File 1: A casa da colina

Part 1: o grito de socorro

Chegaram animados no escritório. Haviam resolvido o maior caso que a SPR já havia pego. E um dos principais motivos era a participação integral de Mai. Tanto se deixando servir como hospedeira do espírito que queria ajuda, quanto atraindo o monstro que aterrorizava a casa.

Mai estava tendo todas as glórias pelo ocorrido e, embora insistisse em incluir todos na façanha, tinha que aceitar os elogios dos colegas. Até mesmo Naru havia comentado com Lin que ficara impressionado com sua atuação. Não esperava que seu ESP estaria tão evoluído a ponto de se igualar ao de Masako. E isso foi algo que a chocou muito.

Agora estavam a conversar animadamente no escritório. Mai havia feito chá a todos e se juntara á conversa também. Sempre ignoraram as reclamações de Naru quanto a transformar a sede da SPR num bar, ou uma lanchonete, onde pudessem conversar após cada caso.

Mai já havia percebido que Masako ficara quieta e solitária na ponta do sofá desde que chegaram. Mal tocara na xícara que estava á sua frente. Não sabia o que se passava com ela. Mas não podia chama-la para uma conversa na frente dos outros. Esperaria até que desse a hora de Naru enxotar todos e a chamaria para conversar enquanto iam para casa.

- Vocês não têm casa? - Naru irrompeu a sala. Seu tom de voz expirava um mau-humor crônico. - não acham que está na hora de irem embora?

- Demo, Naru-chan... - Takigawa começou mas Mai o interrompeu.

- Bem... sinto muito gente... mas ouviram. - pela primeira vez Mai agradeceu a intolerância de seu chefe. Sentiu-se um ET quando todos a olharam estranhamente. - Gomen ne.

Acompanhou-os até a porta se despedindo de todos. Ayako, John, Yasuhara, Hoshou e...

- Ah, Masako? - chamou quando a médium passou pela porta.

Ainda não eram grandes amigas como Keiko ou Michiru, mas estavam caminhando para a amizade. Não que ainda não brigassem para ver quem faria o chá de Naru ou pelos ataques de ciúmes uma da outra. Mas em geral começaram a se dar bem. Principalmente nas investigações.

- O quê, Mai?

- Você me espera? Eu não demoro. Quero conversar com você. - acrescentou mentalmente e sorriu perante a surpresa da quase amiga.

- Claro. - voltou e se sentou no sofá. - mas minha casa não fica pelo mesmo lado da sua.

- Eu não me importo de andar. - disse recolhendo os copos.

- Mai. - Naru a chamou.

- Hai? - respondeu virando-se.

- Feche a porta quando sair. - Naru e Lin apareceram na sala. Por uma fração de segundos, podia jurar que ele sabia o por quê dela ter dito a Masako a ficar.

- Claro. - viu-o pegar o casaco e sair porta afora com Lin.

- Ele deposita muita confiança em você. - murmurou encarando a porta.

- Talvez... para tomar o chá que eu faço. - Riu com o pensamento de colocar algo na bebida do chefe caso ele a irritasse demais.

- O que queria comigo, Mai? - viu-a ficar séria.

- Eu vi que você ficou muito quieta. Queria saber por que, mas não quis perguntar na frente de todos. Então? O que foi?

- O que você acha que foi, Mai?

- Não sei. - mentiu se sentindo mal por esconder seus pressentimentos. - me conte você.

- Acho que suas habilidades estão crescendo demais.

- Vai me contar? - insistiu enxugando o copo que tinha nas mãos.

- Desde que voltamos... eu tenho sentido algo estranho no ar... principalmente uma aura ao redor do Naru... - viu-a se espantar. - e ao seu também.

- Ehhh? Que tipo?

- Não sei, Mai. Mas acho que esse caso ainda não acabou. - disse observando as próprias mãos. - podemos ter deixado algo passar.

- Sinceramente, também senti isso.

- Será que Naru sabe a motivação daquele homicida?

