Estava chovendo. Os alunos haviam pulado a grade azul do colégio para irem tomar refrescos na panificadora que tinha a duas quadras dali. Nerak disse que não iria, pois não queria se molhar. Era mentira, lógico.

Ela queria conversar com Sasuke.

Ele tinha um jeito ranzinza que ela achava uma graça e seu humor ácido a fazia rir, muitas vezes sozinha, dos cortes que ele dava nos espertalhões da turma. Estava como de costume, sozinho. Havia arrumado e desarrumado o jogo de xadrez umas cinco vezes, que Nerak havia contado. Não sabia jogar aquilo, mas achou que pedir ajuda para aprender, o traria para perto.

- É muito difícil? - Sasuke voltou os olhos para cima, ajeitando os óculos de lentes retangulares e brilhantes para o topo do nariz. Ele sempre escorregava.

- Não muito.

- Me ensina? - ele arregalou os olhos e arqueou as sobrancelhas. Aquilo o fez ficar com aparência irônica, mas estava tentando mesmo era processar o acontecido. Nerak, aquela menina bonitinha e engraçada da terceira carteira da fila encostada na parede, do lado da porta, estava ali, tentando conversar com ele, tentando aprender o que tantos consideravam o jogo mais chato do mundo: XADREZ!

- Ensino. - disse, olhando para a peça branca da rainha, do lado de Nerak. Ela puxou a cadeira e se sentou.

- Quem começa?

- Você, está com as peças brancas.

- E o que eu faço? - ele ergueu os olhos e a observou, por cima das lentes de grau. Os olhos redondos e brilhantes dela demonstravam mesmo dúvida. E ela estava interessada em aprender. Com ele. Sem bolinhas de papel. Era de se desconfiar ou se alegrar?

- Esses, de cabeça redonda que ficam na fileira da frente chamamos de peão. Eles são como soldados, defendendo as outras peças. Eles são como peças banais, mas são importantes para o decorrer do jogo... - e a cada palavra dita, ele se empolgava cada vez mais, tendo em vista o rosto miúdo de Nerak concordando com cada palavra dita e observando as peças que não pareciam mais tão estranhas. Estavam cada uma ganhando nome e função e ela adorou os peões. Ela comparou com o menino de óculos a sua frente. Parecia tão comum, só mais um entre tantos. Mas era realmente importante e curioso. Mas para Sasuke, Nerak logo se tornaria uma peça tão importante quanto o Rei - a Rainha."

- Bom, já sei que trabalha numa agência de venda de viagens. Onde estudou? – ela começou, tentando salvar a noite silenciosa até então.

- Na faculdade de economia de Tokyo, pós-graduação em Roma. E você?

- Fiz moda, como já comentei no dia do "incidente" - riu sem graça - Gostava bastante e sempre quis assinar uma linha de roupas só minha...

- E a fotografia? - pelo que se lembrava, ela queria viver disso

- Não consegui continuar. Meu foco nessa área seria para fotos com verdade, sabe? Sentimentos... Mas... - deu de ombros

- Sentimentos não eram com você. - completou, sentindo no fundo do coração, uma pontada de desgosto.

- De certa forma – agora o desgosto atravessava sua garganta. Ele podia sentir seu gosto amargo.

- Parece ter feito muitos corações se quebrarem por você, Nerak... - disse simplesmente, ainda que desejasse jogar isso na mesa.

- Por que diz isso? - ela sentia outra coisa atravessando a própria garganta: lágrimas contidas em anos de arrependimentos.

- É muito bonita, se é que posso dizer isso sem ofender... - e riu. Ela se acalmou - Devia ter muitos pretendentes.

- Não muitos... Tinha sim alguns que me procuravam, mas depois que percebiam que não iriam conseguir nada, se afastavam... Sempre fui muito espalhafatosa, acho que minha falta de charme espantava os garotos - e deu uma gargalhada divertida e alta. Ela estava muito enganada. Aquele jeito espontâneo dela era seu maior charme...

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- Vamos, Sasuke, só uma foto!- ela gritava muito alto, abanando os braços para cima e para baixo.

- Eu não gosto dessas coisas. – declarou bravo, cabeça baixa e braços cruzados.

- Se não vier aqui no balanço em cinco segundos, eu faço você engolir a minha câmera! – ele deveria concordar. Era uma câmera de fita ainda. Elas costumavam ser pesadas. Mesmo assim, arriscou e continuou no lugar.

A menina se irritou e de onde estava, conseguiu ver os olhos se apertando de raiva. Ela correu até ele erguendo a câmera na mão direita. Sasuke gelou, achando que aquele era um ataque prévio, mas ela apenas pulou em cima do garoto, conseguindo o derrubar no chão. Ela, que já era alta, conseguiu derrubar ele, ainda mais alto que ela. Ela ria animadamente e aproveitou que estavam ali, deitados na grama para bater a foto. Ele, com os olhos semiabertos e chateados e ela ali, sorrindo de orelha a orelha.

