Escudo
Capítulo II
Rendendo meu coração
Por Mel
Deitado na campina, apreciando a grama verde do final da primavera, Li deu uma pausa no pesado treinamento. Estava exausto. Depois dos boatos sobre ataques ao reino de Nagoya, o exército decidira intensificar as estratégias e aumentar as horas de combate. Não queria admitir, mas sentia dores musculares agudas. Fechou os olhos por um instante sentindo a brisa balançar seus cabelos castanhos. O anoitecer chegava mudando de cor o céu de Tomoeda, o clima estava agradável com a entrada do verão. Respirou fundo sentindo seus músculos relaxarem.
"Está dormindo?"- A voz melodiosa invadiu seus ouvidos. Abriu os olhos dourados encarando a princesa.
"Não...Mas estava quase"- Admitiu depois de um sorriso tímido.- "Mas não tem problema"- Disse sentando-se em seguida. Viu a garota posicionar-se ao seu lado. O lindo vestido verde água realçando os olhos esmeraldas, que por algum motivo estavam mais brilhantes do que o costume.
"Pode dormir se quiser. Eu fico quietinha".- Disse depois de um suspiro. Ela sabia que ele a olhava.
"Eu só estava descansando um pouco"- Sorriu- "Vamos princesa, eu te conheço. Por que está com essa carinha?"- Perguntou com seus intensos olhos âmbares sobre ela.
"Estou cansada também. Meyling pegou pesado comigo hoje no arco e flecha"- Admitiu esticando os braços- "Até eu acertar o centro do alvo, ela não me deixou parar".
"Ela gosta muito de você, Sakura... Só quer o seu melhor, pode ter certeza".-A olhou- "Desculpe-me por não poder treiná-la esses dias". – fez uma pausa- "Mas o seu pai ordenou intensificar o treino do batalhão".
"Eu entendo..."-Resmungou de leve- "Você acha que podem nos atacar?".
"Espero que não, mas não podemos descartar essa possibilidade".- Ele ficou sério de repente.-"Como sabia que eu estava aqui?".
"O Takashi me contou..." – Sorriu- "Foi um pouco difícil arrancar essa informação dele, mas eu consegui"- Ela parecia triunfante.
Os olhos âmbares brilharam – "Que bom que ele contou. Eu estava com saudades"- Foi o que respondeu e sorriu ao ver as bochechas dela queimarem.
Ela se jogou na grama, espreguiçando-se demoradamente enquanto sorria. O perfume dele era forte e delicioso e inundava suas narinas.
"Olha!"- Disse contente- "A estrela polar...".
Ele se deitou ao lado dela.-"Sim... A primeira estrela que aparece toda noite. Ela é bonita, não é?".
"Sim! É a minha estrela favorita"- Comentou brincando com um pingente no pescoço, enquanto observava o céu. – "Tenho certeza que quando eu morrer vou morar naquela estrela, junto com a minha mãe".
"Não gosto quando você fala essas coisas"- Respondeu um pouco contrariado, olhando para ela sério.
"Ué...Algum dia todos vão morrer, não?" – Perguntou levantando uma sobrancelha.
"Sim, mas não quero tocar nesse assunto..."- Suas mãos suaram com o simples pensamento de um dia perder sua princesa. O coração dolorido.
"Bom, eu espero estar bem velhinha quando isso acontecer"- Comentou sincera o encarando profundamente. - "Mas tem coisas que eu tenho mais medo do que morrer, sabia?".
"E o que seria?"- Perguntou. A dor no peito ainda o incomodando.
"Ah, perder as pessoas que eu amo, por exemplo"- Sentiu um arrepio-"Deus me livre de perder você, por exemplo"- Confessou em um sussurro.
"Deus me livre de perder você".- Os olhos âmbares invadindo sua alma. Sentiu o coração bater duas vezes. Sem pensar tocou os longos cabelos mel – "Eu não sei o que eu faria".
"Você tem planos para o futuro, Syaoran?"- Perguntou docemente virando-se para ele ainda deitados.
"Ah...eu...bem..."- Pigarreou voltando-se para ela- "Eu sempre quis ser general...Desde pequeno, desde muito antes de uma pequena princesa girar meu mundo de ponta cabeças a ponto de eu me jogar nas fortes correntezas"- Sorriu divertido.
