Escudo

Capítulo VII

Por Mel

Tentando Sobreviver

O quarto era grande e aconchegante, talvez tão requintado como o que tinha em Tomoeda. Deixou o que sobrara de sua armadura sobre a mesa, observando os ferimentos que fizera na fuga da prisão. Seus olhos marearam novamente. Ainda não conseguia acreditar que sua princesa o tivesse deixado para sempre. Pegou o pequeno pingente nas mãos. As poucas flores de cerejeiras que sobraram estavam talhadas, assim como o seu coração. As lágrimas agora escorriam soltas, sem que conseguisse evitar. Encolheu-se em um canto qualquer do quarto, abraçando os próprios joelhos.

"Eu não acredito que perdi você"- Sussurrou apertando o objeto fortemente enquanto que a dor no peito irradiava para o seu corpo.

SSSS Lembranças SSSSS

Ela se jogou na grama, espreguiçando-se demoradamente enquanto sorria. O perfume dele era forte e delicioso e inundava suas narinas.

"Olha!"- Disse contente- "A estrela polar...".

Ele se deitou ao lado dela.-"Sim... A primeira estrela que aparece toda noite. Ela é bonita, não é?".

"Sim! É a minha estrela favorita"- Comentou brincando com um pingente no pescoço, enquanto observava o céu. – "Tenho certeza que quando eu morrer vou morar naquela estrela, junto com a minha mãe".

"Não gosto quando você fala essas coisas"- Respondeu um pouco contrariado, olhando para ela sério.

"Ué...Algum dia todos vão morrer, não?" – Perguntou levantando uma sobrancelha.

"Sim, mas não quero tocar nesse assunto..."- Suas mãos suaram com o simples pensamento de um dia perder sua princesa. O coração dolorido.

"Bom, eu espero estar bem velhinha quando isso acontecer"- Comentou sincera o encarando profundamente. - "Mas tem coisas que eu tenho mais medo do que morrer, sabia?".

"E o que seria?"- Perguntou. A dor no peito ainda o incomodando.

"Ah, perder as pessoas que eu amo, por exemplo"- Sentiu um arrepio-"Deus me livre de perder você, por exemplo"- Confessou em um sussurro.

"Deus me livre de perder você".- Os olhos âmbares invadindo sua alma. Sentiu o coração bater duas vezes. Sem pensar tocou os longos cabelos mel – "Eu não sei o que eu faria".

SSSS Fim das Lembranças SSSSS

E lá estava ele, perdido...tão, tão perdido que seu coração não sabia o que fazer. Abriu a janela...e lá estava ela, a bela estrela polar iluminando o céu de Ueda. Um pequeno sorriso saiu de seus lábios. Apenas a lembrança daquele dia na campina, trazia de volta todo anseio que sentia e sempre sentiria por Sakura.

"Syaoran?"- A voz era receosa e soava por trás da porta- "Posso entrar?".

Ele suspirou pesado, sem forças para se levantar e observou a prima abrir a porta com cuidado. Na verdade, não queria falar com ninguém. Assimilar aquele fato estava sendo doloroso demais. Preferiria morrer mil vezes do que passar por aquilo.

Mil vezes...

"O que quer Meyling?"- Perguntou irritado, sem conter toda tristeza e frustração que estava sentindo. Ela deu alguns passos na direção dele e o encarou firmemente.

"Você ainda me culpa, não é?"- O rosto menos inchado mostrava sua expressão angustiada- "Eu fiz de tudo Syaoran..."- Duas lágrimas escorreram pelos cantos dos rubis- "Mas eu não consegui salvá-la...".

Ele olhou para o teto decorado, evitando olhá-la. Estaria mentindo se no começo não imaginou que a prima pudesse ter feito alguma coisa, mas quando via os edemas e hematomas no rosto antes delicado, o pensamento perdia toda fundamentação e uma grande culpa invadia o seu corpo. Se tivesse sido mais rápido... Se tivesse a protegido...Se tivesse a escutado quando disse que desconfiava da rainha...Se, se e se...

