Notas da autora: Olá pessoal!
Nossa, quanto tempo que eu não apareço por aqui!
Bom, fanfic nova e ao mesmo tempo velha porque foi um dos meus primeiros projetos que eu esqueci no fundo da gaveta até meu irmãozinho me pilhar para escrever.
Dedico essa fanfic a ele, afinal, se não fosse muitas das suas dicas, ela nem estaria aqui hoje.
Espero que gostem, é particularmente uma das minhas preferidas, mas acho que minha opinião não conta... KKKK
Eu sei que tem uma galera que não curte assistir anime legendado.
Porém, por conta da sonoridade, eu acabei usando algumas palavras no idioma original.
Mas, sem estresse, ninguém precisa caçar no googlis, pois vou colocar aqui o significado de cada uma delas, beleza?
¹*Goshinboku = árvore sagrada
²*Sengoku Jidai = Era Feudal Japonesa
³*Honekui no Ido = Poço Come-Ossos.
Boa leitura!
E nos vemos lá embaixo! xP
-Cheguei...- a garota falou desanimada ao cruzar a porta, tirando os sapatos com os calcanhares.
Já passavam das 3 horas da manhã. Não havia uma única parte em seu corpo que não doía, seu cabelo fedia a óleo, fumaça e desinfetante, tinha um trabalho não terminado para entregar na faculdade, e seu estômago reclamava há dias por uma comida de verdade. Só de pensar em que teria de sair em 4 horas, sentia vontade de chorar. Queria largar tudo, escola, trabalho, e sumir no mundo, mas não podia se dar esse luxo. Desde que seu pai morreu em um trágico acidente de carro, era responsável por arcar parte das despesas da família. Não que se sentisse usada pela família, muito pelo contrario, Katherine se sentia orgulhosa em poder comprar livros novos para seu irmão mais novo, ou um presente legal para o avô, ambos tão carinhosos com ela. Mas o trabalho de garçonete no restaurante Goshinboku¹ era pesado, e agora que tinha se mudado para um minúsculo apartamento mais próximo do centro da cidade, ela se viu obrigada a pegar horas extras na limpeza da cozinha, para completar o salário e conseguir cobrir os novos gastos. Se perguntava se valia a pena todo esse sacrifício, se abrisse mão da bolsa de estudos na Universidade Sengoku, poderia voltar para sua casa no interior e trabalhar na mercearia perto de casa, como sempre fez. Balançou a cabeça tentando afastar o pensamento. A Universidade Sengoku Jidai² era uma das mais importante do país, difícil de entrar mesmo para as pessoas que podiam arcar com as salgadas mensalidades. Foi um grande golpe de sorte ter conseguido uma bolsa de estudos integral, e mesmo sabendo desde o começo que seria muito difícil conseguir comprar os livros e apostilas, Katherine sabia que valeria o sacrifício. Então, mandou seu currículo para todos os estabelecimentos comerciais das redondezas, usou as poucas economias que tinha para alugar e mobiliar minimamente o apartamento que encontrou, e resolveu encarar de frente. Mas o que seria uma jornada dupla, estava se tornando uma jornada tripla, pegava tantas horas extras, que era quase como se trabalhasse em dois empregos. Mas essa era a única maneira de continuar mandando dinheiro para casa.
Dinheiro, dinheiro... O problema era sempre dinheiro. Se tivesse um terço do que seus colegas de classe ganhavam como mesada poderia manter as duas casas tranquilamente. Suspirou desanimada. Não tinha nada que ela pudesse fazer para mudar isso.
-Bem vinda! – Outra garota respondeu aparecendo na porta da cozinha.
Ela usava um avental com estampa de gatinhos, visivelmente bastante usado, pois tinha manchas esbranquiçadas, e partes puídas. Seu cabelo castanho estava uma bagunça, sobrando apenas uma pequena mecha presa com um elástico, como se todo o resto do cabelo tivesse escapado de um rabo-de-cavalo torto. Tudo isso dava a garota, que já tinha uma estrutura pequena e delicada, ainda mais cara de criança.