- Se sabe, vai levar para o túmulo. - pensou um pouco. - aquela casa cheirava á queimado. E apenas nós três percebemos.

- Naru também?

- Acho que sim. Lembra que ele reclamou de algo?

- Un... Mas por que o lugar estava queimado se todos morreram envenenados?

- Não sei, Masako... você que é a intelectual entre nós. Eu sou a burra, lembra?

- A menina não te mostrou mais nada?

- Eu contei tudo o que vi. - rebateu pegando suas coisas.

- E se você deixou algo passar? - levantou-se rumando á porta.

- Talvez... - acompanhou-a. - ne, Masako...

- nani?

Mai sabia que a médium estava escondendo alguma coisa. Algo que aconteceu durante o caso e que foi grave o bastante para Naru ter se irritado e os outros a excluírem. Hara-san havia se mantido afastada do grupo desde que retornaram de Okinawa. Embora não terem demonstrado, sabia que a estavam ignorando.

- Aconteceu alguma coisa que eu não saiba, Masako? - viu um lapso de surpresa passar por seu rosto embora tentasse manter a expressão.

Não conte a ela. A voz de Naru ecoou em sua mente enquanto se lembrava do que lhe foi pedido.

- Alguma coisa? - respondeu com outra pergunta.

- Enquanto eu estava possuída, o que aconteceu?

- Nada, Mai. - foi o que disse antes de ir embora.

Suspirou se sentindo excluída. Tinha plena certeza que estavam mantendo-na no escuro. Virou-se e foi embora.

A aula havia acabado mais cedo por conta das provas de faculdade. Se matara de estudar nos últimos dias, desde que encerraram o caso.

Por mais que tentasse manter a calma para se concentrar no trabalho, não conseguia esconder o nervosismo e reprimir a ideia de não conseguir uma boa nota.

Naru iria implicar comigo pelo resto da vida! Pensou subindo as escadas

Parou de pensar quando algo lhe chamou a atenção. Uma aura sinistra tinha tomado conta do Hall de entrada. Paralisou vendo, por sua visão periférica, um vulto negro parado atrás dos vasos. Começou a entrar em pânico quando aquilo se mexeu.

A sombra se aproximou e, mancando, parou a seu lado. Virou-se para a figura sentindo o pânico em seu rosto.

- Bom dia. - ouviu da pessoa á sua frente e u arrepio seguiu atrás da nuca. Embora tivesse a certeza de que aquele vulto não era um espírito, não podia deixar de ficar apavorada.

A moça era pouca coisa mais baixa que Mai e o manto que a cobria a fazia parecer menor. O capuz lhe cobria o rosto inteiro e lhe dava um ar fantasmagórico. Lembrou-se das imagens de ceifeiros que descobrira na internet e imaginou-a segurando uma foice.

- Bom dia. - a moça repetiu a pergunta retirando o capuz e revelando o rosto. Percebera que a assustara.

- Bom dia! - gaguejou analisando-a.

Ela tinha um rosto muito bonito. As feições latinas contrastavam com sua descendência japonesa. O corte do cabelo negro fazia a franja cair lateralmente e cobrir parte do rosto. O olho á mostra era escuro e melancólico. Distantemente lembrava os de seu chefe, estes eram calorosos. A boca era um pouco desigual e cheia. O lábio superior menos saliente que o inferior. Se perguntou se ela era modelo de fotos.

- Você é do Shibuya Psychic Research? - ela perguntou. - a SPR?

- Sim. Veio fazer um pedido?

- Preciso da ajuda de vocês. É urgente! - espantou-se co o to usado.

- Entre, por favor. - disse abrindo a porta. Ainda tremendo pelo susto.

- Desculpe tê-la assustado. - ela disse.

- Não se preocupe. - engoliu a seco. - Cheguei!

- Mai? - Naru chamou do hall onde se fazia o chá. - o que faz aqui?

- Fomos dispensados mais cedo. - ouviu-o se aproximar.

