Part 4: Fear

A situação das Gêmeas estava mais complicada do que imaginava. E só pôde percebê-la, realmente, quando viu Youko.

Ela estava sentada no sofá, com uma coberta sobre as pernas. Apoiava, cansada, a cabeça no encosto. Quase não tinha queimaduras, a marca visível formava uma letra no rosto dela. E pálida. Muito pálida. A pele ficou translúcida, quase transparente. O cabelo castanho contrastava com a palidez, caindo pra trás enquanto ela fitava fixamente a porta. Fixamente pra ele.

- Olá, Oliver. - a voz dela soou distante. - que bom que veio nos ajudar.

- Youko. - acenou com a cabeça, se sentindo mal por ela. - conhece o procedimento, certo?

- Pergunte o que quiser. - ela riu silenciosamente. - se eu perder a fala você usa a psicometria.

- É o jeito. - viu a porta ser aberta e Mai entrar. - Mai?

- Tudo bem, Naru. - sorriu para a preocupação dele. - Nakamura-san.

- Olá. - sorriu para o sorriso dela.

- Mai, se prepare. Vou pegar os depoimentos.

- OK! - se virou, indo cumprir a ordem.

- Cuidado com a escada. - Youko disse e por pouco não ouviram-na. - É meio traiçoeira.

- Hai! - subiu a escada.

- Sua namorada? - perguntou quando ele não se mexeu, vendo por onde a menina tinha ido.

- Minha assistente. - virou-se pra ela.

- Pensei que fosse o Lin. - ele deu de ombros. Não ia explicar uma coisa dessas a ela.

- Ainda é. - viu-a observa-lo mais atentamente.

- Vejo que gosta dela. - não respondeu.

Youko sorriu com o silêncio dele. Naru se deu conta do calor de seu rosto e de sua expressão chocada. Abanou a cabeça tentando voltar ao normal. Agora lembrara por que não gostava de Youko. Não dava pra ela guardar aquilo pra si mesma?

- Você ainda está vermelho, Naru. - ela continuou. - mesmo que negue, eu sei que estou certa.

- Adianta negar? - perguntou em desafio. - Já pedi pra parar com isso.

- Ah, sim. Sua mente é seu santuário. - não gostou do tom dela. - grande coisa. Pra que mentir pra si mesmo?

- Ela gosta de outro. - disse olhando pra si mesmo no espelho acima da mesa. Não ia admitir aquilo com um contato visual. Ainda tinha seu orgulho.

- Se pensou que estaria imune a algo assim só por que é um sociopata workholic com alguns doutorados nas costas se enganou. - ele continuou olhando o espelho. - ah não... é o Eugene...

- Gostaria de encerrar esse assunto, já que não tem a ver com o caso. - cruzou os braços inconscientemente e segurou a boca entre os dedos. - E pare de tentar.

- Não adianta, Oliver. Sua tentativa de me barrar é inútil. - viu-o suspirar e assar a mão elos cabelos. - Taniyama-san chegou a conhecê-lo.

- Em todos os casos se encontram... - admitiu de forma amarga.

- Tenho certeza de que se você pudesse evitar isso, você evitaria, certo? - ela sorriu, a porta se abriu e os outros entraram. Noll ficou estranhamente agradecido pela deixa dos subordinados. - não se atreva.

- Sim, mas vou precisar de sua total colaboração, Nakamura-san. - ele disse em tom debochado pelo termino da conversa. Pela primeira vez viu o sorriso de Youko se inverter. - Gostaria que me contasse tudo o que aconteceu e agradeceria se auxiliasse Hara-san com os espíritos.

- Claro... - o sorriso que ela deu a fez parecer com Satiko. Temeu pensar em seu significado.

Youko se mexeu pesadamente e se apoiou para se levantar. Firmou-se instável e sorriu amavelmente.

