Part 7: Low
Naru estava começando a sentir os males do estresse e as dores do cansaço. E o pior, estava sofrendo precocemente.
Mai estava sendo exageradamente prestativa. Via a menina andar de lado a outro, cumprindo tudo o que haviam lhe pedido.
Era estranho vê-la ser tão prestativa, concentrada... A Mai que conhecia não era daquele jeito. Agora ela estava á sua frente, organizando o depoimento de Reiko e Youko, enquanto aguardava uma nova ordem.
Satiko ainda se recusava a contar algo e isso estava irritando-o tão profundamente e de uma tal maneira que precisava se segurar para não pular em seu pescoço e socá-la na parede. Será que Satiko não percebia que era a vida da irmã dela que estava em risco?
Mai tentava descartar toda a inutilidade das provocações contidas nos relatos e deixar as informações mais importantes. De acordo com ele, ela teria que jogar o relato inteiro fora.
Todos estavam fazendo suas respectivas tarefas e quanto a ele, fazia um cronograma mental e um plano para a execução daquela noite. Nunca precisara disso, mas não tinha escolha.
Teria que movimentar todo o pessoal e contar com a ajuda das irmãs. Admitia que precisava de toda ajudar que pudesse para terminar logo com aquilo. Não só para ficar mais alguns anos sem vê-las novamente, mas também para impedir que acontecesse o pior com seu pessoal. Principalmente com Mai.
- Naru. - a voz de Matsuzaki soou, irritante, a seu lado. - o que faremos agora?
- Esperar e me deixar em paz. - viu a face da ruiva adquirir um tom próximo aos fios de sua cabeça.
- Ayako, você tem uma aspirina? - Mai perguntou para chamar atenção e evitar que a ruiva fosse massacrada.
- Devo ter na bolsa. - ela disse entre dentes, com os olhos estreitos a fuzilar o rapaz á frente.
- Então, vamos! Minha cabeça está latejando. - agarrou-se ao braço da miko e arrastou-a para fora do quarto.
Suspirou. Parecia que era tudo o que podia fazer momentaneamente. Depois dessa típica cena, a maior parte dos que estavam no local deram um jeito de sumir dali. Não queriam ser alvo das cortadas de Naru. Eram doloridas demais. Apenas Lin ficara no lugar. O único corajoso.
- Você está começando a passar da conta, Noll. - chinês comentou sem tirar os olhos dos monitores.
- Faça seu trabalho, Lin. - Oliver segurou a cabeça.
- Estou fazendo. - ele girou a cadeira e encarou o rapaz que o olhava inexpressivo. Não era todo o dia em que conseguia tirá-lo. - se as odeia tanto, por que veio?
- Me faço a mesma pergunta. - suspirou. - alguma coisa?
- Não muita. - martelou as teclas. - alguns cômodos estão mais frios que o normal, mas isso já era esperado. Mas o porão, o hall para cozinha e o quarto trancado estão, muito quentes... acho que deve dar atenção á eles.
- Já esperava por isso, Lin. Não é novidade. - consultou o relógio. - mais alguma coisa?
- Nenhum som anormal. - Lin fez uma pausa analítica. - mas acho que você vai querer ver isso.
- Não esperou-o dizer outra vez. Levantou-se curioso e se colocou atrás do chinês. A tela que ele mostrava era a de temperatura. As imagens pareciam em tons que variavam de amarelo a azul. E algo naquela variação estava muito errada.
- Tem possibilidade de ser defeito? - perguntou.
- Não nessas circunstâncias. - o onmyouji afirmou depois de tentar concertar a imagem, pela quinta vez. - não há como acontecer isso sem uma boa edição de video.
- Estão a ponto de congelamento, Lin. - disse vendo as silhuetas em tom azul. - A essa altura, teriam morrido de hipotermia.
- Veja aqui. - o chinês apontou para outro monitor onde duas pessoas cainhavam pelo quarto. E viu com preocupação que a menor estava quase roxa. - se compararmos as duas, diria que esta estaria morta.
- Coloque no normal. Quero ver quem são. - viu-o obedecer.
