O dia estava bonito e agradável. Um sábado de meio de tarde e de tempo ameno era perfeito para começar esse encontro com o pé direito. Tinham conversado muito pouco, mas o suficiente para saberem o nome um do outro e onde a moça gostaria de encontrá-lo. Ela insistiu para que ele fosse até o zoológico e Naruto, por sua vez, insistiu algumas quinze vezes para que ele mesmo escolhesse o restaurante que iriam. Ela não pareceu gostar muito da idéia, mas como o loiro já havia dado o braço a torcer acabou concordando, com a condição de que ela mandasse uma lista de restaurantes via e-mail para que ele escolhesse dentre eles o de seu agrado. Naruto excluiu o mesmo antes de ler. Queria surpreendê-la, pensou de peito estufado, convencido de que tinha feito a melhor escolha de sua vida.

Porém, a linha de raciocínio foi cortada quando um enorme elefante cinzento fez sombra em cima dele. De orelhas grandes e arredondadas, o animal enrolou a tromba em cima da cabeça, como se estivesse saudando e, ignorando que o animal tinha feito aquilo para coçar as costas, Naruto achou que tudo aquilo era um sinal. Era idêntico ao de seu sonho, com os enfeites dourados ficaria perfeito. Se aproximou perto da cabeça do animal, que estava abaixada e começou a falar junto de seu ouvido:

- Hei, amigo... Tudo bem? – mas o elefante mostrou um interesse maior em suas frutas do que no loiro que havia dobrado metade do corpo para dentro da cerca – Não seja tímido... Não vai falar comigo?

- Naruto? – e quase caiu dentro do cercado do elefante, ao ouvir a voz de Nina o chamando. Ela estava com os olhos mais arregalados do que o normal, e com uma expressão mais confusa do que das outras vezes. Ele sabia que dessa vez havia feito uma bobagem grotesca.

- Oi Nina! – gritou animado, disfarçando o acontecido.

- Você estava falando com o elefante? – mas a moça não havia se esquecido. E esquecer como se metade do zoológico tinha visto?

- Eu... – e no auge do desespero, resolveu arrumar da melhor forma que pode – Sabia que os animais gostam de conversar? – o elefante soltou a água que antes guardava na tromba, como se estivesse rindo do que o Uzumaki falara – Eles se sentem queridos...

- E o elefante te respondeu? – Nina segurava o riso apertando os lábios

- Ora, vamos mudar de assunto! – esbravejou coçando a cabeça – O que faz aqui?

-Vim me encontrar com o Sasori, lembra? – não se lembrava.

- Quando me disse isso?

- Quarta-feira, antes de pedir a pizza. – ele não se lembrava nem de que sabor era a "redonda".

- Ah é! Que cabeça a minha... Bem que podia ter me dado uma carona hein?

- Você não quis!

- Eu o quê?

- Eu ofereci, mas você disse que não precisava...

- Eu disse é? – Nina não agüentou e riu alto. Jogou a cabeça para trás e gargalhou divertida. Era possível contar seus dentes ou fazer uma cópia perfeita de sua arcada dentária. Naruto deu um sorriso tímido e teve que dar o braço a torcer: estava com ciúmes. Ela iria se encontrar justamente com o tipo encantador e sedutor que ele detestava - os chamava de inimigos, justamente por não conseguir ter esse sex appeal natural que eles tinham. E ele sabia que Nina era muito mais que um rosto bonito. Estava com medo que Sasori só visse isso, e aterrorizou-se ao pensar que o ruivo pudesse ver todo o encanto e inteligência que a moça tinha. Ele não queria ficar sozinho. Aquele apertamento era pequeno demais até mesmo para uma pessoa solteira, mas não se via longe da amiga. Dividiria até mesmo o caixão com ela, se morressem juntos. Estava acostumado com o aperto, com as brincadeiras em conjunto e de chegar em casa sentindo o cheiro da comida. Do jeito que passavam o dia todo lavando suas roupas e de como os dois apostavam corrida até o terraço para recolher as mesmas, antes que a chuva viesse. Sentiu um grande abandono e então, ela parou de rir e se despediu:

- Aqui, as chaves do carro.

- Vai aonde?

- Sasori está me esperando ali, na gaiola das águias. - apontou para um ponto vermelho distante - Até mais tarde... Ou não. - riu, querendo se referir ao encontro dele, mas o loiro podia jurar que a moça se referiu a ela própria. Voltou o olhar chateado para a entrada do parque e viu uma multidão colorida, de cara pintada e cabelos muito compridos chegando. Tinham placas, marchavam descoordenadamente e gritavam algo como "Libertem os animais".

- Bando de doido... - foi quando a líder do grupo, com o rosto pintado de verde pegou um megafone e começou a gritar.