Katherine sorriu ao ver uma espátula na mão dela. Kimberly era adorável, e fazia de tudo para agradar a prima. Era uma menina carinhosa e extremamente prestativa. Devia estar tão cansada quanto a prima, afinal trabalhavam no mesmo restaurante, em horários diferentes, além de estar no ensino médio. No entanto, lá estava ela preparando o café da manhã das duas, animada como se fosse manhã de natal.
Kimberly era constantemente feliz. Katherine nunca havia a visto se queixando ou chorando por coisa alguma, apesar de ter todos os motivos do mundo para se revoltar com vida. Ela estava sempre assim, com um sorriso genuíno estampado no rosto, aproveitando cada segundo, vivendo e celebrando cada momento, mesmo os mais banais, como preparar ovos mexidos de para ela e a prima.
Katherine se arrastou até a cafeteira, e para sua surpresa o jarro estava vazio, apesar de ainda estar quente. Kimberly nunca gostou de café, e ao contrario de Katherine, era agitada até demais sem ele. Contudo, lá estava ela, com a caneca gigante da prima, fazendo caretas a cada gole enquanto vigiava as torradas. Fundos círculos arroxeados se destacavam sob suas pálpebras claras.
-Virou a noite jogando de novo, Kim. - Katherine reclamou enquanto religava a cafeteira.
- Tecnicamente não, porque ainda não amanheceu...- Kim ri sem graça e vendo a expressão séria da prima completou.- Foram só algumas horinhas, eu juro, Ka.
- Não acha que isso está passando dos limites? Não é a primeira vez que você deixa dormir por causa desse joguinho idiota.- A garota cruzou os braços, preocupada.
-Priminha...- Kim falou carinhosa. Sabia que não dava para ganhar da prima quando ela estava nervosa.- Vou dormir um pouco antes do trabalho, prometo. Mas sabe, você tinha que relaxar um pouco.
"Relaxar?"- Katherine riu. Só conseguiria relaxar no dia que encontrasse na rua um bilhete premiado da loteria. No momento não sobrava grana nem para comprar uma aposta simples, então como poderia descansar? Kim era muito ingênua.
- Sabe...- A garota mais nova mordeu a torrada.- A vida não é só trabalho, estudo, casa. A quanto tempo você não se diverte? Nem estou dizendo um dia inteiro, mas passar algumas horinhas no shopping, ou no cinema, ou...
- ... Em casa trancada jogando videogame. O que é MUITO saudável, claro.- Katherine rolou os olhos, irônica.
Mas Kim apenas riu. A garota nunca se estressava, levava as alfinetadas da prima na esportiva. Sabia que por trás do sarcasmo, ou até mesmo das reclamações diretas, Katherine estava apenas preocupada com ela, cuidando dela como sempre fez, e isso deixava Kimberly feliz.
- E porque não? Honekui no Ido é um jogo ótimo. Você passa dias lá dentro, enquanto aqui se passaram apenas algumas horas.- Kim suspirou- É como você entrasse num mundo mágico, onde a vida é muito diferente daqui. Lá você passa o dia relaxando as margens de um rio, fazendo novos amigos, lutando contra monstros para acumular pontos...
Katherine tinha que concordar que matar monstros devia ser bem mais divertido que ir a aula que teria dali a algumas horas com a professora Kanna. A mulher não piscava, passava os slides lendo com uma voz impassiva e baixa, parecendo um cadáver reanimado. Seu olhar lhe dava calafrios.
-...Ou fica andando sem destino certo procurando a Shikon no Tama.
Shikon no tama, ou Joia de Quatro Almas numa tradução livre; premio máximo do jogo que Kim estava viciada. Aparentemente ela seria capaz de realizar um desejo do portador. Qualquer um. Nos cartazes de divulgação mostrava pessoas em iates bebendo champanhe, dentro de um avião de primeira classe, ou cercado por mulheres e homens bem vestidos.
