Escudo
Capítulo V
Por Mel
Flores ao Vento
Vestida com a túnica negra imperial de seda vinda dos grandes mares, Sakura observava a fumaça se elevar aos céus na cerimônia de cremação do rei, no sétimo dia após sua morte. Diferente das mulheres da realeza que eram levadas pelas grandes águas, reis e príncipes encontravam o fogo em uma pira construída ao redor de uma grande ágora, onde todo o povo presenciava a elevação do espírito.
Os sete dias foram como um pesadelo ambulante caçando toda sua alegria. Se recusara a comer nos dois primeiros, levando Syaoran, Meyling e Takashi a beira da loucura. Nada do que faziam parecia animar a menina, ou motivá-la. No terceiro dia, fugiu para a cachoeira novamente e acabou desmaiando de fraqueza as margens do rio. Syaoran a encontrou e quase morreu ao vê-la daquele jeito. Teve que tomar medidas drásticas para que ela não definhasse. Fez o pai cozinhar uma sopa bem forte, feita de legumes e raízes especiais, a mesma que ele lhe dava quando era pequeno para fortalecer-se, mesmo em época de escassez, e, aos poucos, deu para a garota na boca, que só chorava e mal engolia no começo, mas a falta de nutrientes fizera seu corpo reagir e rapidamente a fome voltou.
No quarto e quinto dia, o corpo de Fujitaka fora analisado por monges em busca de um culpado do trágico assassinato do soberano e no sexto dia, após o embalsamento e os perfumes fúnebres a princesa pôde chorar a morte do pai, aos pés do grande mármore ao qual ele era exposto para a realeza. Tudo passara muito rápido.
E agora...o cheiro de lavanda e madeira queimada inundava o ambiente. Sentiu a mão confortadora de Li sobre seus ombros e sorriu fracamente para ele em meio as lágrimas de saudades e tristeza.
"Vai passar, Sakura..."- Os olhos âmbares quebrados pela dor de vê-la daquela maneira- "Você vai ver, vamos achar quem fez isso".
"Syaoran..."- Ela o encarou profundamente- "Encontrar o culpado, não vai trazer o meu pai de volta".
"Mas não podemos deixar alguém perigoso assim a solta"- A olhou preocupado- "Essa pessoa pode tentar algo contra você". E não havia como deixar que alguém pudesse lhe tirar sua princesa. Nem pensar.
"Acho muito difícil"- a voz da rainha invadira a ágora ecoando por todos os lados. Durante a semana ela fora consolada pelas servas e pela filha, que a ajudaram em tudo para sair do luto. Durante a cremação ficara quieta, quase em choque, demonstrando que ainda não digerira a morte do rei. Um teatro tão convincente que comoveu um reino todo.
"O que quer dizer?"- Sakura levantou uma sobrancelha- "Acharam o culpado?".
"Achamos"- A voz dela era autoritária e criou cochichos em todos os lugares. O culpado deveria pagar com a própria vida- "Prendam essa traidora".- Ordenou apontando para Sakura que deu dois passos para trás. Li se colocou na frente da princesa, juntamente com Meyling e Takashi que se posicionaram defensivamente em volta da garota.
"O que pensa que está fazendo?"- Ele perguntara incrédulo, olhando ameaçadoramente para os soldados.- "Ela é a herdeira legítima do trono de Tomoeda!"- Ele quase gritou na cara da rainha. Aquela mulher só poderia estar demente.
"Essa menina matou o próprio pai a sangue frio, por isso deve morrer"- Ela falou com um fundo vitorioso na voz. Estava perigosamente próxima.
"O- que?"- Os olhos esmeraldas se arregalaram, ela se colocou na frente dos três encarando a mulher firmemente- "Isso é um absurdo!".
"Achamos isso na cama de núpcias"- Um dos monges mostrou a fita do cabelo de Sakura- "E também a adaga de Fukushima que alguns guardas viram a rainha lhe presentear no dia do casamento".- A encarou- "É uma peça única e estava cravada no coração de seu pai".
Ela sentiu o mundo girar. Se aquilo fosse uma brincadeira, era de muito mau gosto.
