Dessa vez, prevenido, Naruto tinha ligado para a Agência pedindo por uma namorada que não fosse: cheia de frescuras e amante incondicional da natureza. Era bom deixar avisado, pois não queria dar mais vexames.

Soube praticamente de imediato que iria se encontrar com uma moça um ano mais velha - o que não era problema - de nome Mitsashi Tenten. Gostou. Não sabia o que esperar, mas pelo menos, sabia que ela não seria pior como as das últimas duas semanas.

O restaurante era grande, porém não muito caro, com Buffet completo e no cardápio, adicionais. Como estavam numa quinta-feira, o lugar não estava lotado e só o que se ouvia era o barulho dos talheres e conversas abafadas. Sentou-se na mesa reservada ao lado da janela e ficou ali, esperando. Bebeu metade de um refrigerante e então, se assustou com uma moça que puxou a cadeira à sua frente:

- Hei, essa cadeira está ocupada! - avisou apressado.

- Eu sei. - a moça se sentou - Sou Mitsashi Tenten. - Naruto ficou vermelho. Quase deu outro fora sem saber. Já estava se preparando para xingar a "louca machona". Ainda bem que não conseguiu fazer sua observação a tempo.

- Ah... Oi! Desculpa, é que eu não sabia o que esperar...

- Tudo bem. Eu também não esperava encontrar um loiro com cara de bob... - ela mesma se interrompeu. Naquele instante, Naruto percebeu que sim, ela era uma mulher sem frescuras. E sem educação, também. - Uzumaki Naruto, não?

- É... - os olhos já tinham se apertado com contragosto - Quer pedir alguma coisa para beber?

- Água com gás e duas rodelas de limão num copo com gelo. - o loiro emudeceu.

- Pode repetir isso tudo para o garçom? - pediu falando pausadamente. Os olhos castanhos da moça reviraram.

- Garçom. - o chamou, mas o mesmo não ouviu. Irritada, sem tentar chamá-lo uma segunda vez, ela levou os dois dedos à boca e deu um assovio alto e ensurdecedor, que levou a atenção de todos os presentes para a mesa 45. - Eu gostaria se for possível para você, de um uma água com gás e duas rodelas de limão num copo com gelo. Entendeu tudo certinho? - o garçom concordou com a cabeça - Não precisa desenhar? - o funcionário olhou para a moça que o olhava de sobrancelhas erguidas e em seguida, lançou um olhar de dúvida para Naruto, que não sabia se saía correndo ou pedia desculpas.

- Você... Quer falar sobre alguma coisa?

- Pode ser bom, não vim apenas para comer. - Ai! Os cortes dela doíam como se ela tivesse cravado a faca de inox no peito do loiro.

- Certo... O que faz da vida?

- Sou professora de judô, faixa preta, com especialização de seis anos estudando a arte da luta na China. Está vendo esses quatro dedos? - ela mostrou a mão esquerda, desde o dedo indicador até o mindinho. - Eu não tenho sensibilidade neles nem na metade da palma.

- Tá de brincadeira... - sorriu o loiro, mas aquilo foi encarado como desafio, e a morena fincou o garfo na parte onde ela disse não sentir nada. Naruto gritou.

- Ai meu Deus, você tá bem?! - ele já segurava a própria mão, como se pudesse sentir a dor da moça.

- Treinei tanto um golpe lateral na modalidade do kung fu, que rompi os ligamentos e até hoje, essa mão é como se não existisse para mim. - declarou olhos fixos nos do loiro, que começava a recuar na própria cadeira.

- Luta kung fu também?

- Assim como karatê, boxe tailandês e luta livre. - "Eu vou morrer!" - foi a única coisa que Naruto pensou.

- Uma verdadeira lutadora... - ela sorriu.

- Gostei de você, sabia?

- Graças a Deus... - murmurou aliviado.

- O quê?

- Eu também... - sorriu torto.

- Mentira. - ele gelou. - Tomo suplementos alimentares, tenho a audição muito apurada.

- ...

- Tô brincando! - ela riu. Primeira vez na noite. - Você se apavora fácil!

- Você intimida... - riu junto, ainda desconfortável.

- Agora fale de você.

- Ora, não vai querer saber de mim...

- Vim para esse encontro para te conhecer.

- Bem... O que tanto quer saber?

- Vamos fazer o seguinte: eu te conto um pouco sobre mim e você diz um pouco sobre você.