Todos tinham em comum um estranho colar com uma bolinha rosa. Por mais que existisse pessoas como Katherine, realistas demais para acreditar que tal coisa seria possível, o jogo se tornou incrivelmente popular. Na faculdade de Katherine só se ouvia entre os grupinhos sobre ele. Comparavam as "classes" de jogadores, discutindo seriamente os pontos fortes e fracos, chegando até a apostar dinheiro nos perfis mais poderosos. Aliás, Honekui no Ido era definitivamente um jogo de elite. O kit inicial com visor, scanner e plataforma, não sairia por menos que alguns milhares de dólares mesmo na versão mais básica. Fora o valor mensal a ser pago para atualizar os perfis premium de Yokai, Guerreiro ou Sacerdote. De todos os jogos de realidade virtual existentes no mercado, o Poço; como era chamado "carinhosamente" pelos jogadores, era sem dúvidas o mais realista, e consequentemente o mais caro.
Kim foi uma das poucas "sortudas" a serem escolhidas para testar o jogo. Recebeu a versão mais básica do jogo, com o perfil Humano, ou seja o único que não precisava ser pago ao mês, e tinha uma série de limitações. Mas isso não impediu a menina de se apaixonar e passar todas suas horas livres nele. Além de é claro tentar converter a todos em "viajantes do tempo", incluindo a sua cética prima.
-É uma pena que não se possa compartilhar a mesma plataforma. Senão te deixava jogar um pouquinho... - Kim suspirou apesar de acrescentar mentalmente que seu pobre kit era tão estropiado que não aguentaria duas pessoas nem se fosse possível.
Katherine deu o ultimo gole no café, e levantou decidida.
-O papo tá ótimo, mas tenho que começar a me mexer. – olhou para o relógio de pulso desanimada. O braço do gatinho indicava que se não corresse perderia o primeiro tempo.- Vou me tomar banho, e você mocinha...- Kim piscou os olhos com a cara mais lavada e inocente do mundo- ...Trate de ir dormir um pouco.
E depois de dar um beijo estalado na testa da prima se arrastou para o micro banheiro.
O dia estava apenas começando.
Katherine desceu do trem ainda ajeitando os livros na mochila. É claro que ela tinha cochilado sentada enquanto terminava o trabalho e perdido a hora, de novo. Só de imaginar o olhar frio da professora Kanna diretamente para ela quando ela entrasse tarde na sala, lhe deu um frio na espinha. Correu tanto que quase caiu em cima de um stand no pátio do colégio, sendo acudida por Yuka, Eri e Ayumi, suas únicas amigas na faculdade.
- Para que essa pressa toda, Katherine?- Yuka, uma menina de cabelos curtos comentou rindo- A escola tá pegando fogo?
-Eu... Estou... Atrasada...Macroeconomia...- Katherine mal conseguia falar, respirando fundo a cada palavra.
-Mas Kath hoje não tem aula.- Ayumi, de cabelos cacheados comentou.
Hoje não tem aula... Hoje não tem aula... Hoje não tem aula... Essa frase ficou girando na cabeça de Katherine. É claro que tinha aula. Ela não veio correndo até ali à toa. Ela não saiu de casa ainda escovando os dentes no meio da rua por nada. Ela não teria pulado de três em três degraus da escada rolante, caído em cima de um estudante que tentou passar a mão na bunda dela, pulado dentro do trem com a mochila aberta, tendo que se arrastar entre os passageiros para recolher seu material, perdido o dinheiro da passagem de volta, e quebrado em mil migalhas o pacote de biscoito que tinha trago para o lanche se não tivesse certeza que teria aula. TINHA que ter aula.
-Mandaram recado para todo mundo ontem avisando que por conta do temporal que está previsto para semana que vem a feira empresarial seria adiantada para hoje, já que ela ficaria em lugar aberto.-Eri lembrou- Mandaram email e ligaram para casa daqueles que não responderam.
