Olá pessoal! Passando rapidinho pra postar o novo capítulo porque estou indo ver skatistas inúteis caírem lá no skatepark enquanto reflito sobre a vida. Beijos a todos, muito obrigada por acompanhar!


Crossing Lines


Chapter 09 – "...We were Standing All Alone..."

"You were leaning in to speak to me"

A música tocava alto, seu corpo se mexia levemente, de modo automático. Com uma cerveja em uma das mãos e o pincel em outra, reparava alguns detalhes do lado de fora, na parede previamente pintada. Olhou para cima. Jensen estava sentado na soleira, reparando uma das janelas do sótão. Depois do incidente mal haviam se falado. Quando ele fez menção de olhar para baixo, desviou o olhar, fingindo-se concentrado. Continuava se movendo minimamente com a música. Tudo havia ficado estranho demais depois da briga, depois de ter tido certo tempo sozinho para analisar o comportamento do mais velho...

Sentiu uma mão em sua cintura e um corpo colado ao seu.

— Tom!

Repreendeu o outro em baixo tom. Ele apenas riu e sussurrou uma porção considerável de indecências em seu ouvido. Não havia visto a briga, provavelmente ficara sabendo e viera acalmar os ânimos do outro com o gesto convidativo de puxá-lo pelo passante da calça. Só que não era assim tão simples.

Jared apontou para cima quando o outro começou a agir de forma invasiva demais. Os olhos azuis seguiram a direção para, só então, tomarem uma expressão cômica de espanto. O dono dos mesmos gargalhou quando o mais novo fez o mesmo, atraindo a atenção daquele quem, do alto, finalmente os observava. Eles começaram a cochichar, rindo, se estapeando de brincadeira como se estivessem planejando algo ou compartilhando um segredo. Aquela já tão conhecida invejinha que odiava sentir, surgiu como uma fagulha em seu peito. Sem se deixar ser percebido, observou-os por bastante tempo, até Tom deixar o mais novo e ir em direção a um carro cheio de garotas que havia parado em frente à fraternidade.

Deste carro, desceu apenas Sandy. Dava para reconhecer alguns rostos, como Kristin, dirigindo e conversando com o ex-namorado, Erica se ajeitando no retrovisor, puxando o decote nada discreto ainda mais para baixo, Cassidy no banco de trás com mais duas garotas que não conseguiu reconhecer. O carro lotado, com a capota abaixada, provavelmente iria para algum lugar interessante, dada a quantidade de garotas e Cassidy longe de Michael.

Não se importou mais quando viu que Jared e Sandy pareciam se estranhar. Observou sem se deixar ser visto. Ela tinha o cenho franzido e os braços cruzados. Pelo menos parecia enfezada o bastante para que ele nem mesmo prestasse atenção ao que ela ousava dizer. Estava pintando os detalhes da janela há bem mais tempo que o necessário só para observar as coisas, levando em conta que já estava ali há mais de uma hora enquanto havia levado quarenta minutos para pintar a outra. Finalmente largou o que fazia. Já estava tudo pronto, de qualquer modo.

Desceu da janela, adentrando o sótão mais uma vez. Talvez a ideia de dividir o espaço fosse mesmo interessante. Pensando — ou tentando pensar — em coisas que mantivessem sua mente longe de Jared, desceu as escadas. Iria para o lado de fora, tomar cerveja e conversar com os caras. Precisava relaxar um pouco.

Quando Sandy saiu de cena pisando duro, pôde ver Jared rindo com o cenho franzido e com a expressão pesada, carrancuda. Ela provavelmente o havia irritado bastante. Não quis prestar atenção. Tentou se concentrar nas músicas ruins e na bebida quente. Ah, e também nas "sutis" avaliações que os garotos do time faziam sobre as garotas que passavam na rua, que estavam na praça com o chafariz do outro lado da mesma... Perdeu-se por alguns momentos. Sem mais condições de calar seus pensamentos, lembrou-se da briga, do jeito que Jared o contivera os golpes... O aperto forte das mãos, o peso do corpo e o jeito que ofegava. Talvez houvesse sido o único a perceber, mas aquela sutil arritmia na respiração não parecia exclusivamente causada pela briga. O jeito como ele o olhara nos olhos, o jeito como se deixava prender...

— Droga...

Praguejou, atraindo a atenção de alguns amigos.

— O que foi?

Justin perguntou. Ainda meio fora do ar, Jensen virou-se para ele, um sorriso amarelo no rosto.

