Capítulo Um.
"Sobrevivente de algum possível naufrágio". É assim que o chamavam em voz baixa, quando alguém comentava sobre o garoto quieto e misterioso que ficava quase todos os dias, sentado na areia da praia de Sunshine Valley, sempre ao pôr-do-sol, olhando fixamente para as ondas que quebravam antes mesmo de chegarem à areia seca.
Ele também não poderia discutir por conta disso ou até mesmo negar o que diziam. Afinal, desde que fora encontrado naquela mesma praia, cerca de um ano, ele não conseguia se recordar de absolutamente nada em relação à vida que levava antes de acordar com o gosto de água salgada nos lábios.
E lá estava ele, como todos os dias. Usava bermudas, com pés descalços e uma camiseta sem mangas bem folgada. Os braços estavam apoiados sobre os joelhos, de modo relaxado e, ao mesmo tempo, repleto de concentração. Os cabelos escuros já estavam ultrapassando a sobrancelha, um alerta de que deveria ser aparado logo. E os olhos de tom âmbar, como sempre, perdidos na imensidão do mar que brilhava em tons de laranja junto com o céu a sua frente.
Diferente de como todos o chamavam, Meraxes era seu nome. Era a única coisa de que se lembrava — aliás, a única coisa na qual tinha certeza desde que despertou naquela praia.
Tatch veio logo depois. Embora não combinasse nem um pouco com seu primeiro nome ou soasse meio heroico ou grudento, como alguns provavelmente iriam escolher se estivessem no seu caso, ele não se importou. Em geral, Tatch era o sobrenome para todos aqueles que não tinham um sobrenome. Moradores de rua, crianças órfãs ou qualquer coisa relacionada. Havia pelo menos quinze pessoas com o sobrenome Tatch em Sunshine Valley. De alguma forma, Meraxes não se sentiu tão solitário depois dessa descoberta.
Começou a ser atendido pelo apelido de "Merx", ao ver que as pessoas tinham pouca dificuldade em pronunciar seu nome, ou até mesmo se lembrar dele. A única pessoa que o tinha feito com aptidão havia sido Jane, uma garota que mais tarde mostrou-se ser uma boa amiga para ele. Pelo menos, a única que não o chamava de "rapaz do naufrágio".
Mas, apesar de viver em uma cidade tão tranquila como Sunshine Valley — que na verdade é uma grande ilha —, trabalhar como entregador de uma lojinha, morar em uma pequena casa que ele mesmo havia construído na costa da ilha e ter quase sempre a boa e essencial companhia de Jane, Merx não conseguia relaxar quanto ao seu passado.
Enquanto Jane contava tudo o que aprontava quando era mais nova, sobre o que havia feito há tempos antes de Merx aparecer desacordado na ilha, ele tentava se recordar de qualquer coisa — qualquer porcaria que envolvesse seu passado. Como se já não bastasse ser um desconhecido, um sobrevivente de um possível naufrágio, ele ainda tinha de ser desmemoriado.
Entretanto, em compensação, sua noite era recheada de pesadelos.
Merx não sabia dizer se aqueles pesadelos poderiam ter alguma ligação com sua vida antes de Sunshine Valley, do mesmo modo como não sabia dizer se ele esperava ou não que tivessem alguma ligação. Os pesadelos eram realmente um tormento e surreais, mas, ao mesmo tempo, eram simplesmente incríveis. Parte dele teria orgulho de ter levado aquela vida; rodeado de pessoas que trajavam sobretudos negros, empunhavam armas incríveis e matavam criaturas desconhecidas. Corações estavam sempre presentes, um detalhe a parte.
E, de alguma forma, ele não se sentia realmente humano em seus pesadelos. Parecia que toda vez que mergulhava no seu filme de ação pessoal, alguma coisa faltava dentro dele. Uma coisa simplesmente... Essencial. Que fizesse parte. Sentia como se houvesse um buraco no seu peito.
Há poucos dias, acabou se dando conta de que o buraco no seu peito, aquela sensação estranha que sentia em seus pesadelos, seria a falta de um coração — o motivo de agir tão friamente, como se não tivesse sentimentos ou emoções dentro daquele corpo em que ele era dono durante seus pesadelos.
Então, percebeu que era loucura e começou a deixa-los de lado, embora ainda o atormentasse e tirasse algumas horas de sono que ele bem merecia.
