"Quero que você seja minha médica." Ele olhou fundo nos olhos dela. "Só minha."

"Eu pedi educadamente primeiro"

"Como assim?" Ela arregalou os olhos. "Estou começando a achar que você está realmente maluco".

"Weasley, pensa só: Eu não sei como você fez isso, mas mesmo que por alguns minutos apenas você conseguiu convencer John a fingir que era eu e enganar duas das pessoas que melhor me conhecem nesse mundo. Eu preciso de você." Ginny gostou de como aquilo soou. "E além do mais, os dois já acham que estamos namorando de qualquer jeito, então daqui a pouco todo mundo vai estar sabendo. Seung Jo não vai me deixar escapar imune, tenho certeza que amanhã toda a empresa já saberá da noticia."

Ginny baixou a cabeça e colocou uma mão na testa.

"Merlin, onde é que você me meteu, Malfoy?"

"Não, querida, você se meteu nessa sozinha! Ninguém mandou sair por aí flertando com os alteregos alheios!" Ela olhou-o com incredulidade.

"O que você está sugerindo?"

"Além do mais você disse que queria me tratar. Você procurou isso."

"Vai se danar!" Ela gritou com raiva "É verdade que seu caso me deixou curiosa, mas jamais largaria meu emprego pra ser sua médica particular, fala sério."

"Não posso te deixar fazer as duas coisas. As pessoas desconfiariam que você pudesse estar me tratando. Minha vó está louca pra saber o que eu andei fazendo nos EUA por tanto tempo."

"Ok, então sinto muitíssimo Malfoy, mas vou ficar com meu emprego. Arrume você outra pessoa e adeus."

Ela se virou para ir embora, mas Malfoy segurou seu braço antes que pudesse dar um passo.

"Também não posso deixar você fazer isso." Ele olhou para ela e Ginny viu que ele estava decidido. "Se for preciso eu posso fazer com que você seja demitida Weasley. Preferia que você me escolhesse por vontade própria, já que eu vou te pagar melhor e você vai ter menos trabalho. Mas não posso deixa-la ir."

Me demitir? Isso está indo longe demais, como Malfoy faria isso?

"Posso saber ao menos porque você esta sendo tão insistente quanto a isso?" Ela suspirou.

"Me surgiram vários motivos." Ele começou. "Depois que você me enviou aquela coruja fiquei pensando se deveria ir procura-la ou não. Decerto que a minha vontade era nunca mais ter que olhar para sua cara novamente." Ginny rolou os olhos com impaciência. "Mas a situação está complicada para o meu lado. Já te falei que tem muita gente me vigiando depois que eu voltei, e ninguém sabe o motivo pelo qual fui embora. Vou começar a trabalhar na empresa de minha vó e para alguém como eu isso vai ser muito difícil fazer sem que ninguém perceba minha condição. Você já descobriu tudo e conseguiu controlar John, que é o maior dos meus problemas. Você é uma Weasley, e como os outros imagino que tenha uma moral inabalável e que vai guardar o meu segredo."

Até seus elogios soam como críticas, Ginny pensou.

"Por destino ou coincidência, como você preferir, o fato é que Lance encontrou com você, uma psiquiatra, e te envolveu nessa história toda. Se eu pudesse escolher as coisas não iriam por esse caminho, mas depois que John resolveu anunciar que estamos namorando não consigo pensar em um disfarce melhor para que você me trate sem que ninguém descubra sobre a minha doença."

Ginny ficou olhando para ele e sentiu pena. Realmente, a situação estava bem difícil para Draco Malfoy, e ela podia imaginar o quanto ele deve ter sofrido todos esses anos que passou escondido e os problemas em que seus alteregos poderiam metê-lo.

Maldito sangue Weasley, sempre querendo ajudar os outros.

"Vou pensar no seu caso." Ela disse simplesmente, apesar de Malfoy não ter lhe dado essa opção. "Agora me deixe ir para casa, preciso dormir."

A conversa chegara ao fim e cada um seguiu seu caminho. Ginny chegou em casa e Alexa já estava dormindo. Deitou-se pensando em Malfoy, e um estranho sentimento invadiu-a. Ela não soube se era empatia ou pena. Um não estava muito longe do outro.


Ginny chegou ao St. Mungus no dia seguinte e todos os funcionários estavam fofocando a seu respeito. Ela se lembrou de como Malfoy a havia tirado do hospital no dia anterior e a notícia havia se espalhado rápido. Ignorou os comentários maldosos das enfermeiras invejosas que julgavam "ele bom demais para ela" e foi fazer seu trabalho.

O médico chefe da psiquiatria era um senhor gordinho e baixo chamado Thomas Hall. Ele usava óculos redondos e tinha cabelos grisalhos – onde ainda havia cabelo – e andava sempre com um sorriso fofo no rosto. Era um homem bonzinho. Naquela manhã o Sr. Hall chamou Ginny para conversarem em seu consultório.