- Parece legal. - sorriu.

- Nasci em Xangai, mas como meu pai era japonês, vim para cá com ele e minha mãe. Fui educada em casa e sempre dediquei doze horas do meu dia ao esporte.

- E não dorme?

- Três horas é o suficiente.

- Três horas a Nina gasta pra arrumar o cabelo! - Naruto estava chocado.

- Quem é Nina?

- Parte da minha vida. - riu, coçando a cabeça - Minha vez?

- Por que não? - os olhos de Tenten cerraram-se de tédio e o loiro começou...

.

Nina soprava a franja no tom de azul, que sempre lhe tampava os olhos, para passar o tempo. Estava meditando nesse meio tempo o motivo pelo qual ela insistia tanto em ter franja se a mesma incomodava tanto. A prova estava em cima da carteira, virada com as respostas para baixo. Foi a primeira a terminar e o professor só iria recolher a mesma no fim da aula. Tinha seus dezessete anos e estava concluindo o segundo grau. Aquela era a última prova e enfim, férias! Ou, como a irmã costumava dizer: passaria de estudante para desempregada.

- Nina... - sussurraram - Ô Nina... - ela olhou disfarçadamente para trás. Era Naruto, na época com a mesma idade. - Disfarça e me passa a resposta da seis!

- Não posso... - Nina dizia entre dentes. O professor estava a encarando e ela tentava sorrir e falar ao mesmo tempo.

- Por favor...

- Espera...

Aguardaram ansiosos enquanto o professor dava voltas pela sala, marcando o lugar onde os amigos estavam. Naruto fingia rabiscar a prova e Nina fingia ainda soprar a mecha colorida, quando eis a oportunidade em vista: ele estava de costas. Nina virou-se rapidamente e disse:

- "C". - e Naruto anotou.

- Arishima e Uzumaki... - o professor começou, ainda de costas - Retirem-se da sala imediatamente.

- Por que? - Naruto perguntou receoso.

- Porque não admito colas em minhas provas. - os dois deixaram que as bocas se abrissem surpresas. - Zero para os dois.

Abandonaram a sala derrotados e chocados. Teria o professor um olho biônico? Como havia percebido? E a cola tinha sido tão boba, tão inocente... Será que ele iria considerar pelo menos o esforço deles? Seus pés não mais levantavam em passos apressados, mas sim, se arrastavam. Era como se o peso do mundo estivesse sobre os dois.

- Vamos cortar caminho. - sugeriu o loiro. Nina olhou para a rua onde ele apontava, mas não reconheceu.

- Mas não conhecemos essas ruas...

- Isso significa que podemos nos perder, e nos perdendo, sua irmã demora mais pra me matar. - Nina riu.

- Certo...

Entraram na rua estreita e seguiram reto uns vinte minutos. Depois cortaram duas ou três ruas, subiram e desceram escadas, deram a volta na quadra até se verem completamente perdidos de tudo e todos. Bom, o plano tinha dado certo.

- E agora?

- A gente senta e chora. - brincou o loiro, ajeitando a mochila nas costas. - Que pena... O dia está tão bonito e nós aqui, nesse estado... - lamentou, ao olhar para cima e ver o céu, tão azul e intenso. Não eram nem três horas da tarde ainda. Mas então, viu a janela de um apartamento com um cartaz amarelo e vermelho. Parecia ser um anuncio. - O que é aquilo, Nina?

- Aquilo o quê? - ela tentava encontrar o lugar para onde Naruto apontava.

- Na janela, tá vendo?

- Acho que sim... - ela apertava os olhos castanhos.

- O que é?

- Acho que... Cocô de pombo.

- Não aquilo! O cartaz!

- Ah... Não sei, não enxergo.

- Vamos lá ver!

Puxou a menina pela mão e entrou no apartamento, que estava sendo pintado do lado de dentro. Na recepção, um homem alto e corpulento gritava ao telefone enquanto enxugava o suor com um lenço de pano. Ambos contorceram a cara quando viram que, após o ato, o mesmo assuou o nariz. Já iam se preparando para sair quando o homem desligou o telefone e se virou para eles:

- O que querem crianças?

- Não queremos mais. - Naruto riu com os olhos apertados e tentou sair, quando o mesmo se aproximou, esfregando o nariz.

- Vamos, digam.

- Estávamos interessados no apartamento. - disse Nina, quase entrando em pânico com o suadouro constante que vinha para cima deles.