- Vocês estão pecando contra a mãe natureza! - gritava a moça - Esses animais estão morrendo longe da mãe terra! - Naruto virou para ver o elefante. Ele parecia muito contente jogando água nas costas. - Libertem os animais! Libertem os animais! - ela começou e logo o coro estava sendo formado. Uma vergonha alheia tomou o Uzumaki e ele se perguntou se aquelas pessoas realmente levavam isso a sério. Aqueles animais foram criados em cativeiro, como assim libertá-los? Como um leão tratado a bife na boca iria caçar assim, do nada? Apoiava a proteção aos animais, e achava o Zoológico local uma proteção muito boa.

Mas aí o susto o tomou. Vários seguranças começaram a expulsar o grupo, quando a líder agarrou-se ao megafone e começou a gritar desesperada:

- Espera! Eu tenho um encontro! Uzumaki Naruto! - céus... Era uma louca revolucionista... - Me soltem! Naruto!

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- Então você faz parte dessa... Gang... - se segurou para não terminar a palavra - Gente.

- Grupo de Proteção Ambiental. - ela riu, tentando limpar a tinta do rosto - Desculpe ter que fazer você sair dali assim, mas queria que visse o que faço - e voltou a sorrir para ele. Embora meio exagerada no quesito "amor aos animais", tinha gostado dela. - Já decidiu onde iremos comer?

- Embora ainda esteja cedo pra jantar - eles tinham ficado umas quatro horas dando depoimento - acho interessante irmos ao restaurante.

- Qualquer um daqueles que te mandei me agradam, não tem erro!

- Eu... Mudei um pouco as coisas... - Ino já tinha perdido o semblante alegre. Parecia preocupada. - Espero que não se importe.

- Não, tudo bem. - e riu - Você tem iniciativa, gosto disso!

- Mas então, o que mais faz da vida?

- Eu moro numa colônia de hippies.

- Legal! - Naruto já pensava nas carnes grelhadas, numa fogueira rústica e nas cabanas de madeira. - E trabalha em quê?

- Na ONG mesmo, não temos fins lucrativos, vivemos do que dão. - isso significou economia aos olhos do loiro. - Dormimos deitados na grama, não assistimos TV... Usamos da tecnologia apenas quando divulgamos nosso trabalho.

- Nossa, e você cresceu nesse meio?

- Ah sim, meus pais sempre foram hippies, se casaram e temos uma samambaia que passa de geração a geração... Quem sabe... Nós não demos continuação a isso... - insinuou, mas Naruto não se sentiu muito tentado a ser pai de uma planta.

- Chegamos! - saiu do carro apressado, sem ter tempo de ver a fisionomia apavorada da loira. Ela saiu ainda incrédula, os longos cabelos batendo um pouco abaixo do quadril, saias compridas e a bata num colorido psicodélico. Era a imagem perfeita de quem não deveria estar ali. A churrascaria brilhava em dourado, e o cheiro da carne fez a moça desmaiar no primeiro degrau da escada.

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Quase não encontrou o buraco da fechadura. Estava tão apressada que se esqueceu até mesmo de verificar se tinha pego a chave certa. Sasori a esperava na calçada e ela se auto amaldiçoou por ter combinado de deixar o carro com Naruto, ainda que ele não se lembrasse. Tinha sido obrigada a aceitar o convite da festa a fantasia de última hora, e ainda teria que se virar com o que não tinha para parecer pelo menos dentro do quesito. Que raiva. Que ódio! Teria sido melhor ficar em casa vendo filme, fazendo plantão perto do telefone e aguardar novidades do tão esperado encontro de Nerak com Sasuke.

Uma blusa em decote coração na cor vermelha. Foi a primeira coisa que pegou. Vestia-a com uma mão, enquanto a de baixo tentava empurrar o cós da calça jeans. Tropeçou em uma das barras e caiu no chão. Se pudesse, desistira e ficaria ali, deitada com a cara no carpete e a calcinha amarela pra cima. Dane-se o resto! Mas então, a imagem de uma Nami assassina veio em sua mente e ela levantou resmungando. Colocou uma saia rendada - que Naruto havia batizado de "abajur de bunda" - um par de saltos bem altos, prendeu o cabelo no alto da cabeça e colocou várias pulseiras douradas. Pronto. Pegou uma bolsa maior e colocou lá dentro um par de tênis e uma calça mais velha. Não iria deixar Sasori levá-la para casa e ela não iria querer voltar vestindo aquilo. Eram bem naquelas horas que o loiro fazia falta... Ele a protegia. Por mais que alguns assobiassem, lá estava ele para brigar com todos e se agarrar a ela como bebê prematuro, cobrindo o decote e a fazendo rir da reação dele. Agora, com toda certeza, se ele pulasse nela, não acharia graça. O abraçaria pela salvação.