"Alguém está tramando me culpar pela morte do meu pai"- Ela encarou o monge com os olhos tão penetrantes que ele desviou o olhar. Era difícil para todos eles aceitarem que a bela e doce princesa fosse uma assassina. Mas diante daquelas provas...- "Vocês me conhecem desde pequena, acham mesmo que eu seria capaz de fazer isso?Ao meu amado pai?".
Ela recebeu uma bofetada na cara vinda de Sayuru. Levou a mão ao rosto surpresa, segurando as lágrimas.
"Mentirosa! Tem coragem de negar mesmo diante dessas provas?".- Jogou a adaga e fita no chão
"Provas essas que qualquer um pode ter implantando"- Li estava perdendo o temperamento. Sabia que a pena pela traição seria morte em praça pública. E nunca ele permitiria que alguém tocasse em sua princesa, nem a própria rainha.
"Acha mesmo 'duque' que alguém invadiria os aposentos reais, roubaria a adaga de Fukushima, uma fita dos cabelos da princesa e mataria o rei só para incriminar Sakura?"- Revirou os olhos- "Faça-me o favor!"- Sorriu sedutoramente- "Ninguém tem acesso aos aposentos reais a não ser a própria princesa. Nem você, que é o guardião dela poderia entrar sem ela estar no quarto, ou ser convidado, então... Como você me explica isso?". – Faltaram-lhe palavras por um instante.
"Os guardas estariam comprados"- Meyling murmurou e, em seguida, encarou a mulher- "Há tantas explicações, alteza, que parece que a senhora mais do que ninguém quer a princesa morta"- Os olhos rubis mantinham uma ameaça silenciosa.
"Traidores!"- Exclamou calando a multidão que se alvoroçava- "Todos eles conspiram contra a memória de meu amado e falecido marido".- Colocou a mão dramaticamente sobre o rosto ganhando o compadecimento do povo.
"Como pode ser amado se você mal o conhecia?"- Sakura se aproximou. A mulher era alguns centímetros mais alta do que ela, mas isso não a amedrontou.- "Quem profana a memória do meu pai é você com essas falsas acusações".
"Desde quando uma assassina pode se dirigir dessa forma a rainha?"- Perguntou encarando-a de forma envenenada.
Sakura cuspiu no rosto branco.
"Você nunca será metade da rainha que a minha mãe um foi".
Apaticamente a rainha limpou o cuspe com um pano de seda branco e em seguida a olhou.
"Sua mãe está morta..."- Ela falou bem devagar torturando a princesa com palavras- "O seu pai está morto..."- Sakura deu dois passos para trás enquanto a presença negativa dela crescia sobre si- "E você vai morrer".- A voz soara calma, fria, quase psicótica. Virou-se para os guardas- "O que estão esperando? Prendam-na!".
Um pequena guerra se formou no meio da ágora. Syaoran pegou a espada imperial que jazia junto aos pertences fúnebres do ritual e atacou alguns guardas, enquanto Meyling e Takashi montaram seus arcos e atiravam contra a milícia. Sakura pegou as adagas imperiais defendendo-se do ataque dos soldados.
SSSSS Lembranças SSSSSS
"Jovem Syaoran"- A voz calma sou atrás de si. – "Está tarde. O que faz sozinho aqui?".
"Majestade"- Curvou-se em respeito ao rei- "Estava treinando".- Respondeu timidamente. O suor pelos golpes repetidos no ar delatavam sua atividade.
"Surpreende-me que um rapaz de 15 anos tenha tanta disposição para treinar, mesmo depois do treino em grupo de hoje"- Sorriu de forma significativa.- "Mas ao mesmo tempo me deixa muito contente e orgulhoso. Falei com seus tutores, eles me disseram que está indo muito bem em tudo, que é muito esforçado".
"Obrigado, majestade"- Sorriu sem jeito.- "Tento honrar a confiança que o senhor tem depositado em mim".
O rei sentou-se em uma pedra e com um gesto pediu que o rapaz o acompanhasse. Li o obedeceu prontamente.