- Ah, então vocês sabem! - ele riu se afastando.

- Sabemos do que? - Naruto, esmagado contra a porta. Nina nem tinha visto quando se amontoou nele para fugir de algum respingo apavorante.

- Ora, do apartamento!- chute certeiro o de Nina. Realmente existia um apartamento disponível. Não que fosse fazer diferença... Não tinham onde caírem mortos.

E sim, mortos ficaram ao subirem os infinitos degraus até o nono andar. O elevador estava em manutenção, uma manutenção que já durava um bom tempo, talvez uns bons anos... Não era o prédio mais bonito do mundo, mas era resistente o bastante, pois, por toda a extensão percorrida não haviam visto uma rachadura sequer.

Quando não mais sentiam suas pernas, amortecidas pelo exercício forçado, foram avisados que tinham chegado. Um "Graças a Deus" coletivo foi ouvido e entre risos, o responsável pelo espaço destrancou a porta branca.

- É...- começou o loiro.

- ...pequeno. - terminou Nina

- Como todas as quitinetes devem ser. Não leram no anuncio?

- Claro! - Naruto e Nina disseram com um sorriso constrangido.

- É novo, praticamente. A pessoa que tinha interesse até montou o banheiro. Vão lá ver! - o homem os encorajou e, timidamente, foram até o banheiro de inacreditáveis... Um metro por um e meio. Talvez...

- E o que o fez desistir? - questionou Nina.

- O tamanho disso aqui, certeza! - murmurou Naruto, ainda não crendo como o chuveiro e a patente haviam conseguido espaço ali.

- Encontrou um lugar maior.

- Olha, não é muito difícil... - os três riram.

- Reclamou bastante da localização, embora eu tenha certeza de que daqui alguns anos, não exista lugar melhor... - sorriu sonhador, olhando pela janela. Os jovens o seguiram - Ali tem o metrô, vejam. - e dali iriam direto para casa. - O casalzinho gostou? - eles riram. Nina ainda não era apaixonada pelo loiro.

- Pode ser... - riu, sorrindo e olhando o amigo de canto.

- Mas quando tivermos filhos, o espaço será apertado...

- Aí vendemos e compramos outro.

- Ótima solução!

- Ótimo! - sorriu o proprietário do imóvel - Quando pretendem se mudar?

.

Contar para Nami que estava praticamente reprovada era, não apenas um teste de fogo, mas uma prova de coragem, daquelas tipo Jogos Mortais, em que nem todo mundo sai vivo. Não sabia desde quando - talvez, desde sempre - a irmã não gostava do loiro, mas tinha certeza de que ela o esganaria se soubesse. Porém, como evitar? Não poderia mentir um ano inteiro sobre estar frequentando novamente o último ano.

Girou a chave duas vezes na porta branca e entrou na frente do Uzumaki. Tirou as sapatilhas devagar. Nami estava com o telefone pendurado na orelha e havia pedido silêncio para a irmã, enquanto ouvia a pessoa do outro lado da linha enrolando para chegar onde queria.

- Acho que ela ainda não sabe... - Naruto cochichou, cabeça apoiada no ombro da amiga.

- Oremos por isso...

- COMO É QUE É?! - a ainda morena gritou. - Só pode ser engano! Não, de jeito nenhum! A Nina jamais colaria em prova...

- Eu vou morrer... - Naruto choramingou, a voz sumida.

- Ela pass... Passou cola? - os olhos castanhos se apertaram de ódio, a cabeça girou em cima do pescoço na direção dos estudantes. Deixou o fone cair de sua mão e riscou a pequena sala, indo em direção à porta. - EU VOU ESGANAR VOCÊ, MULEQUE! VOU FINCAR MEUS DEDOS NOS SEUS OLHOS ATÉ ATRAVESSAREM SEU CÉREBRO! - E Nina era a responsável por fugir e puxar o loiro junto, evitando qualquer desgraça possível. Até que ela enroscou o pé no tapate e caiu por cima da mesa de centro. Nami pulou em cima do loiro - Seu imbecil! Inconsequente! Você ferrou o ano da minha irmã! - gritava entre tapas e socos, que ela acertava em qualquer lugar entre as costas e a cabeça dele.

- Alô? Alô? Eu vou chamar a polícia! - Nami parou, assustada com a ameaça. Se tivesse que matar Naruto, não poderia haver testemunhas contra ela. Ainda sentada no meio da coluna vertebral do loiro, esmagando ele contra Nina, também caída no chão, ela reapanhou o aparelho.

