- Dois risquinhos é negativo?! - Nami gritou do banheiro. Nina e Nerak sentaram no sofá juntas, como se um soco as tivesse atingido.

- Depende do ponto de vista... - Nina respondeu, ainda atordoada.

- Como assim?! - a voz de Nami já estava um "quê" esganiçada pela aflição.

- A probabilidade de você não estar grávida é negativa. - Nerak respondeu curta e grossa. Sempre achou que para se tirar curativos, era necessária rapidez. Nina por sua vez, lançava um olhar apertado e mortal para a amiga. - Que é?

A morena bufou, deixando a cacheada na sala, lendo a bula. Ao chegar à porta do banheiro, sentiu ímpetos de agarrar a irmã num abraço consolador. Ela tinha os olhos arregalados, olhando algum ponto invisível. As mãos tombadas no colo e o teste de gravidez ali, quase esquecido. Era a primeira vez que ela via a Arishima mais velha daquele jeito.

- E então? - perguntou, num meio sorriso.

- Eu vou ser mãe. É isso?

- Parece que sim.

- Ai meu Deus.

- E a criança vai sair por onde entrou. - era Nerak, chegando junto à porta.

- Ai meu Deus! - a ruiva voltava à aflição.

- Nerak! - Nina esbravejou.

- E agora? Como eu vou contar ao Gaara?

- Como de costume: falando. - Nina estava quase jogando a amiga pela janela, só não o fez, porque a irmã se ergueu de onde estava e foi andando até a porta, passando por elas.

- Nami?

- Eu vou pro meu quarto. - e lá se trancou.

Grávida. Céus, estava grávida! Gaara levara quase um ano para assumir compromisso consigo. Quanto tempo ficou o chamando de 'quase namorado'? Seis meses de amizade, mais seis meses saindo para agora, uma gravidez não planejada? Quando isso aconteceu? Sempre se protegiam! A não ser quando... Sim, era provável que tenha sido naquela noite... Quando viram, já tinha acontecido, mas até então, nada a preocupava. Na verdade, achou estar com uma virose e foi Nina que a convenceu a ir comprar o teste. Comprou sem maiores problemas, mesmo que sentisse uma marquise escrito GRÁVIDA pulsando em sua testa. Um pontinho dentro dela tinha certeza que estava esperando uma criança, embora a maior parte gritasse escandalosamente que 'NÃO, É MENTIRA!'.

Percebeu temer a gestação. Não o fato o nascimento - que por si só já era assustador - mas o conjunto todo. Qual choro é o de fome? E se a criança parasse de respirar enquanto dormisse? E se o bebê ficasse chorando a noite toda e ela nem percebesse? Qual o tamanho de fralda adequada? Deveria obrigar o pobrezinho a assistir o dinossauro Barney? Estaria ela louca?

- Posso entrar? - a voz era quase um cochicho. A ruiva acenou com a cabeça. - Trouxe um lanche. Está aí, olhando para o teto faz três horas. - Vendo que a outra não reagia, Nina sentou na ponta da cama, colocando a bandeja perto. - Sei que está nervosa, mas não é o fim do mundo e... - foi cortada, antes que pudesse notar.

- TIRA ESSE SANDUICHE DE PERTO DE MIM! - ela gritou se afastando como o Diabo fugiria da cruz.

- Por quê?! - Nina até mesmo se assustou. Por um momento achou que um Alien tivesse saído do meio do pão. Nami correu para a janela, abrindo-a bruscamente, deixando o ar entrar.

- Enjoo. Faz parte da gravidez, não é? - havia pesar naquela pergunta. A mais nova estava arrasada. Como animar a primogênita? - Eu estou pensando: será que ele vai aceitar?

- Ah... - saiu do fundo da garganta da morena, um 'ah' duvidoso. - Ele não fugiria da responsabilidade, não é?

- Não digo responsabilidade, - ela ainda estava na janela - qualquer um pode pagar uma pensão. Mas Gaara nunca me falou de projetos familiares.

- Ah, Nami, pense que coisa mais linda um bebêzinho rechonchudo e ruivinho como o pai! - Nina tentava mostrar o lado adorável de se ter um filho.

- ...agora imagine as fraldas sujas! - Nerak passou correndo pelo corredor. A bandeja voou para o mesmo local.

- Nerak... - Nina suspirou de olhos cerrados.

- Ela tem razão. - finalmente a ruiva se virou. - Quem se anima a viver vinte e quatro horas em função de um filho? Quando éramos pequenas, eu achava que vinte e sete anos era a idade da vovó... - riu - Somos muito novos ainda.

- Vocês já passaram por tanta coisa... Acha mesmo que ele não sente nada por você?

- Ele levou um ano para assumir para os amigos que estávamos namorando! Um ano! Se ele não queria antes me namorar, vai querer agora ter uma família?! - Nina ficou muda e empalideceu. Até mesmo Nerak apareceu na porta chocada. Nami estava chorando! Nunca, em toda a vida delas, haviam visto a mais velha chorar. Ela nunca chorava, se abalava, nem nada disso. E agora, estava desmoronando na frente delas.

.

- Sete horas? Ok. Obrigado. - disse sorridente, antes de desligar o telefone.