"Vê essas terras?"- Perguntou apontado para as colinas.- "Meu bisavô as conquistou...Elas pertenceram ao meu avô, depois a meu pai, depois a mim e um dia serão de Sakura"- Suspirou- "A primeira mulher, que subirá ao trono de Tomoeda em muitas gerações, talvez em todas elas".- O encarou- "Muitas rainhas são e serão coroadas em muitos reinos. Reis se casam o tempo todo, mas nenhuma com a autoridade que minha filha terá, por isso temo que ela tenha problemas...".
Ele não respondeu, apenas repousou seus penetrantes âmbares nas colinas.
"Talvez queiram machucar a minha menina...Esse mundo ainda é injusto com as mulheres"- Encarou o rapazinho- "Fico feliz por ter você ao lado dela".
"Majestade?!"- Ele piscou algumas vezes. Seus batimentos levemente acelerado.
"Eu sinto dentro do meu coração que você sempre irá protegê-la. E sei que não vai falhar comigo".
Ele se colocou de pé e encarou seu soberano. Tinham quase a mesma altura agora.
"Eu sempre irei protegê-la majestade".- Aquelas palavras foram mais do que uma promessa. Foram um juramento. Ele sabia dentro de si que se precisasse, morreria no lugar dela sem pensar duas vezes.
"Sei disso"- Sorriu- "Agora volte o que está fazendo. Não quero atrapalhá-lo". Virou-se para sair, mas antes fez uma pausa olhando para o menino- "Confio em você".
Ele respirou fundo e olhou para o boneco de madeira. Daria seu melhor para sempre protegê-la, sempre. Fitou o céus por um instante. A noite estava linda e o vento agradável. Distraído, não percebeu quando a pequena princesa se aproximou e apenas sentiu dois delicados braços voarem em seu pescoço.
"Syaoran! Procurei você por toda parte"- Ela comentou contente arrancando um sorriso carinhoso dos lábios do menino.
"Princesa, está tarde. O que faz aqui?".
"Eu estava te procurando, oras."- Deu os ombros.- "O palácio fica muito triste de noite. E eu nunca gostei muito do escuro".
"Você não precisa ter medo"- Sorriu timidamente- "Eu sempre vou proteger você". Foi a afirmação sincera de um coração, desde sempre, rendido a ela. Sakura sorriu abertamente e tudo o que ele sentiu foi um beijo carinhoso na bochecha como resposta. Levou a mão ao rosto involuntariamente, os âmbares arregalados e o coração aos saltos e foi inevitável corar.
SSSSS Fim das Lembranças SSSSSS
"Como ousam atacar a rainha de Tomoeda?"- Sayiuri perguntou após uma flecha acertar de raspão seu belo rosto causando um corte em sua bochecha- "Prendam todos! Eles conspiraram para matar o rei e agora querem me matar".
O exército invadiu a ágora. Syaoran foi capaz de derrubar muitos homens de uma só vez. Takashi e Meyling lutavam bravamente e prevaleciam sobre todos os que tentavam feri-los. Flechas voavam descontroladas por todos os lados, e o povo gritava em horror com tudo o que presenciavam. Fogo se espalhou pelo lugar rapidamente. O caos tomou conta do ambiente. A guerra estava declarada.
"Fuja"- Li ordenou para a princesa detendo um soldado enquanto golpeava outro- "Há uma saída secreta na lateral esquerda".
"Eu não vou deixar vocês aqui"- Ela respondeu lutando contra um soldado que insistia em prendê-la.
"Vai princesa!".- Foi a vez de Meyling se aproximar.- "Nós te daremos cobertura".
Ela ficou na dúvida do que fazia. Seu coração lhe dizia para ficar e seus sentidos lhe mandavam correr. Bastou um segundo de distração, um segundo perdida em suas indecisões para que a adaga afiada empunhada pela própria rainha cortasse a barriga delicada e que o grito agudo de dor distraísse completamente Li que acabou acertado fortemente na cabeça caindo inconsciente no chão. A partir daí sua visão falhou e tudo o que sentia era frio.
SSSSS Escudo SSSSS
O corpo estava pesado, como se milhares de cavalos a tivessem pisoteado de uma só vez. Aos poucos a visão desfocada ganhara definição e tudo o que via era cinza escuro. Remexeu-se um pouco, incomodada, sentia-se suja, molhada e o odor fétido daquele lugar feria suas narinas.