A ficha caiu. Ou melhor, uma bigorna de uma tonelada caiu na cabeça da Katherine. Mandaram email e telefonaram. Mas como ela poderia ser avisada se não tinha celular, nem telefone fixo, muito menos computador?! A internet lerdissima que tinha em casa só servia para o joguinho da Kim, pois o seu velho computador de mesa, desses com o monitor de tubo, tinha partido dessa para melhor antes mesmo dela se mudar. Lágrimas desoladas corriam pelo rosto da estudante. Podia estar no shopping, podia estar no cinema, podia estar na sua caminha dormindo o sono dos anjos, podia estar matando e roubando no GTA, mas nãooooooo, ela estava na faculdade. À TOA.
-Mas a feira é bem legal, Kath! – Ayumi tentou anima-la ao ver a depressão nos olhos da menina. –Tem uns stands super maneiros sorteando brindes.
-É sabemos que você ADORA brindes. Vamos, vamos!-Yuka comentou enquanto ela e as outras duas amigas e literalmente arrastavam a desanimada Katherine.
Mas elas tinham razão. Katherine AMAVA ganhar brindes. Mesmo os mais bestas tipo calendário de parede, ou imã de geladeira com gatinhos. E conforme era arrastada stand por stand, saindo com garrafas, ecobags, cadernos, canetas e outras bugigangas seu humor foi melhorando gradativamente. Foi quando pararam no ultimo stand, o maior de todos: o da empresa Onigumo's Cave. Os estudantes se acotovelava para ficar em frente a grande tela, onde passava o comercial do melhor sucesso da companhia: Honekui no Ido.
O comercial mostrava um Japão Feudal cheio de monstros e espíritos, e pessoas vestidas de forma estranha lutando contra eles. A primeira pessoa a aparecer, usava um roupa preta colada ao corpo, lembrando um pouco a roupa de mergulhadores, e usavam uma máscara com um respiradouro rústico, usava correntes cheia de espinhos e destroçava facilmente os monstros que encontrava no caminho. A frase "Honrado Guerreiro", apareceu no canto inferior da tela. Então, a imagem mudou e com uma flecha cortando a tela em dois, surpreendendo a todos, pois parecia que ela tinha saído da televisão, apareceu uma mulher de calças vermelhas e quimono brando, segurando um arco nas mãos. Ela sorria, e se virava de costas, enquanto a frase "sábia sacerdotisa" aparecia no canto superior da tela. Na terceira imagem um homem ajudava a consertar a carroça de uma mulher com duas crianças. O rapaz sorria, e embaixo apareceu a frase "Leal Humano", e apesar de ser uma cena fofinha, era extremamente sem graça comparado aos outros, Katherine pensou. Por fim, uma fumaça roxa cobriu o lugar, literalmente saindo da tela, pois não dava para ver nada nem ninguém além do brilho de onde estaria a TV. Então um par de olhos vermelho surgiu na tela, e uma risada demoníaca cortou o ar. "Poderoso Yokai" apareceu no meio da tela, enquanto a fumaça se dissipava.
"Em um mundo repleto de possibilidades, vencer é a única opção. De que lado você está?'
E depois de piscar a imagem dos quatro personagens o logo Honekui no Ido preencheu a tela encerrando o comercial.
Os estudantes gritavam animados, todos fãs assumidos do jogo. Até mesmo as amigas da Katherine que assim como ela, não curtiam muito esse universo, estavam impressionadas.
Quando se virava para ir embora, Kath encontrou no canto do stand uma mesa com um computador, e uma placa. O sinal dizia que fariam um grande sorteio entre os alunos, e os prêmios seriam um smartphone ultra moderno para o terceiro lugar, um ultrabook todo equipado para o segundo selecionado, e o kit básico do Honekui no Ido, com acessórios extras para o personagem como inventário ilimitado, e uma roupa exclusiva criada para ele inspirado na faculdade. Os olhos de Katherine brilharam. Um celular novo era TUDO que ela precisava naquele momento. Não que ficasse triste se ganhasse o computador, mas o smartphone resolveria seus dois maiores problemas num produto só: ter como se comunicar e acessar a internet.