- Vou preparar um lanche. - anunciou. - depois de uma longa viagem devem estar cansados e com fome. Se quiser descansar, Oliver, seu quarto é lá em cima, no fim do corredor á esquerda e a base é na primeira porta perto da escada. E nossa conversa ainda não terminou. E falando nela, lhe digo com toda a certeza: você está errado.

Viram-na cambalear pelo pequeno corredor até a cozinha.

- Naru, aconteceu alguma coisa? - Masako perguntou parando perto dele.

- Não. - mentiu pensativo. - se preparem, vamos começar ainda hoje.

- O que quer que façamos agora? - John se aproximou.

- Vejam com elas se tem a planta da casa. Depois vá com Lin e Takigawa á procura de portas secretas. Hara-san, compare seus sentimentos com os de Nakamura-san. Veja se continuam ou os fenômenos mudaram.

- Tudo bem. - seguiu para a cozinha deixando-os sozinhos.

- Algo mais? - o padre perguntou.

- Quero que se lembre de tudo o que aconteceu naquele dia em que exorcizou essa casa. Vou precisar de seu depoimento.

- Tudo bem! - viu o padre seguir para a cozinha e subiu para o andar superior.

Não queria admitir mas estava cansado. Aliás, não estava em plena forma desde que entrou na cidade, e até a conversa com Youko, podia levar o cansaço numa boa. Francamente, aquela garota adorava deixa-lo fora do sério. Devia ser seu passatempo preferido quando estavam no mesmo recinto.

E não só a mais velha das quadrigêmeas, todas elas exerciam algum tipo de drenagem sobre ele. Sempre que, por alguma razão, se esbarravam em algum lugar voltava para casa com cara de quem não dormiu a noite. Era incrível algo como aquilo.

- Ah, Dr. Davis. - Reiko apareceu a seu lado. Outra coisa incrível era a habilidade de aparecer do nada. Duvidava que elas fossem humanas. - procurando seu quarto?

- Sim. - respondeu simplesmente e seguiu-a quando indicou a porta.

Observou-a rapidamente quando pararam. Como Youko as marcas eram poucas e sua pele estava quase limpa. Mas como Satiko, eram muito graves. Feias demais para serem removidas com plástica.

- O que está olhando, Oliver? - a ruiva riu se apoiando na porta. - me achou bonita?

- Suas queimaduras não são tão graves quanto as de suas irmãs. - apontou para o rosto dela ignorando o fora.

- Mas doem pra caramba. - ela sorriu. - principalmente na hora esotérica. Se alastram um centímetro á meia noite. Eu sei por que já medi. Mas para ser sincera, não é a queimadura que dói. O que dói é a coagulação do sangue. Ás vezes ficam verdes com o pus.

- Vou precisar que repita isso depois. Para depoimento.

- Claro, claro. - riu abrindo a porta. - espero que não se importe de dividir o quarto com Koujo-san.

- Não se preocupe. - virou-se para entrar quando ela saiu andando.

- Ah, Oliver? - viu-a parada de costas no meio do corredor. - agradeça pelo Professor e a Luella terem te adotado.

- Por que diz isso? - sentiu o peso daquelas palavras.

- Só agradeça por ter pais. Esta casa foi um orfanato antes da época da minha avó. - ela virou-se um pouco para observa-lo e voltou a andar. - espero que não haja órfãos em sua equipe.

Aquela declaração ecoou em sua mente, entupindo os ouvidos e martelando sua cabeça. Não sabia quanto temo ficou ali parado feito um idiota desde que Reiko proferiu aquelas palavras.

Ainda podia ouvir aquele eco pelo corredor e o silêncio o amplificava. E as dúvidas que o assombravam se transformaram em perigosas certezas.

Entrou fechando a porta. Se jogou na cama não se importando se aquela era a sua cama ou não. Enterrou o rosto nas mãos tentando amenizar a pressão atrás dos olhos. Contou até dez e respirou fundo. Até mesmo o estóico Oliver Davis tinha seus cinco minutos de vez em quando. O que? Ele era humano também. Ora! Ele não era de ferro!