Aquela declaração teria a deixado ofendida se, primeiro, não tivesse entendido o motivo da pergunta e, segundo, não tivesse uma cliente que precisava urgentemente de ajuda.

- Temos uma cliente, Naru. - anunciou quando ele alcançou suas vistas. - é importante.

Viu seu chefe se surpreender com a figura sinistra parada ao seu lado e imaginou se ele a conhecia.

Naru estava espantado, apesar da face desprovida de emoção. Em todos esses anos de investigação paranormal, nunca havia tido a oportunidade de se envolver em um caso em que um psíquico do porte Dela estava envolvido. Tampouco que Ela não pudesse resolver.

- Nakamura. - cumprimentou tentando disfarçar sua surpresa. Era a primeira vez que se encontrava com ela cara a cara.

- Doutor Oliver Davis. É um prazer conhece-lo pessoalmente. - a moça retribuiu o cumprimento co um sorriso. Naquele momento, Mai teve a certeza de que ela era famosa. Será que era igual a Masako?

- Igualmente. Qual delas você é? - ele perguntou.

- A mais nova. Acho que você conheceu minha irmã mais velha.

- Sim, Youko. - ele se dirigiu á porta e gesticulou para ela entrar. - por favor.

- A moça seguiu pelo local indicado e se sentou, elegante e intimidadora, em um dos sofás.

- Mai. - Naru chamou em tom de pedido. - chá

- Hai! - seguiu para a saleta.

- Yo, Taniyama-chan. - Yasuhara estava passando um café quando a menina chegou. - e as provas?

- Difíceis. - disse pondo agua para esquentar. - Acho que não consigo uma boa nota.

- Consegue sim... - ele parou e escutou o movimento na sala. - cliente?

- Sim. E pelo visto, é muito famosa. - disse enquanto preparava o chá. - Naru ficou espantado em vê-la.

Noll estava perplexo. Se Mai tiver entendido certo, tinha á frente á cliente mais instruída, poderosa e importante que conhecia de toda a comunidade paranormal.

Satiko de Lima Nakamura, ou simplesmente Nakamura Yoru, era a caçula das Gêmeas Psíquicas. Embora o nome, o quarteto era formado pelas irmãs quadrigêmeas: Youko, Reiko, Aiko e Yoru. Sendo que, todas elas, são muito respeitadas, quase em nível hierárquico, no meio científico - mais respeitadas até que ele próprio – por aceitarem protagonizar pesquisas e demonstrações de suas habilidades.

A mais velha, Youko, possuía um nível avançado de ESP. Desenvolvera todas as habilidades de Mai e Hara-san, e quem sabe muitas outras, em tempo recorde. Era considerada – depois de seu irmão Eugene ainda vivo – uma médium completa. E também atuava como exorcista.

As duas do meio, Reiko e Aiko, tinham pleno domínio de psicocinese, podendo transitar entre PK-MT e PK-ST. As duas faziam seu PK parecer truque de criança.

Por fim, seguindo a ordem etária, Yoru. Uma paranormal extraordinária que, além dos poderes psicométricos, cinéticos e sensoriais, tinha pleno domínio de PK-LT, poder que ele nunca teria domínio. Se não bastasse controlar todos esses poderes – e continuar com todos os fios de cabelo no lugar e continuar sóbria – tinha domínio perfeito e pleno exercício de Qigong. Façanha impossível para ele sem a ajuda de Gene.

E todas, se não bastasse tudo, todas as irmãs eram telepatas.

Nunca se permitiu sentir inveja de alguém, ou qualquer outro sentimento inútil do tipo. Para o cientista mais famoso da atualidade, o renomado Doutor Davis, sentir inveja de alguém era inadmissível, para não falar inútil. Mas mesmo sua mente objetiva abominando tal ideia, não podia deixar de invejá-la. Não pelos poderes que possuía, mas sim pelo seu controle e pelo fato de poder usá-los sem para num hospital. Mas, mesmo rejeitando a ideia, sabia que no íntimo a invejava por ainda ter suas irmãs.