Só que, como velhos hábitos raramente nos deixam, Merx estava novamente com os pensamentos afogados em seus pesadelos. Tão concentrado que mal percebeu que alguém havia se aproximado.
Apenas se deu conta quando uma bola de areia atingiu sua cabeça.
— Ei! — ele reclamou em voz alta, ao mesmo tempo em que ouviu uma risada melodiosa e bastante alegre. Estreitou os olhos na direção da garota ao seu lado, que usava um vestido florido que ia até os joelhos, junto de chinelos de dedo. — Jane. — sua voz se suavizou um pouco, mas não o suficiente para que demonstrasse a chateação com a garota.
E, por mais que ele parecesse bastante chateado com ela, o fato fazia com que ela risse ainda mais.
— Acho que você vai levar o resto do mês para tirar a areia desse seu cabelo. — ela caiu sentada na areia ao seu lado, rapidamente levando a mão levemente bronzeada para os cabelos escuros e grossos do rapaz. — Por mais que seja liso, acho que se eu colocar um graveto aí, ele pode se perder.
— Entre a ideia de colocar um graveto no meu cabelo e enterrar você viva na areia, eu prefiro a segunda.
Ela riu.
— Você e mais quantos? — indagou e riu baixinho, enquanto descalçava os chinelos de dedo rosa-claros. — Porque, bom, você sabe. Eu sou osso duro de roer. A garota mais perigosa de toda Sunshine Valley. Pergunte para os brutamontes da cidade. Quando você fala meu nome perto eles, eles choram de medo e chamam pela mamãe.
Merx limitou-se a dar uma risada abafada e repleta de deboche. Na verdade, Jane sempre foi o contrário do que ela dizia ser. Em questão de sua aparência, era totalmente coerente com ela; pele levemente dourada, cabelos louros e olhos castanho-claros que vira e mexe, pareciam com os de um cachorrinho sem dono, assim como o jeito delicado e estilo bastante romântico e sonhador. Mas sempre que a perguntavam, ela se dizia ser forte, durona como uma pedra e inatingível como uma ilha. Mas sempre foi totalmente ao contrário, e Merx sabia muito bem disso.
Afinal, Jane morria de medo de baratas e insetos variados. Não sabia nadar direito. Seu tapa fazia cócegas nele, e ela pesava como uma pena. Nem bater em alguém direito ela sabia, e toda vez que tentava, choramingava porque uma unha sua lascava ou que as juntas dos seus dedos doíam. Jane era mais frágil do que uma bonequinha de vidro.
E, de algum modo, Merx sentia-se na obrigação de proteger algo tão belo e frágil como ela. Protegê-la de qualquer pessoa ou coisa que pudesse fazer mal, tirar um pedaço dela, arranhá-la, fazer com que ela fizesse aquele beicinho de quem estava prestes a choramingar.
Do mesmo modo que se sentia tentado em empurrá-la da sua prateleira para que a visse se estilhaçar no chão em milhares de pedaços.
Havia vezes em que seus pensamentos eram assolados por comentários como esses, vindo de alguém que não parecia ser ele. Como uma segunda pessoa dentro dele, outra alma. Entretanto, não se importava. Tratava isso como se fosse seu lado irônico e bastante raivoso. Afinal, todos tinham um lado assim.
— Bom, é claro que eles choram quando falam seu nome — Merx disse de modo indiferente. — porque aí eles se lembram de mim, e do que eu fiz com eles todas as vezes que eles tentaram encostar um dedo para fazer mal a você.
Jane riu enquanto jogava uma mecha do cabelo para trás.
— Que amigo mais perigoso que eu tenho!
Merx limitou-se a sorrir diante do comentário, e permaneceu em silêncio.
Ele não durou muito tempo. Como bem fazia o tipo de Jane, serelepe e com uma idade mental de uma criança de cinco anos de idade — embora estivesse prestes a atingir seus dezoito —, era normal que ela começasse a tagarelar ou começar a fazer perguntas.
— No que pensava? — perguntou, inclinando a cabeça levemente para o lado, olhando-o de esgoela. — Em geral, você percebe a minha chegada, mesmo que eu use a minha tática dos pés-leves.
— Seus pés-leves parecem anunciar a chegada de um elefante, Jane. — Merx disse em tom de deboche. — Não se ofenda, mas é verdade.
— Está me chamando de gorda. — não era uma pergunta.
Ele deu de ombros.
— Se entender dessa maneira.
