forma de gota que repousava no fim da garganta dela. Por que aquilo não podia parecer mais com um presente bonito e menos com uma coleira?
- Não gostou do presente? – a voz familiar de Jon soou atrás dela com um toque de decepção – Pode trocar por outra coisa se quiser.
- É lindo, Jon. Lindo e caro. – ela respondeu.
- Se está preocupada com o valor eu digo que isso é ridículo. – ele disse rindo baixo – Do que me vale trabalhar do tanto que trabalho se não posso fazer um agrado ou outro pra você?
- Sabe que não é isso o que eu quero dizer. – ela respondeu firme – Uma joia passa a impressão de que você quer algo em troca, algo importante. Eu sei disso, você sabe disso e logo todos vão começar a se perguntar que motivos um milionário tem para presentear uma adolescente com joias.
- Que seja. Não é como se eu quisesse manter o que temos em segredo agora. Aliás, se já fossemos um casal publico aquele imbecil lá fora não teria chegado perto de você. – Jon disse firme.
- Gendry é meio lento pra entender as coisas, mas ele não ia tentar me agarrar ou coisa do tipo. – ela disse dando de ombros.
- Lento ou não, eu não gostei de ver ele falando com você daquele jeito. – Jon insistiu – Se contássemos logo que estamos juntos isso acabaria. Todos saberiam que você é minha. – ele se inclinou para beijá-la no pescoço e Arya se esquivou.
- Eu não sou sua, Jon. Eu não sou de ninguém. – ela disse firme se levantando do sofá – Não é por que eu sou sua namorada que você pode determinar com quem eu posso ou não interagir.
- Eu não quis dizer isso. – ele disse imediatamente.
- Não, você não quis. Só quis me pressionar pela milésima vez a anunciar pra todo mundo que nós estamos juntos. – Arya disse ríspida – Você ignorar todas as vezes que eu peço por um pouco mais de tempo, como se isso não fosse afetar a minha vida também. Você colocou esse colar no meu pescoço pra mostrar pro mundo que eu sou sua como se estivesse colocando a porra de uma coleira em mim!
- Arya, eu achei que estivesse claro que eu não vou ficar me escondendo como se eu fosse um criminoso pelo resto da vida. Nós falamos sobre isso milhares de vezes. – ele insistiu e o tom de voz que ele usava era mais firme do que qualquer outro que já tivesse usado com ela.
- Não, você falou sobre isso milhares de vezes, enquanto ignorava o que eu estava pedindo. – ela revidou – Se não consegue me ouvir quando eu digo que não estou preparara pra falar pra todo mundo, vai me ouvir quando eu disser que não concordo com um dos seus infinitos planos? Talvez tenha sido por causa disso que Ygritte tenha te deixado. Você assusta, Jon. Você quer tudo e você quer agora, o que você não entendeu é que entre nós existem alguns anos de diferença.
Jon recuou diante das acusações dela. Aquilo foi o bastante para que ela se arrependesse imediatamente de ter dito tudo aquilo. Ela só queria que...Ela só queria que ele entendesse. Que ele entendesse que ela estava com medo.
- Muito bem. – ele disse num tom amargo – Você decide quando nós vamos tornar isso público. Ou talvez o que você esteja querendo dizer é que eu não sou o que você quer. De qualquer modo, me diga quando você decidir.
Jon saiu da sala e não esperou até o fim da festa para ir embora.
Nota da Autora: Este capítulo foi tenso de escrever XP. E eu odiei a briga deles, mas eu juro que há um propósito pra ela. Quando a conversinha do Aegon e da Sansa...Bem...Eles não se suportam, mas pode ser que...Não, não vou falar XD. Espero que gostem e comentem.
Bjux
Bee