Mas, também, lembrar de suas habilidades que a garota á sua frente possuía, enquanto a encarava, lhe dava a irritante sensação de inferioridade. E, para o sensato e indómito Oliver Davis, sentir-se inferior a alguém, mesmo que essa pessoa seja mesmo superior, era completamente inaceitável.

- O que a trás aqui, Nakamura-san? - perguntou assim que Mai entrou na sala com o chá.

- Preciso de sua ajuda, Doutor Davis. - sentiu-se imponente novamente pelo tom de humildade forçada da PK. - Nós não pediríamos sua ajuda se não fosse tão grave. Eu não pediria sua ajuda se eu não pudesse resolver isso.

- É grave o bastante a ponto de nos colocar em perigo? - precisava saber disso. Não podia submeter sua equipe a um perigo extremo se não se certificasse que teriam altas chances de sair vivos.

- Eu sei que não tenho o direito de lhe pedir algo tão arriscado quanto isso, tão pouco obriga-lo a aceitar e colocar seus subordinados em risco, mas... - ela engoliu o próprio orgulho e deixou-se tomar pelas emoções. Não era um caso profissional. - Eu te imploro, Doutor Davis! Nos ajude! É um caso de vida ou morte!

Olhou inconsciente para a assistente que ofegara, horrorizada, perante a declaração chocante.

Considerou aquilo em silêncio. Se as Gêmeas Psíquicas não conseguiram resolver o que quer que fosse, aquele caso deveria ser sério, e perigoso, o bastante para ter que manter toda sua equipe sob cautela velada. Principalmente uma certa ESP latente que tinha uma certa tendência a ser o alvo preferido de fenômenos sobrenaturais e paranormais.

- Naru? - Mai chamou-o.

Saiu de suas reflexões ao vê-las apreensivas. Mesmo com os supostos riscos, iria aceitar o pedido e investigar. Aquele caso estrava dentro de seus padrões de diversão – e, também, pelo fato de que as gêmeas psíquicas não conseguiram resolvê-lo. Mas, simplesmente, não podia aceitar aquele caso se não souber do que se tratava.

- Continue. - disse por fim. - conte o que aconteceu.

- Vai ajudar? - a esperança brolhou em seu rosto. Era muito sério.

- Primeiro preciso saber do que se trata, não concorda?

- Ah, sim. Me perdoe. Não parece, mas estou desesperada! Precisamos de ajuda antes que seja tarde!

- Então conte. - seu tom de voz era definitivo. Mai sentiu pena da moça que estava sob influencia daquele tom. Sabia, por experiência própria, que seu chefe odiava delongas e, quando ele usava aquele tom de voz, teria que se apressar e ir direto ao assunto.

- Desculpe. - ela deixou as mão enluvadas á mostra. - Em resumo, compramos a casa em que nossa mãe viveu quando solteira. Queríamos fazer uma surpresa dando-a de presente de casamento. Sabíamos que era assombrada, por que ela nos contava das coisas que acontecia lá. Classificamos e identificamos as categorias de Tezanne e mais alguns outros fenômenos poltergeist. Antes de reformarmos, decidimos, para a segurança dos técnicos, fazer todos os rituais de purificação e exorcismo que conseguimos. Chamamos monges e mikos para o trabalho, Aiko trouxe um padre australiano que ela conhecia para reforçar e até Youko fez seus exorcismos! Depois de tudo nee-chan confirmou que todos os espíritos se foram. Exceto sete. Há um cômodo que não conseguimos abrir. Tentaram feitiços de exorcismo e mais algumas coisas. Nada. A porta continua fechada e vive cheirando a queimado. Reiko queimou a mão na maçaneta.

- Se me permite. - Naru a interrompeu. - não vejo o motivo de pedirem minha ajuda.

- Tem razão, mas se ficasse apenas nisso, eu teria o imenso prazer de fazer o meu exorcismo. - ela sorriu. - e você sabe que minhas técnicas são mais... explosivas, que as das minhas irmãs.

- Ouvi falar.