- São... - ele perdeu a fala. - Matsuzaki e Taniyama-san.
- Vamos ter que monitorar a temperatura delas. Acho que é assim que conseguiremos prever a ordem. - disse se afastando.
- O que vai fazer?
- Conseguir os exames de Aiko e medir a temperatura de todas antes da meia noite. Reiko disse que a essa hora tudo fica mais complicado. - parou á porta. - fique atento.
- Sim. - disse voltando á seu trabalho
Reiko o olhava curiosa. Tentou persuadi-lo a falar o porque o interesse nos exames da irmã. Claro que estava fazendo a maldade de se manter em silêncio. Mas nada do que fizesse se compararia ao que elas fizeram.
- Desembucha, Oliver! - ignorou-a. - por que quer os exames?
- Vou ter que conseguir eu mesmo?
- Só te dou se você me dizer.
- Vou mandar Yasuhara ao hospital. - sorriu debochado para a raiva dela. - não adianta te falar alguma coisa agora.
- Mas tenho que saber! - ela falou mais alto. - É minha irmã!
- E Eugene era meu irmão. - ela se calou. - consiga os exames. Yasuhara vai ajuda-la.
- Você é cruel, Oliver... - viu lágrimas em seus olhos.
- Só eu? - deu-lhe as costas antes de descer os degraus. - lágrimas falsas não me abalam.
- Vá para o inferno, OLIVER! - ouviu a ruiva gritar.
Desceu os degraus massageando as têmporas. Esquecera de que, por alguma razão, a voz dela podia ficar mentalmente alta quando estava nervosa. Elas não eram médiuns normais. Não mesmo!
- Tudo bem, Naru? - Mai estava parada ao pé da escada. Parecia mais pálida que antes. Isso não era bom. - discutiu com a Nakamura-san de novo?
- Como se desse para falar normalmente com alguma delas. - soltou em sua face séria. - e você?
- Ah... sim... dá pra suportar. Tomei o remédio e a dor melhorou um pouco.
- Onde Yasuhara está? - perguntou após um leve acenar de cabeça.
- Na cozinha com Nakamura-san.
- Elas são gêmeas, Mai. Chame-as pelo nome. - Naru disse, ainda massageando as têmporas.
- Osamu está na cozinha com Youko-san. - ele suspirou. - você não está bem, Naru.
- Não importa. - percebeu o olhar preocupado. - arrume um termômetro e ajude a Matsuzaki-san a medir a temperatura de vocês. Anote exatamente o que der. Sem correções.
- Da gente quem? - ela perguntou confusa.
- Sua e das trigêmeas. Não corrija o que der.
- O que pretende, Noll? - a voz dela ganhou um leve sotaque americano. Péssimo sinal.
- Será que ninguém faz o que eu digo sem questionar? - reclamou um pouco.
- Você disse que contaria... - ouviu-se á meia voz.
- As paredes têm ouvidos. - sussurrou-lhe ao ouvido apontando para o alto. Sabia da boa audição que Reiko e Satiko tinham.
- Entendo. - ela engoliu á seco se afastando. - vou ver se alguém tem...
- Preciso disso antes das onze. - disse consultando o relógio. - tem meia hora.
- Só isso? - ela reclamou. - onze e dez ainda está no prazo?
- Não. - aquela era nova.
Viu-a subir a escada cuidadosamente em passos rápidos. Pode perceber as pernas bambas e os passos meio falsos. E o pior era a mudança que ela estava sofrendo. Suspirou indo para cozinha. Tinha ordens á Osamu.
- Terminamos tudo o que pediu. - Bou-san sentou-se em frente á mesa de centro. - são quase onze horas. Onde estão Lin e Yasuhara?
- No hospital com Yoru, tentando conseguir os exames de Aiko. - respondeu monitorando as imagens.
- Por isso está ai? - não respondeu àquela idiotice.
- Amanhã cedo iremos à cidade. - anunciou ao monge. - Você, Mai e Yasuhara perguntarão sobre a casa ás pessoas. Lin e eu veremos o que encontramos no cartório e na prefeitura.