Jane desferiu um tapa no ombro de Merx, que não reagiu. Afinal, o tapa havia doído mais na palma da mão de Jane do que em Merx, mas ela evitou mostrar algum sinal de dor quanto a isso. Faria o amigo apenas rir da situação.
— Não fuja da minha pergunta, Meraxes Tatch. — ela o repreendeu, recolhendo a mão e enterrando-a na areia ao seu lado, distraidamente. — No que pensava?
Ele suspirou pesadamente. No começo, quando conheceu Jane, achou que fosse fácil escapar das suas perguntas sem fim e da sua tagarelice. Mas lá estava ele: quase um ano depois, e Jane ainda estava ao seu lado, enchendo-o de perguntas, embora aquela fosse apenas uma — por enquanto. Percebeu, com o tempo, que quando Jane invocava em uma pergunta, ela não sossegava a maldita periquita até que fosse devidamente respondida.
Respostas monossilábicas, para a infelicidade de Merx, não contavam como uma resposta adequada.
— Em uma possível vida que eu levava antes de parar aqui. — e ele pressionou seus pés igualmente descalços contra a areia da praia.
— E em qual hipótese você estava pensando?
Ele hesitou.
— Não sei. — mentiu. Não lhe agradava falar dos seus pesadelos para Jane. Eles pareciam ser muito pessoais, até mesmo para serem divididos com ela. Algo que só ele poderia saber. — Acho que fui algum tipo de protetor, policial, algo assim.
Jane riu.
— Um guarda-costas, aposto.
— Provavelmente o de uma garota chata como você. — disse de modo indiferente. — Percebi que sou ótimo nisso desde que você começou a me perseguir por todos os cantos onde eu ia. Parecia até um cachorrinho seguindo seu dono.
Jane levou as mãos até o longo cabelo, amarrando-o em um nó, enquanto exibia um sorriso divertido e abafava uma risada.
— Mamãe achava que eu estava apaixonada por você — ela disse. — Mas que ideia. Ela sabe que humanas e ogros não podem se relacionar. — ela olhou para ele, arqueando uma sobrancelha loura, com ar debochado. — Não se ofenda, mas é verdade.
Depois do ataque da areia causado por Jane, aquela foi a primeira vez que Merx olhou para ele. Encarou-a durante cinco segundos, que pareceu durar uma eternidade. Ela havia amarrado os longos cabelos louros que batiam no meio das costas em um perfeito nó, onde Merx imaginou que ela só iria conseguir tirar aquilo na base da tesoura. Ela olhava divertida para ele, com cara de criança quando apronta. Ele esboçou um sorriso. A diversão dela, incrivelmente, o contagiava.
— Está me chamando de ogro. — ele disse de modo afirmativo.
— Se você entender assim. — ela disse e depois deu de ombros.
E então, a revanche.
Merx pegou um punhado de areia e jogou no cabelo dela.
— Oh! — exclamou dramaticamente, franzindo o cenho para ela. — Parece que você vai passar o resto do ano tirando essa areia do seu cabelo.
Jane ficou estática durante dois segundos, até começar a soltar uma saraivada de xingamentos contra Merx. Este, por sua vez, não hesitou em se levantar e correr, apenas para provoca-la. Ambos sabiam que ela nunca conseguiria alcançar Merx, que era pelo menos trinta centímetros mais alto que ela e muito mais ágil.
Os dois, que eram quase adultos, pareceram duas crianças correndo na praia, brincando de pega-pega. Pararam apenas quando Jane jogou-se na areia, cansada e ofegante, soltando novamente uma saraivada de xingamentos contra a agilidade de Merx, que demonstrava um terço do cansaço de Jane. E, por incrível que pareça, ele ria gostosamente.
O sol já havia se posto quando os dois sentaram-se novamente na areia. O céu estava de dois tons, em uma transição de laranja-escuro para azul-arroxeado. Simplesmente lindo. Aos poucos, podiam-se ver as estrelas, brilhando fracamente enquanto a faixa azul-arroxeada no céu começava a tomar conta. Os dois estavam cansados. Jane ainda ofegava e havia filetes de suor que escorriam da sua testa, nuca e pescoço, mas seu sorriso não havia caído. Merx havia jogado seus cotovelos para trás, apoiando-os na areia e quase deitado seu tronco. O silêncio pairou entre a dupla durante poucos minutos, até Jane, como sempre, cortá-lo.