"Essa princesa te deve a vida, você sabia disso?"- Respondeu no mesmo tom.
"Ela já pagou esse débito sem perceber"- A encarou profundamente.
"Como?"- Levantou uma sobrancelha.
"Um dia eu te conto"- Aquele sorriso lindo que ele dava só para ela.
"Hum...Certo"- Colocou as mãos branquinhas sobre a dele e sorriu ao vê-lo corar. O viu encarar novamente o céu estrelado e se aconchegou nos braços fortes do comandante. A essência dela invadindo seu corpo. Por um minuto pensou que estava sonhando, que acordaria com Takashi o chamando para treinar, mas o calor do corpo esguio sobre o seu lançava todas as suas dúvidas pelos ares. Ela estava ali, com ele...Tinha certeza disso.
"Pode dormir, Syaoran...eu sei que você estava tentando dormir quando eu cheguei".- Disse aninhando-se melhor.
'Dormir de que jeito?'- Sua mente gritou desesperada- "Eu perdi o sono".
"Me perdoa...eu não quis tirar seu sono".
Ele docemente esfregou seu nariz no delicado nariz dela em um carinho terno.
"Pode tirar o meu sono quantas vezes você quiser que eu não me importo".
"Mentiroso..."- Sorriu suavemente- "Todos ficam de mau humor quando são acordados de repente".
"Depende de quem os acorda".- Rebateu sincero.
'Eu gosto tanto de você Syaoran, tanto'- Fechou os olhos ao pensar no tamanho do sentimento que nutria por ele.- "Verdade...Lembra quando você me acordou no meu aniversário? Eu mal tinha dormido à noite e a última coisa que eu queria era levantar, mas quando eu vi que era você" –Bocejou- "Meu mau humor...sumiu...imediata-"-outro bocejo- "mente"
"Pode dormir, Sakura..."- a voz protetora – "Eu nunca vou te soltar, lembra?".
"Eu sei..."- Ela sorriu – "Eu nunca quero que você me solte".
O sono veio em seguida e abraçados viu a princesa adormecer. Colou seus lábios nos dela em um terno e suave beijo apaixonado.
"Descansa...Eu estou aqui"- Sussurrou no ouvido dela a fazendo se aninhar ainda mais em seu peito. Seu coração quase saiu pela boca. A doçura dela invadindo sua pele. 'Ai Deus'- Foi a última coisa que pensou ao ver que ela lhe abraçava mais.
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"Levanta essa espada"- Meyling ralhou um pouco irritada com a princesa- "Está deixando muito abaixo da linha da cintura, Sakura. Vai acabar sendo atingida de novo".
"Não estou não"- Rebateu reposicionando a arma rapidamente. O delicado braço vermelho pela pancada.
"Está sim"- Li assistia de fora a luta das duas. Sentia vontade de interferir todo tempo em que a princesa pudesse ser atingida, mas não podia. Ela precisava aprender – "Vamos, segura firme e não deixa bambear".
"Não sei porque preciso aprender a lutar com espadas. Adagas são tão mais legais"- Bufou- "Além do mais, meu pai não me deixou entrar para o exército mesmo".
Syaoran fez um grande esforço para não rir, mas a risada de Meyling o desconcentrou e acabou cedendo, olhando para Sakura que os encarava com as mãos na cintura, visivelmente contrariada, sem perceber o quão doce parecia naquela posição.
"É claro que ele não ia deixar você entrar para o exército. Você é uma princesa..."- A morena falou enxugando algumas lágrimas que se formaram no canto dos olhos rubis. Nunca rira tanto em toda sua vida- "O dever do exército é protegê-la não colocá-la em risco, alteza".- Enfatizou o título da amiga.
"O dever do exército é proteger o reino"- Comentou casual, dando de ombros.- "Isso inclui tudo...Se meu pai pode defender Tomoeda, por que eu não posso também? Ser princesa é muito chato...queria ser uma amazona como você"- Fez bico- "Mas todos esperam que eu seja uma boa rainha, assim como a minha mãe foi..."- Os olhos esmeraldas perderam o brilho de repente- "Mas eu não consigo ser como ela"- Constatou triste, fazendo o coração de Syaoran fisgar sem aviso.- "Eu tento, mas não consigo...Faz quase seis meses que ela morreu e ainda assim..."- Fez uma pausa- "Eu não consigo melhorar em nada".
