Cena 3: Encontro.
Naquele mesmo dia em que recebera o telefonema, Botan saíra de seu apartamento para almoçar em um restaurante na mesma rua. Ao chegar lá, sentou-se ao lado de uma das janelas e não precisou verificar o cardápio: a garçonete chegou perto de si e ela tinha o pedido na ponta da língua – não gostava muito de mudar o que comia nos restaurantes dali. Enquanto esperava, a garçonete lhe serviu um café e a jovem de cabelos azuis ficara olhando as pessoas passando pela calçada. Foi quando viu uma pessoa que chamou sua atenção: um ruivo de olhos verdes caminhava lendo um jornal dobrado, parecendo despreocupado. Botan o observou e apenas parou de olhá-lo quando o viu entrando no mesmo restaurante em que ela estava.
Kurama sentou-se em uma das mesas vagas do restaurante, perto da janela como gostava. Quando uma garçonete embasbacada com o rosto do rapaz veio atendê-lo, sorridente ele pediu por um cardápio e um café. Botan discretamente o olhou e teve a impressão de conhecê-lo de algum lugar. Viu-o olhando o jornal com atenção e aqueles olhos, aquela cor verde intensa, pareciam jóias que realmente já vira em algum lugar, mas a memória não lhe ajudava. A moça desviou o olhar quando a garçonete trouxe seu pedido e resolveu deixar para lá.
Enquanto comia, foi se lembrando de um filme aos poucos, que assistira com seus pais em um cinema em Tóquio. Em um susto, lembrou-se daquele rosto no meio do filme e arregalou levemente os olhos. Discretamente voltou olhar para o ruivo, cujo nome agora lembrara: Shuuichi Minamino. Lembrava-se que viu aquele filme há uns dois anos e o rosto do rapaz ficara estampado por Tóquio inteira, pois o público feminino – e inclusive o público gay – babava por aquele ruivo, além de sua atuação ser muito boa. Botan não sabia o que fazer: via ali um talento sentado e lendo jornal a poucos metros de distância e simplesmente não sabia como falar com ele sem parecer que queria flertar. Viu que ele, de repente, a olhou e ela corou e desviou rapidamente o olhar para a janela.
Kurama via aquela moça de cabelos azuis sentada a algumas cadeiras em sua frente e quase riu ao perceber que ela também o olhava. De certo modo, parecia conhecer aquela mulher. Realmente, aquele rosto lhe parecia muito familiar, mas não sabia de onde o conhecia. Foi então que um flash lhe veio à sua mente: o celular de Kuwabara. Uma vez estava na casa do amigo e o celular dele estava na mesa de centro, pertinho de onde ficara sentado. Kuwabara recebera uma ligação e Kurama conseguiu ver uma foto do celular: era aquela mesma moça de cabelos azuis. E era bonita. Então, como diabos Kuwabara conhecia uma mulher tão bonita como ela e nunca o ouviu contando vantagem para cima de si?
De repente, Botan se levantou, pagou a conta e saiu apressada. Não conseguiria ficar naquele restaurante sem encarar o ruivo novamente, sem ter noção do que dizer. De jeito algum conseguia entender o que aquele ator estava fazendo nos EUA, mas tinha que ter uma idéia para um roteiro o mais rápido possível para ter alguma desculpa para falar com ele e, mais importante ainda, para que ele trabalhasse em um de seus filmes antes que fosse chamado por outro diretor ou outra produtora. Tirou o celular da bolsa enquanto andava de volta para seu apartamento e discou o número de sua assistente.
-Alô, Yukina? –Botan dizia um pouco alto por causa do barulho do trânsito da cidade.
-Sim, Botan, precisa de algo?
-Eu sei que te dei folga depois que o filme foi concluído, mas preciso de você agora e vou precisar de novo daqui duas semanas.
-Você está me assustando! O que houve? Está tudo bem?
-Sim, está, leu meu e-mail, certo?
-Sim... eles cancelaram a estréia em Hollywood?
-Deus me livre! Não é isso, isso ainda está de pé. Eu preciso de um número de um ator japonês. Conhece algum Shuuichi Minamino?