Depois do susto ter passado, ambos perceberam que continuavam deitados. Ele, com as mãos atrás da cabeça, queixo erguido para cima e ela, com as mãos apoiadas em seu peito e ouvido colado no mesmo. Nerak conseguia ouvir os batimentos do moreno. Inclinou a cabeça, apoiando-a totalmente sobre o peito dele, que mexia para cima e para baixo devido a respiração. Sasuke percebeu a aproximação dela. Estava assustado. Estava feliz. Estava confuso. Isso se refletiu em seus batimentos. Sentiu o rosto esquentar quando as mãos finas desceram para o lado onde se encontrava seu coração, tão agitado. Ela ergueu a cabeça e ele a viu de cima. Os olhos brilhavam e tinha um sorriso doce escondido pela dobra da camiseta azul-marinho:

- Isso tudo é para mim ou devemos procurar um médico? – arriscou qualquer coisa, se arrependendo de ter dito aquilo. Mas, como dizia Nami: quem não arrisca não petisca.

- O que você acha? – perguntou, olhos fixos nas nuvens que se manchavam aos poucos de cinza. – Olha, vai chover. – gaguejou, aflito, ao sentir o peso aliviando sobre o tórax. Teve medo que ela fosse embora para não voltar mais. Porém, o peso se aliviou para outro fim. Quando o moreno abriu os olhos novamente, depois de fechá-los de medo, viu Nerak o sorrindo levemente. Ela não tinha certeza da reação do garoto depois do que iria fazer, mas arriscou. Inclinou o rosto até a altura do dele e cerrou os olhos. Ele o fez quase instintivamente. Os lábios finos dela tocaram o dele, e o gosto de morango invadiu os lábios do moreno. Ergueu o tronco levemente, se apoiando em um dos braços, enquanto a mão livre pousava no rosto da então loira. As mãos dela queria apertar o rosto de Sasuke, mas ela se segurou para apenas continuar acariciando a face pálida. Estava amando e sabia o quanto poderia ser dolorido. Mas no momento, estava sendo maravilhoso. Sorriu no meio do beijo e depois de receber um último e doce beijo, ela abriu os olhos. Sabia estar completamente vermelha. Ele riu vendo a expressão dela:

- O que? O que eu fiz? – ela ria. Ele a puxou para baixo, num abraço apertado e continuaram ali, deitados olhando as nuvens se tingindo completamente..."

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- A companhia está tão ruim assim para ficar com essa cara? – Sasuke perguntou com um meio sorriso irônico. Nerak se lembrando do passado esqueceu que estava ali justamente para evitar tais pensamentos.

- Desculpe, estava me lembrando de coisas do serviço. – mentiu, se recompondo.

- Ele deve ser mais interessante do que o jantar. – e agora a vergonha tinha se tornado raiva. A ironia e sarcasmo do moreno estavam a irritando.

- Ironia e sarcasmo são qualidades que aprecio quando as mesmas não me ofendem. – por dentro, Sasuke havia desmontado. Achava estar indo bem até então, mas ela continuava pavio curto.

- Não quis ser arrogante, mas ofensa senti eu vendo que estava tão distante da mesa.

- Assim como você que passou mais tempo lendo o cardápio e verificando o celular do que conversando comigo.

- Queria atenção? – a pergunta saiu zombeteira.

- Achei que você queria. – ele silenciou – Quem está pagando é você. – ele continuou olhando fixamente nos olhos brilhantes da moça. Tinha estragado tudo. – Com licença. – pediu, se levantando da mesa e tirando dinheiro suficiente para pagar sua parte do jantar. – Tenha uma boa noite, se quiser.

E lá estava Nerak, mais uma vez, saindo de sua vida. Droga! Ele havia estragado tudo! Estava indo bem em seu papel de homem misterioso e culto, até abusar da sorte. Nerak era educada em não expor suas impressões, mas depois de certo tempo, ele sabia que ela sempre acabava por falar. E agora? O que fazer para fazer ela voltar? Não podia continuar com o plano sem ela estar completamente envolvida, da mesma forma que ele esteve envolvido por ela. Tinha que ter a moça por perto. Tinha que concluir o que tinha jurado. Nunca se esqueceu daquilo. As lágrimas foram o selo de compromisso que teve consigo mesmo ao dizer que um dia, teria volta. Assinou o cheque e entregou ao garçom, fechando a conta. Apanhou o dinheiro amassado de cima da mesa e guardou na carteira. Iria devolver à moça. Seria o primeiro passo e ele faria questão de que o mesmo fosse bem sucedido.