— Tive um sonho estranho essa noite, Merx. — ela comentou de modo quase indiferente; mas lá no fundo, Merx conseguiu sentir o desconforto dela. — Um pesadelo, na verdade. Pensei nele o dia inteiro.
— Dizem que quando você conta seus sonhos para alguém, eles não se realizam — Merx disse calmamente, ajeitando-se e encarando Jane. — O mesmo deve se aplicar para os pesadelos. Então, sinta-se a vontade.
Jane sorriu de lado, pouco insegura.
— Foi muito estranho. Parecia ter... não sei, alguma ligação com esses desaparecimentos que têm acontecido aqui, sabe? Eu meio que senti isso. — ela disse, voltando a olhar para o mar que escurecia junto do céu a sua frente. — Medo, dor, escuridão. Tudo isso junto de uma vez só.
Merx não disse, mas sentia-se do mesmo modo em seus pesadelos. Ainda mais quando uma notícia de outro desaparecimento se espalhava por Sunshine Valley.
Haviam começado cerca de um mês. Até então, duas mulheres, um homem, um idoso e um adolescente foram dados como desaparecidos. Sunshine Valley era uma ilha grande, mas era impossível de se perder por lá, ou até mesmo ficar escondido por tanto tempo. A pequena floresta que tinha era frequentemente visitada por famílias para piqueniques. Havia, praticamente, pessoas por todos os cantos, fofocando, conversando, namorando. Era impossível não ser visto, e todos ao que parece, tinham uma visão das boas para tudo, principalmente para coisas ilícitas. Afinal, todos os adolescentes que tentaram dar uma escapada pela janela na calada da noite para encontrar a namorada ou alguns amigos, foram pegos pelas vizinhas, parentes, ou qualquer outra pessoa que acabou vendo. Quase ninguém escapava.
Era por isso que os desaparecimentos estavam causando tanto estardalhaço em Sunshine Valley. Ninguém podia se esconder por tanto tempo, ou deixar de ser visto. Ao menos que simplesmente montasse um barquinho, se dirigisse até o mar e seguisse em rumo para outro lugar. Mas mesmo assim, alguém teria visto.
Há quem diz que viu algumas sombras espreitando casas e prédios. Algo com olhos amarelos.
Infelizmente, ninguém acreditava em coisas assim.
— Estávamos bem aqui — ela continuou. —, eu e você. Estava escurecendo e conversávamos. Quando a noite caiu, parece que o solo deu um solavanco. Tudo tremeu por alguns instantes. Aí começaram os gritos. Algumas pessoas começaram a sair de suas casas, mas eram engolidas por... alguma coisa. Algo escuro. Algo mal. Não sei dizer o que é. Parecia ser uma massa de escuridão. Algumas eram engolidas, outras caíam no chão e desapareciam. Aí fugimos. Começamos a correr. — Jane, então, virou o rosto para Merx e o fitou. — Fugíamos para o píer. Estranhamente, um de nós tinha um barco lá, acho que você havia comentado. Mas quando subimos as escadas, uma dessas coisas me agarrou. Segurou minha perna e me puxou para baixo. Comecei a ser consumida por ela... Ela começou a me engolir. Eu gritava, pedia por ajuda, mas você continuava correndo pelo píer. Até que parou e ficou me olhando. Só me olhando. Não fez mais nada que isso. — ela abaixou o olhar e depois encarou Merx novamente. — Você não me salvou.
O silêncio caiu entre os dois, assim como o choque. Em partes, ele sentiu semelhanças com seus pesadelos. As mesmas sensações. As massas de escuridão — embora, na maior parte das vezes, ele as visse como criaturas escuras, com antenas e olhos amarelos.
E ainda mais pelo fato de Jane ter dito que ele não a salvou em seu pesadelo. Que ele a deixou ser consumida por aquela escuridão que a pegara e não havia feito nada para parar isso.
É apenas um pesadelo, ele pensou, nada mais que isso.
Convenceu-se disso. Ele nunca deixaria Jane para trás.
— Está atormentada porque não te salvei? — ele perguntou calmamente.
Ela hesitou. Balançou a cabeça para os lados, pairando entre o sim e não, e deu de ombros.
— Como você disse, se contar sobre os nossos sonhos e pesadelos, eles não acontecem — ela disse. — Estou contando para que caso isso aconteça, você me salve.
Ele riu sem emoção.