"Não a culpo Meyling"- Falou com carinho observando a expressão dolorosa da morena- "Eu me culpo...eu era o guardião dela e não você. Eu que deveria ter fugido com ela...".- E as teimosas lágrimas voltando a avermelhar os âmbares.

"Eram cem contra dois...vocês nunca conseguiriam...".- Sentou-se ao lado dele.

"Talvez se..."- Balançou a cabeça evitando que lágrimas voltassem a escorrer e socou a parede em desgosto- "Eu a perdi Meyling..."- Falou por fim em meio a um soluço- "Eu a perdi para sempre". E no canto de seu novo quarto, abraçado a prima, chorou tudo o que estava engasgado em sua garganta. Chorou sua impotência, sua falha... sua saudade, seu amor... tudo se derramou naquele momento. Sua alma havia se transformado em lágrimas. E ela apenas escorria...

SSSSS Lembranças SSSSS

"Syaoran Li?"- O ancião sentado no trono de mármore observou o jovem a sua frente. Ele estava machucado, com marcas de lágrimas no rosto, além de pálido, desnutrido e desidratado. – "O que traz o herói de minha bisneta tão longe de Tomoeda?".- Não queria admitir, mas o estado daquele rapaz o havia assustado a ponto de pensamentos terríveis passarem por sua cabeça.

"Viemos pedir abrigo, majestade"- Estava ajoelhado diante do rei. Seu estado lamentável era comentado, e murmúrios na corte ecoavam pelas paredes.

"Abrigo?"- Masaki levantou uma sobrancelha -"Mas, porquê? De acordo com a carta que recebi de meu genro, você iria se casar em breve com minha bisneta".

Se ele soubesse o que essa informação causou dentro do coração do guerreiro, jamais teria dito tão abertamente. Ele levantou o rosto e tudo o que o rei viu foram âmbares quebrados. Li cerrou os punhos e contraiu o queixo.

"Infelizmente, isso não será mais possível"- Shang começou evitando que o filho continuasse aquela tortura. Explicar sobre a morte de Sakura era uma coisa que nunca esteve nos planos de seu filho. – "Houve um motim. A nova rainha ela..."- Fez uma pausa controlando a própria respiração enquanto ouvia o ruído em volta deles aumentar- "Acusou a princesa Sakura de matar o próprio pai...".

Não! Com certeza ouvira mal... Aquilo era a coisa mais absurda do universo.-"Fujitaka está morto?"- Se não estivesse sentado, teria caído no mesmo instante, mas o nervoso o fez levantar e sentar várias vezes - "Como essa notícia ainda não havia chegado aos meus ouvidos?".- Alterou-se levantando de imediato e encarando os mensageiros, que se encolheram imediatamente.

"Foi tudo muito recente, majestade"- Meyling começou chamando a atenção do rei, que sentou novamente tentando assimilar a informação. Arregalou os olhos ao ver o estado da jovem- "Durante o funeral de Fujitaka, a rainha atacou a princesa...Fizemos de tudo para salvá-la, fugimos da cadeia, nos escodemos numa vila...mas ela nos encontrou...".

"Onde está minha bisneta?"- Perguntou aflito. O pior pensamento passou pela sua mente.

"A rainha a jogou no grande rio..."- Os olhos de Takashi demonstrando uma tristeza profunda- "Não conseguimos salvá-la".

"Estão dizendo que a minha bisneta...a minha Sakura está morta?"- Balbuciou incrédulo contendo as próprias lágrimas enquanto caía de uma vez sobre o trono- "Não... Não! Estão mentindo!"- a raiva tomando conta de seu ser- "Minha Sakura não pode ter morrido... ela..."- Foi então que ele o olhou. Encarou Syaoran de forma única, enxergando em cada expressão do jovem uma tristeza tão profunda como as águas do oceano. Diante dele estava um belo rapaz, talvez não em tão boa forma pelo o que tinha passado nos últimos dias, um pouco diferente das descrições das cartas da neta que recebia...E ainda assim, era apenas um corpo vazio. Quando o olhava nos olhos, não via mais a alma... então soube...

Soube que era verdade.