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- Foi tão ruim assim? – Nami perguntava chateada. Seria bom se o jantar tivesse dado certo para a amiga.

- Ele é lindo e tudo o mais, mas muito estúpido! Ok, eu fiquei sem graça no começo, mas parece que tudo o que ele fala é intencional, como se quisesse mesmo me deixar mal! – Nami arqueou as sobrancelhas.- Ah, só quero ir pra casa. – declarou a moça, cruzando os braços.

- Bom, não teve sorte com ele, mas outros virão...

- Desisti dos outros.

- Um não paga todos, Nerak... – Nami tentava apaziguar a situação.

- Mas todos os que eu conheci se pagavam! – e ainda mais emburrada, se encolhendo no banco do carona, a moça ficou, olhos cerrados, como se pudesse matar todos os homens do mundo.

- Aqueles ali não são a Nina e o Naruto?

- Onde? – e olhando pela janela lateral, as duas puderam ver os dois, rindo incontrolavelmente enquanto a chuva os molhava cada vez mais.

- Deixa eu acelerar esse processo de se encharcar... – anunciou com um sorriso sarcástico. Pisou fundo no acelerador e passou a toda sobre a poça d'água, levantando um mini Tsunami em cima dos dois amigos.

- Nami! Você é cruel... – Nerak arregalou os olhos.

- Eu sei. – sorriu de forma demoníaca e, pela primeira vez, Nerak desejou estar ao lado de Sasuke. O estúpido e infantil, Sasuke.

Enquanto isso, na calçada acinzentada, Naruto xingava o motorista do até então, misterioso carro de todos os nomes possíveis, sem perceber que, no susto de ver a poça se erguer numa onda assassina, tinha se agarrado à Nina como se esta fosse uma boia salva-vidas. A Arishima sentiu-se vermelha, sem saber se era por causa da vergonha de ver seus seios quase pulando fora do decote coração, ou por estar sem ar mesmo.

- Mas que merda! Ficamos molhados! – ele estava indignado e ainda a apertava.

- Mas está chovendo. – Naruto emudeceu com o óbvio.

- Eu já sabia.

- E eu estou sem ar.– riu Nina. Quando Naruto a largou, vermelho de vergonha sentiu a falta do corpo morno em seus braços. Ficou ainda mais vermelho ao pensar que queria estar abraçado a ela mais uma vez. – Quer ir para casa?

- Quero comer bolo confeitado! – gritou com as mãos pra cima. Nina riu. – Venha, eu pago. – anunciou, dando a ela o braço, como se fosse um perfeito cavalheiro, Ela pousou a mão no braço molhado e seguiram conversando como dois lordes, para a panificadora. Nina sentia estar se aproximando do loiro risonho e este, por sua vez, começava a sentir pela amiga o que ele preferiu chamar de gases – era inadmissível querer envolvê-la em amores insensatos. Ele seria o insensato. Nina era a melhor amiga que poderia ter. E ele ainda tinha mais encontros pela frente...

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Pegou sua bolsa e assinou o ponto. Iria almoçar e voltaria dentro de uma hora. O sábado que antecedeu sua segunda-feira tinha sido desapontador e ela sentia que nada mais a faria rir, pelo menos naquele dia. Foi quando Nami a cutucou com o cotovelo. Ela virou sua atenção para a amiga que apontou com o queixo para frente. Era Sasuke. Ali, sem olhar de condenação, segurando duas casquinhas de sorvete. A ruiva mudou de direção, deixando Nerak andando para a frente. Sentia as pernas duras como duas estacas de madeira. Queria matar a amiga por deixá-la ali e matar o moreno pela sua estupidez:

- Oi. – ele disse, voz baixa

- Oi.

- É para você.

- Não gosto de sorvete de baunilha – mentiu.

- Era a única opção no quiosque. – ela pegou as duas casquinhas.

- Mais um Milk Shake e você está perdoado. – ela sorriu e ele riu. – Estou brincando. – disse devolvendo uma das casquinhas.

- Almoço agora?

- Uhum.

- Eu pago. – disse naturalmente, as mãos no bolso.

Seguiram então os dois para a praça de alimentação. Não recordaram o sábado anterior e tiveram uma conversa produtiva, que envolvia a última cliente da loja, que quebrou o salto do sapato que havia experimentado e a última vez em que Sasuke teve que atender um cliente que teve um surto quase psicótico e jogou a cadeira dois metros acima de sua cabeça. Riram. Naquele dia, Sasuke, embora querendo aproximação para concluir sua vingança, não pensou nela. Riu e conversou como há muito tempo não fazia. E ela ainda parecia sua rainha, como há muito tempo se esquecia.