"Cada um é único, Sakura"- ele começou compreensivo- "Ninguém está esperando que você seja como ela, porque você é você, oras!".- Completou mentalmente- 'Especial do seu jeito único de ser...'.
"E quem sou eu, hein?"- Perguntou brava- "Quem?"- Segurava algumas lágrimas – "Não sou uma boa guerreira, não sei mexer direito no ábaco, as damas vivem zombando de mim porque quero salvar os animais e não como carne!"- Largou a espada com tudo no chão- "Eu sou a princesa do desastre"- Ela surtara. Uma crise sentimental um mês antes de seu aniversário de 18 anos.
"Sakura..."- Meyling chamou a melhor amiga docemente- "Você é incrível! Todas as mulheres desse reino gostariam de ser como você. Uma pessoa decidida, divertida, que sempre sorri mesmo diante das dificuldades... Doce, sincera e linda. Você será uma excelente rainha um dia e disso eu não tenho sombra de dúvidas".
"Acha mesmo?"- Perguntou desconfiada, algumas lágrimas banhando o belo rosto.
"Não sou só eu quem acho, não é mesmo comandante?"- Cutucou o primo que observava a princesa com a expressão perdida.
"Eu sempre achei"- Ele sorriu carinhosamente para ela, que sentiu o rosto esquentar imediatamente.
Ela sorriu e ia responder aos amigos quando um Yamasaki totalmente sem fôlego chegou a arena onde treinavam.
"Nossa Takashi, que cara é essa?"- Meyling perguntou de pronto – "Parece que viu um fantasma".
Os olhos negros repletos de preocupação.
"O que aconteceu?"- Li perguntou não gostando nenhum pouco da expressão do amigo.
"Foi horrível. Rebeldes atacaram o reino de Fukushima...Mataram quase todos. Parece que apenas a princesa consorte casada com o terceiro na linha de sucessão e a filha de dezoito anos sobreviveram ao ataque, porque se esconderam em uma passagem secreta".- O horror refletido em seus olhos – "Corpos e feridos não param de chegar. O rei colocou o exército em alerta vermelho".
"Meu Deus!"- Sakura exclamou correndo em direção ao amigo.- "Precisamos fazer alguma coisa".
"Você não!"- Li falou de uma vez fazendo o pequeno coração perder um batimento- "Você fica aqui. Não sabemos se esses rebeldes estão por perto".
"Mas eu quero ajudar"- Insistiu- "E não será você quem vai me impedir".- Rebateu.- "Eu sou a princesa aqui".
"Tenho ordens expressas do rei para te proteger princesa, desde os treze anos, não me obrigue a relembrá-la"- A voz dele soara tão autoritária que ela tremeu sem querer.
"Não é justo!"- Bufou- "Esse é o meu reino...".- Implorou para a amiga- "Meyling! Fala alguma coisa".
"Não posso, Sakura..."- A última coisa que queria na vida era ver o primo nervoso.- "Teoricamente o Syaoran tem razão".
"Essa super proteção de vocês me dá nos nervos"- Resmugou- "Estou voltando para o palácio".- E com os olhos escurecidos virou as costas pisando duro em direção do hall principal.- "Sozinha"- Murmurou.
"Meyling, acompanha ela, por favor. Depois junte-se as tropas"- Pediu para a prima que concordou com a cabeça. – "Sakura é muito teimosa"- Levou as mãos as têmporas. Quando queria, sua princesa o tirava do sério.
"Acho que você está exagerando Syaoran"- Takashi começou de vagar- "Você a trata como a mesma menina de dez anos que caiu na cachoeira".
"Eu só quero protegê-la"- Soltou o ar com tudo- "Só isso"- Os olhos âmbares demonstrando uma linha de arrependimento – "Vamos...Agora não dá para pensar nisso. Como foi que aconteceu?".
"Um ataque surpresa"...
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"Papai? Posso entrar?"- Sakura apareceu na fresta aberta da magnífica porta de madeira que separava a sala do trono, da aérea particular do rei.
"Claro, minha pequena"- Respondeu sorrindo. Mapas espalhados por toda a mesa. Syaoran e alguns outros comandantes sentados discutindo algum assunto militar.