— Nada, é que Cillian ficou de vir ajudar assim que eu ligasse.

— Ele vem morar aqui, não é?

— Sim, não posso deixar ele sozinho, senão vai sucumbir e parar em Hollywood com aquele maldito violão.

Riram. Pronto, tinha um motivo para se levantar e sair de cena. Era tudo o que precisava. O fez, adentrando a casa. A porta do porão estava aberta. Intrigado, foi até lá. Desceu as escadas passo a passo, encontrando Jared. Ele varria o local, ou ao menos a parte visível dele. Quando levantou o olhar em direção ao que chegava, sentiu o coração disparar.

Os passos de Jensen foram lentos até bem perto do outro, quem abaixara a cabeça novamente, concentrado no que fazia. O mais velho parou. Sem falar nada. Permaneceu assim por bons instantes. Queria, de verdade, tomar o outro pelo braço e perguntar tudo o que rodava em sua mente, chama-lo de idiota, bater nele e depois rolar naquele chão empoeirado fazendo o que sua mente jamais deveria estar fazendo-o pensar em fazer. Mas não. Não mesmo. Manteve-se quieto. O outro também nada dissera, até que se cansou. Aquele jogo estava insustentável.

— O que foi aquilo mais cedo?

Perguntou, baixo. Talvez não querendo ser ouvido realmente, talvez perguntando mais para si mesmo que para o outro.

— Eu não sei. Eu... — ouviu uma resposta tão baixa quanto sua pergunta — só senti vontade. Você me esquenta o sangue.

— E por isso acha que pode me agredir? Você também me esquenta o sangue!

— E você faz exatamente a mesma coisa! Me agride! O que tem comigo?

— Eu não vou falar sobre isso. Não mesmo.

Largou a vassoura na parede, e quando ia saindo de perto do outro, ele o tomou o pulso com uma força desnecessária, plantando-o na parede, sobressaltando-o.

— Ah sim, você vai. Estou cansado de você fugindo! — o prendeu contra a parede, um braço a cada lado do corpo maior — Você provoca! Me insulta!

— Não tenho culpa se você é insuportável!

— Eu? — bateu uma das mãos contra a parede — Por que diabos joga tanto? Por que simplesmente não me esquece e sai da droga do time?

— Por que eu teria que fazer isso? Por que você não o faz? E eu não estou aqui para jogar. Se não percebeu, fora de campo, eu vivo. Se você apenas joga o tempo todo a culpa não é minha!

Mantinha-se forte por fora. Dentes travados, praticamente, enquanto falava, mas se sentia tremer. Assim como tinha certeza que Jensen também o fazia. Haviam muitas coisas em jogo ali, inclusive os sentidos das coisas que falavam. Era irritante o modo como percebiam, retribuíam, e ficavam empurrando a situação cada vez mais além.

— Eu não jogo o tempo todo.

Disse, depois de uma pausa silenciosa.

— Me deixa ir embora.

— Não. A gente ainda não terminou.

— Será que não vê? Isso nunca vai terminar. Isso já deixou de ser um jogo há muito tempo, Jensen...

Disse, se arrependendo por ser tão óbvio no instante seguinte.

— Eu nunca disse que isso era um jogo, Jared. Eu também não jogo fora de campo, se serve de consolo. Eu só não entendo por que!

— Por que o que?

— Deixa pra lá, esse é o pior momento pra ter esta conversa.

Ia se afastando, havia desistido. Não sabia por que diabos estava tendo aquela conversa torta.

— Espera... Volta. — o puxou pelo pulso, hesitante, a voz baixa, macia — Por que sempre acaba assim? — atreveu-se a perguntar. Sentia seu coração disparado enquanto Jensen olhava para qualquer ponto no chão. Era, de fato, um dos momentos mais estranhos de sua vida. O mais velho levantou o olhar, pouco a pouco e findou encarando o outro — Mais de seis meses que isso tá acontecendo. Por quê? Por que tem que ser assim?

Piscou algumas vezes, sentindo um desconforto nos olhos, que sabia bem do que se tratava. Desviou o olhar. O outro pareceu perceber, findando por tomar a mão que segurava seu pulso. Lhe dava certa agonia ver Jared com aquela expressão. Sentia que o estava machucando, que aqueles questionamentos eram, na verdade, uma forma do mais novo pedir ajuda sem dizer realmente, querendo consertar a situação.

