Parte 5: Depoiment
Fome. Nem havia notado que sentia isso. Controlou-se para manter a classe enquanto comia com os outros. Mas depois da viagem de quatro horas e da náusea, era difícil evitar comer tanto. Ainda mais com os dotes culinários de Youko, estava sofrendo para não parecer um esfomeado. Tinha que admitir que ela cozinhava bem demais.
Estavam todos sentados á grande mesa de madeira nobre - exceto Ayako que tinha se atrasado. Parecia que tinham se esquecido que estavam á trabalho. Falavam animadamente sobre qualquer coisa.
Mai ainda estava apática e não fazia muita questão de contribuir para conversa(o que não era de seu feitio). Respondia quando lhe era perguntado e ria com os outros para disfarçar, mas, na maioria, ficava quieta, escutando e lançando olhares para o chefe. Por vezes cruzando com os do mesmo.
- Nakamura-san. - Bou-san chamou depois de um gole de café. - Você tem mãos de ouro. Tudo está divino.
- Obrigada. - Responderam as três ao mesmo tempo.
- Agradeceríamos se nos chamassem pelo nome. - Reiko riu da pequena brincadeira.
- Quem é quem? - Perguntou Yasuhara.
- Não é difícil nos distinguir, é só olhar o cabelo. - A ruiva riu pegando uma mecha do próprio. - Eu sou Reiko.
- Youko. - A mais velha pegou uma mecha castanha da cabeça. - Reparar também que meu cabelo é menor.
- De fato. - Confirmou Hoshou analisando. - A loura é Aiko, certo?
- É. - Youko suspirou pesarosa. - A morena ali é a Sati.
- Se alguém me chamar de Sati vai ficar sem língua. - Ela ameaçou sem olhar para cima. E foi o suficiente para todos se calarem.
- Se já acabaram, Gostaria de começar meu trabalho. - Noll pareceu irritadiço demais.
Viram Mai e Lin se armarem com os objetos de anotações. Estavam prontos para transcrever todos o relato que as quadrigêmeas tinham a contar.
- Rei, vamos tirar a mesa. - Satiko se levantou recolhendo alguns pratos.
- Tudo bem. - Naru odiava aquela animação exagerada da ruiva. - A Sati contou o resumo, certo?
- Gostaria que contassem do início. Há pontas soltas. - Dr. Davis cruzou as pernas e descansou as mãos entrelaçadas sobre os joelhos.
- Bem ... - Suspirou ela, tomando fôlego. - Como você sabe, Oliver, minha mãe vai fazer bodas. Resolvemos dar essa casa de presente. Ela sempre nos contava das peripécias e das suas aventuras sobrenaturais que teve aqui quando jovem. Mas ela está com medo dos fantasmas e não quer que meu pai se estresse com a casa. Sabe, seu Henrique é hipertenso e pode ter um enfarto.
- E daí? - Ele perguntou desinteressado e ela fez uma careta.
- Bem, ela quer sair do Brasil e voltar para cá. Então resolvemos dar essa alegria a ela. - Ela sorriu docemente.
- Vocês. - Yoru impôs após uma mensagem telepática.
- Depois, Sati. - Disse Reiko dando alguns tapinhas no ombro da caçula. - Depois você diz o quanto ama a mamãe.
- ? ? ? ? ? ? .... - Ela saiu para cozinha xingando baixo em alemão.
- Menos, Sati! - Youko gritou pra irmã. - Peço desculpas por ela.
- Pode continuar? - Usou Naru o tom de voz. Aquele que deixa qualquer um encolhido em seu canto.
- Desculpa, Oliver. - Ela choramingou se encolhendo.
- Oliver? - Bou-san sussurrou para Mai que não achou graça da intimidade que tinha entre os dois.
- Bem ... faz, mais ou menos um mês e meio que estamos aqui. Antes de começar a reforma, até pra segurança de todos, decidimos exorcizar a casa. Logo no segundo dia começaram as repulsões. Classificamos as categorias de Tezanne e vários outros fenômenos. Mas aí as coisas ficaram mais... Físicas.
- Como? - Shibuya esqueceu as boas maneiras e apoiou os cotovelos na mesa, pondo as mãos cruzadas a frente da boca. Estava muito interessado.