"Sakura"
Ela conhecia aquela voz. A reconheceria em qualquer lugar e qualquer tempo... Mas aonde ele estava? Por que não conseguia se mexer?
Escutou o barulho estridente e desesperado de metal tentando ser rompido. Ela tentou se mexer, mas a dor aguda em seu abdômen a impediu de fazer qualquer movimento rápido e tudo o que fez foi mover a cabeça. Correntes de ferro e bolas de chumbo decoravam o lugar.
Foi então que ela o viu. De pé, acorrentado pelas pernas tentando com todas as forças alcançá-la. Estava com o rosto levemente sujo de sangue e algumas escoriações visíveis na pele, mas o que mais lhe chamou atenção foi a forma em que ele a olhava. Como se ele preferisse morrer ao vê-la naquele estado.
"Syaor-Syaoran".
"Shiiiii, minha flor"- A voz embargada de preocupação. Os âmbares quebrados pelo o que via- "Está tudo bem...Nós vamos sair daqui".
"O-Onde ...eu estou?"- Perguntou tão baixo como um assovio. – "O que aconte- aconteceu com-comigo?".
"Você foi ferida..."- Puxou as correntes novamente gritando pela força que fazia. A pele rasgando pelo contato com o metal.- "Eu não consegui te proteger...".
Então ela o olhou. O belo rosto masculino contraído. Os olhos cheios de água.
"Eu decidi ficar.."- Ela começou fracamente. Esticou a mão para tocá-lo, mas eles não se alcançavam. Por mais que se esticassem, por mais que quisessem- "Eu não poderia deixar vocês para trás".
"Mesmo assim eu-".
"Está tudo bem Syaoran..."- O frio da febre fazia cada fibra de seu corpo doer. Aquilo era um péssimo sinal- "Vai ficar tudo bem".
E como se os céus escutassem as preces silenciosas daquele guerreiro. As tochas que iluminavam os corredores do calabouço se apagaram de uma vez, os deixando em completa escuridão. Barulhos de espadas e gritos dolorosos ecoavam pelas paredes.
"O que está acontecendo?"- Ela perguntou em meio a uma tremedeira.
"Não sei"- Ele respondeu sincero até que a voz da prima chamou sua atenção. Meyling e Takashi invadiram a masmorra para libertá-los. Um sorriso brotou em seus lábios quando viu, através da fraca luz da lua que entrava pelas grades, o vulto encapuzado balançar as chaves.
"Quem diria que eu estaria salvando o todo poderoso Li Syaoran"- Takashi comentou divertidamente enquanto procurava a chave certa. Terceira tentativa e bingo! A porta da cela escancarou.
"Vê se não se acostuma"- O comandante respondeu sentindo a pressão do metal aliviar em suas pernas. Correu até Sakura e a segurou. Ela estava ardendo em febre e tremia fortemente.- "Onde está Meyling"?.
"Na entrada cuidando dos últimos guardas" -Respondeu- "Vamos! Logo perceberão que invadimos o lugar".
"Está tão frio"- Sakura comentou gemendo enquanto se aconchegava melhor nos braços fortes. Ele lhe deu um beijo na testa sentindo a boca queimar com o contato com a pele quente.
"Vamos até o meu pai, ele saberá o que fazer"- Li ordenou para o amigo que concordou de pronto- "Fora das terras reais, há a cabana em que vivíamos".- Desceu as escadas rapidamente enquanto a escuridão ainda os ajudava na fuga. Derrotou dois soldados no caminho, batendo uma cabeça contra a outra- "Takashi leva o meu pai até a cabana, eu me encarrego de levar Sakura".- Viu o rapazinho saltar agilmente pela janela da torre e se pendurar em uma das enormes árvores que circulavam o lugar. Olhou para ela- "Aguenta minha flor"- Disse por fim se posicionando melhor e pulando em seguida. Trombetas ecoaram por todos os lados.
Agora todo reino sabia que haviam fugido.
SSSSS Lembranças SSSSSS
"Você morava aqui?"- A bela princesa de quinze anos perguntou entrando pela porta da frente da humilde casa de pescadores.