- Pois bem. - ela desfez o sorriso e observou as mãos. - eu tentei fazer o exorcismo para tentar abrir a porta. Nada aconteceu. Eu tentei de novo com mais força. Nada. Não pude usar meu máximo, por que elas não queriam reduzir a casa a lenha. Deixamos quieto e procuramos por portas secretas... no dia seguinte, Aiko amanheceu com cicatrizes horríveis de queimaduras pelo corpo. Deduzimos que seria o inicio de uma possessão. Tentamos outro exorcismo mas as feridas pioraram. Tentamos outro exorcismo antes de levá-la para o hospital. Assim, se piorasse, os médicos tratariam das feridas.

- Estigmas?

- Não necessariamente. Agora sei que é algo pior. Em todo caso, não adiantou. Tentamos levá-la ás pressas ao hospital, mas... - ela apertou o tecido com força soltando um gemido imperceptível de dor. - Não conseguimos sequer tira-la de casa.

- Mai ofegou, horrorizada. Kazuya permaneceu em silêncio. Aquilo era pior do que imaginava.

- Na mesma semana, foi a vez da Youko-nee. As dela foram mais leves, mas se espalhavam. Em ambos dos casos, elas não podiam sair da propriedade. - Ela parou novamente, editando.

- Naru estava intrigado. Excluindo as queimaduras que se alastravam e o fato delas ficarem presas, ainda não entendia o pedido de ajuda. Já ouvira falar de inúmeros casos, alguns até acompanhara pessoalmente, em que trabalharam em situações piores que aquela e resolveram sem ajuda ou interferência de terceiros.

- Ainda não entendo, Nakamura-san.

Mai olhou, incrédula, para o chefe. Ele não tinha entendido? O Naru não tinha entendido? A situação dela?

- Eu mesmo já acompanhei casos piores que esse em que vocês resolveram sem interferência externa.

- Tem razão. O mais grave que resolvemos foi quando a onee-chan teve que nos exorcizar para encerrarmos o caso. Nós quatro entramos em coma depois.

Mai virou-se para Oliver e busca de entendimento. Agora partilhava a mesma dúvida do chefe. Se no pior caso elas conseguiram resolver mesmo em coma. O que ela estava fazendo ali?

- O que há de diferente neste? - Naru perguntou.

Ela suspirou. Este era o tão bem falado Doutor Oliver Davis? O mesmo que nunca perdeu um caso? O mesmo que tinha cinco doutorados antes dos dezoito anos? Ela teria que dar-lhe todos os detalhes?

- Eu pensei que você era bom entendedor, Kazuya. - ela usou o nome falso em sinal de irritação enquanto se levantava tirando as luvas. - Já que meias palavras são inúteis, vou ser crua e grossa.

Yoru jogou as luvas na mesa, quase molhando-as na xícara de chá que Mai havia lhe oferecido, e levantou as mãos, como uma modelo exibindo uma jóia, de forma irritada.

Não só as costas das mãos, mas as palmas das pequenas mãos da médium ressaltavam em queimaduras de padrões disformes. Bolhas vermelhas e amarelas estavam prontas para explodir.

Mai arrepiou-se inteira. Abraçou-se tentando parar de imaginar a dor que ela devia sentir. Tentou ignorar sua intuição pulsante.

- Agora vê? Atingiu todas nós! As minhas foram bem leves, apesar de feias. Apareceram de uma vez e eu tenho pouco tempo. - ela levou as mãos queimadas aos botões do manto, abrindo-os. - não sabemos com o que estamos lidando!

O tecido escorregou por seus ombros e caiu de mau jeito no sofá. Revelando o corpo da paranormal.

Ela era realmente baixinha. Os ombros largos, como de uma nadadora ou ginasta, estavam nus. Ela tinha as curvas avantajadas que ficavam mais evidentes pelo macaquinho tomara-que-caia de malha preta.

Mai se sentiria enciumada e irritada por ela ter mostrado o corpo daquele jeito, mas estava perplexa demais para se lembrar que deveria achar aquilo indecente.