Aquilo fora muita informação de uma vez só. Tinha sorte que seu coração estava bom, porque senão já teria perdido a vida naquele momento. – "Deus...Essa mulher tem que pagar".- Falou baixo, mas o suficiente para ser ouvido.

"Ela vai pagar"- Syaoran disse tão firmemente que os próprios soldados de Ueda tremeram pela determinação do rapaz. 'Nem que seja a última coisa que eu faça'- Completou mentalmente.

"São bem vindos aqui no palácio..."- Disse por fim encarando o grupo. Olhou então para Yukito, o seu braço direito – "Por favor, acomode-os". – E retirou-se de lá sem sequer olhar para trás. Só queria ficar sozinho e chorar.

SSSSS Fim das Lembranças SSSSS

Alguns dias depois...

Verdes como o mar, verdes como a grama...verdes como pedras preciosas. Os olhos dela eram verdes...

"Veja!"- Tomoyo comentou exaltada observando as grandes esmeraldas abertas- "Ela acordou".- Não sabia porque sentia-se tão exultante, mas havia se apegado muito a menina nesses últimos sete dias- "Eriol? Está me escutando?! Venha depressa!".

O rapaz que segurava uns objetos diferentes aproximou-se da jovem, todo atrapalhado derrubando alguma coisa no chão. Tropeçou algumas vezes antes de chegar. Com a ajuda da luz do sol refletida em um prisma conseguiu examinar os olhos da garota.

"Ela acordou.".- Disse observando que as pupilas de Sakura eram estimuladas pela luz. "Olá, meu nome é Eriol Hiragisawa".- Disse devagar observando a menina. Ela não reagia, nem sequer piscava.- "Sou médico, encontramos você e estamos cuidando de você"- Nada. Nenhuma palavra. Os olhos estavam vidrados no teto.

"O que há com ela?"- Tomoyo perguntou confusa.- "Porque não faz nada?".

"Acho que ela está em choque..."- Sentou-se na beirada da cama e a ajeitou sentada. O olhar permanecia vazio e vago.- "Está ardendo em febre".

"Olá, meu nome é Tomoyo"- Aproximou-se na garota, que apenas gemeu.- "Ela vai ficar boa?"- Os olhos ametistas repletos de preocupação.

"Não sei dizer, meu amor..."- E realmente não sabia.- "Mas essa febre é um péssimo sinal".

"Syao- Syao- Syaoran"- Sakura balbuciou enquanto algumas lágrimas escorriam por inércia. A temperatura do corpo tão alta que trazia alucinações.

"Preciso de ervas medicinais...e fungos especiais"- Disse de depressa ao ver que a febre não baixaria sozinha. Não sabia o quanto da infecção havia se alastrado.- "Vou buscá-las no vilarejo Akita".- Colocou rapidamente a bota de couro e o casaco.

"Tome cuidado"- Tomoyo falou preocupada. O viu se aproximar da porta quando um ruído estrondoso soou diante da madeira o fazendo recuar. Batidas tão fortes que a casa inteira estremeceu. Eriol abriu a porta com cuidado para se deparar com a meia-irmã caída, machucada e coberta de cinzas...

"Mizuki?"- A trouxe rapidamente para dentro- "O que aconteceu?".

Tantas coisas haviam acontecido. Não sabia por onde começar.

"Irmão... por favor...água".- Foi a única coisa que suas cordas vocais secas conseguiram balbuciar.

Tomoyo rapidamente pegou água na moringa encarando a cunhada, mas o cheiro forte que a perna dela emitia fez o seu estômago dar voltas. Um corte profundo feito por uma armadilha de raposas. Estava preto, repleto de pus e cheirava a carniça...A julgar pelo estado da mulher, o sangue já estava todo contaminado.

Levou a mão a boca, evitando outra ânsia. Eriol se aproximou rapidamente da irmã e a segurou por alguns momentos sem entender o que acontecia...

Ela estava morrendo... Depois de um gole na água, seu corpo amoleceu. Ela o olhava, mas não falava mais...A febre era tão grande que queimou sua pele só ao tocá-la e para a surpresa de todos, ela sorriu suavemente olhando para a menina em cima da cama.