— Eu acho que sei de uma coisa que você não sabe... Mas eu não vou te contar.

Sorriu de canto. Balançando levemente a mão que segurava, atraindo a atenção do outro. Sentia um nó na garganta, porque a textura da pele macia da mão do outro era exatamente a que se lembrava de ter tocado seu corpo, de tê-lo levantado de modo bruto...

— Então acho que vou ter que te oferecer da minha cerveja outra vez...

— Mas ai eu vou descobrir os seus segredos, e não o contrário.

— Talvez você queira me contar algum dos seus depois disso.

Um silêncio pesado se instaurou no ambiente, e Jensen ainda segurava a mão do outro, acariciando sem perceber, quando se sentiu subitamente tomado pela cintura. O corpo maior colou-se ao seu, logo suas costas estavam contra a parede. Jared não mais tina o toque de Jensen em sua mão, porque precisara da mesma livre para segurar os fios curtos da nuca do outro. Corações disparados, Jensen gemeu, rouco, fechando os olhos quando o outro se moveu com força contra ele. Agora tinha certeza. Sentiu a respiração do outro contra seu rosto, descompassada, errática. Suas mãos findaram nos ombros largos, desnudos, descendo pelo tórax, sentindo os músculos firmes, definidos, e a textura macia da pele. Sabia-se ofegante também. Toda a sua pele estava arrepiada contra a dele, e quando atreveu-se a abrir os olhos, pôde vê-lo tão de perto.

— D-desculpe, e-eu...

E então ele se afastou, arfando, correndo, literalmente, porão afora, se mandando dali feito poeira no vento. Sua mente acabara de se tornar uma bagunça ainda maior.

— Droga Jared!

Gritou, antes de escorar-se novamente à parede e escorrer por ela até o chão, acabando por permanecer assentado ali se acalmando por quase que uma eternidade.

XXX

Havia saído correndo, mesmo, deixando Tom, Mike, e todo o resto do time encabulados. Sentia o coração disparado, apertado, sentia um calor indescritível corroendo seu corpo por dentro e uma vontade monstruosa de gritar. Como pudera? Como? Agora tinha certeza que estava louco, ou que haviam lhe jogado alguma praga, porque estava muito ferrado, muito mesmo. Nem queria pensar no que aconteceria da próxima vez que o encontrasse. Nem pensar. Provavelmente tomaria uma boa surra sem a mínima vontade de se defender. Queria rir, chorar, queria voltar lá e transar com ele naquela parede, beijar aquela boca com força, morder aquele pescoço alvo, marcar como seu, enquanto tomava-lhe o corpo com força...

Praticamente gemeu quando chegou a seu quarto. Trancou-se, lembrando-se de que havia deixado por lá sua camisa, lembrando-se que não era muito bonito cruzar uma distância tão grande sem camisa num domingo de tarde... Por que diabos estava se importando com a maldita camisa? Havia prensado Jensen! Jensen! No porão, no meio do nada! Havia perdido a compostura tão rápido quanto perdia agora o resto de suas roupas e sapatos, indo em direção ao banheiro, abrindo o chuveiro. Adentrou o box, sentindo a água fria contra sua pele quente. Encostou a testa ao azulejo frio, mordendo a própria mão enquanto se apertava fortemente com a outra. Estava desesperado, sufocando, sentindo uma necessidade absurda do outro, como nunca sentira. Estava conseguindo ficar ainda pior do que já estava...

XXX

A semana começou estranha para ambos. Não se falavam nem mesmo para se insultar. Os corações disparavam à mera menção do nome do outro ou a mínima chance de se esbarrarem por um corredor ou vestiário qualquer. Durante os treinos se olhavam demais, mas claro, ninguém percebia. Aquilo era estranho, porque se sentiam numa espécie de vida dupla. Para todos, soavam como meros inimigos. Para eles mesmos, bem, era algo um tanto quanto diferente disso. Foi já no fim da mesma, que, na quinta feira, Jensen se encheu daquele jogo e resolveu tirar a camisa em campo de um modo tão provocante, que fez o mais novo ser praticamente atropelado por um dos colegas de time. Nem viu de quem se tratava. Só sentiu o baque e ouviu o técnico berrando "touchdown!"

— Defesa, Jared, defesa!

