Nina estranhou a mensagem que recebeu de Naruto. Ele estaria no meio de um encontro naquele momento, por que interromperia o momento para pedir que fosse até o parque? Não foi muito difícil decidir ir, tendo em vista sua irmã, trancada no quarto.
Mais de quarenta e seis chamadas perdidas do ruivo Sabaku e nem isso a fez sair da cama. Estava terrivelmente apavorada, pensava Nina. No meio do caminho ligou para o ruivo dizendo que a chave do apartamento estava em baixo do capacho. Ele agradeceu e ela desejou que a irmã não lhe matasse quando descobrisse.
Porém, talvez ela chegasse mais cedo em casa. E se trancasse com Nami no quarto. Naruto estava abraçando o tipo perfeito de personagem de anime shoujo. Ok... Ela poderia sair correndo para um cantinho escuro e chorar baixinho agora... Com certeza ele estava querendo apresentar a nova namorada, a garota perfeita, para sua melhor amiga. Porcaria de friend zone! Porcaria de dia! Já havia dado as costas quando o loiro gritou:
- Niiiiinaaaaaaa! - céus. Não tinha como mentir não tê-lo ouvido. Meio parque ouviu. Com passos demorados, ela tentou ir até eles. Seus ossos pareciam gelatina, e ela devia estar caminhando com a graça de uma criança de um ano com pés de pato. - Essa é Hyuuga Hinata!
- Oi... - acenou com uma das mãos, levando a mesma para trás da cabeça. Maldita mania pega do loiro.
- Ela não é linda? - Hinata escondeu uma perfeita mecha brilhante e sedosa atrás das orelhas alvas de pele macia. Sentiu-se morrer. A moça parecia uma boneca de porcelana! Se Nami estivesse ali, teria dito que 'tal como uma boneca, ela deve ser vazia e sem personalidade'. - Hinata é tradutora de uma multinacional. - ok... Ela não era vazia...
- Que legal... - murmurou.
- Ora Nina! Seja sincera!
- É linda sim... - a voz sumiu ao longo da frase.
- Viu? - Naruto virou vitorioso para ela - Nina nunca mentiria, você é perfeita!
- Não diga bobagens, Naruto... - que ótimo, até a voz dela era aveludada... A dela era como um par de lixas num quadro negro!
- Mas é verdade! Nina é muito sincera, não diria nada apenas para agradar! Tenho certeza que tem mais beleza que aquela louca vegetariana, e que isso vai chamar a atenção dele.
- Dele? - de repente, uma luz ao fim do túnel!
- Hinata acha que o colega de serviço não olharia para ela por não ser bonita. Acredita nisso, Nina?
- Não... - céus, eles não estavam juntos?
- Eu acho que ela tem tanto beleza, quanto inteligência para conquistar o rapaz. Não acha?
- Acho... - acharia tudo que não fosse relacionado ao seu loiro.
- Ora, parem... - as maçãs ficaram avermelhadas e ela abaixou a cabeça. Era adorável! Como Naruto não se interessou pela moça?!
- Hinata, foi um prazer conhecê-la! Faça o que eu disse e boa sorte!
- Obrigada... - eles se abraçaram e Nina não ficou com ciúme. E abraçou Hinata também. Viram-na indo embora mais confiante e com um ar mais iluminado também. Ou talvez fossem os fogos piscando sobre suas cabeças.
- Não deu certo o encontro?
- Pelo contrário! Adorei conhecer a Hinatinha! - Nina riu - Ela é esperta e inteligente. Acho que fiz uma amiga...
- Não pensou nela como uma possível namorada?
- No começo sim. Mas com o andar da carruagem, - ele abraçou a amiga pelo ombro e começaram a andar juntos - percebi que ela era meio insegura. Conversamos muito e nos demos conselhos bem construtivos até...
- Uzumaki Naruto dando lições de amor... - sorriu para si mesma.
- Sou bom nisso! - protestou, logo mudando o foco - Olhe: barraca de prêmios! - ele puxou a Arishima pela mão e ambos correram até o pequeno lugar. - Quer um urso? - ela riu.
- Quero!
- Certo... - Naruto entregou o dinheiro em troca de três bolinhas; três bolinhas, três chances de se derrubar a pilha de latas. - Lá vai!