-Conheço bem! Meu namorado é amigo dele!
-... Espera... Kazuma conhece o Shuuichi? –Botan parou em frente à entrada do prédio. –Yukina, por favor, consiga o número do telefone dele porque eu o quero no próximo projeto. Eu o vi em um restaurante agora pouco, mas achei que daria merda se eu brotasse ao lado dele já chamando para alguma coisa, tão informalmente.
-Eu te entendo. –Yukina soltou uma risada. –Não tem problema, daqui a alguns minutos eu te ligo e você pega o número dele, tá bom?
-Você salvou minha vida. E como vai seu irmão?
-Ele está bem, me ligou ontem à noite. A banda dele ainda está em turnê, mas juro que não sei como está durando tanto... ele é tão... bem, você sabe como Hiei é. Então não sei como ele consegue ser baixista de uma banda que sonha tão alto.
-Não tente entendê-lo, é o melhor que você faz. Ele voltará para Nova Iorque logo? –Botan adentrou o prédio e foi até o elevador.
-A previsão é que até semana que vem ele volte.
-Beleza! –Já dentro do elevador, Botan apertou o botão correspondente ao seu andar. -Leve ele com você para a estréia, se ele não estiver muito ocupado. Diga a ele que eu o convidei.
-Sem problemas, Botan.
-Se cuida, Yukina. Falo com você mais tarde, muito obrigada.
-De nada, Botan, já te ligo.
Após desligarem, Botan saiu do elevador e foi tirando a chave do apartamento do bolso da calça. Ao abrir a porta, entrou e tirou a bolsa do ombro, jogando-a no sofá mais próximo da porta e fechou a mesma. Com um suspiro, sentou-se na poltrona e foi tirando os saltos que usava, assim como desprendeu os cabelos longos do rabo-de-cavalo em que estavam presos. Pegou o bloco de anotações que estava na estante da TV ao seu lado e uma caneta que estava por perto, já preparada para quando recebesse a ligação de Yukina. Sabia que Yukina era rápida e eficiente, então logo, logo, estaria tudo nos trilhos conforme os planos de Botan.
-o-o-o-o-o-o-
Kurama saiu do restaurante minutos após Botan. Tentava se lembrar do nome dela, tinha certeza que vira seu nome no celular de Kuwabara, mas não lhe vinha à mente. Passou as mãos pelos longos cabelos e resolveu esquecer: ela é amiga de Kazuma, então não é problema seu. Poderia comentar algo com ele, mas nada mais que isso – sua curiosidade de agora não deveria ser tão boba por causa da beleza da moça, parecia um adolescente cheio de hormônios. Ao entrar em seu prédio, sentiu o celular vibrando em seu bolso e o atendeu.
-Alô? –Disse o ruivo ao ter sorte de conseguir entrar no elevador antes que o mesmo fechasse.
-Sou eu. –A voz de Kuwabara era inconfundível para ele. Ao apertar o botão do andar onde morava, Kurama lhe disse com um tom curioso.
-Ei, Kuwabara. Aconteceu algo? Achei que estivesse ocupado com a edição do filme.
-Não, na verdade o trabalho está feito.
-Entendi. Então, o que foi? Aconteceu algo com a Shi?
-Também não. Para dizer a verdade, Yukina me perguntou se eu poderia passar seu número a uma amiga dela... digo, para a chefe dela.
-Chefe? –Indagou com uma das sobrancelhas arqueadas.
-Sim. Não se lembra? Eu e ela trabalhamos para a mesma pessoa, a Botan. A diretora de filmes, lembra, grande ator japonês? –Kuwabara dissera com um tom irônico para depois rir. Kurama riu baixo enquanto saía do elevador.
-Claro que sim, não tem que falar desse jeito. Mas... sua irmã mexeu alguns pauzinhos para isso acontecer ou aparentemente foi interesse da senhorita Botan?
-Foi interesse dela. Posso passar seu número? Diga logo que preciso sair com Yukina daqui a pouco.
-Tudo bem, pode passar. Ah, e vi de relance uma amiga sua em um restaurante aqui perto, mas não lembro o nome dela.