Tirou o sobretudo e jugou-o na outra cama. Normalmente era muito organizado, mas, afinal, tinha acabado de fazer vinte anos! Um pouco de bagunça não mata! Se matasse Mai estaria morta a muito tempo. Odiava sair do sério e sabia exatamente o que o deixava assim.

O meio científico não aceitava essa tese, ele mesmo rejeitava o fato por estar ligado ás crendices populares. Mas precisava rever seus conceitos.

Já tinha dito á Mai no caso da mansão do ministro: "não existem pessoas que bebam sangue. É apenas ficção". Mas naquele momento considerava chamar as gêmeas de vampiras de energia. De todas as coisas que pensava que eram, o termo vampiro se encaixava perfeitamente no perfil requerido. E Satiko já havia se assumido como tal. Afinal, andar só de preto e usar símbolos pagãos já deixaria bem claro sua tribo.

Mas, lógico que isso era apenas uma ideia ridícula de um momento de instabilidade. Ou ne tanto...

Chutou os sapatos dos pés e se arrastou para o banheiro conjugado. Teria muita coisa pra fazer antes do amanhecer. Abriu a torneira e molhou o rosto. Estava gelada. Não deveria, afinal abriu a de água quente. Não pensou em reclamar, pelo menos estava desperto. A pressão dos olhos amenizou e as preocupações foram, momentaneamente, esquecidas.

Tateou a parede á procura de uma toalha, encontrou-a na altura da pia. Pressionou-a no rosto sentindo o cheiro de lavanda. A fragrância preferida de Aiko. Era de se esperar. Os banheiros deviam cheirar a eucalipto e, se prestar atenção, os quartos e as salas a maçã, e a cozinha á limão. Conhecia bem os gostos delas, o que as faziam previsíveis.

Bateu a toalha levemente no rosto, enxugando-o. Suspirou cansado, considerando tirar um cochilo antes de descer. Nem bem havia começado e já queria que acabasse logo.

Por que aceitara aquele caso mesmo? Ah, sim. É claro. Por causa de seu orgulho. Queria provar que ainda era melhor que elas. E, claro, evitar alguns telefonemas reprovadores de Luella e do Prof. Davis. Ou pior, receber uma visita de Madoka. Ainda não se recuperara da ultima.

Levantou o rosto para o espelho e paralisou. Naquele momento teve a ligeira ideia do que havia se metido.

Ela não sumiu quando piscou.

A princípio não havia percebido o ar frio. Já tinha reparado que a casa era gelada, mas não esperava que os espíritos tivessem participação ativa nisso. Mas tinha que ter reparado na fumaça que saía de sua boca e da água quente que esfriou tão misteriosamente.

Já tinha visto fantasmas mais feios, fato. Mas aquela mulher conseguiu deixa-lo, digamos, um tanto agitado.

Era claro que trabalhou ali na época do orfanato. O nome da instituição estava bordado no avental sobre a roupa. A mulher estava azul claro, deveras ter sido exposta a frio intenso. O ângulo de seu pescoço praticamente gritava que havia sido quebrado. Não podia ver os olhos, estavam cobertos pelos cabelos desgrenhados. Lembrou-se de um filme que Masako o obrigou a assistir, quando só ela sabia de sua identidade.

Segurou-se na borda e esperou, desejando que sumisse, que carregasse a energia necessária para afastá-la. Mas ela não sumiu.

Prendeu a respiração quando ela estendeu os braços as mãos passaram rentes a seu rosto. Os dedos quebrados emanavam um cheiro forte e um frio congelante, sentiu a pele arrepiar.

A mulher murmurou algo em inglês e este murmúrio o perturbou ainda mais.

E antes que terminasse o movimento e o agarrasse, ela sumiu. Simplesmente sumiu.