Leu atentamente como faria para concorrer, pensando se teria que inventar uma frase legal, ou cumprir alguma tarefa específica. Surpreendentemente, era preciso furar o dedo e colocar uma gota de sangue no local indicado. A placa dizia que assim, não teria como fraudar o concurso, uma vez que seria sorteado o D.N.A da pessoas, e não um nome no papel, ou mesmo uma digital que poderia ser fabricada. "Que forma mais bizarra de se sortear alguma coisa...", pensou a menina enquanto picava o dedo com uma das agulhas descartáveis. Mas ao pingar a gotinha de sangue no local indicado, o sangue desapareceu, como se fosse teletransportado ou algo assim. Assustada, Katherine viu a foto dela, ao lado de um monte de números na tela do computador. Ainda segurando o polegar cortado, ela voltou para perto das amigas assim que a mensagem de "boa sorte" apareceu no monitor.
Conforme o horário do sorteio se aproximava, mais e mais pessoas chegavam no stand do Onigumo, curiosas e esperançosas. Com os dedos cruzados, Katherine e as amigas torceram juntas para que a foto da morena aparecesse no telão. E gritaram tão alto quando isso aconteceu que todo mundo virou para olha-las. A emoção era tanta que a menina nem ouviu o que ganhou, saiu saltitante para frente do stand enquanto os outros ganhadores iam meio desanimados.
-Obrigada, obrigada muito obrigada!- a garota esticou a mão sorrindo, e quase deixou cair a caixa pesada que a atendente do stand lhe entregou.
"Mas... o que?" – a garota olhou para caixa confusa. O logo do Honekui no Ido parecia gritar para seus olhos: "YEY, YEAH! PEGADINHA DO MALANDRO!". Era o jogo. O maldito jogo idiota.
Podia ser uma caneta com glitter, podia ser um chaveiro que tocava musiquinha, podia ser um boné, até mesmo um peso de papel seria mais útil que aquela porcaria.
-Com licença...- Ela perguntou desolada- Eu poderia trocar por outra coisa?- "QUALQUER coisa", acrescentou mentalmente.
A atendente e os outros estudantes olharam para ela chocados. Ela tinha conseguido o kit completo do jogo "mais perfeito de todos os tempos" DE GRAÇA e queria trocar?!
Com um sorriso sem graça, a atendente explicou para a triste Katherine.
- Então...- Ela falou como se conversasse com uma criança de cinco anos- Todo conjunto do game de realidade virtual Honekui no Ido é único, desenvolvido com a tecnologia mais avançada e não pode ser trocado, transferido ou vendido uma vez que o D.N.A da pessoa esteja cadastrado no sistema. O código genético do "viajante do tempo" se mistura com o número de registro do seu "Poço" criando uma combinação única e imutável... Entendeu?
A garota balançou a cabeça concordando desanimada. Não poderia nem dar aquele elefante branco de presente para a Kimberly, ela com certeza ia aproveitar mais que ela.
-Qual é o seu primeiro nome? – a atendente perguntou com o mesmo sorriso plastificado de antes.
-Katherine.- respondeu baixo.
A mulher escreveu umas coisas numa máquina pequena que lembrava um tablet, imprimindo na parte de cima do aparelho um papel do tamanho de um cartão de visitas.
- Aqui está o seu numero do código genético- Ela apontou para os números em vermelho – Você vai precisar guardar ele, caso tenha algum problema técnico com seu avatar.
O cartãozinho tinha seu primeiro nome, uma foto sua que deveria ter sido tirada quando ainda estava no quiosque do sorteio, e um monte de números escritos em tinta vermelha.
Ela colocou o papel no bolso da saia, agradeceu mais uma vez mais por educação do que por se sentir grata, e saiu de lá, pensando o quão difícil seria carregar aquela caixa pesada mais a mochila cheia dos outros brindes além dos livros escolares num trem lotado.
Meia hora depois ela estava em casa, e como tinha imaginado, seus ombros e suas costas doíam terrivelmente. Largou tudo na entrada do apartamento e se jogou na sua "cama", que por acaso, não era nada além de um colchão velho coberto com um lençol florido. Rolou de um lado para o outro, sem conseguir pegar no sono. A adrenalina devia ainda estar alta em seu sangue, afinal passou o dia inteiro correndo e tendo surpresas.