Sentiu os olhares voltarem para ela e a reverência em respeito ao seu titulo real. Os olhos âmbares queimando sobre suas costas.
"Algo a perturba?".- O rei a olhou demoradamente. Conhecia a filha o suficiente para saber quando alguma coisa estava errada. Li franziu a testa sem perceber. Há dois dias não se falavam e aquilo o estava matando. Tudo porque a protegia de mais. Será que era tão difícil para sua princesa entender que tudo o que fazia era por ela e para ela?
"Será que poderíamos conversar em particular?"- Remexeu-se um pouco incomodada. Invadir uma reunião estratégica não era lá muito discreto, mas não havia outro jeito. Precisava da permissão do pai e fazia horas que ele estava lá dentro. E por menos que quisesse admitir também queria ver Syaoran. Ele estava tão ocupado com a proteção de Tomoeda...
"Claro"- Virou-se para Li- "Comandante, por favor, acompanhe-nos. Serei breve".- Fez sinal para que a filha o seguisse e ela assim o fez, sem olhar para trás, o que fez o coração do guerreiro doer sem aviso.
Fujitaka apontou uma cadeira decorada para que a princesa sentasse assim que saíram da sala. Li permanecia de pé ao lado do rei com a mão na bainha da espada.
"Pode falar, filha...".
"Pai eu gostaria da sua permissão"- Ela começou de vagar tentando inutilmente ignorar a presença dele- "Amanhã seria o aniversário da mamãe e eu gostaria de construir um memorial em forma de cravos silvestres...Para que o povo possa homenageá-la sempre". – Respirou fundo para não permitir que as lágrimas de saudades caíssem novamente.
Os olhos castanho-escuros doloridos e saudosos encararam a princesa com pesar.-"Por que isso agora, meu bem?"- Perguntou em um assobio- "Não é melhor deixar as coisas como estão?".
"Não sei papai... Às vezes me sinto mal, porque sinto que a vida vai continuando e tenho medo de um dia esquecer dela...Procuro me ocupar, fazer os deveres reais para que a dor não volte..."
"Venha"- Levantou a filha com delicadeza levando a para frente do espelho. Li permanecia calado, mal suportando vê-la sofrer daquela maneira sem que pudesse fazer nada. Xingou-se mentalmente- "Olhe bem para essa bela mulher de quase dezoito anos". – A viu encarar a própria imagem- "Ela é a minha melhor parte, com a melhor parte da mãe dela... Puxou a beleza e a inteligência da mãe...".
"Papai...".- Tentou interrompê-lo.
"Como esquecer dela, meu bem? Como?"- Sorriu- "Se você é o melhor dela...".
"Eu nunca vou ser como a mamãe".- Suspirou pesado.
Li apertou o próprio punho e travou o queixo.
"Não mesmo"- Levantou o rosto de sua eterna criança- "Vai ser diferente do que a mamãe, mas vai ser você, e isso já basta"- Sorriu para filha- "Agora trate de colocar um sorriso nesse rostinho e sobre o memorial, apesar de eu achar uma excelente ideia, eu gostaria de manter a imagem dela viva." - Sorriu docemente ao ver Sakura concordar- "E, por favor, veja se as princesas de Fukushima precisam de alguma coisa. Ouvi falar que ainda estão muito assustadas com tragédia".
Ela concordou com a cabeça e levantou-se depressa.
"Devem estar mesmo. Todos estão"- Finalmente encarou Li que mantinha o olhar intenso sobre ela.- "Já vou papai, nos vemos no jantar".
O rei Fujitaka acenou com a cabeça e após breve reverência a princesa saiu da sala. Li não pôde evitar que eu um suspiro pesado saísse de dentro de si chamando a atenção do monarca que pousou um das mãos sobre o ombro do rapaz.
"Às vezes o orgulho é o pior sentimento para encobrir o amor".
"Ma-Majestade?".- Piscou várias vezes.
"Vamos comandante, ainda temos muitas coisas para discutir"- Sorriu enigmaticamente vendo o belo jovem o acompanhar de volta a sala de estratégias.