— É claro que vou te salvar. Não te disse que fui guarda-costas antes de vir até aqui? — ele levou a mão até o topo da sua cabeça e bagunçou seu cabelo, esboçando um sorriso. — Não vou te abandonar nunca, Jane Glodmyth. É uma promessa.
Ele viu um sorriso se formar nos seus lábios rosados.
— Ótimo, Meraxes Tatch — ela disse — porque se isso vier a acontecer, prepare-se para nunca mais dormir. Juro que vou puxar seus pés todas as noites e fazer com que você se arrependa de ter se preocupado mais com seu traseiro do que com a minha vida. Agora — ela se levantou, arrumando os cabelos sujos de areia e cheios de nós. — que tal uma corrida até a praça central? Quem perder vai... Não sei, a gente decide depois. Até mais! — e saiu correndo.
Merx balançou a cabeça lentamente, vendo a garota se afastar, enquanto se levantava com calma. Desgraçadinha, ele pensou de modo divertido, batendo com as mãos nas roupas para tirar o excesso de areia. Em seguida, pôs seus chinelos e saiu correndo atrás da amiga.
Ele se movia em uma velocidade incrível. Parte dele nem mesmo se acreditava que era capaz daquilo, mas a outra parte até parecia estar acostumada.
A arma que sua mão direita empunhava trucidava qualquer criatura que aparecesse. E elas não paravam de aparecer, de diversas formas. Algumas carregavam espadas e flutuavam, enquanto outras brotavam do chão, das sombras, pulando nele — mas nunca encostando. Sua arma se certificava de que nenhuma dessas criaturas iria tocá-lo. Elas nem ao menos chegavam a uma distância de trinta centímetros dele.
Para novatos, enfrentar aquela quantidade de inimigos parecia ser o fim; não haveria chance. Mas para ele, era diferente. Ele estava acostumado com aquilo tudo, estava apto a matar mil daquelas se quisesse.
E então, a quantidade delas foi diminuindo. Em devido momento, ele deu um giro completo, esticando sua arma. Pelo menos todas que estavam a um raio de cinco metros foram atingidas. As que estavam mais próximas, simplesmente desapareceram. As mais distantes, caíram para trás e tentaram atacar novamente, mas ele pôs um fim em seus movimentos assim que pensaram em chegar perto.
Em poucos minutos, o pátio de uma grande cidade que antes estava infestada de heartless, restava apenas o dono da arma.
Um rapaz alto, de cabelos castanho-escuros e olhos tom âmbar.
— Admirável. — disse uma voz feminina, divertida. Sua dona batia palmas delicada e lentamente, enquanto saltava do topo do prédio de onde observava tudo. — Até que para alguém sem coração, você ainda está em forma. Aliás, aposto que está muito melhor do que antes, não?
O rapaz sorriu de lado.
— Às vezes, a falta de um coração proporciona coisas boas. — disse simplesmente.
O sorriso no rosto da mulher vacilou quando ela atingiu o chão e fixou seus olhos no rosto dele.
— Interessante você pensar dessa forma, também. — disse ela com indiferença, desviando os olhos para as unhas. — Em geral, todos nós queremos recuperar nossos corações. Por isso queremos Kingdom Hearts. — levantou os olhos para encará-lo novamente. — Por que você o quer também, se o seu interesse pelo seu coração parece ser nulo?
— Não disse que meu interesse pelo meu coração é nulo, Lixnyr. Apenas disse que há momentos em que não ter um coração torna as coisas melhores. Antigamente, eu me preocupava demais. Meu coração fazia com que eu me preocupasse demais quanto aos heartless. Pensava que cada um deles, um dia foi um humano, como eu. Isso me machucava, e tornava meu desempenho em batalha, pior. Agora? — ele deu de ombros. — Foi mais fácil que respirar.
A mulher exibiu um sorriso simpático.
— Interessante. — disse simplesmente. — Temos aqui então um bom guerreiro. Vai ser interessante essa nossa união. Agora... — ela se aproximou dele, cruzando os braços. — Qual seu nome?
Ele a fitou, indiferente.
— Meraxes. — respondeu simplesmente.
— Meraxes. — ela repetiu e sorriu, parecendo satisfeita. — Combina com você.
Oie! Então, aqui está o primeiro capítulo, falando um pouco sobre a vida de Meraxes, o nosso protagonista. Espero que gostem!
Aceito reviews de bom grado, até. Hahahahaha.
Beijos!