- Morikuro tem quase sete mil habitantes! - viu o chefe se virar.
- Quer que eu responda a isso? - o monge engoliu a seco.
- Não, não. - sacudiu as mãos. - e quanto aos outros?
- Registrarão o que acontecer por aqui. - girou a cadeira, voltando-se aos monitores.
- Naru! - Mai irrompeu a sala, esbaforida. - tem... algo... errado...
- O que foi? - ela se apoiou na quina da mesa, tomando fôlego.
- Não pode estar certo! - Ayako entrou seguida do padre e da médium - elas deveriam estar mortas!
- Como assim? - Bou-san se levantou e se juntou á turba em volta do chefe.
- Chequei três vezes! Achei que era defeito do termômetro e testei em mim. Mas... - a miko estava exaltada.
- Reiko e Youko deviam ter morrido de hipotermia. - Masako interveio.
- Dá uma olhada. Estão abaixo de 36,5 °C. - ela entregou o bloquinho. Pelo menos aquela cabeça oca sabia um pouco de biologia.
- Isso era esperado. - disse analisando os dados. - A de Satiko deve estar baixa, também... Mediu a sua?
- Ainda não. Esqueci. - ela encolheu os ombros.
- Acha que Mai vai ser a próxima? - o monge estava preocupado.
- Por que acha isso? - John se adiantou.
- Além do fato dela SEMPRE ser o alvo. - nem a manga de seu kimono azul florido pôde esconder o tom sarcástico da voz da médium.
- Não disse nada. Afinal, todos ali sabiam que a órfã era, por natureza, um imã para encrencas sobrenaturais. Mas, alem disso, era a capacidade de conexão com os os fenômenos que a faziam de alvo fácil.
- Quantos espíritos há nesta casa, Hara-san? - Noll perguntou colocando os papéis de lado.
- Sete ou oito... é difícil saber... - a médium admitiu culposa. - acho que a cúpula os esconde... mas tenho certeza de que as crianças são meninas.
- Entendo. - assentiu deliberando. - o que se sabe sobre a casa?
- Nakamura-san disse era um orfanato antigamente. - Mai disse ao vê-lo se levantar com uma caneta. - Aiko, ou quem quer que seja, mencionou o nome, Dechi. Pelo que ela disse, há mais crianças aqui. Fora o homem que a Yoru mencionou.
- Então... há um espírito para cada gêmea. - ele pensou. - ainda sobra uma criança e dois adultos.
- Pela lógica, Mai seria possuída pela criança. - John disse e a menina se encolheu.
- Analisando as outras, só será certeza se Mai tiver alguma alteração. - Nau tentou ignorar aquele pequeno sotaque britânico e esperava que os outros não notassem.
- Como esse sotaque estranho? - Ayako perguntou.
- Reiko disse que á meia-noite aconteceria algo. Temos meia hora. - disse de costas ignorando o comentário. Se dependesse dele, só ficaria nisso.
- Oyabun! - Yasuhara chegou apressado, logo fechando a porta atrás de Lin. - Acho que você vai querer saber disso!
- A temperatura de Aiko estava menos de 15°C. Os médicos estavam tratando com o cobertor térmico. Diagnosticavam como hipotermia. Suspeitavam de catalepsia. - Lin entregou os exames a Naru. - Cinco paradas cardíacas.
- Não sei se isso é de importância, mas... - Osamu se adiantou. - Mas Madoka-san disse...
- Madoka-san? - Mai interrompeu, se encolhendo ao ser inconveniente – desculpa...
- Liguei ara ela, logo cedo. - Lin emendou. - Aisha e Enrique morreram a dois ou três meses.
A notícia pegou a todos de surpresa. Não imaginavam que as gêmeas não tinham mais seus suporte. Que ela já seriam órfãs.
- Isso dá um novo horizonte. - Oliver balbuciou para si mesmo. - faz quanto tempo que estão na casa?
- Pouco menos desse tempo. - Masako respondeu.
- Preparem-se. Reúnam-as na sala. Quero ver o que vai acontecer agora. - ordenou escrevendo a palavra ORFÃO no topo das anotações.