-Depois falamos sobre isso, tenho mesmo que ir. Yukina está aqui te mandando um abraço e me apressando. –Mesmo que Kuwabara provavelmente tenha tentado disfarçar, Kurama ainda ouvira um "estou indo, querida" de uma maneira totalmente cheia de submissão. O ruivo segurou a risada enquanto abria a porta de seu apartamento. –Até logo, Kurama.
-Até. –Ao desligar o celular, guardou-o novamente no bolso e fechou a porta de seu apartamento ao entrar. Tinha que fazer uma ligação para seu empresário antes de pensar em fazer qualquer coisa pelo resto do dia. Pegou o telefone e discou o número. Esperou um pouco até que ele finalmente resolveu atender ao telefone com uma voz sonolenta:
-Alô...?
-Koenma, não me diga que ficou acordado a noite toda de novo, por favor.
-Ah, Shuuichi, é você. Claro que fiquei, tive que festejar por você, já que você é tão sério.
-Não seja tão infantil. –Kurama se sentou no sofá. –Escute, conhece Botan Takai?
-Apenas de nome. Eu vi alguns filmes dela e são bons, e você sabe que sou um chato exigente.
-Que bom... porque parece que ela se interessou pelo meu trabalho.
-Isso é fantástico! Ela entrou em contato com você?
-Logo irá. Se ela quiser alguma reunião comigo, eu te aviso.
-Sim, mas tome cuidado. Ouvi dizer que ela te castra só com um olhar.
-Deixe de exageros e volte a dormir. –Disse Kurama em meio a leves risos. –Até mais tarde, Koenma.
-Tchau, Shuuichi, obrigado por me avisar.
-De nada.
Quando ele desligou, ouviu o celular tocando. Com um suspiro pesado, tirou-o do bolso e viu que era um número desconhecido. Ao atendê-lo, ouvira uma voz levemente estridente:
-Alô, com quem eu falo?
-Shuuichi Minamino, quem é?
-Ah, boa tarde! Eu sou Botan Takai e gostaria muito de marcar uma reunião com você. Estou pensando em um novo projeto para um filme e acho que você se encaixa bem no papel principal. –No outro lado da linha, por mais que parecesse calma, Botan segurava o telefone com uma das mãos enquanto a outra escrevia rapidamente uma lista de coisas em um papel.
-Para ser sincero, eu vi apenas um de seus filmes, mas gostei de seu trabalho. Podemos agendar algo.
-Sim, eu vou pedir para a minha assistente verificar novamente a minha agenda e ela entrará em contato para marcar algo em definitivo. Eu liguei para confirmar seu número, mesmo.
-Está confirmado. –Kurama sorriu. A moça do outro lado da linha parecia ser simpática, e não uma "castradora de atores".
-Daqui cinco minutos, ela ligará para você. Qualquer dúvida, pode ligar para mim porque, bem, ela está de folga, mas me fará esse favor.
-Eu entendo. Qualquer coisa, então, eu ligo para a senhorita.
-Obrigada, até mais.
Ao desligar o celular, Kurama ficou olhando o aparelho de um jeito confuso. Deveria estar feliz, mas se sentia preocupado e tenso. Uma "parceria" entre ele a Botan poderia ser alarmante e muito boa, afinal ambos vieram do oriente e estavam fazendo um grande sucesso pelos EUA, porém começava a achar que os boatos que ouvira por aí sobre ela – sendo que "por aí" resume-se a seus colegas de trabalho – pudessem mesmo ser verdade. De qualquer modo, nunca dera trabalho a nenhum diretor e duvidava que começaria agora, então tratou de relaxar e esperar pelo telefonema. Achava engraçado como os contatos entre pessoas daquele ramo aconteciam de modo tão rápido e certeiro.
"Que coisa maluca." Pensou ele antes de sorrir de canto e colocar o celular na mesa de centro.
Continua.
Aí está o capítulo 3. Não sabem o quanto estou com medo de errar algumas coisas nessa fic por causa de detalhes, mas... é melhor continuá-la e ir tentando fazer algo firme do que simplesmente desistir. i_i' Até o próximo capítulo, que está quase pronto. :*