- Não só houve aparições. Queria que fossem só aparições. Sati-chan quase foi picotada. - Viu o olhar de todos se voltar para a porta que daria na cozinha. - Brincaram de dardo com as facas da cozinha. Ela era o alvo.
- Isso, nee-chan. Muito obrigada por me lembrar. - A voz dela soou do escuro. - E vocês não querem me deixar matá-los. Valeu. Se alguém morrer lavo minhas mãos.
- Satiko! São só crianças!
- Não estou falando só das pirralhas. Estou falando da velha. - A surpresa foi geral.
- Que velha? - Reiko e Youko perguntaram em sincronia.
- Não contei? Jurava que mandei mensagens ... - Viram sua sombra passar a mão nos cabelos. - Em todo o caso, uma velha morta que se esconde congelador do porão não assombra a casa junto com as fedelhas. Estão em guerra.
- E quando pretendia nos contar?
- Ah, Ignorância! Temos telepatia pra quê? Vocês podem ler minha mente!
Todos ficaram em silêncio. Agora estavam tendo ideia de onde se meteram. A coisa estava piorando a cada segundo.
- Com que frequência essa mulher aparece, Satiko? - Kazuya mostrou um interesse pessoal nessa informação.
- Tão ou mais que as meninas. - Ela apareceu na luz, estranhamente atenda a ele. - E antes que o Oliver pergunte: é assustadora, parece uma bruxa, tem cheiro de carne podre, ossos quebrados e usa o uniforme do orfanato. Essa mesma. - respondeu ao pensamento dele.
- Todos olharam para Noll e Mai parou de escrever, encarando-o assustada. Seria esse o espírito que assombrou Naru?
Dr. Davis se manteve em silêncio. Não conseguia selecionar uma pergunta específica dentre tantas que precisava. Em especial sobre a mulher e o tal Orfanato.
- Continuem. - Foi o que ele pode dizer.
- Então... depois desse incidente e os ataques físicos, vieram os psíquicos. Aiko foi a primeira a vê-las. Aí começamos a nos preocupar. Aiko e Reiko não podem ver espíritos.
- Então, Ai-chan foi marcada. - Reiko se apoiou no encosto da cadeira da irmã. - a lareira explodiu no rosto dela quando estava limpando.
- Desculpe, Nakamura-san. Mas isso não aconteceu por imprudência dela? - Yasuhara disse o que todos pensavam.
- Seria imprudência se a lareira estivesse acesa, certo? - Satiko apareceu atrás do rapaz, assustando-o. - Tem Aiko TOC e mania de limpeza. Ela toma uma cautela absurdamente irritante. Você acha que alguém assim não tiraria Todas as cinzas e pedaços de madeira da lareira mesmo que ela estivesse apagada por anos?
Viram-no engolir a seco e virar-se assustado. Tentou não se concentrar nas cicatrizes que lhe davam o aspecto sinistro de sua pessoa. Viu-a lançar-lhe um olhar severo e sentiu o coração disparar. Ela suspirou e andou de volta a porta.
- Eu vi o que aconteceu. Posso Parecer suspeita, mas digo: não foi culpa da Aiko. Tão pouco dos fantasmas daqui. Essa coisa que feriu Aiko é a mesma que nos marcou. - Viram-na tocar as marcas de seu rosto e socar uma parede, formando um buraco.
Pare de se exibir. - Noll advertiu irritado.
Por que a cada informação importante que ouvia era acompanhada por uma cena? Seria pedir demais se elas levassem seu trabalho a sério? Era a irmã delas que estava possuída e a vida delas estava em risco. Não que se importasse. Mas como gêmeas, elas deviam se cuidar.
Não estou, Oliver. - Respondeu olhando para ele. Viu-o revirar os olhos durante um longo suspiro.
- Satiko, se tem tempo para se exibir, por que não o usa para ajudar na investigação? Não sei se você sabe, mas sua irmã pode morrer se continuar possuída. E creio que já DEVE ter percebido que suas irmãs sofrerão algo também. Então que tal parar com a brincadeira e cooperar? Afinal, não foi você que me implorou para ajudar?
Essa doeu. - Bou-san pensou vendo o silêncio da PCN. E ele que estava apostando na gótica.