- Alô?

- Está tudo bem?

- Tudo ótimo e você? - sorriu para si mesma, tentando manter a calma.

- Ouvi alguns gritos, tem algo acontecendo?

- Imagina, eu estava vendo CSI... - riu desconcertada, Naruto tentava falar, mas Nami pulava, toda vez que tentava se manifestar. Na terceira tentativa desistiu, ao perceber que estava quase matando Nina, tão azul quanto a franja do cabelo. - Certo... Entendo e peço desculpas... A senhora sabe que nessa idade eles são terríveis... - essa era a vantagem de Nami: aparentar ser mais velha que a irmã, ainda que a diferença fosse apenas de um ano - Certo... Posso pedir para a senhora dar uma oportunidade para minha irmã repetir a prova? - o sorriso se alargou no rosto da Arishima. A diretora havia cedido - Ótimo! Muito obrigada! - se ergueu da almofada humana e voltou a andar de um lado para outro - Sim. Sim, entendo... Tenha certeza disso! Eu me responsabilizo por ela... O Uzumaki?! - ela olhou para Naruto, contorcido no chão. Nem ele e nem a irmã havia levantado. Estavam na expectativa. Só Nami poderia dizer se ele refazia o teste ou não. Era órfão e o tio estava viajando. - Claro... Tudo bem. - a resposta saiu num suspiro tenso, de raiva e culpa. Parecia até mesmo um alien tentando se comunicar com seres humanos. - Amanhã então. Ok. Tchau.

- Nami, sua linda! - gritou, quase chorando de alegria - Obrigada!

- Não chegue perto de mim, Uzumaki! - gritou, dedo à frente do nariz - Ainda matarei você...

.

A verdade é que Nami morria pela irmã. Se pudesse, a colocaria dentro de uma cápsula e esperaria até que atingisse a maioridade. Talvez mais. A notícia de que Nina queria começar uma nova etapa de sua vida longe dela, deixou a Arishima mais velha chocada. Era sua menininha, sua protegida, a garota que ela salvaria quando meninos interessados demais se aproximassem. Morando longe de suas vistas, como faria para protegê-la com olhos de águia? Como Nina acordaria no horário certo, ou faria as refeições corretamente? AI MEU DEUS, QUEM IRIA VERIFICAR SE ELA ESTAVA BEM COBERTA DURANTE A NOITE?!

- Por que precisa ir morar sozinha?! - o desespero havia tomado conta.

- Não é sozinha, é com o Naruto... - Nerak e Nina se entreolharam.

- É como se fosse sozinha. - Nerak disse, tão naturalmente que soou como se fosse verdade. Sim, porque não era. Não, claro que não.

- Nosso apartamento é espaçoso o suficiente, não vejo o porquê de se mudar para tão longe! - dizia, ainda estupefata pela notícia que caíra como uma bomba. Ver sua caçula com as malas nas mãos e o travesseiro pendurado em baixo do braço dava uma extrema sensação de agonia que parecia sufocá-la. - E o elevador pega!

- Calma, Nami! - Nina riu, divertida. - Aqui é bom, o metrô fica a uma quadra! Olha, chegamos. - ela sorriu para a porta entreaberta.

Nerak torceu o nariz para o tamanho do lugar. Se bem que, tamanho, era uma palavra que não se encaixava naquele lugar. Era miúdo demais para qualquer coisa. Não dava para ser nem um galinheiro.

- Hey, Nami, Nerak, que acham? - Naruto estava animado, com tinta sujando metade do rosto e camiseta.

- Que achamos da sua cara suja ou do espaço?

- Que espaço? - Nami estava completamente indignada. - Isso aqui tem banheiro?

- Tem sim, vem ver! - o loiro chamou, abrindo a porta para que elas pudessem ver o cômodo. Nerak riu, antes que pudesse dizer qualquer coisa. Os olhos lacrimejaram e ela teve que sentar para conter o riso. Nina olhou para a irmã com expectativa. A cacheada respirou fundo, não acreditando que sua caçulinha estava mesmo disposta a viver naquele lugar.

- O que achou? - Nina perguntou com voz baixa, cuidando com as palavras.