Arranjar uma namorada era realmente trabalhoso. Três encontros frustrantes, com três malucas diferentes. Não tinha como ficar pior. Iria para casa mais cedo, tomaria um bom banho e iria se encontrar com a moça da vez. Sabia que Nina tinha aproveitado o dia de folga para ver a irmã, em casa. Talvez tivesse uma virose, ou tinha comido algo estragado. Naruto sugeriu que a cara de Nami já parecia estragada, mas Nina não riu o que significava que o caso podia ser sério. De qualquer forma, sábados existem para serem aproveitados, e ele não perderia a oportunidade de conhecer a próxima concorrente:

- Naruto? - ele se virou para o ruivo alto, de olhos verdes e sobrancelhas ralas.

- Boz... - se deteve - Desculpe. Gaara, não é? - ele concordou mudo. - Veio atrás de um colchão?

- Não, obrigado. - ele ergueu a mão direita, a esquerda ainda escondida no bolso do blazer. - Você é amigo da Nina.

- Sou... - os olhos azuis se apertaram confusos.

- Ela te disse algo a respeito da Nami?

- Nami? - então se lembrou - Ah! Ela ia usar o dia de folga para visitar a irmã. Parece que ela está doente...

- Doente? - Naruto apontou a ponta do colchão Box, onde o ruivo se acomodou - O que ela tem?

- Sei lá. Deve ter comido alguma coisa estragada, pelo que a Nina me disse. - o ruivo bebia a água que havia pegado do filtro. - Por quê?

- Faz cinco horas que eu tento falar com ela e nada. Achei que você pudesse saber.

- Espere um pouco! - o loiro gritou, fazendo Gaara o olhar entediado. - Nami está te evitando? - os lábios do Sabaku se abriram, mas a voz não saiu. - Cara, ela tá terminando com você!

- Terminando? - o ruivo repetiu, a voz ainda controlada, meio duvidosa se tinha mesmo ouvido aquilo.

- Claro! Ela tá só se preparando para quando você procurar por ela, te cortar! - e disse aquilo enfatizando a frase erguendo a mão e a descendo, como se a mesma fosse uma faca.

- E por que ela faria isso? - o ruivo procurava razão na teoria do loiro.

- Porque enjoou de você, ué. Nami não fica com ninguém muito tempo, acho que você é o recorde dela! - e riu, coisa que o ruivo não acompanhou. - Conselho? Dê um pé-na-bunda-preventivo!

- Como disse? - as frases pausadas de Gaara metiam mais medo que os acessos de fúria de Nami, pensou o loiro.

- Pé-na-bunda-preventivo: você dá antes de levar, entende? - e após um longo olhar incrédulo para o loiro. Ele realmente falava sério?

- Eu. Ignoro. Você. - declarou, naquela pausa estupidamente tensa, e se retirou da loja.

.

Nerak pensava em como realmente era assustador ver Nami chorar. Era agonizante, desesperador. Havia brincado até então, mas não achava que a ruiva estava tão abalada. Ela adoraria pegar uma 'mini-Nami' e estragar a criança, enchendo de porcarias e presentes. E agora...

- Nerak? - ouviu o nome num eco perdido, no fundo de sua mente. Estava tão perdida em seus pensamentos, que só agora notou que alguém a chamava - e seu lanche ainda estava pela metade. - Nossa, é você! - então, seu mundo parou.

- Itachi. - disse com voz sumida. O irmão doseu Sasuke! - Tudo bem?

- Comigo tudo! - ele riu - Mas você está pálida. Tudo bem?

- Tudo. - ela balançou a cabeça e se levantou da cadeira. - Estou numa pausa do serviço. - ela apertou sua mão. Itachi nunca foi de contatos, mas não era pessoa ruim. - Me acompanha?

- Estou só de passagem. - completou se sentando - Vim visitar o caçula, sabe? - e riu.

- Sasuke mora em Tokyo? - pânico. Era tudo o que sentia.

- Sasuke? Ah, você tem que ver a casa del... Só um momento. - o celular havia vibrado em seu bolso. Por um instante, quase soltou a frase 'E falando no demônio... ', mas apenas abriu a mensagem, em silêncio. Leu duas vezes concordou com a cabeça e guardou o aparelho. - O que falávamos?

- Sasuke mora em Tokyo?

- Ele? Não! Está aqui visitando nossa mãe, vai embora de noite... - sorriu meio torto.

- Ele vai bem?

- Vai, vai sim... - começou a coçar a cabeça, incomodado.

- Estava falando da casa dele.

- É imensa. Enorme de verdade.

- Trabalha em quê?

- Sabe que eu não sei? - riu ainda sem graça - É estranho falar do ex-namorado, ainda mais quando ele é meu irmão...

- Ele ainda tem raiva de mim? - Itachi paralizou. Céus, ela ainda gostava dele! Depois de tantos anos!

- Todos superaram isso.

- Acho que sim... - sorriu envergonhada, abaixando a cabeça e colocando uma mecha cacheada atrás da orelha. O tom castanho já voltava a desbotar, revelando madeixas douradas. - Estou saindo com alguém.

- Que ótimo!

- Ele se chama Sasuke também. - o Uchiha mais velho sentiu-se cair por dentro.

- É mesmo?

- É completamente diferente do seu irmão. É todo fechado, sarcástico, irônico... - os olhos brilhavam. Aquele brilho que ele lembrava ter visto nos olhos dela assim que o irmão a apresentara como namorada. - Mas... Acho que estou começando a gostar disso...

Itachi sorriu contido, se despediu da moça e se encaminhou para o banheiro do shopping. Pela primeira vez na vida, ele pensava no irmão como um completo idiota.