"Sim"- Syaoran respondeu tocando as paredes de madeira. Um sentimento de nostalgia invadiu seu coração. – "Morei aqui até conhecer você".
"Eu gosto daqui"- Ela respondeu sorrindo enquanto sentava-se em uma cadeira feita a mão por Shang.
"Gosta?"- Ele levantou a sobrancelha surpreso. Não esperava um comentário desses.
"É simples e rústica...mas tem lá o seu charme".
"Charme?"- Balançou a cabeça em descrédito.- "Princesa você tem realmente uma visão diferente das coisas".- 'Por isso que eu gosto tanto de você' –sua mente completou. Estava muito difícil para ele conter os sentimentos que sentia toda vez que a via. Ela era o seu mundo. Tudo o que fazia era por ela e para ela.
"De qualquer forma, estou na sua casa agora. Que tal preparar um chá?".- Fez bico- "É falta de educação não oferecer nada para um convidado".
Ele a encarou por alguns segundos, mas logo se levantou para pegar água na moringa. Se era um chá que sua princesa queria, era isso que ela teria.
SSSSS Fim das Lembranças SSSSSS
"Como ela está?"- Shang perguntou para o filho que improvisara uma cama com palha para acomodar a princesa. O conselheiro real, melhor amigo de Fujitaka assistira com horror a cena de guerra que o velório de seu rei se transformara. Viu quando a princesa foi ferida e quando o filho foi arrastado para o calabouço, e tudo o que conseguia pensar era que a rainha havia enlouquecido. Sacou sua espada para defender o que restava de seu reino, mas Meyling e Takashi o puxaram para fora de lá antes que ele também fosse considerado traidor da coroa.
"Tremendo...A febre só sobe"- Os olhos âmbares preocupados. Sentiu a mão do pai sobre seu ombro como se dissesse silenciosamente 'que bom que você está bem'.O ex-soldado se aproximou com dificuldade e ajoelhou encarando a menina.
"Preciso ver essa ferida, alteza"- Ela balançou a cabeça fracamente. Ele então cortou o vestido de seda e não gostou nada do que viu. Apesar de pouco profunda, a ferida havia infeccionado e se não tratasse logo poderia matá-la- "Preciso de água e panos limpos, azeite puro e babosa".
"Água e panos limpos tem dentro do armário...mas as outras coisas...como vamos conseguir?".- Meyling perguntou aflita observando a cena de longe. Desde que chegara da masmorra ela permaneceu calada vigiando a janela. Conhecia tão bem aquela casa. Sempre que podia voltava lá para se lembrar de onde viera e onde chegara e, por isso, havia mantimentos na cabana. Era o seu abrigo secreto. O lugar onde podia chorar sem que ninguém soubesse.
"Há um boticário há dois quilômetros daqui".-Retirou algumas moedas de ouro do bolso- "Eles vão abrir quando virem o ouro".
Takashi pegou o dinheiro e partiu de imediato no cavalo roubado de um guarda da cadeia. Tinham que salvar a princesa a todo custo. Ela era tudo o que lhes restava...Ela era a continuação da linhagem que salvara a todos eles. Meyling preparou os panos e a água e os deixou ao lado do tio, orando mentalmente para sua amiga ficar boa.
"Sakura..."- Shang a encarou seriamente- "Você precisa suportar a dor"- Os olhos verdes repousaram assustados sobre os dele. Ele embeveceu um pano e começou a limpar o corte. A princesa gritou desesperada e Li socou a parede mal suportando ouvir o que ouvia. Culpava-se por ter deixado que ela se machucasse. Se tivesse sido um pouco mais rápido...Xingou-se por não ter sido capaz de protegê-la e se aproximou pegando a pequena mão entre as suas.
"Calma, minha flor"- Jamais soube se falou isso para ele ou para ela.
"AAAAAAHHHHHHHHHHHH"- Gritou novamente. Começou a ver pontos brilhantes. Iria desmaiar, sentia isso.- "AAAAAAHHHHHHHHH".- E aos poucos tudo escureceu novamente.