- Está de dançarina? - o ruivo arriscou, abrindo a porta do carro.

- Odalisca.

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- Até que enfim! Estava preocupado! Você deve estar fraca, mandei trazer um prato especial só pra você. - sorriu largamente Naruto, ao colocar o enorme prato com uma picanha suculenta, sangrando, que para a moça, pareceu uma visão do inferno. Voltando ao seu lugar, Naruto devorava com muita vontade a costela, pingando vez ou outra algumas gotas de limão.

- Eu não como isso, obrigada.

- Prefere outra coisa? Aqui tem tudo o que quiser! - abriu os braços, e os garçons andando de um lado para o outro com a bandeja fervendo em mãos, fazia tudo parecer um circo de horrores - Que tal lombinho? Ou medalhão de bacon?

- Naruto, sou vegetariana. - disse num único fôlego, tomando a água no copo a sua frente. Sentia estar morrendo e Naruto quis enfiar a cara no prato de vergonha. Mas como era burro em não ter percebido! Era óbvio! Ela defendia animais, sua liberdade! Não iria defender os animais para comê-los mais tarde. A lista que tinha enviado por e-mail certamente era um daqueles restaurantes vegetarianos frescos, em que só tinha salada e, de assado, apenas berinjela.

- Me perdoe, eu devia ter notado...

- Tudo bem... - disse num sussurro.

- Aqui tem buffet de saladas e massas...

- Obrigada, eu estou bem com minha água. - ele, ressentido, abaixou a cabeça e continuou comendo. - Você nunca parou para pensar como isso é errado?

- O quê? - ele pensou que fossem os cotovelos em cima da mesa.

- Comer pobres animais indefesos...

- Mas foram criados em cativeiro...

- Os do zoológico também!

- Mas eu jamais comeria uma zebra, mulher!

- Está comendo um porquinho fofinho... - choramingou, com a mão no peito. Ora essa, não era pra tanto... - Em outras palavras, está comendo um cadáver. - o garfo caiu da mão do loiro.

- Cadáver?

- Quando se mata um ser vivo, ele não vira automaticamente um cadáver?

- Mas... Está assado!

- Você assaria um defunto e comeria? - estava o enfrentando, mãos em cima da mesa, tronco inclinado para frente.

- Eca!

- Viu só? - disse sorrindo vitoriosa, sentando-se novamente - Consumo de carne é cruel.

- Mas... O que você come?

- Verduras, frutas, leguminosas...

- Peixe...?

- Peixe é carne.

- Eu já sabia. - disse rápido. Lógico que sabia, mas, vai saber... - Leite?

- Sai da vaca.

- Não me diga!

- Quero dizer que é um abuso, quase sexual, apertar as glândulas mamárias dela para ter seu leite para consumo próprio!

- Glândulas? Mamárias? - palavras que haviam deixado o Uzumaki fora de órbita. - Em vacas?

- Acha que aquilo lá é o quê?

-... Tetas! - Ino escondeu o rosto entre as mãos, mas acabou explodindo.

- Você deve ser a pior pessoa que me mandam nesse encontro!

- Não sou não! - ego ferido. Sim.

- É sim. O MAIOR! - gritou. A essa altura, as pessoas jantavam com os rostos virados para eles. O silêncio predominava e todos esperavam pelo desfecho.

- Ora... Sua... Sua... Clorofila! - aquilo deveria ser uma ofensa.

- Canibal!

- Não como pessoas! Não literalmente... - riu ao pensar na malícia inexistente em sua frase.

- Comer um ser vivo é ato de canibalismo!

- Não é, é sobrevivência!

- Então me explique como eu sobrevivo sendo vegetariana! - ele abriu a boca e ergueu o dedo, mas o ar escapou de seus pulmões e ele ficou ali, naquela posição ridícula, sem ter como se defender. - Rá!

- Espera um pouco! Você fere seres vivos sim!

- Ah é? - estava sendo sarcástica, não acreditando na teimosice dele.

- Alfaces são seres vivos, eles morrem como qualquer outro... - ela o olhava sem jeito. - E você os mata de modo muito mais cruel, pois os come vivos, os tritura com seus dentes afiados e depois os deixa corroerem em seu trato digestivo. - Ino tinha as sobrancelhas contraídas, lábios semiabertos - Rá!

- O caso é diferente... - tentou concertar.

- Para eu "churrascar" animaizinhos morreram e para você ser vegetariana, alfaces morreram! - ele desdenhava, imitando a voz dela e girando em torno de si mesmo - Então, se quer preservar pela vida dos seres vivos, COMA PEDRA! - e sob os aplausos dos outros clientes, ele saiu de lá, deixando o dinheiro com o garçom - Maldição... - murmurou chateado. Estava tudo dando errado novamente...

