Abriu os olhos com dificuldade. O sol do fim de tarde deixava sua tenda amarelada e, ainda que estivesse quente e abafado, as roupas compridas de algodão e a leve brisa morna que vinha de uma das aberturas da tenda, fazia que o calor se tornasse até mesmo agradável. Quando percebeu, uma concubina lhe ajeitava os travesseiros de cetim vermelho, enquanto outra lhe dava uvas na boca, as maiores e mais suculentas uvas que já tinha se dado conta. Deveria ter pelo menos umas sete moças ali, todas servindo diretamente a ele. Se sentiu um rei, um sultão. E pelo jeito era. Um harém maravilhoso e completo ele tinha. E nem se lembrava de como o tinha conquistado. Bom, isso não interessava também. O importante é que era real o suficiente para lhe deixar contente.
Mas que música era aquela que corria por entre o espaço almofadado? Assim como a brisa suave que balançava os voais pendurados mais a frente, a mesma vinha de algum lugar desconhecido. Olhou para os lados, tentando identificar onde estava o iPOD que fazia ecoar essa música. Não encontrou. E ao voltar os olhos para frente, a viu: uma silhueta feminina escondida em forma de sombra por detrás dos voais coloridos e transparentes. Quem era ele não sabia, mas sentiu um impulso quase automático de bater com as mãos duas vezes. A música parou. Expectativa. Uma batida de tambores se iniciou e com ela, o quadril da moça requebrava junto, fazendo as moedas em sua cintura tilintarem. Logo um jogo de duas flautas acompanhava a batida marcante e o antes requebrado, era agora um conjunto de mãos e braços, ombros e cabeça, que se jogavam e giravam ao sabor do ritmo forte e suave. Ela dava espaço à imaginação do loiro, que a imaginava de muitas formas possíveis. E quanto mais o corpo dela passava pelos tecidos, mais inclinado ficava o tronco do 'sultão' em direção a ela. Dois, três tecidos. Ela estava quase visível. A perna direita ergueu-se e enroscou-se no último voal, um alaranjado, que contrastava com a pele levemente morena pelo pôr-do-sol e a roupa vermelha, num esconde-esconde de mostra e esconde as pernas, a cintura, o colo da jovem. As moedas agora tilintavam mais baixas, como que respeitando o momento. Ela passou o último tecido. Ela parou e os tambores cessaram junto. Apenas as flautas continuavam soprando delicadamente, enquanto ela dava a volta em si mesma. Cabelos castanhos e compridos, levemente ondulados em seu comprimento. Tinham um brilho dourado assim como os ombros e costas das mãos, que o fim do dia proporcionava. O nariz e a boca estavam tapados pelo tecido levemente transparente e vermelho. Mas os olhos, esses brilhavam e muito. Eram castanhos e carinhosos, como se sorrissem, ainda que ela estivesse o seduzindo completamente. Então, o mundo de Naruto caiu. Ele conhecia aqueles olhos. Ele sem ergueu num pulo e puxou o lenço do rosto de sua odalisca:
- Nina? – ela sorriu e se afastou
- Hey, Naruto. – alguém cutucava seu ombro, mas ele ainda tinha seus olhos para a dama de vermelho, que se afastava – Acorda imbecil – ele voltou seus olhos para um enorme elefante decorado que o cutucava com a tromba. Apertou os olhos e a imagem do animal começou a se fundir...
- Elefante... – balbuciou, tentando de todas as formas permanecer no harém.
- Como é? – os olhos de Nami se apertaram de ódio.
- Ah, era só você... – Naruto se ajeitou na cadeira de plástico chateado.
- Toma. – a moça quase fez o loiro engolir a lata de alumínio.
- Eu pedi um guaraná!
- E eu pedi para que você morresse. – arqueou as sobrancelhas em sinal de ironia. Ele se calou chateado enquanto Nina se aproximava. O Uzumaki ficou tenso. Tentou disfarçar olhando loucamente para os lados.
- Tudo bem? - O que provocou uma espécie de ataque psicótico aos olhos de Nina
- Claro – gaguejou um pouco e ao ver o cachorro-quente que a amiga trazia, o agarrou como única fonte de salvação – Eu nunca mais volto num restaurante como aquele. – declarou Naruto revoltado, devorando o sanduíche – Você não tem noção, Nina, de como tudo lá é muito caro. Eu nem sei o que tinha na sugestão daquela neurótica, mas iria metade do meu salário! – gesticulou exageradamente com os braços, quase acertando Sasuke, que ainda se sentia perdido.
- Bem feito. – Nami se resumiu a isso.
- Mas agora todos estão bem, certo? – sorriu Nina.
