" - A Rainha é a peça mais poderosa do jogo..." – Sasuke recordava dessas palavras tão conhecidas para ele.

Abriu os olhos devagar ao observar o loiro balbuciando palavras desconexas enquanto dormia.

- Elefante...

- Como é? – os olhos de Nami se apertaram de ódio.

- Ah, era só você... – Naruto se ajeitou na cadeira de plástico completamente chateado.

- Toma. – a moça quase fez o loiro engolir a lata de alumínio.

- Eu pedi um guaraná!

- E eu pedi para que você morresse. – arqueou as sobrancelhas em sinal de ironia. Ele se calou chateado enquanto Nina se aproximava. O Uzumaki ficou tenso. Tentou disfarçar olhando loucamente para os lados...

- Tudo bem? - ...o que provocou uma espécie de ataque psicótico aos olhos de Nina.

- Claro – gaguejou um pouco e ao ver o cachorro-quente que a amiga trazia, o agarrou como única fonte de salvação – Eu nunca mais volto num restaurante como aquele! – declarou Naruto revoltado, devorando o sanduíche. – Você não tem noção, Nina, de como tudo lá é muito caro! Eu nem sei o que tinha na sugestão daquela neurótica, mas iria metade do meu salário! – gesticulou exageradamente com os braços, quase acertando Sasuke que ainda se sentia perdido.

O retorno doa agência de namoros foi rápido e quase instantânea: em menos de três horas o loiro foi contatado para conhecer a garota indicada, mas só de colar os olhos no cardápio ele desejou boa noite e felicidades à garota. Se ela tinha a quantia da entrada de um carro para uma sobremesa Naruto não.

- Bem feito. – Nami se resumiu a isso.

- Mas agora todos estão bem, certo? – sorriu Nina.

- Bem? Ele me engravidou, Nina! – Nerak ainda estava incrédula. – Isso sem falar que vocês dois sequestraram uma pessoa. – a última frase foi dita com receio e com os olhos voltados para baixo. Teria enfiado a cabeça na lata de refrigerante se coubesse.

Na tentativa de se livrar do chilique da riquinha mimada, Naruto mandou uma mensagem no celular de Nina e foi aos prantos que ela conseguiu convencer a irmã a irem até o local socorrer o loiro. Antes que cadeiras voassem para cima dele, o Uzumaki gritou que estariam levando a amiga grávida de Nina para o hospital - ele e suas sempre tão geniais desculpas... - colocando Sasuke no meio da mentira enquanto o moreno acabava de entrar na recepção para jantar.

Um jantar que não aconteceu.

- Ah, tudo bem. – disse num tom que era de se duvidar da veracidade do "bem". – Vocês que estão pagando mesmo. – e deu uma tentativa de sorriso.

Céus, ela estava tão perto...

- Aí cara, foi mal ter te metido nessa, mas é que eu não 'tava a fim de ficar roxo de novo, sabe?

- Sei... – soou como nojo.

É que o loiro tinha dito tudo com a boca cheia de salsicha mastigada.

- Engole primeiro, Naruto. – quase se ajoelhou para pedir. Nerak estava quase criando asas para fugir dali.

- Você acha ruim me ver comendo de boca aberta? – e um pouco de ânsia também, ela completou mentalmente. – E você que fica tirando suas ervilhas uma a uma do pão?

- É uma mania dela Naruto, mas não é nojenta como a sua. – Nami estava com sua raiva contida. A mania em questão ela tinha pegado do ex-namorado, de mesmo nome do bonitão sequestrado.

- É irritante. – concluiu o loiro fechando os olhos com desdém.

- Vai continuar nisso mesmo, Naruto? – Nina adoraria que ele dissesse "Nunca mais na minha vida!".

- Claro! – decepção. – Só que dessa vez quem escolhe o local do encontro sou eu.

- Como pode estar tão animado se nem sabe como é a pessoa em questão? – Sasuke soltou aquilo com uma naturalidade ácida. A vida o tinha ensinado a ser assim.

- ... – nem mesmo o Uzumaki sabia.

- É porque ele é uma besta. – resumiu Nami.

- E você quem é? – o loiro mais uma vez tentava favorecer sua situação.

- Apenas um trabalhador honesto que foi jogado dentro de um carro. – Nami riu.

- É dos meus!

- Você trabalha lá no shopping, não é? Tentou comprar uma calça comigo dias atrás. – começou Nerak tímida. Ela ficava com o alto das bochechas e a ponta do nariz rosados quando isso acontecia.

- É mesmo... – disse numa empolgação contida. – Me desculpe por aquilo. Eu não tinha reparado.

- Como não? Só tem roupa feminina na vitrine! – Naruto se indignou com a falta de capacidade visual do moreno. – Ai! – Nerak o chutou por debaixo da mesa.

- Faz o quê?

- Eu fiz turismo. Trabalho com pacotes de viagens.

- Eu também fiz turismo! – se animou Nina – Não teriam nenhum pacote para a África? Um safári ou algo do tipo?