SSSSS Escudo SSSSS
O galo cantou indicando que a manhã havia chegado. Os poucos raios de sol invadiram a cabana pela fresta das janelas. Sakura remexeu-se abrindo as grandes esmeraldas e encarou o lugar onde estava. Parecia uma velha cabana de madeira e ainda sim sentia-se bem lá dentro. Virou a cabeça. Os amigos estavam adormecidos, de mal jeito em cima de palhas e folhas secas. Syaoran mantinha-se sentado em uma cadeira improvisada. O rosto e os braços apoiados em sua 'cama'. Olhou para sua ferida enfaixada. Sentia-se um pouco melhor e o frio já não a incomodava tanto. Tocou levemente os cabelos dele que abriu os olhos imediatamente em alerta e os suavizou em seguida ao sentir que era ela que o tocava.
"Como se sente?"- Foi a primeira pergunta que saiu de seus lábios.
"Cansada"- Respondeu baixinho- "Mas me sinto melhor".
"Você precisa comer alguma coisa"- Levantou-se rapidamente para pegar algo para a princesa se alimentar. Escutar a voz dela fez seu coração relaxar um pouco. Virou-se para pegar água na moringa quando a fumaça negra começou a invadir a cabana. Flechas inflamadas vinda de soldados imperiais eram jogadas em direção as casas daquele vilarejo. O dono do boticário revelara que um soldado da guarda havia comprado unguentos para ferimento e isso os levou para aquele vilarejo de pescadores a beira do rio. Alguns disseram que viram um estranho grupo andar por lá.
"Depressa. Levantem"- Li ordenou de pronto fazendo com que todos acordassem assustados- "Eles nos encontraram".
Gritos de mulheres e crianças ecoaram pelos ares. Li pegou Sakura no colo enquanto Takashi e Meyling contra atacavam com suas flechas dando cobertura para a fuga. Ela gemeu um pouco, a ferida não estava totalmente curada. O comandante deu um pontapé na porta da frente. Tudo parecia mais quente e a cabana queimava rapidamente.
"Vamos!".- A situação só piorava, labaredas os impediam de escapar...De repente se deu conta que seu pai não conseguiria sair dali sozinho.
"Syaoran, me deixa no chão"- Ela falou aflita vendo o teto desabar- "Eu consigo andar. Vá ajudar o seu pai"- Ele a encarou por alguns segundos antes de permitir que ela caminhasse. A cabana estava se desfazendo, teriam que se arrastar para que não morrerem sufocados.
Eles começaram a engatinhar no meio daquele cenário caótico enquanto Li ajudava o pai a se abaixar.
"Eu não vou conseguir, filho".
"Você é um Li, pai..."- Falou encarando profundamente o homem- "E um Li nunca desiste". – Disse por fim colocando Shang em suas costas.
O grupo seguia Meyling para escapar daquele inferno e como se os céus ouvissem as preces silenciosas daquele pequeno grupo, uma chuva fina começou a cair, aumentando a fumaça, mas reduzindo drasticamente o calor. Era tudo o que precisavam para escapar. A fumaça impedia os soldados imperiais de vê-los com precisão e os ataques que faziam eram cegos. Takashi matou dois homens de uma só vez, enquanto dava cobertura para os outros saírem dali.
"Como se sente?"- A morena perguntou preocupada vendo a amiga empalidecer novamente. Ela não respondeu apenas sorriu fracamente.- "Vamos para a floresta...Lá teremos vantagem contra eles. Aguenta firme".
O grupo se dividiu no bosque para despistar o exército. Li ainda segurava o pai em suas costas, Meyling protegia a princesa enquanto Takashi subiu em uma árvore mais atrás atacando flechas certeiras nos soldados e os impedindo de seguir as duas. No meio daquele caos, Sakura colocou a mão novamente na ferida que voltou a sangrar.
"Droga"-Praguejou. Tinha que aguentar mais um pouco.
Foi então que a fuga virou uma terrível emboscada. Como se tivesse predito cada movimento da princesa, lá estava Sayiuri com cem guardas esperando Sakura na clareira.