- Alguém te perguntou, monge? - Esbravejou para o músico.
- Calma aí, moça! Eu não disse nada! - Se Encolheu.
- Mas pensou, Canário*!
- Satiko de Lima Nakamura! Pare de descontar nos outros! - Youko se levantou. - Oliver está certo! Pare de cena e colabore. Deixe para competir quando a vida da Nossa irmã não estiver em risco!
- Mas ... - Ela tentou argumentar.
- Chega, Sati. - Reiko se aproximou da gêmea caçula com uma seriedade que raramente usava. - Oliver e Youko estão certos. Você é a errada aqui. Deixe para tirar a limpo aquele fato outro dia. Esqueça isso e colabore. Nossas vidas estão em risco. Nem todas nós somos suicidas.
- Rei ... - Ela endureceu ainda mais suas feições.
- Vai colaborar? - a expressão que fez foi a mais estranha que já viu. Temeu a irmã pela primeira vez.
- Agora não. - Sorriu e subiu correndo ao quarto.
- Desculpa. Estamos exaltadas... - Reiko se curvou. - Nee-chan, quer que eu prepare o jantar?
- Se possível. - Viu-a sair e todos se entreolharem. - Peço desculpas pela Sati. Ela é quem está sofrendo mais.
- Entendemos. - Masako sorriu incerta.
Era o papel de Mai dizer aquilo. Olhou para ela e viu-a quieta, escrevendo. Sua expressão não revelava a Mai que conhecia.
- Youko, paciência tem limites. Se nos chamaram aqui para curtir com nossa cara, fazendo cena e enrolando, não conte mais com a minha ajuda. - Se apoiou na mesa e se levantou.
- Não! - O estrondo da cadeira se chocando no chão e seu grito desesperado ecoou pela casa. - Por favor, Oliver! Nos ajude! Não podemos sozinhas!
- Então pare com a cena e colabore. Minha paciência tem limite. - Se já que achavam Noll estava de mau-humor, agora tinham certeza. - Fui claro?
- Desculpa. - a moça choramingou e se encolheu.
- E que fique registrado: não estou fazendo isso por vocês! - Bufou uma ultima vez antes de se sentar, recompondo-se.
Os membros da PPS se entreolharam surpresos. Claro que já haviam visto seu chefe levantar a voz ou discutir com alguém civilizadamente vez ou outra, mas era a primeira vez que o viam descomposto.
Mai engoliu a seco. Sabia que Naru estava cansado e alterado, e de algum modo se devia ao fato de estar no mesmo local que as quadrigêmeas. Mas a aura que estava emanando era quase palpável e estava pesando nos ombros.
- Pode continuar, Youko? Ou posso encerrar por aqui?
- Bem ... - Soluçou ela. - Depois que uma lareira explodiu levamos Ai-chan para o hospital. Redobramos a cautela e exorcismos. Percebi uma aura fantasmagórica ao redor dela e propus um Esconjuro. Nada. Rei-chan até chamou Padre Brown para ajudar. Lembra, padre?
- Sim. Consegui exorcizar vários espíritos presentes, mas alguns resistiram e se esconderam. Pensamos que haviam ido então encerrei minha participação. Não tinha idéia...
- Não se martirize, Padre. Foi negligência nossa.
- E depois?
- Depois? Depois descobrimos que só a Sati podia sair. - Reiko apareceu segurando uma colher. - Claro que ela Odiou a idéia de ir te chamar.
- Idem. - Disse secamente. - Se Aiko estava no hospital, o que ela fazia aqui?
- Aiko ainda estava internada quando um Sati foi a Tóquio te procurar. Naquela hora em que liguei eu tinha acabado de descobrir que ela tinha sumido da UTI. Quando percebi, ela estava lá em cima. Ainda tentei selar o quarto mas não deu ... - Ela secou o canto dos olhos. - Eu vi minha irmã desaparecer diante dos meus olhos.
- Quem é o responsável?
- Não sabemos, ela simplesmente sumiu da emergência e se materializou no quarto. Mas a Sati acredita que foi a velha.
- Então, mesmo que possa sair... - Sussurrou para si mesmo.
- Você sempre é obrigado a voltar. Onde quer que esteja.