Partindo do pescoço, descendo pelos ombros para os braços e pelo colo até as pernas, queimaduras escuras de tonalidades escuras, tomavam-lhe a pele. Raras as áreas livres.

- Quando atinge o rosto. - ela levantou o cabelo revelando o rosto quase deformado. - ficamos incapacitadas. Nossas habilidades caem drasticamente. Não conseguimos usá-las. Aiko está muito enfraquecida. Quase não sinto sua presença. Reiko e Youko estão indo pelo mesmo caminho

- A empatia está fraca. - não era uma pergunta.

- Não, Dr. Davis. É como se elas estivessem mortas. A "frequência" da presença delas está pela metade. - ela se jogou no sofá. - E o que me desespera é que Aiko está sumindo! No sentido literal do termo!

- Nakamura-san... - Mai sussurrou tentando confortá-la.

- Todas nós... - ela parou de falar quando uma musica a interrompeu. Ela se levantou e atendeu o celular. - licença. Reiko, o que aconteceu?

Ela escutou em silêncio tentando argumentar quando tinha chance. Kazuya a observava quieto. Estava deliberando se valia a pena se arriscar tanto.

Mai estava apreensiva. Tinha certeza que aquele caso havia acendido o interesse de Naru. Seu chefe só aceitava casos que lhe interessassem. E sabia que ele iria aceitar, quando ele pedia mais detalhes. Mas a demora de resposta de Naru era preocupante. Ele iria deixa-las na mão?

- NÃO! - assustou-se com o grito de repreensão. - estou com eles aqui. Segure as pontas um pouco! Só estou esperando uma resposta! - ela escutou novamente. - não deixe! Sele o quarto inteiro! Tente outro exorcismo!...

A discussão se estendeu em mais alguns minutos. Entre vezes de discurso e momentos de silêncio, Yoru tentava dar ordens a irmã. Naru e Mai pularam de seus lugares quando um grito foi ouvido pelo aparelho.

- Reiko! Onee-chan! Nani ga okuta? Reiko?! - ela continuou gritando para o aparelho esperando ser ouvida.

- Lin e Yasuhara apareceram na sala, alarmados pelos gritos da moça.

- Rei...! - ela se calou com uma expressão horrorizada. Uma lágrima escorreu pelo rosto enquanto o celular caia de sua mão.

Mai teve a impressão de ter visto a cena em câmera lenta. A queda parecia demorar uma eternidade antes de chegar ao chão. O telefone quicou três vezes antes de se desligar sozinho. A dona continuava imóvel.

- Nakamura-san?!

- Aiko... Aiko wa... atashi no onee-chan wa... - a voz da médium saiu fraca e rouca. Como se, subitamente, tivesse lebrado que pudesse falar.

- O que está acontecendo? - Lin perguntou se aproximando.

- Aiko... minha irmã... Aiko sumiu! - viram-na desabar em lágrimas.

O foco da atenção dos presentes voltou-se para o chefe do instituto. Naru estava invariável.

- Shochou? - Yasuhara chamou tentando uma resposta.

Silêncio. Noll não se atrevia a falar algo. Sabia exatamente o que ela estava sentindo. Impotência.

- Noll? - Lin tentou.

Os segundos passavam como horas enquanto Shibuya estava perdido em suas reflexões.

- Naru? - Mai chamou e ele voltou a si.

- Yasuhara, veja se John e Hara-san estão disponíveis. Depois veja se Takigawa e Matsuzaki-san podem vir também. Lin, prepare o equipamento. - as ordens vieram de surpresa.

- Hai! - os dois saíram para suas tarefas.

- Mai? - ele chamou.

- Já sei! - ela correu para o escritório do chefe e saiu de lá com uma caneta e uma caderno. - pronto.

Viu-o acenar com a cabeça e se aproximar da figura chorosa.

- Escute, Nakamura-san. Vou precisar de todos os detalhes e o endereço da casa.

- Un... obrigada.