Uma ânsia súbita acometeu-o e não pôde segurar no estômago tudo o que não comeu naquele dia e no outro.

- Naru? - ouviu a voz de Mai na porta. - posso entrar? Naru?

- Um minuto. - gritou ao perceber que ela entrara. Lavou a boca e saiu com a toalha á mão. O cheiro de lavanda estava deixando-o mais enjoado.

- Você está bem? - ela perguntou espantada. - Naru, você está pálido!

- Não é... nada... - odiou quando sua voz falhou. Levou o pano á boca quando algo ameaçou subir pela garganta.

- Senta! - Mai o puxou para a cama, fazendo-o se sentar ao seu lado. - o que você está sentindo?

- Nada, Mai! - desvencilhou-se dela quando sua mão tocou-lhe a testa. - Já disse que não é nada!

- Você usou kikkou?

- Não! - o ultraje atingiu sua voz. - não precisei...

- Você está muito pálido! E gelado! - ela dava claros sinais de pânico. Se levantou trêmula. - tem certeza de que está bem? Vou chamar o Lin-san!

- Não. - segurou a mão dela. - deixe quieto.

- Se você não quer me contar, eu entendo. Mas, Naru, fale ao Lin-san que não se sente bem!

- Não é mal estar. - disse fazendo-a se sentar. - houve aparições depois daquela hora?

- Pra mim, não. Mas percebi que a casa ficou mais fria, e Nakamura-san e Masako ficaram aflitas de repente... - observou-o entrando em pânico. - você...?

Noll ficou quieto. Tinha plena consciência da pequena mão de Mai tremendo sob a sua. Não a soltou, apertou-a levemente esperando que se acalmasse.

- Calma. - ele pediu.

- Mas... Naru... - gaguejou tremendo mais.

- Não quero me precipitar. Não vou revelar nada ainda. Até que haja um norte, você vai ser a única a saber disso.

- Naru, uma possessão e duas aparições em curto tempo e no primeiro dia!

- Não foi o mesmo espírito. - ela se calou. - algo grave aconteceu aqui, Mai. E não duvido que as crianças tenham um pouco de culpa nisso tudo.

- Como? - perguntou não esperando resposta.

- Quando souber será a primeira a saber. - viu seus grandes olhos castanhos de arregalarem. - você pediu, lembra?

- Não esperava que tivesse concordado.

- Não se acostume. - se levantou puxando-a pela mão cativa. - o que você queria?

- Queria, o quê? - perguntou feito idiota.

- Você veio para nada?

- Ah, tá! Nakamura-san chamou. O lanche está pronto.

- Já vou descer. - soltou a mão dela e voltou a cama, recolhendo os sapatos. - prepare tudo. Vou começar a pegar os relatos.

- Hai! - caminhou para porta.

- Mai. - ele a chamou e virou-se dando de cara com aqueles olhos cor do mar.

Ele estava curvado na cama. Sentado com os cotovelos apoiados nas pernas e as mãos cruzadas. Nunca o havia visto daquele jeito conscientemente. Ele fazia questão de se manter ereto naquela elegância exageradamente inglesa.

- Não comente nada com ninguém. Eu mesmo conto depois.

- O que acha que sou? - o ultraje atingiu a voz dela.

- Quer mesmo que eu responda? - viu-a corar e sair batendo a porta.

Sorriu para seus botões. Nada como uma pequena brincadeira para levantar o humor. Era divertido irritar Mai.

Terminou de por os sapatos e suspirou se levantando. Estava na hora. Saiu do quarto seguindo pelo corredor. passando pela base e descendo as escadas.

Agora, resolver aquele caso seria mais que uma questão de honra. Era uma questão de vida ou morte. Não tanto por ele, e sim por Mai.

Desceu as escadas com as palavras da mulher ecoando em seus ouvidos:

All will kill you, orphans.

é isso. Muito obrigada pelas reviews! I love You, peole!