- Bom, se você conseguir tomar banho sem precisar subir no vaso, até que tá bom... - riu e deu de ombros. Nina abraçou a irmã, porque sabia que aquilo foi o melhor elogio que ela havia conseguido pronunciar. Porém a paz quase foi rompida, quando Naruto, brincando com o pincel, deixou respingos de tinta branca pintarem o cabelo de Nami. - Eu vou pra casa! - declarou olhando para cima, como se pudesse visualizar ali Deus, pedindo a Ele um pouco mais de paciência.

Nerak acenou um 'tchau' e seguiu junto, prendendo os cabelos que insistiam em cair em seus olhos. Estranhou Nami tão calma, descendo os degraus. Aquele não era seu jeito. Estava aceitando bem demais a situação:

- Não vai insistir que ela volte com a gente?

- Viu o tamanho daquele lugar? Ela volta, Nerak... A saudade a fará voltar...

Sorriu internamente com a certeza de que, mais cedo do que tarde, a dona da franja azul estaria de volta no ninho, sob suas asas protetoras.

Só que não.

.

- ...E depois disso eu consegui um serviço numa loja de mangá e a Nina fazia bolos para uma panificadora, a primeira que abriu ali na redondeza. Aos poucos o comércio cresceu bem ali e nós conseguimos conciliar tudo. Claro que ficamos durante muito tempo comendo rámen instantâneo, mas no fim valeu a pena. - Tenten continuava olhando-o fixamente - Nina realmente é uma peça fundamental da minha vida. - a moça continuava quieta - Acho que é isso... - ele deu de ombros, encolhendo a cabeça, constrangido com o olhar intenso e quase assassino da moça.

- Você vem em um encontro de casais para falar de outra mulher? - perguntou calmamente, cada palavra parecia estar pontuada. Naruto sentiu o sangue esvair do rosto e ir todo de uma só vez para o coração. Ela lhe dava medo.

- Você pediu que eu contasse parte da minha vida e a Nina faz parte dela.

- Que ótimo, já que você tem uma mulher na sua vida já, não precisa de mais uma, não é? - e se ergueu, empurrando a cadeira em que estava sentada para trás. Todos puderam ouvi-la se erguendo e os passos pareciam muito pesados, quase enterrados no piso de porcelanato do lugar. O loiro ainda tentava anexar as coisas. Puxa, achou estar indo bem, o que tinha acontecido de tão ruim? Ela perguntou, ele respondeu. Apenas isso.

Ficou chateado. Foi embora chutando uma garrafa de alumínio amassada, até a entrada do prédio. Devia ser um zero à esquerda mesmo, um atrapalhado que não conseguia fazer nada direito. Cada degrau que pisava, era como se a gravidade ficasse mais pesada. É... Aqueles encontros não estavam sendo lá muito animadores...

- Naruto! - Kimy gritou, estendendo os bracinhos acima da cabeça. Estava de pijama de flanela rosa e Nina a acompanhava, com seu eterno pijama azul de nuvens amarelas. Estavam se preparando para algum desenho que passaria em alguns minutos na TV a cabo. - Faizi pipoca!

- 'Faz', Kimy, vamos lá, já está grandinha para falar errado... - Nina riu, fazendo cócegas na barriga da loirinha. - Como foi o encontro?

O encontro. Havia sido um desastre, mas ele não queria dizer. Olhou para as duas espremidas no sofá e desejou fazer o mesmo. Colocar uma roupa velha, se estender nas almofadas e dormir na metade do filme. Olhando para Nina, ainda não conseguiu entender qual o problema em citar ela no encontro. Ora, sua futura namorada teria que entender a importância, o valor que a Arishima tinha para ele e para todos os trancos e barrancos de sua vida.

- A pipoca! - a pequena já havia colocado as mãozinhas na cintura. Naruto riu. Se não conseguia fazer nada direito, pelo menos sua pipoca se salvava!

- Não falou do encontro... - Nina cochichou para que Kimy não brigasse com ela por estragar a abertura do filme.

- Não tenho o que falar... - sorriu pegando mais da pipoca na bacia azul - Mas o próximo vai ser melhor. - deu uma piscadela cúmplice e abraçou a amiga com o braço desocupado. A morena se acomodou melhor e ficou atenta, olhos vidrados no castelo azul, a logomarca da tão famosa franquia de filmes infantis. Naruto observou o perfil da amiga, atento à tela e sorriu. Era sim um ponto importante em sua vida e não iria excluí-la. Mas não quis prolongar muito o pensamento - o filme estava começando.