- De momento não me recordo, mas se quiserem aparecer por lá... – Nerak não conseguia tirar os olhos dele. E ele claramente havia percebido. – E você? Nerak, não é?

- Sim, Nerak... – ela havia ruborizado mais.

- Quem escolheu seu nome? – perguntou sem interesse.

- Minha avó... – ele sabia.

- É legal.

- Obrigada.

Climão.

- Eu vou para o carro. - anunciou Nami tirando o chaveiro da bolsa. Quem vem?

- Eu. – Nina se levantou, entendo o recado.

- Eu quero outro lanche...

- Quem vem?! – Nami gritou. Naruto tinha um sério problema de falta de massa encefálica. Derrotado, foi para o automóvel lambendo o papel do sanduíche, salvando o resto do molho antes de ir para o lixo.

- Que faculdade você cursou? – o moreno continuou focado no refrigerante.

- Fiz um curso de fotografia. Tinha planos de viver disso... Mas não deu. Começaram a chegar contas e eu e Nami tivemos que nos virar... Acabamos cursando estilismo, acabando naquela loja que você conhece. É legal. Podemos exercer tudo o que aprendemos e ainda ganhar comissão pelo atendimento. – e depois de terminar a frase sentiu-se mal, pois os olhos negros ainda estavam voltados para a lata metálica. Começou a brincar com um palito de dentes.

- Fotografia é legal. – falou depois da pausa quase eterna. – Quais eram seus planos iniciais? – ela se lembrou dos planos mas não os disse.

- Viver disso. Fotografar pessoas, casamentos... – principalmente se fosse o dela.

- Hm... – soou do fundo da garganta. – Nos largaram aqui, não é? – só agora ela tinha percebido que o carro de Nami não estava lá.

- E agora? – Nerak entrou em pânico. Eles estavam TÃO TÃO DISTANTE de casa...

- Gosta de caminhar? – Sasuke perguntou se levantando da cadeira. Ela adorava e quase caiu da cadeira com a proposta. Seu antigo namorado evitava ao máximo se mexer. Se houvesse um trem para a padaria, certamente ele o apanharia.

Acontece que Sasuke havia mudado muito desde que terminaram o romance... Ele tinha ficado irritado a princípio quando Nerak não o reconheceu, mas achou melhor ao pensar depois a respeito: iria usar aquilo a seu favor.

Daria o troco.

.

Viu a "ex-loira" parada em frente ao restaurante que tinham marcado de se encontrar. Ela mordia o lábio como de costume, quando estava ansiosa demais para alguma coisa. Não segurou um pequeno sorriso ao lembrar das tantas vezes que pegou ela mordendo o lábio freneticamente quando ele tentava uma surpresa. Balançou a cabeça afastando as lembranças e voltando a ficar serio.

- Oi Nerak. - Sasuke se pronunciou quando estava próximo. Nerak não pode deixar de reparar no sorriso que o moreno trazia nos lábios, o estilo galanteador, com o queixo levemente erguido e uma postura impecável.

- S-sasuke. - Gaguejou quando o sorriso lhe atingiu completamente, deixando-a sem ar.

Entraram no restaurante, Nerak na frente acompanhada de Sasuke. O recepcionista os recebeu e Sasuke só precisou dizer que tinha reserva para que o mesmo se apressasse em encontrar uma mesa para dois vaga. Sentaram numa mesa na janela com vista para um parque com lindos jardins de uma variedade de flores e algumas crianças, encapetadas segundo Sasuke, correndo para um lado e para o outro.

- O que os senhores irão escolher? - Um garçom com certa antipatia, moreno e de olhos mortos se aproximou com um bloquinho em uma mão e uma caneta na outra.

- Na verdade, não recebemos o cardápio ainda. - Sasuke respondeu sem olhar para o garçom, com os olhos fixos em Nerak. - "Ela está tão linda como daquela vez que nos vimos pela ultima vez".

Que amarga lembrança...

"Sasuke tinha tocado a campainha. Tinha marcado de sair com Nerak aquele dia para que ela pudesse conhecer sua família. Ela não demorou a abrir a porta, mas dessa vez estava diferente. Radiante como sempre: linda e perfeita, radiante! - pelo menos para Sasuke ela era assim. Mas foi com ar de tristeza que o encarou e quando Sasuke lhe deu um beijo na testa ela devolveu o gesto com um leve sorriso ainda entristecido pedindo para que ele sentasse."

Mas uma vez balançou a cabeça levemente, afastando as lembranças. Estava ali com um propósito e não tinha vontade de mudar isso. O garçom tirou dois cardápios do bolso grande que tinha o avental, colocou em frente aos clientes e se retirou.

Nerak olhava o cardapio com uma cara confusa, nomes complicados e pratos que ela nem sabia que existia. Sasuke riu.

- Posso sugerir Fettuccine à Carbonara de Camarões?

- Fettu quem? - Nerak não sabia que ele sabia falar com ET's de Marte.

- Fettuccine. - Riu. - Basicamente, macarrão com camarão.

- E quanto custa isso? - Nerak olhava o preço gritante no cardápio.

- Não se preocupe com preços - Sasuke puxou o cardápio da mão da garota.