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A música enchia o ambiente com canções célticas e gregas antigas. O palácio estava um alvoroço. Finalmente a tão esperada festa da colheita havia chegado trazendo cores e luzes para as paredes de pedra. Syaoran disputava um jogo de bastões com outros amigos enquanto as damas da corte se aglomeravam para vê-lo lutar.
"Aposto 10 moedas que o comandante Li derruba esse cara"- um soldado falou alto entre um gole de vinho e outro.
"Aposta aceita meu amigo, o cara é o dobro da altura do comandante"- Falou de lado- "E tem o dobro da experiência...".
Gritos de motivação ecoaram pela arena e todos viram em um golpe certeiro, Li nocautear o grande soldado. O suor das lutas repetidas escorria por seu peito nu definindo ainda mais seus músculos abdominais. Meyling ria do rubor na expressão do primo, quando uma moça o elogiou mais de perto, deixando o rapaz ainda mais constrangido. Trombetas ecoaram e um silêncio quase mortal se espalhou pelos jardins. O rei e a princesa, juntamente com o que sobrara da realeza de Fukushima, seguidos pela escolta real subiram ao palanque onde os tronos estavam posicionados para a abertura oficial da festa. Um murmúrio triste pôde ser ouvido. Era a primeira festa em que a doce rainha não estava presente.
A elegante mulher de longos cabelos ruivos e olhos negros parecia apática a situação, tanto quanto sua filha Akemi, que era uma auto imagem da mãe em uma versão mais jovem.
Sakura ficou de pé diante de sua majestosa cadeira e observou a multidão se aglomerar, procurando por um par de olhos âmbares em particular. Nesses últimos dias, cuidando dos feridos e ajudando o pai com a princesa viúva do outro reino, além do alerta vermelho do exército, os treinamentos foram cancelados e a verdade é que sentia muitas saudades dele. Nunca, desde seus dez anos, ficara mais de quatro dias sem vê-lo e aquilo a estava matando. Quinze dias pareceram uma eternidade.
"Povo de Tomoeda"- o rei começou após alguns segundos- "Sejam bem-vindos. Nessa noite comemoramos a festa da colheita. Mais um ano de fartura e provisão na nossa terra"- sorriu tristemente emocionando alguns súditos- "Espero que se divirtam e que a mão de Deus esteja sobre todos nós, não importa aonde estejamos"- Sentou-se encarando a filha que em seguida tomou seu lugar e sorriu para o pai levantando sua taça- "A memória da rainha".
"A memória da rainha"
Podia-se ouvir o povo repetindo. A música recomeçou e cochichos sobre a aparência da princesa surgiram por todos os lados. Li quase engasgou com a bebida ao vê-la. O vestido prateado como a lua dançava ao ritmo da brisa noturna revelando a perfeição da delicada silhueta. Os cabelos presos em uma grossa trança elaborada com flores entre as linhas do penteado. A bela coroa de cristal, tão brilhante quanto os olhos esmeraldas. Viu-a suspirar desanimada e encarar as próprias mãos após entregar a taça de ouro para um dos serviçais que estendia uma bandeja vazia. Como sentira falta dela. Era como se seus dias fossem incompletos sem o belo sorriso que ela lhe dava, que depois da morte da mãe era raro e precioso. Sentia-se mal por ter sido tão firme com ela naquele dia. Ela só queria ajudar, mas o medo de perdê-la às vezes o fazia reagir mal. Precisava conversar com ela e acabar com essa bobagem de uma vez por todas, antes que enlouquecesse.
"Faz tempo que o sorriso dela não é mais mesmo"- Takashi comentou casual dando um gole na bebida.
"Verdade... Desde a morte da rainha, Sakura tenta se fazer de forte"- Meyling encarou o amigo – "Ela sempre tenta se fazer de forte, mesmo quando por dentro está destruída".
"Verdade... Lembra o dia em que o cachorro dela morreu?"- O moreno relembrou – "Ela estava muito triste, mas fingia que estava contente para não perturbar os pais que passavam por momentos de escolha delicados do conselho".
"Não gosto de vê-la desse jeito". -Li confessou depois de um suspiro pesado.
"Também não..."- Meyling completou nitidamente entristecida pela situação.
"Queria poder fazer alguma coisa para que o sorriso dela voltasse"- Confessou desanimado. Os olhos âmbares opacos.