Olhou para o relógio de pulso e viu que ainda tinha muito tempo até chegar o horário de voltar ao trabalho.
-Porque não?- ela comentou consigo mesma levantando da cama.
Afinal, ela não tinha nada melhor para fazer naquele momento.
Levou um tempinho até que ela conseguisse arrumar um espaço na sala-quarto em que dividia com Kim. Abrindo a caixa encontrou exatamente o que esperava: um pesado e grosso tapete, quatro retângulos negros, com pequenas luzes de led espalhadas por todo seu comprimento, e um par de óculos escuros bem expressos.
Ela primeiro desenrolou o tapete com cuidado. Ele era cinza escuro e tinha um alto relevo de um dos lados que tinham a textura de pedrinhas. Encaixou os quatro retângulos formando um quadrado, e o prendeu nas bordas do tapete. Ela riu ao ver que com a estrutura montada. A versão que Kimberly tinha, era bem mais simples toda preta, já a que Katherine tinha ganhado tinha muitos detalhes, imitando madeira, musgo e terra, e olhando de cima definitivamente lembrava um poço seco e raso. O nome do jogo tinha algum sentido, afinal.
Respirando fundo ela colocou os óculos escuros, como via a prima fazendo e pulou dentro do quadrado. Ela podia ouvir o som do seu corpo caindo, sentia o vento batendo em seus cabelos. Era uma queda muito longa do que deveria ser considerando o pulinho que deu. Era como se o chão se abrisse e ela caísse. Mas ao mesmo tempo que era assustador, era uma queda suave, como se flutuasse. Tirou os óculos assim que sentiu seus pés tocarem o chão. Estava no fundo de um poço seco. Podia ver o céu brilhando sobre sua cabeça e ouvir os pássaros cantando.
"É tão real!"- ela exclamou admirada ao sentir o sol esquentando seu rosto quando olhou para cima.
Então ela escutou um barulho. A madeira que formava o poço começou a se mover, surgindo uma tela pequena, um pouco maior que um celular. Tinha apenas uma palavra escrita ali:
"Nome?"
Katherine pensou, que nome escolheria? Ela coçou a cabeça. Kim tinha falado que não se podia cadastrar o próprio nome, era uma das regras do jogo. Suspirou, tinha tantas opções, ao mesmo tempo nenhuma.
"Angelina Jolie? Muito grande. Gisele...? Muito moderno... Maria...? Muito comum."
Tinha que ser um nome que tivesse personalidade, fosse único. Afinal vai que, mesmo numa possibilidade remota, ela ganhasse o jogo? Tinha que ser algo diferente.
Então ela se lembrou de uma coisa.
Quando ela nasceu, a sua mãe lhe disse que ela tinha uma marquinha no peito.
Sumiu algumas semanas depois, e tinha o formato de um hexagrama.
Como era um pouco supersticiosa, acreditava que aquele seria o símbolo da sorte da filha e resolveu pesquisar mais sobre o assunto. Curiosamente, aquele formato aparecia quando se trançava madeira de bambu para se fazer cestas, e os japoneses antigos gostaram e nomearam esse padrão. O que nos tempos atuais era conhecido como estrela de Davi, tinha outro nome na era feudal.
- Kagome. Meu nome é Kagome.
A tela se desprendeu da madeira flutuando suavemente até as mãos da menina. Era fina e translúcida, totalmente maleável. Tava para ver o nome KAGOME em alto relevo brilhando suavemente na tela. Ruidosamente, degraus começaram a se formar em uma das laterais, e a garota conseguiu finalmente sair do poço.
O sol estava alto, mas não muito forte. Parecia ser umas 10 da manhã. Estava numa floresta belíssima. Árvores vistosas, tinha seus galhos balançando suavemente com o vento. A grama era verdinha e macia, quase dava vontade se tirar as sapatilhas e pisar com os pés na terra.
Foi quando ela lembrou que não tinha entrado no jogo de sapatos.