Nadeshico...

Sorriu, porque a beira da morte, estava ao lado da família. A única família que sobrara. Apesar de bastardo, o rapaz de cabelos azuis escuros sempre fora mais querido do que tudo para ela. Sorriu porque a última imagem que viu foi a de um anjo parecido com sua adorada e eterna princesa, sentada sobre as plumas, olhando para o universo.

Sorriu...

"Então essa...foi... a recompensa"- Suspirou com dificuldade antes de perder os sentidos para sempre...

Sabia que havia pagado sua dívida afinal.

SSS Escudo SSS

6 meses depois...

"Água, por favor..."- Sakura pediu com dificuldade encarando a bela morena de olhos ametistas.- "Sinto muita sede".

Tomoyo a encarou com carinho estendendo uma caneca de barro repleta do líquido refrescante.

"Como se sente?"- Perguntou sentando-se na beirada da cama.

"Melhor"- Ajeitou-se um pouco- "Meu corpo dói menos".

"Isso é ótimo"- Sorriu- "Logo você vai ficar boa, alteza".

"Não gosto quando me chama assim"- Os olhos verdes a encararam seriamente- "Eu é quem deveria estar prestando honrarias. Vocês me salvaram e eu serei eternamente grata por isso".

Tomoyo encarou demoradamente a bela jovem a seu lado. Três semanas após a trágica chegada da menina, a febre baixara por completo e a lucidez voltou ao olhos esmeraldas. Aos poucos, a voz que parecia cansada começou a ganhar força. Fora uma surpresa inicialmente quando descobriram que debaixo daquele teto estava a princesa herdeira de Tomoeda.

SSSSS Lembranças SSSSS

"Consegue falar?"- Tomoyo perguntou encarando a bela jovem que apenas chorava atordoada- "Quem é você? Como se chama?".

"Sakura"- Encarou o casal que a olhava preocupados – "Sakura Kinomoto".

"A prin- princesa de Tomoeda?"- Eriol perguntou piscando várias vezes.- "Mas isso não é possível!"- Puxou Tomoyo de perto dela- "Afaste-se dela! Ela é uma assassina! Vamos chamar os guardas e-".

Lágrimas de desespero brotaram nos olhos esmeraldas. Ela não era assassina. Por que as pessoas continuavam a chamando desse jeito?

"Não! Por favor...Não!"- Chorou desesperada – "Eu não matei ninguém...".- Soluçou- "Eu juro...".

"Me solta, Eriol"- A morena disse firmemente puxando o braço- "Você não consegue enxergar? Olha para ela!".

Apontou para a garota assustada abraçando os próprios joelhos negando seu envolvimento no crime. O médico calou-se com a cena. Realmente ela não parecia alguém capaz de matar o próprio pai. Deu dois passos na direção da menina e levantou o belo rosto curiosamente. Nos seus anos de medicina havia cuidado de muitos doentes. Alguns doentes de alma, assassinos em série, e definitivamente aquele olhar não pertencia a um monstro como a pintaram. Era de uma menina, assustada...

"Acho melhor..."- Fez uma pausa vendo o rosto da garota retrair- "Contar tudo o que aconteceu".

"A história é tão longa"- Toda dor no mundo refletida dos olhos verdes- "Que não sei nem por onde começar".

"Que tal pelo começo?"- A morena sugeriu sentando-se ao lado dela. Segurou a mão delicada entre as suas de costureira, tentando passar força para a garota por para fora. Havia tanto medo e ressentimento naquele olhar que se sentiu compadecida. Nem em seus sonhos mais loucos, imaginaria algo assim...

"Após a morte da minha mãe, meu pai resolveu casar-se de novo. Acho que todos ficaram sabendo do grande casamento real"- Começou insegura observando o casal confirmar com a cabeça.- "Nessa noite, enquanto eu me dirigia para o salão, Sayuri me deu uma adaga de presente, um símbolo real..."- Algumas lágrimas teimosas insistiam em cair- "Ela me abraçou e me isso me tirou a guarda, eu nunca aceitei muito bem essa história do meu pai casar de novo em tão pouco tempo".- Suspirou- "Durante a noite, ela... alguém matou meu pai com uma adaga igual a minha...Demorei para perceber que havia sido Sayuri.."- Terminou chorando desesperada – "Perdi meu pai, minha liberdade, meu reino e-"- De repente levantou-se- "Onde estão meus amigos?"- Perguntou olhando para o médico que ainda digeria toda informação.