"Srta. Weasley," Ele começou, sentado atrás de sua grande mesa de carvalho. "Você tem feito um ótimo trabalho no hospital e é uma profissional muito competente." Ele sorriu e Ginny agradeceu o elogio. "Mas parece que eu não fui o único a notar suas qualidades. Existe um paciente que faz questão de seus serviços particulares. Deve ser importante, porque o diretor do hospital veio falar comigo pessoalmente a respeito."

Ginny fechou os olhos e suspirou. Não é possível que Malfoy arranjou isso tão rápido, pensou.

Thomas Hall tirou um papel da gaveta de sua mesa e entregou nas mãos de Ginny. "É um acordo de confidencialidade. Aparentemente esse paciente deseja permanecer anônimo e esse é o documento que você deve assinar concordando em manter sigilo."

Ela olhou para o documento e lá estava o nome que andava assombrando-a. Paciente: Sr. John Crane.

"E se eu não quiser trata-lo? Tenho certeza que existem psiquiatras mais qualificados do que eu que podem cuidar do serviço."

"Temo que não exista essa opção. O paciente faz questão que seja a Srta, e apenas a Srta." Ginny bufou. Toda a empatia que sentira na noite anterior fora substituída por raiva.

Como esse desgraçado acha que tem o direito de fazer isso?

"Mas talvez seja uma boa experiência para você, Srta. Weasley. Pense nisso como uma oportunidade profissional."

"Vou pensar no assunto" Ela respondeu duramente, já se levantando para sair do consultório.

"Desculpe, Srta. Weasley. Mas o diretor me deu instruções claras para afastá-la do St. Mungus caso não concordasse. Sinto muitíssimo."

Ginny virou-se para Thomas Hall ainda de pé. Ele parecia genuinamente chateado e ela pensou que não deveria ser fácil ter sua autoridade diminuída daquela forma.

Então era isso. Assim que Malfoy ia agir, bem típico dele, precisa ter tudo do jeito que quer e na hora que quer. Bem, que seja. Se ele continuasse fazendo isso Ginny ia dar um jeito de apaga-lo e deixar qualquer outra personalidade ficar em seu lugar. Não seria má ideia ameaça-lo com essa possibilidade.

Ela pegou o papel e assinou a contragosto.

"Você fez bem, Srta. Weasley. Acho que isso será apenas temporário. Depois terá seu emprego de volta no hospital." Ela concordou com a cabeça, devolvendo o papel para Thomas. "O diretor me disse para lhe entregar isso" Ele disse, pegando o papel que Ginny havia assinado e entregando um pedaço de pergaminho dobrado para ela. Ginny abriu, havia um endereço. "Aparentemente o Sr. Crane deseja que a senhorita o encontre nesse endereço hoje a qualquer hora do dia. Parece que precisam resolver os termos do tratamento."

Ginny concordou com a cabeça, ainda de mal humor. Malfoy a estava tratando como sua bonequinha.

"Obrigada, Sr. Hall" Agradeceu, mais por educação do que por se sentir agradecida. "Sinto muito por isso."

"Eu também, Srta. Weasley. Não pude fazer nada para impedir, foram ordens diretas.

"Eu entendo" Ela respondeu, e ele deu mais um de seus sorrisos fofos, com os olhos brilhando por trás dos óculos.

"Boa sorte!" Ele desejou, e Ginny saiu do escritório.


Ginny foi direto para o seu armário no St. Mungus e começou a juntar suas coisas. Estava louca para encontrar logo com Malfoy e dar-lhe uma bronca.

Que direito ele tem de fazer isso? Mexer na vida dos outros sem pedir licença. E como diabos ele conseguiu que o diretor do hospital concordasse com essa idiotice?

Ela nem percebeu, mas Jason Williams estava parado ao seu lado observando-a enquanto ela jogava raivosamente suas coisas dentro da bolsa e xingava baixinho.

"Ouvi dizer que você andou se metendo com Malfoy." Ele disse, e Ginny pulou de susto.

"Ah, Jason! Quase me mata." Ela disse, recuperando o fôlego. Depois o olhou curiosa. "Quem te disse isso?"

"Bom, todo mundo no hospital está sabendo que ele saiu daqui com você duas vezes esse mês." Ela rolou os olhos, impaciente. "Você sabe como as curandeiras adoram uma fofoca."

"Sei bem"

"Também tem o fato de que os Malfoys são um dos maiores contribuintes do St. Mungus." Ginny olhou-o com interesse. Esse fato era novo.

"Eu não sabia disso."

"Eles são. O diretor não se arriscaria a perder esse dinheiro. E agora você vai embora. Achei que pudesse ter alguma coisa a ver com Malfoy."