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Bebeu um ou dois refrigerantes, degustou algumas iguarias salgadas e de minuto em minuto, verificava se alguém mandava alguma mensagem. Não eram nem dez horas ainda. Estava entediada. Estava desiludida. Naruto não havia ligado, deveria estar gostando da moça. Imaginou como seria, mas nada vinha em mente a não ser ela. Ela faria um casal bonito com o loiro. Ela queria fazer um casal bonito com o loiro. Mas a única pessoa que a cercava naquele momento era um ruivo, muito empenhado em fazê-la se divertir:

- Me desculpe, estou sendo péssima companhia...

- Imagine, Nina, que bom que está aqui, estou feliz.

- Mas eu não. - e abaixou os olhos para o copo em sua mão - Eu não deveria ter vindo. Não estava em clima para isso.

- Me desculpe por ter insistido... - Nina sentiu o aparelho vibrar - Mas, se quiser, podemos ir para minha casa agora... Beber um vinho... Degustar um quei... - e sua aproximação, frase, e até mesmo o biquinho pré-beijo foram cortados pela reação espalhafatosa da moça ao ver a mensagem do Uzumaki piscando na tela do celular.

- UMA MENSAGEM! - "Oi Nina, mto ocupada? Qr dar uma volta?". Não perdeu tempo em responder: "NUNCA estou ocupada ;)" - O Naruto tá precisando de mim, eu vou indo.

- Quer carona?

- Não precisa, ele vem me buscar. - o celular tocou - É ele, eu vou indo, obrigada pela noite... - foi se despedindo enquanto andava para o banheiro do salão. Substituiu o salto e a saia pelas peças que tinha levado, soltou o cabelo e saiu, sentindo-se leve, livre de toda a pressão do acompanhante. Estava garoando, mas ela não ligava. Iria encontrar Naruto. Nada estava tão perfeito até então...

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- Ela disse que eu fui o pior encontro dela... – Naruto estava extremamente chateado.

- Não fique mal, Naruto, você é maravilhoso! – ela tentou consolar o amigo. Tinham esquecido que a garoa estava engrossando e se sentaram no meio-fio. Ela se levantou e esticou a mão para ele – Venha, vamos para algum lugar que eu ainda estou com fome. – riu, incentivando-o. Ele se levantou e só então reparou na blusa enfeitada.

- Estava numa festa né?

- A fantasia.

- Foi de quê?

- Odalisca. – ele parou, sorriu tímido e depois gargalhou. Odalisca! Como em seu sonho! A abraçou rindo e beijou a curva de seu pescoço. – O que foi?

- Odalisca, Nina! Não poderia ser mais perfeito!

- Isso é sério ou está tirando comigo? – perguntou entre aflita e divertida quando uma onda gigantesca se ergueu do asfalto preto e os cobriu por inteiro. Naruto, que já tinha se afastado da amiga, se agarrou a ela novamente, tamanho o susto. A Arishima sentiu-se vermelha, sem saber se era por causa da vergonha de ver seus seios quase pulando fora do decote coração, ou por estar sem ar mesmo.

- Mas que merda! Ficamos molhados! – ele estava indignado e ainda a apertava.

- Mas está chovendo. – Naruto emudeceu com o óbvio.

- Eu já sabia.

- E eu estou sem ar – riu Nina. Quando Naruto a largou, vermelho de vergonha sentiu a falta do corpo morno em seus braços. Ficou ainda mais vermelho ao pensar que queria estar abraçado a ela mais uma vez. – Quer ir pra casa?

- Quero comer bolo confeitado! – gritou com as mãos pra cima. Nina riu. – Venha, eu pago. – anunciou, dando a ela o braço, como se fosse um perfeito cavalheiro, Ela pousou a mão no braço molhado e seguiram conversando como dois lordes, para a panificadora. Nina sentia estar se aproximando do loiro risonho e este, por sua vez, começava a sentir pela amiga, o que ele preferiu chamar de gases – era inadmissível querer envolvê-la em amores insensatos. Ele seria o insensato. Nina era a melhor amiga que poderia ter. E ele ainda tinha mais encontros pela frente. Mas, olhando de relance assim para ela, pensou que não seria nada mau em conhecer alguém como a amiga em um dos jantares desastrosos. Seria tudo muito mais fácil e divertido. Por um segundo pode visualizar um futuro com Nina. A abraçou ainda confuso. Não era má idéia. Mas aquilo estava fora de cogitação. Talvez... Estivesse sim, fora de cogitação... Pelo menos... Um pouco...