"Por que não vai falar com ela? Vocês sempre foram tão próximos".- Meyling perguntou casual, dando os ombros.- "Aposto que o sorriso dela voltaria ao normal".
"Acha mesmo?"- Um tom de esperança na voz grossa.
"Ah Syaoran!"- Sorriu incrédula- "Sempre foi assim! Desde quando vocês tinham sei lá doze, treze anos?".
"Meyling..."- Yamasaki franziu a testa em preocupação: "Você tem que parar com esse incentivo. Princesas não se casam com militares"- Constatou com pesar encarando o amigo. Não queria que ele sofresse por um amor impossível.
Ele não respondeu, mas resmungou de leve. A dor latente invadindo seu destemido coração. Ela era sim uma princesa. A sua princesa... Por um momento vacilou e seus pensamentos se tornaram obscuros. Sentiu todos os pelos do seu corpo se arrepiarem com o simples pensamento de imaginar sua Sakura sendo tocada por alguém que não fosse ele próprio. Para ser sincero, nem ele mesmo tinha coragem de ousar tirar a inocência daquela doce criatura. Deu outro gole na bebida sem tirar os olhos da menina.
"Vi que lady Tanaka não para de te olhar"- Meyling começou tentando trazer a mente do primo de volta à festa. Às vezes tinha vontade socar o amigo quando ele falava coisas desse jeito- "Outro dia a vi pedindo permissão ao exército para assistir ao treino com bastões".
"É, ela é realmente insistente"- Sorriu de lado um pouco sem jeito.
"E tem um corpo muito bonito"- Takashi comentou observando o farto decote da loira.- "Deus é pai".
"Vocês querem parar de falar desse jeito sobre 'mulheres' na minha presença?"- Meyling pediu irritada- "Caso não tenham notado, eu sou uma 'dama' também".
Li sorriu com a careta de Takashi ao receber um tapa da garota. Aproximou-se da prima e bagunçou os cabelos negros ganhando protestos da menina de olhos rubis. Realmente aquele assunto não deveria ser abordado assim.
"Syaoran! Para! Passei horas para fazer esse penteado"- Ralhou irritada reposicionando seus fios.- "Não sou tão jeitosa quanto a Sakura para isso e você está destruindo o meu bom trabalho".
"Não se preocupe. Você está muito bonita mesmo com o cabelo bagunçado"- Cutucou a prima- "E pelo visto não fui só eu que notei"- O olhar de vários soldados sobre ela.
Sem querer corou ao receber o convite de um outro capitão para dançar.
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"Syaoran está muito elegante essa noite"- o rei começou chamando a atenção da filha que parecia perdida naquele lugar - "As damas não poderiam escolher partido melhor. Viu como elas o cercam?".
Ela o encarou com os olhos confusos. Não o havia visto ainda. Mas a direção que o pai olhava lhe deu uma dica de sua posição e lá estava ele, lindo, de armadura imperial, com um copo de alguma bebida na mão. Ele sorriu com algo que Takashi falou, um sorriso que ela morreria apenas para vê-lo novamente.
"O que quer dizer com isso papai?"- Perguntou encarando o rapaz de longe, sem evitar que suas bochechas queimassem ao cruzar com os intensos olhos dourados.
"Que Syaoran se tornou não só o melhor comandante de nosso exército, como um homem íntegro e inteligente a quem estimo como um filho"- o sorriso misterioso no rosto. - "E se não fosse por ele, eu não a teria do meu lado hoje". - Tocou carinhosamente a mão da filha. - "E eu jamais poderei agradecê-lo o suficiente por isso".
A princesa franziu a testa encarando novamente a multidão.
"Eu gosto muito dele papai"- Confessou olhando para o bondoso senhor ao seu lado. Eles falavam baixo para que as convidadas de honra não os ouvissem- "Muito mesmo, mas ele só me vê como uma irmã. Ele me trata como trata a Meyling".- Suspirou desanimada. – "Além do mais, ele está bravo comigo desde o dia do ataque a Fukushima". - As esmeraldas levemente sombrias- "Às vezes eu acho que só sou um 'dever' para ele".