Como uma pessoa seria capaz de um ato tão vil e por quê?

"Amigos?"- Tomoyo perguntou confusa encarando o marido.

"Sim! Meus amigos. Onde eles estão?"- a voz chorosa tornara-se desesperada. Lembrava-se de Meyling apanhando, do bosque... do fogo- "Onde eles estão?".

"Você estava sozinha...Não achamos mais ninguém e ...Ninguém veio procurá-la".

"Isso é impossível"- Pensou alto. Syaoran jamais deixaria de procurá-la. A não ser que...- "Por favor...conte-me o que aconteceu".- Pediu aflita.

Pela confusão refletida nos olhos azuis escuros, as notícias haviam sido terríveis. Ele se levantou mostrando que era bem mais alto que ela e a encarou firmemente tentando lê-la.

"Os rumores foram que a princesa havia enlouquecido, matado o próprio pai com a ajuda de alguns rebeldes"- Ele hesitou ao ver o desespero corroer as esmeraldas.

"E o que mais?"- O coração tão acelerado que chegava a bater na cabeça.

"Que todos foram mortos ao tentar sair de Tomoeda".- Disse com pesar.

"Mortos?"- Ela balbuciou incrédula. – "Não...Não poder ser, meu Deus"- Agora todo desespero voltando a mudar sua expressão- "Por favor, me diz que isso não é verdade...".

A morena não pôde evitar que uma lágrima solitária escorresse de seu rosto ao ver o estado daquela garota. Ela estava quebrada. Como se seu coração não pudesse mais sobreviver. Como se seu coração estivesse afogado.

"Encontramos isso com você"- Estendeu um pequeno pingente quebrado.

Incrédula, ela segurou o objeto entre as mãos e desejou morrer. Qual era a graça de sobreviver se havia perdido tudo. Se havia perdido ele. Sem conseguir ficar de pé, jogou-se de joelho no chão e desesperada pedia para Deus levá-la. Eriol encarou a esposa. Aquilo fora muita informação de uma vez só. Viu com os olhos mareados, a menina perder os sentidos no chão de madeira de sua casa enquanto sussurrava.

"Syaoran...me leva com você...".

SSSS Fim das Lembranças SSSS

"O que pensa em fazer agora?"- A morena perguntou sinceramente, observando a jovem se levantar.

"Eu sei que não posso ficar aqui...E por enquanto é muito arriscado me verem". – A encarou chorosa.- "Quero melhorar...totalmente. Vou para Ueda...para o meu avô. Lá estarei segura. Não posso colocar vocês em risco também. Se descobrem que eu estou viva e aqui, queimam a casa de vocês".

"Aqui não é Tomoeda"- Eriol chegara atrás da porta. Escutava toda conversa enquanto separava algumas folhas de babosa- "Aqui há outra lei. Temos um outro rei".

"Mesmo assim... Vocês já fizeram muito por mim".- Sorriu de leve. Talvez o primeiro sorriso desde que soubera da morte de seu grande amor e de seus amigos – "E eu não posso deixar aquela mulher destruir Tomoeda".- Os olhos esmeraldas brilhando pelas lágrimas- "Não posso deixar tudo o que os meus pais construíram ruir...".

"Não pode ir sozinha até lá"- Ele comentou preocupado. Quando soube das mortes e dos impostos que a nova rainha de Tomoeda impôs ao povo, teve certeza que a princesa falava a verdade.- "Vamos com você".

"Mas-".

"Sem mas"- Tomoyo sorriu- "Quando você nos contou a história do que aconteceu nos sentimos abençoados de por alguma forma ajudar numa causa maior...Vamos com você".

"Eu não me perdoaria, e não aguentaria se alguma coisa acontecesse com vocês também"- Fez uma pausa- "Ultimamente tudo o que eu toco...todas as pessoas que eu amo...viram pó...".