- Mas...

- Mas nada. - Sasuke levantou a mão para chamar o garçom que não demorou a reaparecer com seu bloquinho.

- Pois não?

- Fettuccine à Carbonara de Camarões. Acompanha com uma boa taça de vinho tinto seco. Ajuda a aguçar o sabor do molho e a textura da massa - Terminou a frase olhando para Nerak, como se fosse perito no assunto. O garçom se retirou.

- Sasuke, eles não tem batata recheada? – o moreno somente riu, pensando que ela continuava a mesma.

Fingindo estar com a atenção voltada somente para o cardápio, corria com os olhos por toda extensão da página. Mas, claro, sua mente estava nela. Não havia mudado nada, apenas amadurecido. Era tão linda quanto antes. E tinha praticamente as mesmas manias. Ela não notou estar sendo observada. De segundos em segundos, olhava para frente, mas o moreno ainda tinha os olhos negros enterrados no menu vermelho. Mexia então nos cabelos, pondo e retirando a mecha de trás da orelha. Se arrumou na cadeira umas três vezes e até mesmo mexeu no celular. Foi quando decidiu puxar o guardanapo de pano, perfeitamente dobrado em cima do prato de porcelana branca, para colocar em seu colo. O lenço voou de sua mão, e ela o pegou no ar, batendo no tórax do garçom que chegava com o vinho:

- Perdão - pediu, vermelha. Sasuke ria internamente.

- Eu ajeito para a senhorita. - disse, esticando o mesmo sobre as pernas dobradas da moça - Vinho?

- Por favor... - pediu, erguendo a taça. Ele colocou uma quantidade na dela e na de Sasuke. Ele degustou um pequeno gole e ela planejou fazer o mesmo. Não conseguiu disfarçar a cara torcida, com o gosto amargo da bebida que fez sua língua se contrair.

- Tudo bem, Nerak? - perguntou Sasuke, com leve ar de deboche.

- Claro... - disse com os lábios comprimidos. O líquido parecia não ter coragem de escorregar pela garganta.

- Parece não ter gostado do vinho...

- É meio... - começou, forçando o líquido para baixo. Foi possível ouvi-lo passar pela traqueia - Diferente.

- Não é para qualquer paladar - zombou, bebericando mais um pouco.

- Por isso me dou melhor com refrigerante - riu, apertando os olhos. Ele se lembrou de como adorava isso e se ajeitou na cadeira.

- Deveríamos ter ido comer batatas recheadas de strogonnof de frango com catupiry e batata palha. Com molho vermelho, então. - Deu de ombros, como se fosse uma sugestão normal.

- São minhas preferidas. - olhou fixamente para ele, com uma cara de espanto - Lê mentes, senhor Sasuke? - Ele gelou. Estava deixando evidente demais para seu gosto.

- É que até hoje foi a única que provei... - sorriu discretamente - Nosso prato está a caminho. - ela virou para trás para ver melhor - Será que fará careta dessa vez?

- Não, camarão eu já comi, acho que posso gostar... - declarou, fingindo não ter notado o ataque sutil do companheiro.

O que intrigava Nerak, era que ao mesmo tempo em que ele a persuadia, também colocava uma barreira entre eles. Estaria ficando louca? Mas Sasuke estava mesmo oscilando entre se divertir e continuar com o plano. Céus, como era difícil estar sempre pensando no que fazer! O que o mantinha com forças era a ideia de que sim, Nerak o esquecera. Não teria sido importante se depois de sete anos, era imagem apagada de sua vida.

Ele a amara e como amara. Nerak tinha sido a única menina a se aproximar dele. Sasuke nunca havia usado o sobrenome do pai. O mesmo mantinha boas relações com ele, mas por relutância da mãe, ele não havia herdado o sobrenome. Mas mesmo assim, podia contar algumas pessoas que o apontavam como filho do Uchiha. Era inteligentíssimo, suas notas tinham sempre a média cem. Era elogiado pelos professores e por isso, odiado pelos outros alunos, mesmo que inteligência não fosse um motivo muito concreto de se declarar guerra de bolinhas de papel contra um aluno. Mas Nerak nunca havia erguido nenhuma das bolinhas em sua direção. Se lembrava com muita clareza a mesma declarando "queria eu ter tirado cem em matemática...". Foi um elogio disfarçado. Ela admirava a facilidade com a qual o menino rabiscada o caderno depois da explicação da professora. A agilidade que tinha ao juntar os números, ao calcula-los, resolvê-los com tanta facilidade os conjuntos numéricos. Era um gênio sim e ela o invejava por isso. E na educação física só não era convidado para os esportes por falta de popularidade. Ela gostava de vôlei e um dia, quando uma de suas colegas faltou, ele se demonstrou ótimo para os saques de fundo de quadra. Era sutil, mas potente, a bola riscava a quadra. Porém, na maioria das vezes, ele gostava de ficar lendo, ou jogando xadrez com o professor. E, quando o mesmo faltou, Nerak viu a oportunidade de falar com o moreno de cabelos muito curtos, que a fazia olhar para trás sempre que podia...