- Bem? Ele me engravidou, Nina! – Nerak ainda estava incrédula. – Isso sem falar que vocês dois sequestraram uma pessoa – a última frase foi dita com receio e com os olhos voltados para baixo. Teria enfiado a cabeça na lata de refrigerante se coubesse.
- Ah, tudo bem. – disse num tom que, era de se duvidar da veracidade do "bem" – Vocês que estão pagando mesmo. – e deu uma tentativa de sorriso.
- Aí, cara, foi mal ter te metido nessa, mas é que o esverdeado tem a mão pesada, não tava a fim de ficar roxo de novo, sabe?
- Sei... – soou como nojo. É que o loiro tinha dito tudo com a boca cheia de salsicha mastigada..
E ainda que Nerak implorasse que ele tivesse mais etiqueta ou chutasse por debaixo da mesa, ele evitava olhar para Nina. A moça estranhou. Como assim? O que ela tinha feito? Por que aquela reação? Desesperou-se internamente. Seus pensamentos vagaram por entre mulheres de todos os tipos e etnias. Será que ele combinava com o tipo nórdico? E se ele encontrasse uma descendente de noruegueses, com os mesmos olhos claros e cabelos loiros e brilhantes. Talvez tivesse o mesmo grande sorriso dele e fosse cativante da mesma forma. Ou ainda, que fosse teimosa como ele e com as mesmas manias, tipo apontar escandalosamente para uma pessoa quando se pede sigilo, ou rir não contidamente até mesmo em velórios. Riu. Não existia ninguém como o Naruto. Qualquer coisa a fazia pensar nele e ela já estava ficando deprimida por vê-lo ligado a tantos fatos importantes de sua vida. Ensino médio e sua formatura. O primeiro e atual apartamento. As contas enroladas, as risadas e a maneira que inventavam para não passar fome nos dias de aperto – pão com ovo e brigadeiro.
- Vai continuar nisso mesmo, Naruto? – ela adoraria que ele dissesse "Nunca mais na minha vida!".
- Claro! – decepção – Só que dessa vez quem escolhe o local do encontro sou eu.
- Como pode estar tão animado se nem sabe como é a pessoa em questão? – Sasuke soltou aquilo com uma naturalidade ácida.
- ... – nem mesmo o Uzumaki sabia. Na verdade, o que poderia dizer? Ele tinha tido o sonho mais tenso de sua vida tendo como protagonista sua amiga, sua melhor amiga. E agora? Como olhar para os olhos da pessoa que ele havia desejado o corpo nu?
- Eu vou pro carro. Quem vem?
- Eu. – Nina se levantou, entendo o recado.
- Eu quero outro lanche...
- Quem vem? – Nami gritou. Naruto tinha um sério problema de falta de massa encefálica. Derrotado, foi para o automóvel lambendo o papel do sanduíche, salvando o resto do molho antes de ir para o lixo.
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Quantas mulheres de vermelho tinham passado na frente da loja de colchões ele ainda não sabia, mas era a única cor que tinha visto o dia todo. Até mesmo Konohamaru tinha ido trabalhar com uma camiseta dessa cor. Vermelho, vermelho, vermelho. Aquilo não ajudava muito o loiro esquecer-se do sonho da noite anterior. Ele não podia ver Nina como mulher. Ela não era uma mulher, era a Nina. Bom, mas pelo menos na certidão de nascimento ela constava como uma – o que piorava um pouco a situação. Ainda assim, aquilo soava como pecado, tipo não ter leite condensado em casa quando ela estava "naqueles dias". TPM poderia ser muito assustador.
Ele ainda não tinha desistido de conhecer uma pessoa especial, mas o sonho com a Arishima tinha mexido um pouco com suas idéias. Quero dizer, ela estava com roupa de odalisca! E, bem, ela tinha um corpo consideravelmente bonito, já que eles tinham ido muitas vezes levar Kimy na praia, mas era a primeira vez que via mais do que como uma amiga. Não era de hoje que Nina era bonita. Não era de hoje que ele sabia:
- 'Tá pensativo, Naruto? – Konohamaru começou enquanto abocanhava uma barra de cereal.
- Esse shopping está muito vermelho, hoje. – concluiu riscando um dos itens da lista da loja.
- Eu gosto de vermelho. Cor da sedução... Amor... Paixão... – filosofou com um sorriso malicioso.
- Cale a boca! – falar de amor, paixão e sedução, não necessariamente nessa ordem, faziam ele se lembrar de uma Nina muito sedutora que vira em seus sonhos. Mas que merda.
- Vai dizer que não gosta? Já tentou imaginar uma mulher dançando com uma roupa vermelha, tipo aquelas odaliscas e... – e nada. Naruto já tinha saído de perto. E o pior de tudo: era hora do almoço. Almoço. Com. A. Nina.