"Estamos juntos nessa..."- Eriol disse com um sorriso carinhoso- "Vamos salvar Tomoeda".- Observou a garota- "Partiremos em dez dias para Ueda".

Ela não sabia se chorava ou se ria, mas tudo o que fez foi sorrir entre lágrimas.

SSS Escudo SSS

"Adivinha quem é?"- As pequenas mãos brancas cobriram os olhos âmbares de forma brincalhona.

"Para com isso, Chiharu"- Ralhou um pouco irritado- "Já disse que não gosto desse tipo de brincadeira".

"Me desculpe"- Retraiu a mão- "Eu só queria fazer uma surpresa. Fiquei feliz ao saber que agora é o novo general de Ueda".- Apesar da rudez dele o sorriso não havia murchado.

Ele não respondeu. Sorriu de leve mostrando que sentia muito pela forma ríspida que falou. Mas aquele jogo fazia o seu coração doer, o seu coração lembrar...

SSSS Lembranças SSSS

Cansado e observando as águas da cachoeira correr, o aniversariante e agora mais novo capitão do exército de Tomoeda tentava recuperar o fôlego da cavalgada. A brincadeira que o exército fizera não foi 'nada' engraçada. Atiçar seu animal daquela maneira fora muita maldade. Cavalgara tantos quilômetros tentando pará-lo que nem se deu conta que estava tão longe do palácio.

"Adivinha quem é"- A voz melodiosa invadiu divertidamente suas orelhas.

"Princesa"- Respondeu sem pensar, pegando as mãos branquinhas e afastando-as de seu rosto. A olhou com carinho enquanto que o sorriso dela aumentava.

"Puxa! Fui fazer uma surpresa para você no batalhão, mas quem foi surpreendida fui eu...Disseram que você estava cavalgando"- Contou casual sentando-se ao lado dele. Estendeu uma caixa de camurça decorada- "Esse é meu presente para você".

"Não precisava de nada, Sakura"- Disse sem jeito olhando intensamente para ela. Como se dissesse que o fato de tê-la perto era o melhor presente que alguém poderia ganhar. Abriu o pacote com cuidado e assustou-se um pouco com o que viu. Era um broche, daqueles que príncipes usavam para prenderem seus casacos. Dentro havia uma inscrição em letras douradas: "Para o meu eterno herói, de sua princesa". Sorriu tão abertamente mal podendo conter a felicidade- "Muito obrigado, eu nem sei o que dizer".

"Você gostou?"- As esmeraldas estavam radiantes.

"Eu amei Sakura, muito obrigado"- Encarou-a profundamente e não pode deixar de corar ao receber um beijo estalado na bochecha.

SSSS Fim das Lembranças SSSS

"Não... eu que peço desculpas..."- Levantou-se ajudando a menina a se erguer em seguida. Havia sido grosso demais por uma coisa que não havia como ela saber...

"Você parece distante essa última semana"- Ela comentou sem jeito sem saber como começar- "Aliás, o exército inteiro tem falado isso".

Li encarou a bela amazona a sua frente. Os cabelos castanhos acobreados presos ao lado do rosto davam um ar juvenil àquela mulher de vinte anos. Olhos castanhos como a madeira contrastavam com a pele branca e a boca rosada.

Quando chegara em Ueda, pediu ao rei se poderia continuar com seu treinamento, participando do exército real. Masaki tornou-se não apenas admirador, mas também um grande amigo do rapaz e o incentivava no plano de invasão a Tomoeda. Sabia que o soberano queria se vingar da rainha, tanto quanto ele. Conheceu Chiharu no segundo dia. No começo sua tristeza o impedia de se relacionar com qualquer outra pessoa que não fosse Meyling e Takashi, mas aos poucos a ruiva entrara em sua vida, como um furacão. Não soube quando começaram a ser amigos, mas agora o trio era um quarteto novamente.

"Não quero falar sobre isso"- Disse suavemente sério vendo a prima e o melhor amigo se aproximarem.

"Hei, general!"- O moreno brincou com um sorriso nos lábios.