O técnico praticamente berrou. Há séculos não via uma falha tão absurda assim! O que estava acontecendo com os dois principais destaques do seu time? Por que diabos acabaram se transformando em duas baratas tontas? Precisava de uma solução. Precisava treiná-los mais. Na época em que começaram a se atracar, talvez rendessem melhor por causa dos castigos que se resumiam a treinos extensos, de alto rendimento. Observou Ackles "boiando" enquanto o outro se levantava, reclamando de ter sido atropelado por um armário.

Isso já ultrapassava o limite do absurdo!

— Jared, Jensen! Fora de campo. Vestiário já! Não quero bonecas no time!

Enquanto ambos seguiam para onde o treinador os havia mandado, corações disparados. Estavam nervosos não só com a situação, mas com a simples hipótese de ficarem a sós, principalmente Jared, depois de seu lapso com Jensen no porão.

Adentraram. O local parecia pequeno demais para os dois, sufocante. Jared sentira suas mãos tremerem. Começou a tirar os aparatos de jogo, findando de regata preta com a bermuda do time. Finalmente respirava um pouco melhor. O outro parecia compenetrado demais em esconder sua cabeça no armário para parecer ocupado. O treinador adentrou o vestiário. Pela cara, levariam uma bela bronca pelo péssimo rendimento.

XXX

Quando saíram de campo já passava das dez. Haviam treinado tanto, em um ritmo tão absurdo, que estavam pensando seriamente em pedir a Jeffrey uns dias de folga. Claro, nenhum deles o faria, levando em consideração que o homem entenderia isso como um claro insulto. Jared saiu do chuveiro do vestiário. Sentia-se morto. Não estava nem ligando pro fato de estar dividindo o mesmo teto com Jensen vestindo apenas uma boxer branca. Estava exausto demais para se importar. O outro ainda se banhava. O cheiro do shampoo tomara todo o ambiente. Enquanto vestia seus jeans batidos, Jared ouviu a água cessar. Seu coração acelerou. Colocou apenas uma regata branca e calçou as meias e tênis em tempo recorde. Quando terminara de colocar o perfume, o outro surgira no corredor estreito de armários.

Ficou tonto, apoiou-se no metal gelado, fingindo procurar por algo. Talvez toda aquela adrenalina o estivesse fazendo passar mal.

— Você está bem?

Sentiu uma mão gelada em seu ombro. O outro estava rouco. Não conseguiu mentir. Levantou o rosto e sorriu de canto.

— Acho que não.

Estava pálido. Teve vontade de gargalhar. Não poderia ficar pior. Tentou andar e titubeou, enroscando-se nos próprios pés, sendo segurado pelo outro, quem tinha apenas uma toalha enrolada ao redor da cintura.

— Aguenta aí, cowboy! — o segurou com certa força, levando-o até um dos bancos e arranjando uma garrafa de água gelada em poucos instantes — Beba um pouco, vamos...

No momento em que segurou a mão do mais novo e que os olhos esverdeados do mesmo cruzaram-se com os seus, soube: cuidar dele significava mais, bem mais do que imaginara um dia.

Pouco tempo depois, deixaram o vestiário. Finalmente estavam conversando, o que tornava tudo um pouco menos pior. Sim, porque melhor, definitivamente não estava.

Jensen vestia uma regata cinza-chumbo, jeans escuros, rasgados, da mesma cor dos tênis. Carregava sua mochila num ombro só, assim como Jared. Mesmo que dentre a friagem da noite, não usavam casacos. Sentiam-se no mesmo nível de estranheza ao comentarem do calor que estavam sentindo. Talvez Jeffrey tivesse pegado pesado mesmo com o treino.

— Tem se lembrado de comer?

Perguntou o mais velho dentre o assunto. Não poderia mentir para ele. Estar com o mesmo na cabeça todo santo dia, desde domingo, surtado, quente, perseguindo Tom em todos os momentos livres para fazer com ele o que não podia fazer com Jensen, bem, não o havia deixado com muito tempo de sobra para comer.

— Não. Estou com os hábitos um pouco bagunçados ultimamente.

Sorriu, olhando para baixo. Não queria deixar assim tão óbvio que ele havia sido o motivo de seu despropósito luxurioso que lhe drenara suas noções básicas de sobrevivência.

— Certo... Vamos por aqui.

O puxou pelo braço para um caminho diferente do qual estavam seguindo. As luzes fracas iluminavam em uma aura amarela as árvores grandes que se estendiam por todo o percurso da rua.

— Hey, mas... A gente estava indo para o outro lado!

— Não vamos mais. Só depois que você comer.

Jared riu. Não poderia escapar, fato.


Continua...