Part 8: Eyes

Parecia que o relógio posto acima da lareira custava a fazer seu trabalho. Parecia que ele estava com tanta preguiça de fazer o tempo passar quanto Mai em dia de aula chata(nesses dias nem dava vontade de ir para escola).

Para esclarecer a situação tediosa que se encontravam, a composição da sala era a seguinte: em cada canto a sala havia alguém disposto a fazer seu trabalho. Não tinha ninguém na base, Naru e Lin monitoravam as câmeras por um monitor portátil – item recém adquirido pelo chefe, não pergunte como! -, Mai estava sentada na poltrona de frente para janela enquanto Reiko e Youko ocupavam o sofá voltado á lareira.

Não havia ninguém ali presente que não estivesse tenso e apreensivo. Yasuhara remexia os óculos compulsivamente. Masako parecia uma boneca de porcelana em sua postura paralisada ao lado de Naru e Lin(que pareciam duas assombrações de cera). John rezava uma ave-maria enquanto Takigawa e Matsuzaki se remexiam nervosos.

Satiko se trancara no quarto. Recusara-se a participar do registro do poltergeist. Aquela garota não fazia outra coisa se não irritar alguém. Além, é claro, de atrapalhar toda a investigação.

O relógio marcou meia noite e todos prenderam a respiração. Esperavam que algo grande acontecesse. Mas nada. Os minutos passaram e só se ouvia o som do vento açoitando as pobres árvores.

- REIKO! - ouviu-se a voz do cientista. Era a primeira vez que ele se indispunha com alguém daquele jeito.

- Não me culpe! - ela choramingou tentando se explicar. - a hora está...

Ela não teve chance de terminar a frase. As luzes da casa piscaram algumas vezes e se apagaram no instante em que a lareira se acendeu. O cômodo ficou escuro, mesmo com a luz do fogo verde sobrenatural, e frio o bastante para congelar o ar quente de suas respirações.

O fogo é verde? - Mai se perguntou em mente, se agarrando ao estofado.

Não se mexam! - A voz mental de Youko ecoou na mente de todos. - não será nada agradável!

O fogo chiou uma vez, chamando a atenção de todos. Algo queimava embaixo das chamas, mesmo não havendo nada ali. As labaredas seguiam para fora queimando o ar em todo do mármore e então voltaram, quietas, á posição inicial, onde se abafaram a uma simples chama de vela. Pequena e verde.

- Está registrando, Lin? - Naru perguntou.

- Sim. - o chinês respondeu.

- O que vê, Hara-san? - Noll pediu sem olhá-la.

Masako não respondeu. Tinha a expressão horrorizada, mesmo tapando a boca com a boca do quimono.

Olhe, Oliver. - Youko ecoou em sua mente. - isso não contei.

A chama dançou conforme um vento inexistente e cresceu azul e mais sobrenatural ainda. E então veio as batidas. As paredes da grande casa rangeram diante daquela força. As janelas e portas se abriram, fazendo as folhas de outono cobrirem o chão.

Se aquilo tudo já causava arrepios na pobre menina, os gritos que se sucederam, vindos da única porta trancada daquele andar, estavam ganhando a disputa com folga. Uma luz laranja passava pelas frestas, e a porta branca se abriu de repente, libertando gritos ensurdecedores e línguas de fogo.

Yasuhara se refugiou na parede oposta a porta com o susto que levara. Aquela visão o apavorou. Naquele quarto se via a boca do inferno.

A porta se fechou tão repentinamente quanto se abriu. Os gritos se calaram, as batidas cessaram e o fogo cresceu mais um pouco, voltando a ser verde e soltando labaredas. Aquele choro cortante e dolorido surgiu em meio ás chamas.

E aquilo expandiu, assumindo formas uniformes. E SE MEXIA! Balançava de um lado a outro, ainda soltando as línguas de fogo. E, quando ninguém esperava, a bola de fogo saltou da lareira e caiu, esférica, no degrau de mármore italiano.

Agora é a pior parte. - Youko disse na mente de todos.

O choro aumentou para um alarido insuportável e a bola de fogo se mexeu. Parecia que ganhara membros, as línguas saíram da bola, como um par braços e pernas, e arrastaram-a. Pouco a pouco a pouco a bola tomou forma até uma pequena figura chorosa se arrastando pelo carpete, queimando-o, com fogo nas costas e nos braços.

E quando levantou a pequena cabeça queimada, revelando os poços roxos de seus olhos, ela simplesmente sumiu, fazendo as luzes se acenderam.

- Que horror! - Ayako enterrou o rosto nas mãos tentando se acalmar.