E lá foram: uma, duas, três e... Nada.
- Talvez na próxima... - o senhor tentou animar o loiro.
- Quero tentar! - Nina se aproximou.
- Três bolinhas, senhorita. Quem sabe não anima seu namorado? - ela deu uma risada histérica, tentando disfarçar o constrangimento. E, não por milagre, mas por técnica, ela derrubou três pilhas de latas. O maior urso da barraca era seu.
- Quer um urso? - ela sorriu, entregando o bicho para Naruto. Correu a sua frente para alcançar o vendedor de pipocas, deixando o mesmo relembrando na dica que a morena Hinata havia dado horas antes: a felicidade pode estar bem debaixo do seu nariz.
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Os olhos castanhos percorriam todas as linhas explicativas dos sites de maternidade. Quanto mais lia, mais via que não sabia nem como segurar a criança. Talvez até colocasse a fralda do avesso. Olhou ao redor; caberia ali um berço? Metade do seu guarda-roupa se encheria de fraldas, já estava prevendo. Poderia expulsar Nerak para a sala e fazer um quarto para o bebê... Sim, era a melhor ideia que teve até agora:
- Então é aqui que se esconde. – a respiração de Nami parou. Seu coração foi de zero a cem em meio segundo. Teria tempo de fingir um desmaio? – Quer terminar? Se for isso, pode deixar que eu faço primeiro.
- Como entrou aqui?!
- A chave estava em baixo do capacho de entrada.
- Nina... – os olhos se apertaram. Ela iria trucidar a irmã. Depois que os enjoos passassem.
- Já podemos começar? – ele ainda a encarava – Você começa a gritar que sou indiferente e insensível.
- Por que eu faria isso? – os olhos começaram a encher d'água. Mas que porra era aquela? Ah sim, a gestação e as emoções...
- E então? - a pergunta foi dita naquele tom calmo, mas que Nami sabia bem, ameaçador. Não conseguiu falar. Deu um soluço agudo, prendendo a respiração para evitar as lágrimas. A sobrancelha esquerda do ruivo ergueu-se. Ela estava ficando vermelha? Mais um soluço e a moça caiu sobre o colchão, se debulhando em lágrimas. Ok, aquilo era embaraçoso. A preocupação que tivera de manhã estava voltando. Pensou que ela fosse dispensá-lo, com seu jeito irônico, o olhar brincalhão. Estava preparado para dispensá-la, como Naruto havia dito, porém aquela situação era nova. Quando mesmo vira Nami chorar? Aliás, Nami chorava? - Tudo bem... - disse, mais para si mesmo do que para a moça - Quer alguma coisa? - e os soluços se aprofundavam mais, o corpo tremia e as lágrimas brotavam cada vez mais dos olhos castanhos. Ela balançava os braços, tentando inutilmente se comunicar e, na tentativa de falar normalmente, soltou uma espécie de grunhido, que fez o ruivo recuar um passo. - Certo, eu vou buscar um lenço para você.
A coisa parecia séria. Estaria Nami com alguma doença fatal, uma espécie de tumor ou qualquer outra coisa do gênero? Para evitá-lo o dia inteiro e estar naquele estado melancólico de romance mexicano, algo de muito tenso deveria estar acontecendo à Arishima... Seus bloqueios sentimentais o travavam nessas horas em que queria mostrar apoio, mas só conseguia ficar olhando. Ao se abaixar para pegar o rolo de papel pendurado - que parecia muito mais vantajoso do que um mísero pedaço - viu o que levou alguns poucos segundos para aceitar: era um teste de gravidez. Sabia como era um, mas a mente pareceu ficar em branco com a ideia. Voltou ao quarto, onde lá estava a namorada, abraçada ao travesseiro, encolhida, suspirando e estremecendo. Ora, o teste poderia muito bem ser de Nina ou da amiga loira que ele esquecia o nome com frequência. Mas, algo dentro dele tinha certeza de que o teste era de Nami. Ele queria que fosse:
- Nami... - a chamou, na sua autoritária voz. Quem não o conhecesse, pensaria que aquilo era o começo de uma briga. Ele era alto, e os ombros largos o faziam parecer ainda maior. Sua cautela, porém, revelava que ele estava preocupado. Ele, demonstrando preocupação? A moça iria chorar mais ainda. – Isso é seu? – ela concordou, sentindo a cabeça pesar com o movimento. As lágrimas agora saíam ainda mais grossas. Pronto, estava acabado o namoro. Acabou namoro. Acabou vida. Acabou tudo. Sim, ela amava perdidamente o ruivo inexpressivo. Que merda! – Se lembra de como nos conhecemos?