Fujitaka encarou a jovem de forma única e preocupada. Sabia que os dois se amavam, sempre soube, mas desligada como sempre fora ela não percebia que o comandante a tratava como a pedra mais valiosa do mundo. Torcia mentalmente para que percebessem logo esse sentimento e que o senso de dever do rapaz não se tornasse um bloqueio. Queria que a filha fosse feliz. Queria que eles fossem felizes. Eles mereciam isso. Decidiu que honraria Syaoran no aniversário de 18 anos de sua menina e lhe daria um título nobre em homenagem ao aniversário de salvamento da garota acabando de uma vez por todas com as dúvidas no coração de seu filho de consideração. Oito anos era tempo demais torturando os jovens apaixonados.
Teve os pensamentos interrompidos quando um conde convidou Sakura para dançar. Franziu a testa sem perceber. Ela estava relutante, mas acabou aceitando o convite. O rapaz sorria abobalhado pela beleza de sua filha, que mantinha a diplomacia e uma certa distância, mas não pôde evitar o sorriso quando percebeu o ciúmes latente nos olhos do jovem comandante.
'Jovens'- Falou para si mesmo sem deixar o sorriso esmorecer.
Meyling encarou o primo que tomou o conteúdo do copo de uma só vez, fuzilando o conde com o olhar.
"Ora, ora"- o capitão que tirara a morena para dançar comentou- "Esse cara não perde tempo mesmo".
"O que quer dizer?"- Li perguntou de uma vez. Sua voz o traíra mortalmente.
"Conde Ryu Ota sempre foi louco pela princesa... Não que todos não sejam"- Viu o comandante lhe olhar atravessado- "Mas diferente dos outros, ele a persegue"- Deu um gole na bebida- "Ele vive dizendo que ainda vai conquistá-la, mas eu disse que era perda de tempo...".
"Perda de tempo?"- O ciúme escureceu os olhos âmbares, quase os alaranjando.
"Achei que estivesse mais do que explícito o interesse da princesa por uma certa pessoa"- cutucou Li, que mal ouvia o que o capitão falava. Viu em câmera lenta o conde se aproximar mais dela e dizer algo próximo aos ouvidos delicados e sua princesa corar, provavelmente com algum comentário sobre sua beleza. Aquela fora a gota d'água. Que se danassem os títulos, as barreiras, tudo! Aproximou-se do casal com cara de 'poucos amigos' afastando quem estivesse em seu caminho.
"Olá, princesa"- Sakura quase pulou de susto ao vê-lo tão perto de repente - "Como está?".
"Se não se importa comandante"- O rapaz de olhos azuis começou arrogante- "Estamos no meio de uma dança e o senhor está nos atrapalhando".
Sakura viu Li estreitar os olhos sobre Ryu que tremeu um pouco, sem perceber.
"Eu não estava falando com você"- Repetiu o olhar superior fazendo o jovem engolir seco. Syaoran era o tipo de pessoa que ninguém ousaria ter como inimigo- "Será que eu poderia ter a honra dessa dança?".
Ela franziu a testa, sem saber o que responder. Aquilo tudo fora no mínimo curioso. Antes que pudesse dizer alguma coisa, Syaoran afastou o rapaz dela e segurou a mão branquinha, não sem antes manter uma ameaça silenciosa com o olhar.
"Aquele cara estava me dando nos nervos"- Confessou após alguns segundos arrancando um sorriso engraçado de Sakura.- "Você está muito bonita"- Comentou fazendo a princesa corar. A voz dele soara tão honesta que foi impossível controlar o próprio coração.
"Obrigada. Você fica muito bem de armadura"- Sorriu novamente- "Ainda está bravo comigo?".- A voz soou preocupada.
"Sakura..."- Ele começou suavemente- "Eu...não estou bravo com você...eu só...reajo mal quando penso que algo pode lhe acontecer".
"Você não pode me salvar de tudo, Syaoran".
"Mas posso fazer o possível para que nada de mal lhe aconteça..."- Respirou fundo sentindo o doce aroma que emanava dela.- "E às vezes você parece que 'gosta' de se colocar em perigo".
"Você se preocupa de mais, comandante"- Deu os ombros- "Eu só queria ajudar...só isso".
"Sei disso..."- Tocou o rosto delicado. O coração tão acelerado que chegava a doer o peito- "Me perdoa?".
"Só se você me perdoar também..."- Ela fechou os olhos ao sentir o toque dele.- "Fui muito teimosa".