Olhou para os pés confusa ao ver claramente um par de sapatilhas escolares, com meias brancas compridas. Uma saia verde com pregas e meio curta substituiria sua confortável e velha saia jeans. E no lugar da camisa de sua banda favorita, estava uma camisa estilo uniforme do tipo marinheiro com as detalhes nas mangas e no colarinho em verde vivo. No pescoço tinha um lenço vermelho. A garota rolou os olhos. Então essa era a roupa "super especial e exclusiva"? Uma combinação ridícula entre um uniforme de estudante de ensino médio, e as cores da faculdade Sengoku Jidai.
"Pelo menos ganhei uma mochila..."- ela pensou ao ver o acessório amarelo nos ombros.
Guardando a telinha bizarra em um dos muitos bolsos da mochila, ela percebeu que tinha uma luz brilhando suavemente no horizonte.
"Deve ser para onde eu tenho que ir"- ela pensou
Andava distraidamente olhando a paisagem. Kim tinha razão, o jogo tinha gráficos incríveis.
Podia passar horas ali, curtindo a natureza e a paz que emanava aquele ambiente.
Depois de alguns metros ela parou subitamente. Havia uma árvore gigante na sua frente.
Era tão grande que mal dava para ver o céu. Seus galhos eram mais grossos que o tronco de uma pessoa adulta, e suas raízes era altas o bastante, que poderiam alcançar facilmente a cintura da garota. Mas não foi a beleza da majestosa árvore que a fez parar.
Enroscado entre ramos e musgos, com uma fecha no peito, um garoto parecia dormir.
Seu rosto era sereno e jovem contratando com seus cabelos prateados e muito compridos, que brilhavam suavemente sob a luz do sol. Usava um largo kimono vermelho sangue, que balançava na brisa daquela manhã fresca. E para fechar o conjunto no mínimo curioso, no topo de sua cabeça, havia brancas e curtas orelhas de cachorro.
Precisava. Apertar. Aquelas. Orelhinhas. A garota tinha um fraco para coisas fofas, e aquilo era uma das coisas mais fofinhas que tinha visto. Ela simplesmente precisava tocar nelas.
Mas antes que pudesse se aproximar o chão começou a tremer.
Entre as árvores para seu desespero, saiu um monstro. Uma criatura com rosto de mulher e corpo de centopeia, olhou dentro dos olhos dela com a expressão sedenta. Iria devora-la.
Com uma das seis mãos, agarrou a garota pela cintura erguendo-a com facilidade no ar. E só quando as garras da criatura cravaram na sua barriga ela conseguiu gritar.
-SOCORRO!
O seu sangue martelava alto nos seus ouvidos, mas tanto ela quando o monstro que esticava sua língua gosmenta e comprida conseguiram ouvir uma risada vindo dali perto.
E por entre as lágrimas de medo e dor ela conseguir ver um par de olhos dourados como ouro líquido observando a cena. Observando a cena, com um sorriso sarcástico nos lábios.
O garoto preso na árvore tinha acordado. Mas assim como ela, ele não conseguia se mover.
Estava sem saída.
Notas da autora 2:Entãoooo, foi legal?*-*
Quem me conhece de outros carnavais, ou melhor de outras fanfics deve estranhar um pouco o modelo de escrita.
Afinal, sempre escrevi em primeira pessoa. Mas para dar mais fluidez a história, optei por escrever em terceira, pois ia ficar muito maçante ficar mudando de narrador o tempo inteiro.
E esclarecendo possíveis dúvidas, sim a Katherine É a nossa Kagome, e assim como ela, outras personagens vão aparecer a princípio com um nome diferente, mas não se assustem, faz parte da história.
O primeiro capítulo talvez tenha parecido meio chato com um monte de detalhes do jogo em si, tentei ser o menos técnica o possível, mas tem certas coisas que precisam ser explicadas no começo. Prometo mais tretas/romance/comédia nos próximos capítulos.
Booom é isso!
Até a próxima!
Beijos e Borboletas azuis!