Syaoran o encarou. Sabia que deveria estar feliz por finalmente ter realizado seu grande sonho, mas o seu coração não havia se recuperado totalmente da perda. No fundo, sabia que nunca se recuperaria... Imaginava o sorriso de sua princesa ao saber que finalmente havia se tornado general e isso o lembrava de como havia falhado em protegê-la. Encarou os amigos com um misto de carinho e melancolia. Se não fosse por eles, já haveria desistido há muito tempo.

"Não fui o único que foi promovido"- Abriu um sorriso olhando para a prima- "Temos na história a primeira comandante mulher de um exército imperial".- Fez reverência brincando com a garota.

Meyling corou olhando para os três.

"Precisamos comemorar!"- O moreno disse de uma vez abraçando os dois- "Vamos a taverna tomar alguma coisa".

Li soltou-se no braço dele.

"Não estou no clima hoje"- Li falou desanimado- "Vão vocês".

"Ah não Syaoran!"- O rapaz resmungou olhando para o amigo- "Poxa! Você foi promovido a general!".- Deu um tampa no ombro forte- "Você vai e pronto! Aproveitamos e chamamos seu pai, o que acha?".

"Isso mesmo!"- Meyling disse sorrindo- "Como vamos comemorar a sua promoção sem você?".

Ele suspirou pesado. Aquela semana, apesar dessa grande benção, estava sendo muito difícil para ele.

"Vai Li!"- Chiharu sorriu docemente- "E aproveitamos e comemoraremos os seis meses de vocês aqui em Ueda! Foi nessa época que se mudaram, não?"- Perguntou inocentemente.

Tópico errado. Um flash de dor transpassou os olhos âmbares. Houve um silencio tão profundo que as respirações eram as únicas coisas que faziam ruído. Yamasaki olhou significadamente para a morena que suspirou pesado entendendo o desânimo do primo. Chiharu franziu a testa sem entender a mudança de clima na tão animada conversa.

"Vamos comer alguma coisa"- Meyling tratou logo de trocar de assunto- "E depois se você se sentir bem vamos a taverna".

"Isso mesmo!"- Yamasaki juntou as mãos- "Estou doido para uma torta de chá-verde da senhora Mihara. Ela não enxerga direito, mas cozinha que é uma beleza".- Recebeu um forte tapa no ombro.

"Hei! Não fala assim da minha avó!".- A ruiva rebateu irritada. Não sabia o porquê, mas alguma coisa naquele rapaz a tirava do sério, muito diferente do encantamento que o agora general Li lhe causava.

"Eu só estou brincando"- Disse passando a mão no lugar dolorido- "Que punho forte. Deus do céu".- Reclamou.

"Isso é para você aprender a não falar mal da avó dos outros"- Bufou- "Só porque a minha avó bem...confunde algumas coisas como a banheira com um caldeirão de sopa, não quer dizer que ela não enxergue bem...só está velhinha, oras".

"E um pouco gagá"- Yamasaki não se conteve em comentar. Recebeu um outro tapa em seguida, arrancando risadas dos amigos.

"Gagá ou não...Ela é a melhor cozinheira da região"- Meyling cortou a conversa antes que o moreno saísse roxo de lá. –"Será que ainda tem mesa na pensão?".

"Para nós, sempre tem".- A ruiva comentou encarando mortalmente o rapaz.

"Se ela não colocar uma cama, achando que é uma mesa..."- Provocou.

"Takashi!"- Os três falaram em uníssono arrancando uma gostosa risada do arqueiro enquanto seguiam em direção a pensão Mihara.

Passos adiante, a música alegre encheu o ambiente. Alguns soldados deleitavam-se com o banquete preparado pela doce velhinha, outros bebiam o suco da videira fermentado enquanto contavam histórias... e alguns mais ousados provavam a sopa de cevada produzida pelos monges.

"Olhando assim, nem parece o mesmo batalhão"- Meyling comentou observando alguns homens bêbados, caindo de suas cadeiras.

"Todos precisam de folga de vez em quando"- Chiharu falou com um sorriso.