- Sim... – ela respondeu no meio de um soluço – Você foi dispensado por uma moça antes do filme começar... Você ficou segurando os ingressos na mão, enquanto ela ia embora. Eu estava tão atenta à situação que acabei explodindo o tubo de mostarda na minha roupa... – o tom sereno da frase passou para uma explosão de irritação – E as veadas da Nerak e da Nina ficaram rindo da minha cara, enquanto a porcaria daquele molho ardia meus olhos! Eu quase fiquei cega! – dando um meio sorriso, ele abaixou os braços furiosos da ruiva.
- Quando a Matsuri me deu as costas, eu pensei: vadia. Eu tinha pagado o hambúrguer dela. Se eu soubesse, não teria feito. – Nami riu. – Então eu vi você, parada, olhos arregalados, a boca escancarada, me encarando enquanto seu rosto se tingia de três tipos diferentes de vermelho... Não pensei direito, mas achei que seria conveniente te chamar para ocupar o lugar vago e o sanduíche desprezado. – deu de ombros – Afinal, você me pareceu tão interessada no assunto...
- Por isso ficou me esperando na saída do banheiro...
-...e passei meu hambúrguer na mostarda do seu vestido? Sim. E também porque gosto de mostarda.
- Foi nojento. – riu.
- Nunca fui romântico. Nunca me arrisquei em namoros. Eu percebia como você disfarçava o incômodo quando eu apresentava você apenas como amiga e mesmo assim, você continuava comigo. Você não ligava. Sabe por que a Matsuri terminou comigo aquele dia? Ela disse que eu era muito frio e não sabia sentir nada. – ele a olhou nos olhos. – E você do meu lado, por mais distintas que fossem nossas personalidades, fazia eu me sentir bem. Quer dizer, você ri alto demais, fala demais, sorri demais, mas é esse "demais" que me fez ver que era realmente demais eu te chamar só de amiga.
- Eu não tô entendendo nada... – suspirou, as lágrimas voltando a cair dos olhos.
- Nem eu. Acho que é a maneira que sei de dizer que te a... – ele fechou a boca, como se junto com a palavra fosse sair alguma coisa grotesca. Nami sorriu.
- Eu entendi. Não precisa falar mais nada.
- É isso que gosto em você. – deu aquele meio sorriso raro que fazia com que as pernas da moça tremessem. – Me evitou o dia todo porque, supostamente, achou que eu fosse me revoltar com sua gravidez?
- É.
- Que idiota você. – soltou com aquele olhar vago.
- Grata pela consideração. – riu entre um suspiro e outro.
- Meu Deus, você chorando é como a visão do inferno. – ele a abraçou. Ela sabia que se revelassem aqueles atos milagrosos de afeição ele negaria. – Eu quero essa criança. Eu quero você.
- Eu nem sei segurar uma bolsa direito. – brincou.
- Temos muito que aprender. – e voltou a olhá-la nos olhos. – E vamos fazer isso juntos, ok?
- É tão esquisito ouvir você falando assim...
Nami sentia as lágrimas aliviadas voltarem aos olhos quando ela e Gaara ouviram burburinhos vindos de trás da porta. Se levantaram, lentamente, e caminharam até a mesma, quando o ruivo puxou a maçaneta bruscamente. Nina nunca pareceu tão criança quanto naquele momento em que estava estirada no chão, com Naruto por cima:
- Que coisa feia, Nina... Ouvindo atrás da porta? – os olhos castanhos se apertaram.
- É que tudo estava tão... – começou.
- FOFO! – Naruto completou, empolgado e rindo. Por mais que se irritasse com o loiro, a Arishima mais velha sentiu que o adorava.
Realmente, essa gestação estava sendo cheia de surpresas...