"Jason, por favor, preciso que você deixe esse assunto para lá." Ela o olhou, séria. Se aquele boato se espalhasse e conseguissem ligar seu afastamento com Malfoy ela estaria em apuros. "Vai ser só por um tempo, e depois eu volto. Por favor, não fale disso com ninguém."

Ele deu de ombros. "Tudo bem." Concordou. "Mas saiba que qualquer coisa você pode me procurar Ginny."

"Eu sei" Ela sorriu agradecida, pegando sua bolsa – agora bem mais pesada que antes – e colocando-a sobre o ombro. Deixou o jaleco com seu nome em cima de uma cadeira e deu-lhe uma última olhada triste. "Preciso ir. Nos vemos por aí."

Então saiu, deixando Jason para trás.

"Tchau Ginny." Ele falou, sabendo que ela não ouviria.


Draco andava impacientemente de um lado ao outro em sua grande sala de estar. Blaise o observava sentado no sofá, já fazia quase uma hora que ele não parava.

"Draco, sente-se. Ela vai chegar." Ele disse, assisti-lo estava deixando-o nervoso. "Você não a deixou com outra opção".

"Eu sei, mas está demorando." Draco parou repentinamente e olhou para Blaise. Nos últimos dez anos Blaise havia sido seu braço direito. Quando a guerra acabou, os dois não foram muito bem vistos e não tinham o que fazer na Inglaterra. Blaise concordou em ir para os Estados Unidos quando Draco descobriu sobre sua doença. Ele ajudava a controlar os alteregos. Conhecia todos eles.

A campainha tocou. Draco arregalou os olhos e Blaise riu de como ele estava nervoso. Não é uma cena tão comum ver Draco Malfoy se sentindo nervoso ou ansioso por algum motivo. Ele sempre havia vivido a vida em seus próprios termos, apesar das condições.

O louro jogou-se no sofá e tirou um lenço do bolso, limpando o suor da testa. Olhou para Blaise e indicou a porta com a cabeça. Ele queria parecer tranquilo quando ela aparecesse, e Blaise riu consigo mesmo, levantando-se para atender à porta.

Ele a abriu e lá estava Ginny Weasley, 14 anos depois da última vez que a vira. Não havia mudado muita coisa. Na opinião de Blaise, estava ainda mais bonita, suas feições continuavam as mesmas, mas agora tinha um corpo de mulher e um ar de segurança que não existia quando era mais jovem. Seus cabelos, ainda mais vermelhos do que ele se lembrava, estavam presos em um firme rabo de cavalo e ela usava uma blusa social verde militar, uma saia da mesma cor e saltos pretos desgastados. Não tinha muito senso de estilo. Ela carregava uma bolsa preta que parecia que ia explodir de tão cheia. Pareceu surpresa ao vê-lo, mas por trás de seus bonitos e grandes olhos castanhos com longos cílios ruivos dava pra perceber que estava com raiva. Muita.

"Zabini." Ela cumprimentou secamente e Blaise abriu um grande sorriso nos lábios grossos, mostrando dentes perfeitamente brancos.

"Weasley!" Ele saiu da frente para que ela entrasse e então fechou a porta. "Que bom vê-la depois de todos esses anos. Desculpe pelo outro dia, sabe? A confusão com John e Lance, eu devia ter estado lá..."

"Devia, dessa forma eu não estaria aqui agora." Ginny retrucou sem sorrir, parada olhando para Blaise. Ele não se intimidou.

"Vamos até a sala, Draco está esperando."

"Draco está esperando" Ela repetiu em uma voz debochada, como uma criança briguenta faria. "Esse idiota acha que pode me obrigar a ir e vir conforme seu próprio gosto."

Blaise não respondeu. Apenas seguiu na frente através da copa até a sala de estar, onde Draco estava sentado no sofá, parecendo muito mais controlado do que há 5 minutos.

"Weasley, porque demorou tanto?" Ela deixou a bolsa pesada cair no tapete e avançou até ele, puxando-o pela camisa até ficar em pé. "Porque está tão brava?" Draco perguntou com um sorriso de escárnio no canto do lábio.

"Você é um grande folgado! Porque eu deveria ajuda-lo, hein?" Resmungou ela, soltando-o a contragosto.

"Vou te pagar muito bem para fazer isso, Weasley." Ele respondeu apenas, se sentando novamente no sofá. "Anda, sente-se. Agora você trabalha para mim, não tenho tempo para seus draminhas."

"Você acha justo usar seus contatos e seu dinheiro sujo para remexer assim na vida das pessoas?" Ela continuou de pé, olhando para ele e esperando uma resposta.

"Olha, Weasley. Eu pedi educadamente primeiro."

Ela bufou novamente e Blaise achou que talvez ela fosse mesmo bater nele. Resolveu interferir.