"Menina ingrata..."- A rainha começou entre os dentes encarando a filha de Nadeshico. O ódio profundo ao perceber que nem as cinzas ou a ferida tiraram a beleza da herdeira do trono de Tomoeda. Estreitou os olhos sobre a jovem de olhos rubis- "Aonde está seu cão de guarda agora?"- Riu perguntando sobre Syaoran. Agora seria bem mais fácil sem aquele 'comandantezinho' para atrapalhar.- "Na falta do cão, mandaram uma cadela".- Olhou para os guardas- "O que estão esperando?".
Meyling atacou um deles arrancando-lhe o braço. Pegou a espada afiada e a jogou para Sakura, que apesar de fraca e ferida defendia-se muito bem. Mas duas contra cem homens...era uma missão impossível. Cinco soldados voaram em cima de Meyling de uma vez. A garota fez de tudo para se soltar, mas infelizmente a injusta matemática venceu naquele momento. Enquanto dois soldados prendiam-lhe o braço outros dois a socavam. Tudo começou a escurecer. Outro três homens desarmaram Sakura enquanto a rainha apertava o lugar ferido obrigando a princesa a gritar de dor.
"Solte-a!"- Gritou desesperada tentando manter-se consciente. Os olhos inchando pelos socos repetidos.
A rainha lhe deu um último olhar de desprezo antes de arrastar Sakura para a beirada do rio.
"Solta! SOLTA ELA"- Meyling se debatia com as últimas forças que tinha.
"Como quiser"- E encarando a morena com cólera nos olhos, Sayuri jogou a quase inconsciente princesa nas correntezas e tudo o que os olhos rubis viram antes de desmaiar foi a imagem de sua melhor amiga sendo arrastada pelas águas ferozes do rio que desde o começo fizera parte da história daqueles amigos.
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"Você pensa que sabe de tudo, comandante"- Um soldado começou orgulhoso- "Mas não sabe... Eu sempre quis bater nessa sua cara arrogante..."- O atacou de novo- "Se sentindo o melhor porque era o guardião da princesa...e pelo contato que tinha com o rei"- Li bloqueou o golpe com precisão- "Depois te deram um título. Só para você se deitar com a bela herdeira de Tomoeda"- Virou em outro golpe. O barulho de metal trincando no ar- "Acho que vou me divertir com ela antes de matá-la".
Essa definitivamente fora a frase mais errada que ele deveria ter falado. Li praticamente o cortou no meio.
"Nem nos seus sonhos"- Grunhiu entre os dentes. Olhou para o pai. Shang fora ferido por uma flecha nas costas e até agora não tinha sinal de nenhum de seus amigos. Precisava levar o pai para algum lugar seguro e retirar a flecha, mas o grito desesperado de Meyling o desconcertou por completo.
"Solte-a!"
Seu coração bateu quatro vezes mais rápido. Algo tinha acontecido com sua princesa. Seu mundo explodiu em um 'flash'.
"Vá Syaoran!"- O pai ordenou- "Eu não vou a lugar nenhum"- Disse divertidamente apesar de todos os seus ossos doerem com o pensamento de que algo acontecera com suas duas meninas. Porque da mesma forma que seu menino era um filho para o rei, Sakura era uma filha para ele também.
"Tenta não se mexer pai, eu já volto"- Falou por fim.
Tão rápido como um lobo corre atrás de sua presa, Li seguiu a direção dos gritos da prima. Seu coração perdia um batimento cada vez que a prima gritava para soltarem Sakura. De repente os gritos cessaram e o pior pensamento passou pela sua mente.
'Não Deus, por favor'- Suplicou chegando na clareira. Takashi chegou logo atrás atraído pelo ruído e o que viram desestabilizou os dois por completo. Alguns homens mortos, outros feridos, sangue por todos os lados. Meyling estava inconsciente no chão. Correram rapidamente até a garota. O rosto tão inchado e roxo que chegara a ficar irreconhecível.
"Ela está viva"- Takashi constatou com alívio percebendo que havia pulso ainda no pescoço da amazona.
"Aonde está Sakura?"- Olhou em volta procurando pela princesa. De repente sua respiração falhou. Um objeto no chão chamou a atenção. O pingente de âmbar que havia lhe dado, ou o que restara dele. Aquilo não poderia ser possível. Li virou-se para um soldado sem uma das pernas que se arrastava gemendo atrás deles e o ameaçou com sua espada.