- Eu disse que seria desagradável. - Youko disse olhando interrogativamente para a irmã.

- Por que não disse que isso acontecia? - Naru parecia inabalável se a voz não estivesse tão fria.

- Não ia fazer diferença. Além do mais, apenas o fogo é padrão. O que veio depois é anormal. - Reiko se defendeu. - aquela porta nunca se abriu.

- Além disso, tem algo errado! - Youko interferiu.

- Essa casa toda está errada! - Ayako gritou quase chorando.

- Recomponha-se, Ayako. - Bou-san tentou acalma-la, mas por dentro estava tão nervoso quanto a miko em seus braços. Realmente, tudo aquilo era errado.

- Por que acham que há algo errado? - se não tivesse tanto sangue frio quanto o chefe, Yasuhara teria desmontado com a visão do inferno dentro daquela porta.

- Estamos inteiras. - disseram em coro.

- Hara-san? - Naru chamou.

- Horrível! - ela balbuciou olhando para a porta branca. - tantas crianças... como...

Antes que pudesse perguntar do que ela falava, a médium tombou desfalecida. Todos se agruparam para ver Lin pegar a garota no colo para levá-la ao andar de cima. Todos estavam ali, menos Mai e as irmãs.

- Taniyama-san? - Naru ouviu ouviu Reiko chamar sua assistente e naquele momento percebeu a posição assustada das ESPs. - Onee-chan?

Nenhuma das duas responderam. Youko e Mai olhavam para pontos distintos, mas com o mesmo olhar. Aproximou-se de onde a menina estava sentada e esperou a reação dela.

Estava sendo muito assustador atuar naquele caso. Já não bastava os pesadelos e as experiencias que teria, agora teria uma noite de insônia. Não só por causa do poltergeist, mas também, pela visão daquela menina novamente.

- Mai! - ouviu a voz do chefe no instante em que a garotinha a tocou. Pulou no lugar com o susto e se encolheu no estofado.

- Quem você viu, Taniyama-san? - Youko perguntou, ignorando todo o resto. - Foi a gaijin?

- Como sabe? - tirou as mãos do rosto e olhou para a morena.

- Ela já falou comigo. Perguntou se eu conhecia alguém só. Não entendo por que ela apareceu... - percebeu o clima tenso e a mão crispada de Oliver no estofado. - você também é órfã, Mai-chan...

- Desde os quatro anos. - confirmou balançando a cabeça.

- Está pensando o mesmo que agente, Oliver? - Reiko manteve-se séria.

- Infelizmente. - concordou.

Permaneceu na cama resistindo a vontade de verificar o furdunço do lado de fora de seu quarto. Todo o poltergeist daquela noite havia terminado e seu quarto continuava escuro. A porta estava fechada e as janelas vedadas, mas devia passar pelas frestas o mínimo de luz. Nada.

Levanto-se e, tateando, foi á janela para abri-la. Sentiu o ar frio de outono banhar-lhe o rosto e estranhou a escuridão, afinal, era lua cheia. Levou a mão ao rosto e tocou o branco do olho. Correu horrorizada á porta, tropeçando na cama e caindo num baque surdo. Não podia ser verdade.

Desesperada, encheu o pulmão de ar e gritou.

Aquele grito de horror fez-se vez na espinha de todos da casa. Reiko pulou do sofá e seguiu escada acima, chamando pela irmã caçula.

- Noll, não consigo me levantar. - Youko anunciou com desespero, tentando sair do sofá. - veja minha irmã, por favor!

Mai se levantou e puxou-o pela mão em direção á escada. Chegaram a porta do quarto de Satiko, apreensivos. Todos estavam ali estancados e abalados. Masako ainda estava desfalecida, então qualquer pedido para reconhecer uma aura fantasmagórica em torno da moço seria inútil.

Noll abriu espaço entre os subordinados e entrou, seguido de Mai(que havia murmurado á Ayako para ficar com Youko no andar debaixo). A gótica já trajava seu inseparável pijama de caveiras(que Gene dera a ela antes de sua morte), e estava no chão, agarrada á irmã, em prantos.

- O que houve? - Mai perguntou se ajoelhando ao lado delas.

- Meus olhos... - Yoru balbuciou.

- O que tem? - Noll sempre imaginara sentir algum tipo de satisfação por ver qualquer uma delas, em especial Satiko, sofrendo. Mas, não estava sendo nada agradável vê-la daquele jeito. - o que houve com seus olhos?

- Eu fiquei cega! - ela gritou se enterrando nos braços da irmã.