"Eu acho que eu vou para o meu quarto"- Li comentou após observar o lugar. Nunca fora de festas e agora então, não sentia vontade de se enturmar.- "Tem muita gente aqui".

"Mas Syaoran"- Takashi começou sua defesa- "Hoje é dia de comemoração".- Pegou um cerveja da mesa de um grupo e estendeu para o amigo.

"Não sinto vontade de comemorar".- Respondeu seco. E não sentia mesmo. Havia aceitado o convite porque pensou em comer.

O baixinho suspirou pesado encarando tristemente o rapaz.- "Nada do que você fizer vai trazer Sakura de volta, nem mesmo o seu luto".

Os olhos âmbares se estreitaram sobre o arqueiro e sem pensar levantou a mão dando-lhe um soco certeiro no rosto. Como ele ousava falar aquilo? Como ousava citar o nome dela dessa forma? A música imediatamente parou e ao notarem a presença do novo general, os soldados tentaram inutilmente ficar de pé enquanto os cochichos se espalhavam. Yamasaki o olhou com um misto de raiva e pena.

"Pode me socar quantas vezes quiser"- Limpou o sangue do canto da boca- "A realidade continua sendo a mesma. Sakura não vai voltar...E você precisa sobreviver a isso.".

Ele empurrou Takashi que caiu no chão sentado, o olhando espantado, sem acreditar no que acontecia.

"Para de falar isso! Para de falar dela!".- Ordenou entre os dentes.

"Você precisa aceitar a verdade!"- Gritou.- "Ela nunca vai voltar!".

"Para Takashi"- Tampou os ouvidos gritando mais alto- "Para!".

"Eu posso parar de falar...Mas a realidade não vai mudar, Syaoran!"- Levantou-se o encarando de perto- "Eu já perdi uma amiga...Não quero perder um irmão"- Os olhos castanho-escuros demonstrando o quanto ele odiava ver o guerreiro naquele estado de auto-piedade.

"Já basta Yamasaki"- Meyling o repreendeu de uma vez vendo o rosto do primo se contrair em milhões de expressões. Chiharu permanecia calada com as mãos no coração, completamente surpresa.

Li o empurrou de novo.

"Você também Syaoran! Já chega!"-A morena ordenou brava se colocando na frente dos melhores amigos.

O guerreiro os encarou confuso, os âmbares quebrados e atordoados. Vendo os cochichos aumentarem, deu as costas para o grupo se dirigindo para o seu cavalo. Seu queixo e seus punhos tão tensos que chegavam a doer. Se continuasse ali acabaria machucando de verdade o amigo. E não queria isso.

"Isso!"- Yamasaki gritou nervoso- "Fuja! Fuja para onde quiser..."- Apoiou-se em Meyling vendo o general se afastar.

"Vamos!"- A morena virou-se para a plateia- "Por que pararam a música?"- Perguntou fazendo os músicos assustados voltarem rapidamente ao trabalho. -"Takashi"- chamou resignada- "Você não deveria ter falado aquilo".

"Eu sei"- Uma linha de arrependimento atravessou os olhos castanhos- "Mas ele precisa entender que a vida continua...Não dá para ficar preso a uma lembrança para sempre!".- Olhou para a ruiva- "Se ele conseguisse ver a mulher maravilhosa que está perdendo por causa de uma memória...".

Chiharu não soube o porquê, mas o jeito como o rapaz a olhou fez com que seu coração acelerasse como nunca pensou ser possível. Ela pigarreou e encarou os dois- "Sakura? A princesa Sakura? Ele era o guardião dela, não?".

Sentiu os olhos rubis sobre ela.

"Muito mais do que isso"-Fez uma pausa- "Ela era o amor da vida dele...".

Continua...

Simmm! A Sakura está viva, muito bem acordada…Lembra de tudo, massss….

Um acha que o outro morreu ;( Tadinhosssss! Estou bem chateada também…

Que capítulo! A Misuki morreu, o Syaoran socou o Takashi… A Chiharu dando mole para o Syaoran e a Sakura indo para a Ueda! Uauuuuuu…

E aiii? O que vocês acharam?