"Onde está a princesa?"- Perguntou entre os dentes. O queixo contraído e o coração em saltos.
Ele riu. Aquele homem que sangrava até a morte riu maliciosamente. Li cortou-lhe a outra perna e repetiu a pergunta. O homem cuspiu sangue e encarou o comandante.
"A rainha venceu...se vingou da assassina do rei como merecia..."- Cuspiu mais sangue- "A rainha...a jogou...inconsciente...no ...ri-rio".
Ao ouvir isso, Li deu dois passos para trás tropeçando em um corpo e escorregou até o chão. Não conseguia respirar. Takashi tentou se aproximar, mas ele o empurrou gritando.- "MENTIRA!"- Pegou o soldado agonizante pelo colarinho.- "MENTIRA!"- Gritou novamente, mas o sangue já havia escorrido do corpo mutilado.
Então Meyling gemeu mostrando que a sua consciência estava voltando e o pouco dos olhos rubis que apareceram no meio do inchaço diziam tudo...Aqueles olhos tristes falaram mais do que qualquer coisa.
"Ela...se...fo...foi"- Balbuciou enquanto lágrimas de dor inundaram o rosto da amazona.
Sua princesa havia morrido? Não! Deus não faria isso com ele...
"SAKURA!"- Gritou correndo até o rio- "SAKURA!"- Caiu de joelhos as margens.
SSSS Lembranças SSSS
"Agora é a sua vez Syaoran"- A princesa adolescente disse um pouco contrariada, depois de quase dez minutos procurando os amigos- "Cansei de 'bater cara'...".
"Oras"- O rapaz de 17 anos começou- "Não tenho culpa se me escondo tão bem assim".
Meyling e Takashi assistiam intrigados e divertidos a brincadeira dos dois. Há horas estavam fazendo a mesma coisa e por mais que a princesa tentasse nunca encontrava o guerreiro.
"Ah é?"- Cruzou os braços- "Quero ver você me encontrar"- Sorriu- "Conta até dez".
O agora capitão soltou um longo suspiro antes de se virar para o muro de pedra e começar a contar. Sakura sorriu entusiasmada. Ela tinha o esconderijo perfeito. Com cuidado escalou a lateral do muro da torre tentando alcançar pela parte de fora o quartinho de tear. Ninguém pensaria em procura-la no meio das rocas de costura. Apoiou a mão no batente da janela, para se impulsionar para cima, mas um movimento errado fez com que perdesse o equilíbrio. Gritou de susto, ao sentir as mãos escorregarem. Tudo o que fez foi fechar os olhos e esperar pelo duro contato com o solo, mas curiosamente nunca aconteceu.
Quando as esmeraldas se abriram novamente o rosto de Li estava a centímetros do seu. Suas mãos apoiadas em suas costas e o corpo dela sobre o dele. Ele havia chegado a tempo.
"Syaoran..."- Ela balbuciou ainda assustada pelo o que acontecera- "Você me encontrou..."- Afastou-se dele constrangida pela posição.
"Eu disse para você..."- Sorriu- "Eu sempre vou te proteger".
Essa simples frase fez o pequeno coração acelerar. Abriu para ele o seu melhor sorriso, aquele que fazia o rapaz tocar o céu apenas em vê-lo.
SSSS Fim das Lembranças SSSS
Ele havia falhado em protegê-la. Apertou o pingente e chorou desesperado. Seu corpo tremia com uma tristeza e uma raiva que não podia controlar.
Não conseguia acreditar que sua princesa o havia deixado para sempre, aquilo não poderia ser possível, nem em seus piores pesadelos. Naquele momento sua vida perdera o sentido.
Naquele momento, naquela clareira, metade de seu ser, todos os seus sonhos morreram levados pelas águas.
Continua...
N/A
Por favor, por favor não me matem! Rssssss Apesar que eu mesma estou a fim de cometer suicídio depois de fazer o pobre do Syaoranzinho sofrer desse jeito...
E ai? O que vocês acharam? Quero muito saber a opinião de vocês!