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- Foi tão estranho... – era a centésima quarta vez que Nerak murmurava isso.
- Isso você já disse. – Nami a lembrava – Conte o resto! – expectativa mil. Nina nem mesmo respirava para ouvir.
- E nós fomos andando até em casa. Quero dizer, duas horas e meia de caminhada, eu nem sentia mais os nervos dos meus dedos, e não sei como estou andando hoje, mas... Foi tão esquisito! – ela ria incrédula – Sabe, ele é tão diferente do que eu achava... Tão diferente do meu Sasuke...
- É porque não é a mesma pessoa... – Nina completou – É bom conhecer pessoas novas, viu só? – elas tentavam animar a amiga.
- E olha só quem é a pessoa, né, Nerak? – as três riram – É uma boa, sair, se divertir, se distrair... Ele pode ser boa companhia, não vamos pensar em namoros já, por favor!- Nami já erguia as mãos para cima, como se tivesse sido rendida.
- É claro que não! Ele é um estranho ainda... – Nerak tomava um gole do suco.
- Ainda... – Nina repetia a frase como um eco misterioso. Nami ria junto da irmã vendo Nerak ruborizar.
- Eca, o Naruto chegou. – o sorriso de Nami se transformou numa coisa azeda.
- Coitado Nami... – Nina bem que tentava, mas nada poderia ajudá-lo.
- Sinceramente? O Naruto precisa sentar no colo do capeta pelo que fez ontem. – ela se levantou – Você vem, Nerak?
- Certeza! – ela se levantou de um pulo e seguiram para a loja.
Nina virou o rosto para localizar o amigo. Foi um gesto simples, mas que deixou o loiro petrificado pro dentro. A luz artificial do shopping fazia o rosto da Arishima ser bem visível. Os olhos grandes e amendoados estavam contornados de preto, a sombra marrom dava profundidade às órbitas castanhas, que pareciam sorrir junto com os lábios cheios dela, que usava um discreto brilho rosado, que a essa altura tinha quase sumido. Os cabelos ela tinha jogado de lado por reflexo, mas tudo pareceu ter acontecido em câmera lenta. Ela então acenou e ele se aproximou ainda acanhado. Foi quando enfim chegou perto que percebeu: ela estava de vermelho:
- Como está sendo o trabalho até agora? – vermelho...
- Legal... – vermelho, ele pensava – O movimento tá fraco... – vermelho...
- Não é mesmo muito comum ver pessoas comprando uns três colchões de uma só vez, não é? – ela riu.
- É...
- Eu pedi seu almoço, vou buscar lá para você – e quando ela se levantou, Naruto pode visualizar o conjunto blusa + seios fartos da moça. Fechou os olhos com força. Maldita blusa vermelha! Maldita cor! Maldito sonho! – Naruto? – e ele tinha ficado tão focado em suas maldições, que nem percebeu que entre uma e outra, Nina estava de volta.
Ver. Me. Lho.
- Vermelho. – soltou, como se tivesse se esquecido da diferença entre falar e pensar.
- O que é que tem? – perguntou pausadamente. Nina sabia que o cérebro do loiro poderia pifar se forçado a pensar em mais de uma coisa ao mesmo tempo.
- Você pode me ouvir? – ele ainda achava que estava pensando.
- Você disse em voz alta... – Nina ficava facilmente confusa perto do Uzumaki.
- Ah... – soltou meio decepcionado, meio aliviado... Não queria que a amiga soubesse, mas seria legal se ela tivesse algum poder psíquico, ou coisa do tipo. – Nina, eu queria te contar uma coisa... – não que estivesse decidido a falar do sonho, mas teve essa idéia da louca. Não achava estar fazendo mal, embora uma nova mensagem de celular tivesse feito ele se distrair e verificar o que tinha sido encaminhado. Desde os dezessete anos, todos os celulares que o loiro trocava tinham como alarme de mensagens a música tema do seu seriado preferido: Power Ranger.
"Não perca mais tempo! Sua alma gêmea pode estar na sua frente agora mesmo! Retorne essa mensagem para a Agência Flecha do Cupido e se prepare para conhecer um novo alguém!"
- Nina, olhe isso! – ele gritou entregando o aparelho à moça, que ainda queria saber qual seria o assunto a ser tratado antes. Ao ler "Sua alma gêmea pode estar na sua frente..." quase surtou internamente. Só conseguiu respirar depois de ler o resto da mensagem. Foi passageiro. Lá iria Naruto mais uma vez atrás de alguma estranha.
- E quando vai ser isso?
- Não sei... – disse rindo, se levantando e pegando sua bolsa carteiro desajeitadamente – Mas dessa vez eu escolho! E vai ser uma churrascaria!