"Eu senti sua falta"- Ele falou de pronto sem ser capaz de frear a própria boca.
Ela levantou o belo rosto e o encarou, o coração batendo freneticamente pelo o que acabara de ouvir.
"Eu quase morri de saudades...".- Confessou baixinho arrancando um belo sorriso do jovem.
Ela encostou a cabeça no peito dele quando a música se tornou mais lenta, o que fez o coração do rapaz bater duas vezes mais rápido. Não souberam quanto tempo ficaram assim, perdidos um no outro.
"Quer beber alguma coisa?"- Syaoran perguntou quebrando o silêncio pacífico entre eles quando a música voltou a animar.
"Será que ainda tem néctar de mel?".
"Com certeza tem"- Puxou-a pela mão em direção a grande mesa de bebidas. Os olhares os acompanhavam para onde iam. Pediu dois copos para a serva que lhe deu prontamente, com um sorriso 'bobo' nos lábios. A princesa fechou a cara instintivamente.
"Você está bem?".- Ele perguntou reparando no 'bico' repentino.
"Es-Estou"- Pegou a bebida das mãos dele que continuava olhando-a de forma engraçada.- "Meyling e Takashi parecem estar se divertindo"- Sorriu mudando o assunto- "Até que ele e a princesa Akemi fazem um belo casal, não acha?".
"Ele sempre teve uma queda por ruivas"- Sorriu de lado lembrando-se do último caso do amigo.
"E você?".
Li teve um acesso de tosses quase deixando a bebida cair de sua mão.- "Eu o quê?"
"Ah, você sabe..."- Ela começou devagar- "Deve ter um tipo de mulher que te atraia, não?".
"A bebida está boa?"- Perguntou com o rosto em chamas tentando desesperadamente não responder a pergunta.
"Ah, Syaoran! Não fuja do assunto..."- Sorriu um pouco.- "Te fiz uma pergunta".
"Lógico que tem, Sakura..."- Um pouco incomodado. A frase de Takashi ecoando em sua mente.
"Entendo"- Ela suspirou pesado chamando a atenção do guerreiro. – "Eu te atraio?".
Ele piscou algumas vezes e, inconscientemente, assoviou.
"Por que está me perguntando isso?".
"Queria saber..."- Deu os ombros tentando parecer impessoal.
"Acho melhor voltar para o trono, princesa"- Os olhos âmbares levemente escurecidos – "As homenagens vão começar".
Viu a mudança repentina na expressão da garota e cerrou os punhos desejando mentalmente não perder o controle. Aquela pergunta não era um tipo de pergunta que se fazia, ou era? Acompanhou-a de volta ao trono e se posicionou atrás dela. Queria gritar para os quatro ventos que ela era simplesmente a mulher mais bonita que já havia visto. Mas não podia. Poderia um peixe se apaixonar por um pássaro, mas onde eles viveriam? Fechou os olhos desejando ter asas e sem se conter, se aproximou da orelha delicada sussurrando suavemente:
"Poderia a lua algum dia em sua existência não atrair a noite?".
Viu-a abrir um sorriso tão sincero que fez seu coração bater duas vezes mais rápido. Alheios a tudo o que acontecia ao redor, não perceberam quando Sayuri tocou as mãos de Fujitaka de forma sedutora.
Continua...
NA/
Segundo Capitulo on! E ai o que acharam?
Ai esse casal é tão fofo que eu não me agüento! rsrsrs
Queria agradecer a Goruden, Dreime,Sakura Flor, Felisbela, Sassah Potter pelos comentários e a Pri, pela revisão,alem de todos que leram mas não deixaram review. Obrigada mesmo assim por lerem a minha história.
Eu sei que é clichê eles serem extremamente perfeitos, mas eu não consigo evitar!Rs rs... É assim que eu os vejo, e eu sou fã incondicional desse casal e claro, idéias são sempre bem vindas, apesar dessa fic, diferente das outras, já estar toda rascunhada para eu não ter um bloqueio criativo. Sobre Sonhos de Cinderela, eu já escrevi mais uns dois capítulos, mas ainda não está do jeito que eu quero, por isso ainda não mandei nem para revisar.
Eu recebi tão poucos comentários do ultimo capitulo de Chamas. O que vocês acharam? Contem para mim! Beijossss até o próximo capítulo.