"Eu não teria nada contra alguém, especialmente você, dar um belo tapa em Draco, Weasley." Ele começou, sentando-se do outro lado do sofá. "Mas ele não lida bem apanhando. Costuma ser um gatilho para trocar de personalidade. Acho melhor não pagarmos para ver."

"Blaise tem razão. Prefiro ser eu mesmo por enquanto, pelo menos para explicar-lhe o serviço."

Ginny pareceu acalmar-se um pouco e sentou no sofá. "Posso te oferecer alguma coisa, Weasley?" Perguntou Blaise. "Água, suco...?"

"Tem cerveja?"

"Claro. Vou trazer três." Blaise levantou-se e saiu do cômodo.

"Ora, Weasley. Não fique assim. Você queria isso, lembra? Também não estou achando a melhor coisa do mundo, todos acham que estamos namorando..."

"Malfoy, o que você quer de mim? Eu não vou conseguir te curar. Nunca vi um caso desses e se seu médico, que te tratou por anos não conseguiu, o que o faz acreditar que eu vá?"

"Não preciso que você me cure. Não tenho expectativas tão altas. Quero que controle meus alteregos, principalmente John, até que eu arrume uma boa desculpa para voltar aos Estados Unidos e continuar meu tratamento lá. Talvez seja só por alguns meses. Até o fim do ano."

"Espero que você me pague muito bem." Draco riu.

Blaise voltou com três latinhas e distribuiu-as. Todos ficaram em silencio por alguns segundos enquanto bebericavam suas cervejas, um clima tenso tomou conta do lugar.

"Vou buscar as coisas e te explicar o que eu sei sobre minha doença e o que eu quero que você faça."

Draco se levantou e subiu as escadas.

"Então, Weasley." Começou Blaise, dando mais um gole em sua cerveja "Soube que John Crane está apaixonado por você. Isso nunca aconteceu antes."

"Parece que sim." Ginny sorriu com ironia. "E graças a isso eu perdi meu emprego e vim parar aqui. Maldito seja John Crane." Blaise riu.

"Isso parece bem mais normal. Alguém o chamando de maldito. Draco já foi parar na delegacia algumas vezes por causa de John. Ele tem a mania de sair por aí batendo em pessoas..."

"É, eu percebi." Ela interrompeu.

"Draco tem medo de que ele acabe matando alguém." Ele continuou, e Ginny arregalou levemente os olhos, mas tentou disfarçar.

Matar alguém? Isso traria muitos problemas para Malfoy, ela pensou. Não me admira que ele esteja sendo tão insistente para que eu o trate. Pelo menos, nas poucas vezes que nos encontramos, consegui manter John minimamente sob controle. Pelo visto eu fui a primeira pessoa a conseguir tal proeza.

"Você acha que ele seria capaz?"

"Acho que sim. Talvez sem querer, enquanto bate em alguém."

Ginny apenas ficou quieta, pensando. Será que John seria capaz de fazer algo assim com ela, caso o desagradasse? Teria que trata-lo com cuidado.

Draco Malfoy começou a descer os degraus de volta à sala, enquanto carregava uma imensa pilha de papel. Ele jogou tudo em cima da mesa, causando um estampido.

"Todos os relatórios que meu médico americano fez sobre o meu caso." Ele olhou para Ginny e riu ao ver sua expressão abismada. "Blaise me fez o favor de trazê-los."

"E eu vou ter que ler tudo isso?" Ela perguntou.

"Pode ir devagar. Vou lhe fazer um pequeno resumo." Ele sorriu, sentando-se novamente no sofá e pegando a latinha de cerveja que havia deixado na mesa de centro. "Srta. Weasley, eu lhe apresentarei aqui as outras faces de Draco Malfoy."

"Mal posso esperar."


N/A: Primeiramente peço perdão por esse capítulo chatíssimo, sem alteregos, sem emoções e etc, mas foi necessário pra história né :/

Agora quero agradecer às reviews de quem anda me acompanhando! Uma que seja já me dá um gás pra escrever mais, muito obrigada mesmo!

LadyHarukaS2: Virão mais personalidades, no próximo capítulo Draco vai dar uma sinopse básica deles pra Gin já saber o que esperar e com o que ela está lidando. Ele tem noção de todas, porque faz tratamento há anos e o Blaise ajuda ele também a se manter informado sobre os alteregos, a personalidade deles e o que eles fazem. Sobre o nome do John, Crane é o sobrenome de uma autora que eu estava lendo e foi daí que tirei. Conheço John Wayne (e talvez possa ter algo a ver) tem um ator com o nome e um serial killer também. Hahaha. Obrigada pela review! :*

Liane: Muuuito obrigada! Fique super lisonjeada com o elogio, espero que continue acompanhando e goste do restante da minha história! Beijos :*