Todos ficaram em silêncio.
Shibuya analisava o informe com toda uma concentração. Considerava várias teorias e, com preocupação, revia algumas que visavam não conseguir salvar Mai, se é que será a próxima. Agora seu melhor plano estava vetado.
- E as cicatrizes? - Perguntou.
- O abajur estourou enquanto eu lia. Com um Rei foi com o fogão.
- E Satiko? - Viu-a se encolher.
- Foi alguns dias antes. Estávamos dormindo quando ouvimos um estrondo. Vinha do porão, então descemos para ver o que se passava. Satiko tinha arrebentado a porta do Incinerador ... - Viu a confusão pairar no ar. - Tiraram-na da cama e jogaram-na naquela coisa. Graças ao kikkou ela sobreviveu. Não consigo imaginar o quão sério seria se ela não o tivesse.
- Vocês não têm idéia do que se meteram. - Yoru apareceu na porta. - esses espíritos são homicidas. as crianças têm aura assassina e a velha é tão ou mais que as fedelhas. Vão matar a todos se forem negligentes!
- Está errada sobre as crianças! - Masako se alterou.
- Não, não estou. Se há algo de que eu me orgulhe é poder ver a aura dos fantasmas. Te digo: aquele roxo não é normal. Já o vi em adultos e adolescentes. Mas crianças? O que se pode concluir disso? - Ela não respondeu. - Eu sei. É assustador.
- Uma casa mal-assombrada, numa cidade amaldiçoada, habitada por fantasmas homicidas. - Naru balbuciou para si mesmo. - Onde foi que vocês nos colocaram?
- Ora, Oliver. Onde está seu espírito esportivo? Seu senso de competição? Não quer provar que suas habilidades são superiores ás nossas? Aliás, não é você que gosta de provar que é melhor que a gente? Não é você que gosta de casos complicados? Pois bem, prove que é melhor e nos salve. Afinal, já perdemos. - Sorriu mostrando as mãos em desafio.
- É um desafio, Sati? - Shibuya usou o apelido com gosto, entraria na dança. - Não devia brincar assim com suas vidas.
- Não estou brincando, Noll. - Ela não sorriu quando retribuiu o apelido. - Estou tentando te incentivar. Me prove que é melhor e resolva o caso.
- Não preciso provar. Eu sou melhor. - Ele se levantou. - E se tenho que provar algo, não é para você. E fique claro o que já disse a sua irmã: não estou fazendo isso por nenhuma de vocês. Se tiverem mais alguma coisa para contar, me procurem na base.
Naru saiu da mesa com Lin e Mai a sua cola. Os outros ainda ficaram mais um pouco antes de se dedicarem Tarefas ordenadas ás.
- O que foi aquilo, Noll? - Perguntou Lin entrando na base. - Vai deixar seus Conflitos com Satiko resultarem na morte de alguém?
- Claro que não! - Sua voz se pintou de Ultraje enquanto se jogava na cadeira. - Mas elas me irritam. Viu como é? E me perguntam por que não gosto delas.
- Então por que aceitou?
- Não acho que iria gostar dos meus motivos. - Ele tirou a mão que cobria o rosto e olhou para o chinês. - E Matsuzaki-san?
- Ela chegará daqui a pouco. Vou espera-la na estação. - Noll não respondeu. Viu o chinês sair depois de um longo suspiro.
- Naru? - Mai chamou com uma voz baixa.
- O que é? - Respondeu na surpresa, havia esquecido que ela estava ali.
- Posso fazer uma pergunta?
- Você já fez uma. - Esperou pela reação que não veio. Suspirou e viu, com certa preocupação, o estado débil que ela se encontrava. - O que é?
- Por que você mentiu quando disse que não as conhecia? - Ela perguntou num tom firme mas com uma voz fraca.
- Como? - Deixou uma surpresa chegar a ele.
- Você me ouviu, Naru. - Ela pigarreou tentando ser mais clara. - Por que você mentiu quando disse que não conhecia as Nakamura?
* Aqui a Satiko chama Bou-san de canário. Canário vem do latim canaria que significa "cachorro" ou "cão". Por isso que ela é repreendida, pois ela está chamando ele de cachorro.
